A Mente não Mente


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8. Irmão Esquecido

15.11.15 e 16.11.15

Pregos prendem minhas mãos. Estou numa cruz. Não consigo me mover, não vejo nada. Solto um grunhido numa das tentativas de escape.

- Tem alguém aí? - Uma voz distante pergunta. Parece-me familiar, mas não tenho certeza. Devo responder? - Por favor... Se estiver aí, me responda... - A voz soa triste.

- Olá. - Grito.

- Graças a Deus! Estou aqui há tanto tempo que senti saudades de ouvir vozes.

- Eu acabei de acordar...

- Primeiro dia?

- Acho que sim. - Tento sair de novo. - Onde estamos?

- No inferno. Desista de tentar se soltar, é impossível. Mesmo se você conseguir, terá que passar o rio de lava que nos cerca e Cerberus, o cão infernal. Outros amigos meus já tentaram antes... - Ouço o nome deles, parecem familiares. - Tem ideia do por que está aqui?

- Nenhuma... Eu tinha acabado de chegar ao aeroporto do Rio de Janeiro, fui ao banheiro e lembro-me do chão se abrindo.

- Você provavelmente é um refém.

- Refém? O inferno faz reféns?

- De vez em quando... As dicas sobre o motivo estão a sua volta, é só procurar.

- Mas está muito escuro e eu estou pregado numa cruz.

- Cruz! Está aí sua primeira dica! Você se lembra do seu nome?

Meu nome...?

- Não...

- Deve ter alguma ligação com cruzes. - Alguma porta se abre. - Fique quieto! - Ele me alerta.

- Ora ora... Parece que meus dois brinquedinhos já fizeram amizade. - É uma mulher falando. Ela se aproxima de mim, mas não consigo ver sua face, um véu a cobre. - Não me analise, por favor. É perda de tempo.

- Analisar?

Ela dá um tapa na minha cara.

- Não se deve falar com uma dama. Mas sim. Analisar. Você ainda não acordou totalmente, descanse, meu pupilo. - Ela beija a minha testa e aperta os pregos em minhas mãos. - Sofra. - Ela vai para o outro lado da sala, talvez onde o outro cara esteja.

Nada aqui faz sentido. A dor, o calor. O inferno não existe... Existe? Por que estava no aeroporto? Arte. Irmã? A porta batendo novamente faz com que eu desista de tentar lembrar. "Imagine", ouço no meu ouvido esquerdo, mas eu não quero. "Por mim", ela continua.

Olho para os lados, mas não vejo uma referência. Arrisco mesmo assim. Fecho meus olhos e imagino meu jogo de xadrez na minha frente. Um tabuleiro de cristal, com peças de mármore que eu mesmo esculpi. As peças se movem e sobram as duas rainhas, todos os peões pretos e nada mais do lado branco. "Faça", ela me diz. O jogo continua e a rainha branca cai. No mesmo instante acordo.

- Isso não pode acontecer. - Digo bem baixo. - Quando o Rei morre o jogo acaba.

"Não aqui", ela me diz. "As rainhas estão guerreando, somos seus peões, Simon".

- Esse é meu nome? Simon?

"É. E você precisa continuar usando o que você tem para escapar daqui. Essa rainha não pode ter a clarividência em mãos, você sabe que ninguém deve", sua voz está trêmula, "Eu preciso ir, Simon, me desculpe".

- Espere! - Falo um pouco mais alto do que deveria. - Qual é meu nome completo? Eu quero saber qual a ligação com essa cruz...

"Kreuz. Seu nome é Simon Kreuz", sua voz desaparece no meio do som da lava se estourando.

- Está tudo bem, colega? - O cara do outro lado pergunta.

- Sim, está! - Falo um pouco empolgado.

- Pra que tudo isso? Nós vamos ficar aqui pra sempre...

- É que talvez eu tenha me recordado do meu nome.

- E qual'é, amigo?

- Simon. Simon Kreuz.

Meu nome pareceu um tiro. Ele ficou quieto e meu nome ecoou até ficar mais baixo que o som de pessoas gritando.

- O que foi? - Pergunto.

- Nada... É só que alguém com esse mesmo sobrenome passou por aqui antes. - Minha irmã, penso eu.

- Qual era o nome dela?

- Não me lembro... Faz tanto tempo... - Sua voz parece triste. - Ela se jogou na lava. Ela disse que a morte era a solução para tudo, que apenas a dor e o sofrimento poderiam nos salvar e pulou. Ela disse que recebeu essa mensagem de uma amiga dela.

Uma amiga? Não sei se conheço ou me lembro de alguém. Minha mente está clareando, mais informações estão chegando numa maré. Sinto minhas mãos livres por um segundo e bato uma mão contra a outra no além da minha imaginação. Algo ainda está faltando se encaixar, eu posso sentir.

“Marshall”, uma voz me dá a resposta que preciso.

- Você por acaso conhece algum Marshall? – Pergunto ao meu amigo.

- Claro que conheço... Ele é o Diabo. Vem aqui nos importunar, cutucar nossas feridas com seu tridente e devora nossa carne podre. Ele é o pior daqui, depois, claro, da Mamãe, que você conheceu agora pouco.

- Ele veio aqui hoje?

- Veio devorar a carne podre de alguém, ele disse. Mesmo eu não sabendo de ninguém.

Procuro mordidas por todo o meu corpo.

- Eu não tenho mais meus pés... – Comento. – Ele veio por mim.

Há um minuto de silêncio. Eu estou chorando, lembro-me de ter pés antes disso tudo. A abertura da porta quebra o momento.

- Mas vejam só! Parece que meu cachorrinho já percebeu que não vai sair daqui tão cedo mesmo tendo o dom da clarividência, não é, Simon? – Um cara está surgindo das sombras, arriscaria dizer que é Marshall.

- Eu vou sair daqui, uma hora ou outra, Marshall... – Ele mete outro prego em minhas mãos. Grito.

- Cale essa boca de merda. Ninguém aqui quer saber de você assim. Como vai ser, então? Existem vários caminhos até o seu destino final, Vidente. Apenas um deles te salvará, acredita? Mamãe é muito esperta.

- Por que eu? Existem muitos clarividentes por todo o mundo! – Digo enquanto lágrimas escorrem de meus olhos. Sei qual é o caminho certo.

- Ora, Simon... Não chore, por favor... Assim você torna as coisas mais difíceis entre nós... – Ele dá um sorriso maligno. – Você é exatamente o que precisamos, amigo. Um clarividente de verdade que foi moldado pelas mãos da Rainha dos céus, não pelas mãos da Mamãe. – Deixo de ouvir seu discurso podre para me concentrar na voz que me manda morrer.

- Adeus, Marshall. – Ele parece não compreender o uso dessas palavras. – Morra bem, seu diabo. – Ele tenta entrar na minha mente para impedir o que vou fazer, mas não é possível. Consigo cortar todas as informações novas que deveriam chegar a todo segundo e finalmente dou crio uma falha no meu cérebro. Estou morto. Pode me esperar, irmãzinha, já estou indo.

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