Na noite

Quase um ano antes da tragédia de "A vida que ninguém se importa", outra personagem trás a sua visão da história. Melhor amiga de Maria Helena e louca por Roy é como Agnes Costa pode ser descrita em poucas palavras. "Na noite tudo podemos", nunca se esqueça de suas palavras.

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1. Beijos

"Inspirada numa data...

Na noite voltamos a ser jovens, nos tornamos crianças em busca de esperanças mais uma vez. Bate sempre aquela saudades dessa idade que nunca mais vai voltar e que, em muitos casos, não foi aproveitada. Ainda tem aqueles que sofreram, que morreram, que mataram ainda jovens, que foram corrompidos pelo "mundo real", como os adultos gostam de chamar. Mas na noite nos esquecemos de tudo de ruim, ou nos lembramos de nossos piores pesadelos. O escuro, monstros debaixo da cama, fantasmas, a inocência da infância nunca deixou que percebêssemos que o que realmente mais nos traria medo seria crescer e ter de enfrentar o amanhã, mais um dia que terá se ser vivido com contas a pagar, com pessoas a conversar. Sempre me perguntava o porquê de eu ter de enfrentar o "mundo real", por que eu não poderia viver nas minha loucas fantasias eternamente? E era sempre com um tapa que meus pais respondiam. Mas na noite, meu caro amigo, na noite somos livres, sem idade, sem correntes que nos prendam ao "mundo real". Viveremos na eterna fantasia até o sol raiar e nossas responsabilidades caírem mais uma vez em nossas costas. Sejamos felizes, não importa o que aconteça.

Com amor,

Agnes Costa"

(Agnes Costa, blog "Na Noite". Especial Dia das Crianças)

Aperto o botão enviar. Minha pequena mensagem especial fora postada no blog “Na noite”, e agora eu me preparo para dormir. Minha cabeça recai sobre o travesseiro, mas o sono foge de meu alcance e pensamentos sobre o alguém em especial surgem. Mordo os lábios ao pensar em seu corpo. Por que não pode ser só meu? A noite pode ser uma criança, mas nessa noite eu queria ser uma adulta. Só quero sentir o toque de outra pessoa na minha pele.

Safada eu não sou, apenas tenho meus quinze anos e ainda não mordisquei nenhum lábio. Digo sempre em meu blog que tive uma vida difícil, apanhava de meus pais por ter ideias contrárias e desejar viver num mundo fantástico, mas eles não puderam me segurar no ensino médio. Pintei meu cabelo de verde e furei o lábio inferior, não era mais a menininha perfeita do papai. Comprei roupas novas com um cartão roubado do pai e agora tenho a atenção que sempre desejei. Posso demonstrar rebeldia, mas na verdade eu só desejo alguém para amar.

Teve uma festa no domingo em prol do feriado. A escola inteira estaria na chácara, inclusive minha maior paixão. Não foram os nãos de meus pais que me impediram de ir. Botei minha melhor roupa e fui sem olhar para trás.

Drogas, bebidas e tudo o que adolescentes “incompreendidos” pudessem querer. Por mais que eu fosse um deles, o medo ainda me consumia e cigarros eram o meu limite. Os pais de uma amiga me levaram ao recinto. Ela e eu somos inseparáveis, ela se chama Maria Helena. É mais nova, tem seus treze anos, mas também almeja pelo toque de um homem em específico. Íamos para todas as festas procurando nossos príncipes encantados que nunca apareciam, mas naquela festa um deles apareceu, era Roy Ninian, o meu príncipe. Tínhamos os mesmos gostos e dificuldades parecidas, mas ele amava outra.

Desde que o conheci observava a direção de seus olhares. Nunca eram pra mim. Ele nunca poderia ser meu, mas a sua mera existência bastava para que eu pudesse viver em paz. Admirar aqueles olhos verdes, aquela selva que tinha no queixo e, todas as noites, imaginar o que estaria por debaixo de suas roupas. Deslizar as mãos por todo o seu corpo, lambê-lo quem sabe, é tudo o que eu mais quero e delírio enquanto estou sozinha no quarto. Acredito que na noite tudo podemos. Ninguém pode nos impedir de amar, de nos comprometermos consigo mesmos ou de escrever nossas incertezas num blog qualquer. “Na noite” foi fundado com o intuito de abrir-me para o mundo sem que saibam minha real identidade, afinal, Agnes Costa não é um bom nome, não é?

Escondo-me sobre nomes quaisquer na internet para que ninguém saiba da minha vida obscura. Compartilho minhas incertezas em blogs, fóruns e no tumblr. Amores perdidos e incompreendidos, amizades eternas que se tornam efêmeras, tragédias e possíveis comédias. Há momentos em que tenho vontade de desistir de tudo isso, desistir da vida que me foi concebida, e cortes em meus pulsos estão lá para me lembrar desses momentos.

Acho que é aqui que voltamos ao começo. Após a festa e devorar Roy com os olhos estou inspirada para meu blog. Começo sempre com a minha fonte de inspiração e a seguir o texto. Pressiono enviar e vou me deitar lembrando-me dos lábios carnudos, das curvas que o corpo de Roy faz. Vou aos delírios e gemidos. Alguém bate na porta do quarto.

- Querida, está acordada ainda? – Minha mãe pergunta através da porta. Ela tenta girar a maçaneta, mas está trancada.

Não respondo. São 3h da manhã, seria recebida com umas boas palmadas se ela soubesse que ainda estou acordada.

- Vamos, abra esta porta. Sei que está acordada, ou pelo menos você derramou perfume no chão.

Esqueci-me do cheiro do perfume que passei para a festa. Abro a porta para a madame e ela entra no quarto me jogando no chão. Ela procura por todo canto algum tipo de droga, não sei, mas eu escondo muito bem meus cigarros.

- Vá dormir que amanhã você verá as consequências por ter saído. Boa noite, querida, te amo muito. – Ela sai do quarto e bate a porta. Mesmo longe posso escutar seus passos pesados dentro do apartamento.

Tranco a porta mais uma vez, acendo um cigarro e fico sentada próxima à janela. Observo as pessoas e os carros passarem lá embaixo. Moramos num apartamento perto de uma praça que na noite sempre surgem algumas mulheres da vida. Tenho meus binóculos para ver melhor o desempenho das trabalhadoras e quem sabe encontrar um bom garoto de programa.

Vejo com meus olhinhos alguém que tem olhos verdes. Vejo com meus olhinhos alguém com uma selva tão grande quanto a de Roy. Rio ao perceber quem é. O pai de Roy está contratando uma das garotas e pelos beijos, não parece ser a primeira vez. Contenho-me para que ninguém perceba que ainda estou acordada e só aí percebo onde estou me metendo. Já existiam alguns boatos na escola de que o senhor Ninian estaria traindo a esposa e agora eu sou testemunha. Droga. Jogo o cigarro lá fora e fecho a janela. Vou dormir tentando pensar no que fazer. Não obtenho respostas e o sono deita sobre minhas pálpebras.

 

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