A Mente não Mente


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19. Eu amei você... - III

05.12.15

Há tanta merda no mundo.

Tanta merda por todo lado.

Guerras aqui por motivos quaisquer.

Assassinatos ali por dinheiro.

Estupros por todo lado.

Já é uma coisa normal. Ser abusado.

Ninguém mais se impressiona quando se diz que tal pessoa foi violentada sexualmente. Alguns até apoiam o estuprador!

"Ela estava pedindo mesmo com essa roupa curta!"

"Acha que ela rebola na rua pra quê?"

"Ela deveria agradecer. É feia demais pra algum cara querer ela."

É. Tem muita merda no mundo.

Eu só queria te proteger dela. Proteger-te de tudo isso, meu pequeno... Livrar-te de todo o mal que há nesse mundo; ser como Deus. Mas só ele deve conceber e retirar a vida. Não nós, seus filhos. Eu sinto muito. Muito mesmo, meu garotinho. Você teria uma vida maravilhosa. Provavelmente me daria netos. Crianças tão especiais quanto você. Pensei até num nome pra você. É, garotinho da mamãe, você teria um nome! Se tudo desse certo - e eu queria que tudo tivesse dado certo - seria:

 

06.12.15

Por que é que eu estou sozinho? Por que é que eu vejo uma luz? Perguntas me restam. Não dá pra entender. Sinto que meu tempo está acabando e tudo foi tão... Efêmero. Minha vida foi sem importância, irrelevante para a história do tempo. O que eu fiz? Qual foi a minha marca? Ser um grande idiota por acreditar que eu ouvia a verdade por trás das mentiras quando na verdade era apenas a minha insanidade? E se isso for a vida? E se a vida é estar acorrentado a um poste diante de uma luz num extenso vazio e tudo o que vivemos é apenas nossa imaginação nos enganando?

"Pare"

Quando chego nesse ponto, algo sempre me impede de continuar. O que acontece se eu continuar? O universo explode? Gostaria de tentar isso alguma vez, mas acho que não será nessa vida. Recordo-me de telefones que decorava quando menor. Das cartas de amor que escrevi às diversas garotinhas por quem me apaixonei. De e-mails que trocava com meus colegas. E só então percebo: isso nunca aconteceu. Era um segredo que o Tempo queria guardar de mim, mas eu descobri. Eu não vivi. E nem vivo. Não sei onde estou. Gostaria de saber de onde surgiram tantos rostos, tantas vozes se eu nunca vivi. O que é essa fantasia, doutor?

 

07.12.15

Daniel. Você se chamaria Daniel, meu pequeno.

Não me canso de acariciar você por cima de toda essa pele. Sempre imagino as coisas mais belas que você diria se soubesse de toda merda que está por trás deste pecado, meu bebê...

 

 

Não deveria te chamar assim.

 

 

O telefone do médico está na minha cabeça. Disco sem nem olhar para os números do meu celular, porque sei que eu desistiria. Já foram tantas ligações, tantas desistências e perguntas... Mas eu preciso fazer isso.

- Alô?

- Olá doutor. É Fiona Rabelo mais uma vez. Desculpe-me incomodá-lo, mas podemos marcar para hoje mesmo se o senhor estiver livre?

- Estou um pouco ocupado...

- Por favor. – Não o deixo se desculpar. – Eu preciso muito disso, doutor. Minha mãe está desconfiada e você é minha última esperança.

- Anda tomando as medicações?

- Claro! Como o senhor pediu.

- Esteja aqui às 17h, vamos fazer isso duma vez.

- Sim, doutor. Obrigada.

Eu finalmente consegui, meu pequeno. Seremos livres. Eu poderei sair com as minhas amigas e com ele normalmente. Sem mais perguntas. Sem mais stress. Ninguém nunca terá descoberto alguma coisa sobre você e... O que é isso? Você está se mexendo? O que você está fazendo aí dentro? Isso machuca... Isso escorrendo pela minha perna é sangue? Você está bem, Daniel? Por favor, não faça nada de estúpido.

- Você quem deveria ter pensado nisso antes, Fiona. – Uma voz entra no quarto. Aparentemente falei em voz alta meu último pensamento.

- Do que você está falando, mamãe? É só um corte...

- Eu sei o que é isso. Já abortei muitas vezes, minha querida. Eu não posso ter filhos. - Ela me ajuda a levantar. - Você é adotada, Fiona. Não sei como não suspeitou antes. Eu sou negra e você branca como areia.

- Pensei que meu pai fosse como eu. – Estou brava, mas deixo ela me guiar até o carro.

- Talvez seja. Não o conheci... Seria possível eu ter conhecido ao menos o pai da criança que você carrega?

- Não vamos falar disso, por favor...

- É agora ou nunca. Pode ser que daqui alguns segundos não haja mais criança para se conversar sobre. Diga-me logo. Vamos. Eu sou sua mãe, legalmente.

- Desde quando você sabe? – Já saímos com o carro e estamos a caminho do hospital.

- Desde o início. Enjoo, mudança de temperamento, comendo mais e mais. Eu conheço bem essas coisas, garota.

- Eu não sei quem é o pai. – Minha voz está falhando. Eu estou chorando. – Ele estava mascarado. Um cara me abordou na rua e me ameaçou com uma arma. Ele me obrigou a entrar num beco onde ele fez isso comigo... – É mentira.

- Oh, Deus. Não minta pra mim, garota. Você conhecia sim o homem que fez isso, piranha! – Ela consegue me atingir.

