A Mente não Mente


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7. Lembranças de Morrer

14.11.15

Não enxergo direito, mas vejo Marceline sangrando no chão do quarto de Beca. O homem que antes estava aqui simplesmente desapareceu.

- Me desculpe, Marceline... Eu não queria... - Estou chorando sobre seu corpo estranhamente frio. Ela não deveria estar assim.

A mão de Beca toca meu ombro e sinto algo acariciar meu tornozelo. Olho de relance e vejo a mão da Marceline me acariciando. "Seu bobão", a voz dela ecoa na minha mente.

- Marcela...? - Seus lábios formam um sorriso.

"Você lembrou, Dan", ela continua na minha mente. "Obrigada... Eu senti sua falta".

- Eu achei que você tivesse morrido há muito tempo. - Sussurro para Beca não me achar louco. "E eu morri", ela responde, sem mais forças. - Eu também senti sua falta, Marcela. - Beijo seu rosto e me levanto.

- O que vamos fazer com ela? - Beca pergunta. - A gente pode inventar que ela era uma ladra e que vinha roubar minha casa quando eu não estava aqui...

- Chega, Rebeca. - Eu a silencio com uma forte pisada no chão de madeira. O barulho a assusta. - Ela não vai pagar de vilã aqui. Eu vou. Eu quem atirei nela. Quem sabe eles me dão um desconto pelo olho retalhado?

Ela está assustada. Os lábios da Marcela estão vermelhos, seu cabelo parece preto, é como no dia em que velei seu corpo a primeira vez.

- Marceline merece ser honrada, ela valia a pena. Eu sou só um professor inútil para o estado. Vamos, pegue o telefone, eu ligarei para a polícia. - Beca hesita, mas logo busca por algum telefone.

Olho no espelho. "O que foi que eu fiz?", me pergunto. Muitas coisas que eu não via estão por todo lado, mas algo chama a minha atenção. Um cara está tocando um baixo vermelho. Ele está irritado e me encarando.

- Perdeu alguma coisa na minha cara? - Ele me pergunta. Nenhuma miragem antes tinha conversado comigo. Isso é loucura (?) - Estou falando com você mesmo, bichinha.

É ele. O cara que me ameaçou no meu sonho. O teste Dela.

- Você viu o que fez? Você matou a minha irmã. - Ele erra uma nota da música que estava tocando. - Você sabe no que isso resultará. - Ele desaparece.

Ouço no meu ouvido esquerdo: "Cuide da sua namoradinha". Beca grita no instante seguinte. Tento correr para ajudá-la, mas meus olhos não permitem. Esbarro em diversas coisas, incluindo o único telefone da casa. Procuro por ela em todo cômodo, gritando por seu nome. Nada. Ela se foi. Volto para o quarto, decepcionado e Marcela não está mais ali. A poça de sangue agora mostra uma frase. "Ela levou sua visão para o Inferno". O revólver que tinha no meu bolso agora está apontado para mim, magicamente. Lembro-me de que não estou sozinho nesse mundo. No meu ouvido direito ouço as doces palavras do meu pai: "Concentre-se e sempre conseguirá tornar-se melhor do que antes". Foco-me nas palavras em sangue no chão. Elas estão se movendo, como tudo o que olho. As letras se embaralham rápido demais para eu acompanhar.

- O primeiro teste está completo. - Leio em voz alta as novas palavras. - DO QUE VOCÊS ESTÃO FALANDO? - Sinto-me um louco.

Não quero mais essa vida louca. Quero ficar com a minha mãe. Procuro pelo telefone que Rebeca deixou cair. Está ligado.

- Alô? - Pergunto sem esperar respostas da outra linha.

- Daniel! - É a voz da Marcela. Como? - Por favor, não pergunte nada, apenas me escute.

- Certo...

- Você precisa morrer. Suicídio é a solução. - Ouço uma porta batendo do outro lado da ligação. - Rápido. Ela me encontrou. Morra, e assim você poderá nos encontrar. Por favor... Faça isso no seu apartamento.

- Mas... - Quando tento contestar, ela desliga. - por quê? - continuo, sem esperanças.

Não tenho a menor vontade de viver mesmo, depois de tudo isso. Parece-me uma boa opção. Arrumo minhas coisas, coloco um tapa-olho que encontrei junto ao quadro que Beca tinha feito pra mim e fujo para meu apartamento de ônibus.

Giro a chave na fechadura e já estava aberta. A maçaneta desce sozinha.

- Daniel... Por onde andou? - É minha mãe.

- O que você faz aqui? - Pergunto entrando no apartamento.

- Vim pra cá assim que Isabela ligou.

- Quem?

- Sua namorada.

- O nome dela é... - "Não diga"

- Eu sei. Isabela. Agora vamos, tire essa fantasia de pirata, seu aniversário já passou, quero ver seus olhos. - Ela tenta retirar o tapa-olho, mas desvio de todas as tentativas.

- Não, me deixa em paz. Sai do meu apartamento, você não foi convidada. - Deixo o quadro no meu quarto.

- Não fale assim com a sua mãe!

- Dá licença? Você nunca agiu como a minha mãe... - O que ela diz é mentira. "Não fale assim comigo". - Sempre foi apenas uma desconhecida em casa! - Tento encurralá-la.

- Ora, seu pestinha. Isabela não me contou que você se tornou tão agressivo assim. - Olhando bem, ela parece uma daquelas pessoas que me encaravam no acidente de ônibus.

Saco o revólver e atiro no pé dela.

- Por que você fez isso? - Ela desviou. - Você está louco, Daniel?

Atiro novamente, mas próximo de sua barriga. Ela abre um buraco para a bala passar reto. Um abajur se estoura.

- Você não queria ter visto isso, queria? - Ela estica suas mãos e me pega pelo pescoço. Aquela cópia da minha mãe se torna uma mulher estranha, escamosa. Sinto como se estivesse sendo estrangulado por uma cobra. - Essa sou eu. Gostou, Daniel?

Por mais que minha visão estivesse ficando embaçado, ainda tenho forças para atirar na minha cabeça.

- Não! Seu babaca! - Ela grita soltando meu corpo no chão.

O tapa-olho cai. Não consigo ver nada direito, tudo está estranho.

- Você passou no teste um... - A pela dela começa a apodrecer. - Eu era sua mãe, Daniel. Agora você nunca mais a terá. Obrigado por me beijar, babaca.

Não me lembro de beijo algum, mas a poeira que ela se tornou parece ser bem real. Viro-me para o outro lado e vejo Marcela sentada numa cadeira, amordaçada. Uma mulher ruiva está torturando sua mente, eu posso ouvir. Ela dispara gritos de angústia na mente de Marcela. A mulher olha para mim. Sua face está coberta por um véu negro.

- Você está aí! - Ela diz, feliz. - Quase aí na verdade. A outra metade ainda está se decompondo. Você escolheu o caminho mais demorado, sabia? - Ela ri.

- Eu só quero a minha namorada de volta... - Estou fraco.

- Qual delas? Marcela ou Rebeca? Por que apenas uma poderá voltar pra você, a outra estará condenada a ser minha escrava sexual pela eternidade. - Ninfomaníaca, penso. - Que ousadia! Acho que você quer morrer mais uma vez, não é? - Ela aponta seu dedo indicador para mim e só consigo ver um tiro vermelho sendo disparado. - Morra bem, meu querido, sua Mamãe te espera.

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