A Mente não Mente


0Likes
0Comentários
2150Views
AA

10. Eu só queria a tua rosa escarlate - I

19.11.15

Hoje eu deveria trazer meus alunos aqui no laboratório. O que está acontecendo comigo? Eu sempre adorei trazê-los aqui e incentivá-los às mais malucas coisas. Agora, tudo o que eu quero é tirar o véu que cobre todo o rosto de Marcela que está, mesmo num glorioso vestido negro, sentada numa das cadeiras mundanas do laboratório. Aproximo-me da majestade que está diante de mim. Ela arranca sua grinalda. Vejo melhor seu batom vermelho, sua tez branca e seus olhos cor de vinho. Ela sorri no instante em que Marshall desaparece da sala para nos deixar a sós. Ela se levanta e posso ver melhor aquele vestido preto. Não era possível distinguir onde acabava o vestido e começava o linóleo negro, apenas uma rosa escarlate na altura da cintura contrastava com tudo aquilo. Luvas quase alcançam seus ombros. Está quente aqui, não é? Acabo falando alto demais.

- Está um pouco sim, mas Mamãe me obrigou a usar tudo isso para vir vê-lo. Ela diz que seu novo brinquedo não pode ser visto com roupas toscas. - Ela parece ofendida com isso.

- Por que você me chamou aqui? - Pergunto, ainda babando.

- Eu sempre soube que isso iria acontecer. Eu não observo apenas você, Dan. Eu precisava te dar alguma coisa que te ajudasse, no fim das contas. - Ela materializa uma caixinha preta em suas mãos.

- O que é?

- Curioso... Sempre foi... - Ela me esnoba e abre a caixa. Uma pedra roxa brilhante me chama a atenção. - Isso é chamado de "O Olho de Hades", uma joia que protege aquele que a possuir da morte.

- Eu terei que usar isso?

- Você quem sabe, Daniel. Pode escolher usar isso ou entregar àquela pessoa que mais precisa. A escolha é sua. - Uma badalada marca o final de mais um período. - Eu preciso ir, Dan. Boa sorte. Nos vemos no Inferno, qualquer coisa. - Ela me entrega a caixa de veludo preta e desaparece quando pisco. O vento bate forte no meu rosto e Marshall surge atrás de mim.

- É "O Olho de Hades"? Como ela conseguiu?! Achei que só existissem três desses e a Mamãe possuísse todos!

- Agora eu tenho um.

- E você vai usar, bichinha?

- Achei que já tivéssemos passado dessa fase de bichinha, Marcel.

Ele recua. Coloco o colar no pescoço e ele vira uma mera corrente.

- Não sabia que ele fazia isso. - Marshall comenta, impressionado.

- Agora Mamãe não pode me machucar.

- Vai nessa, amigo. - Ele estala os dedos e voltamos para a minha casa.

- Por que voltamos pra cá?

- Como você pretende evitar a guerra? - Ele fala sério.

- Achei que você quisesse isso. Que estivesse do lado da Mamãe.

- Eu quero paz, não ficar preso pela eternidade no Inferno sendo só o que dá orgasmo pra Ela. - Agora seu tom de voz aumentou. Ele tenta se acalmar. - O que você vai fazer pra acabar com isso?

- Não sei... O que eu posso fazer? Eu sou só uma pessoa que sempre sabe a verdade, nada muito importante.

- Você já parou pra pensar de onde vêm os poderes das Crianças? - Balanço a cabeça em sinal de negação. - Somos os depósitos da magia de Merlin. Quando ele morreu, todas as suas habilidades foram fragmentadas e concebidas a famílias específicas. Apenas alguns da linhagem evoluiriam o poder, os outros o deixariam adormecido. Você é importante, Daniel. Você agora tem o "Olho" e resquícios da magia de Merlin e sabe que a Mamãe não deve ter todos.

- Ou o quê?

- Ou ela terá forças o suficiente para controlar o Reino dos céus também.

- Eu tenho que sobreviver! Não há nada que eu possa fazer para deter a Mamãe! - A conversa já estava me irritando.

- Você é uma bichinha mesmo. Não sei como a Rebeca ficava com você e não com a Marceline. - As palavras me atingem fundo. Olho para o lado e vejo algo bom para arremessar: um caco de vidro do abajur que explodiu ainda está lá. Logo vem a verdade "Isso! Enfureça-se!"

- Por que você me quer bravo?

- Seu poder está voltando, não é?

- Acho que sim...

- Merlin era um ser humano quase comum. Seus sentimentos afetavam suas magias. Os cinco principais podem alterar bastante coisa, amigo. - Ele se refere principalmente à raiva, ao medo e à tristeza, eu ouço. - Podemos tentar visitar o Reino dos céus, o que acha?

- O que tem por lá? Como vamos pra lá?

- Ora... Você não é católico? - Não digo nada. - ANJOS! Você, com esse amuleto, é como se estivesse vivo. Você tem um anjo da guarda e seu olho retalhado pode vê-lo, se realmente acreditar.

Concentro-me nas palavras dele. Quem diria? Anjos! Imagino um ser alado e com uma aureola e ele parece se formar conforme crio suas características.

- Olá. - Ele diz.

- Oi... Você é meu protetor? - Pergunto, ainda desconcertado.

- Só aqueles lá em cima são. Estou aqui para guiá-lo, amigo. - A imagem perfeita morre. Ele não tem asas com plumas e muito menos veste branco. Ao menos sua aureola permanece até ele abrir a boca: - Sabe que nós não somos assim, não é? Somos como vocês, totalmente normais, só que possuímos alguns truques na manga.

"Certo... Cara estranho", me contenho para dizer em voz alta.

- Saber o que você pensa é um deles. A propósito, sou Lucas. Posso guiá-lo até o Reino dos céus, mas seu amigo não pode vir. - Marshall está invisível. - Ele não é bem vindo lá. - Imploro mentalmente. - Se você parar de me insultar... Posso levá-lo. Podemos contê-lo lá em cima, se ele quiser alguma coisa. - Ele levanta quatro dedos e uma luz nos cerca. Sinto-me sendo abduzido. Estamos subindo e pétalas escarlate caem na mesma velocidade. Resgato uma e ela explode como uma bolha de sabão.

- É uma mera ilusão. Você vê uma coisa, seu amigo outra. Isso que cai representa o que você queria ter em mãos, mas não tem. Eu vejo plumas de asas. Eu queria ter asas como os anjos dos filmes do seu plano, Daniel. - Ele ri. - Estamos chegando. - Posso perceber pela luz mais clara no infinito.

Join MovellasFind out what all the buzz is about. Join now to start sharing your creativity and passion
Loading ...