- Quer saber? Eu não me importo com o que você pensa. Se você acredita ou não. Foda-se você, mamãe. Você já mentiu muito pra mim dizendo que era minha mãe de verdade e a idiota aqui acreditou. Sabe-se lá quais mais segredos você esconde de mim. Agora pare esse carro. Eu não me importo mais com esse sangramento. Se eu puder morrer com ele, melhor ainda.

- Não seja assim Fiona. Eu só quero que o homem que fez isso com você seja punido. Você quase arriscou sua vida pra esconder o que ele te fez. Não me importa se ele era seu professor, seu amigo, seu tio ou seu dentista. Eu só quero que esse cara vá preso pelo que fez e você possa dormir segura!

- Pare esse carro, Inês. Agora. - Ela freia bruscamente. O sangue não para de escorrer pelas minhas pernas, mas mesmo assim desço do carro bato a porta e chuta a lataria. - Vá se foder, sua puta! - Ela vai embora.

Ter quatorze anos e estar grávida não é fácil. Não deve ser fácil em nenhuma idade, mas eu fui vítima de estupro. E eu não pedi por isso. Nunca usei roupa curta e nem agradeço ao animal que me fez isso. Só quero que ele morra.

Agora estou sozinha e sangrando na rua. Poderia ser pior? Parece que o Diabo me ouve e envia uma tempestade para me alegrar. Trovoadas e muita água. Que delícia. Estou chorando já. Saber que eu era adotada já não era ruim o bastante? Um raio na minha cabeça e responde que não.

Acordo deitada na maca. Minha visão está embaçada. Sinto cheiro de álcool. Olho para os lados e enfermeiros seguram os meus braços. Minhas pernas estão abertas. É o médico fazendo o meu aborto que há tanto tempo eu almejava.

- Eu morri com um raio na cabeça. - Acabo por soltar.

- Você estava sonhando. É um efeito colateral da droga que lhe demos. - O médico explica. - Não se preocupe. Tudo vai dar certo.

Balanço a cabeça e noto que estou bem alterada. Vejo olhos onde deveria haver uma boca. Narizes onde deveria haver orelhas. Estou bem dopada. Os enfermeiros cochicham alguma coisa com o médico pelos olhos. Que troço estranho. O doutor toca meu ombro e me chama:

- Fiona! Fiona! Temos algumas complicações aqui. Você tomou os remédios certinho?

- Não. Eu não gostei deles e aí joguei fora.

- Então sinto lhe dizer, mas você vai morrer...

 

Acordo mais uma vez. Agora estou na minha cama sozinha. Não há ninguém em casa. São 3h, mamãe chegará do trabalho em alguns minutos. Arrasto-me por toda a casa, sem nada pra fazer. Pensando sobre o que ainda me lembro sobre os sonhos. Eu poderia ser adotada? Eu poderia morrer com o aborto? Toco a minha barriga mais uma vez. Meu pequeno ainda está lá. Ainda estamos bem. Pego meu celular para ver as mensagens e há uma mensagem de Tiago, meu namorado.

"Vai contar à polícia? Eu te dou tudo o que você quiser pra ficar em silêncio sobre o que eu fiz. Ao menos aborte essa criança, sua tonta. Assim nem você nem ela terão que sofrer pelo mau pai que têm.”

- Deveria pelo menos ter usado camisinha, seu idiota. – Digo enquanto devoro morangos com açúcar e leio as mensagens.

"Filha, eu sei de tudo. Não precisa mais esconder, mas, por favor, não faça nada estúpido. Conversamos no carro. Chegarei às 5h hoje, me desculpe."

- Você não sabe de nada. Só quer que eu me entregue.

Mentir e xingar a minha mãe nos sonhos foi fácil. Quero me ver conseguir fazer isso com a verdadeira. Dizer a ela que fui estuprada quando na verdade o filho é do meu namorado de dezessete anos que está indo pra faculdade. Seria mais fácil convencê-la do aborto assim, mas não acho que conseguiria mentir na cara dela se eu começar a contar da existência do Tiago.

"Amiga, nos filmes as garotas fazem aquilo com um cabide mesmo. Dá um jeito de limpar bem e tenta. Tem muito mais chances da sua mãe descobrir se você for num médico."

É uma mensagem da Eva, minha melhor amiga. Eu contei só pra ela.

- Não obrigada. Prefiro que minha mãe descubra depois a tentar com um cabide. – Algumas vezes as ideias dela são sem sentido. Ela não quer fazer faculdade. Diz que vai morar na França e ser uma cantora famosa.

Não há mais nenhuma. Acho que não posso fazer nada. Eu não gosto de mim mesma por ter engravidado. Não gosto do Tiago por não querer assumir o Daniel e querer que eu aborte. Não gosto da minha suposta mãe por ter mentido pra mim por todos esses anos. Eu entenderia. Por que eu vivo? Isso aqui não é vida.

Isso é uma lembrança.

É como se eu acordasse uma última vez. Estou numa maca novamente e muita gente está correndo pelo quarto do hospital. Minha visão turva deixa que eu veja apenas minha mãe chegando. Um barulho me atormenta. É o som da minha morte. Sem batimentos cardíacos. Consigo me lembrar do som de um disparo antes de aparecer aqui. Eu atirei em mim mesma. "Sem mais sofrimento", é o que eu me prometi. Entretanto, eu estava enganada. Sofro ao ver Inês chorando ao ver sua cria se esvaindo. Mas pelos menos posso morrer em paz sabendo que eu não escolhi matar o pequeno Daniel porque independente de tudo, meu bebê, eu amei você...

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