Na noite

Quase um ano antes da tragédia de "A vida que ninguém se importa", outra personagem trás a sua visão da história. Melhor amiga de Maria Helena e louca por Roy é como Agnes Costa pode ser descrita em poucas palavras. "Na noite tudo podemos", nunca se esqueça de suas palavras.

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2. Árcade

"Inspirada numa Escola Literária...

Na noite podemos ser poetas, poetas sem rumo algum, guiados apenas por dogmas literários vindos de um nome qualquer. Alguns poetas são apaixonados pelo homem em conflito, alguns prezam pela realidade e exposição da natureza, gosto pela classe e ainda há aqueles que simplesmente fogem de seus afazeres. Nossos caminhos como exímios autores ainda está por ser traçado, precisamos seguir as normas de nossos tempos, dedicarmos nossas vidas às letras, mas hora ou outra a inspiração virá e uma obra sairá. Como poetas podemos ser músicos, escritores, políticos, professores; basta falar e escrever bem, convencendo o outro de que tudo é verdade. Vamos cortar o inútil de nossas vidas e procurar um rumo, ao menos guiados pela paixão pela vida.

Com amor,

Agnes Costa”

(Agnes Costa, blog “Na Noite”. Literatura)

Desde a última publicação para o dia das crianças os visitantes no blog aumentaram bastante. Começo a me sentir famosa, mas caio do trono ao me lembrar de que não uso meu nome verdadeiro. Sei que muita gente da escola lê e que pelo menos alguns podem suspeitar de que algum aluno escreva pelos deslizes que tenho – há muito tempo já falei da minha paixão por um garoto que chamei de boy, mas nunca achei que havia enganado alguém.

Maria Helena veio aqui em casa essa semana para conversar do garoto que ela gosta. É seu vizinho, ele é um ótimo escritor como ela vive dizendo. “Olhos azuis escuros como seu cabelo danificado por experimentos o tornam irresistível”, ela diz sempre que me visita.

- Nome?

- Incerto. Minha mãe o chame de Raimundo pelo pseudônimo que ele usa, “Raimundo Selva”, mas sabemos que esse não é o nome dele de verdade.

Dessa vez ela me trouxe um livro dele, “Perdições Adolescentes”, um dos melhores, ela diz. Mesmo sem ir para a escola ele sabe bastante sobre literatura. Mas acho que a melhor parte dessa visita foi saber que Roy estava se mudando para o prédio dela, iria morar no oitavo andar, apenas alguns poucos abaixo do seu. Que sonho.

- Quando ele se mudar você vai lá em casa falar com ele, né?

Não respondo. Apenas rio e dou mais algumas tragadas no meu cigarro. Estou sentada na beirada da janela com um chapéu, o sol está forte. Fico imaginando como seria tê-lo em meus braços, poder me divertir com ele em qualquer hora do dia.

- Responda! – Ela insiste

- Ok, ok... Acho que se ele se mudasse pro seu prédio eu iria te visitar mais vezes e quem sabe ficaria sentada na portaria só esperando ele passar.

Imagino suas próximas palavras: “Não duvido”, mas ela apenas dá uma tragada do meu cigarro.

Pensei que manter um segredo do nível que tenho seria mais fácil, mas me atormenta. Preciso contar pra alguém, mas tenho medo. Só quero fugir dos meus problemas, sem criar mais. Contar aos meus pais iria piorar as coisas, eles conversariam com a mãe dele. Maria Helena talvez contasse para seus pais, por trás dessas roupas curtas há uma garota assustada. Por que tem de ser tão difícil? Não resisto.

- Vi o pai do Roy com uma prostituta.

Ela estava experimentando alguns vestidos meus, mas parou.

- Como você sabia que era uma tia?

- Na praça. Roupa curta. Dinheiro. Algumas coisas denunciaram.

- E você vai contar pro Roy?

Silêncio. Dou uma forte baforada. Vejo a fumaça vermelha, como se o futuro da verdade fosse sangue.

- Não. Não podemos, imagine o que poderia acontecer se contássemos? Talvez fosse o fim do casamento deles ou, pior, o pai dele pode acabar matando alguém, sei lá. É melhor ficarmos quietas.

- Você tem certeza disso? Porque o Roy vive defendendo o pai, dizendo que ele não é de fazer essas coisas mesmo quando o cara já tentou com a mãe de uma garota. Talvez poderíamos salvá-lo de algumas zoações. Ele poderia gostar de você...

- Sei... Como se fosse tão fácil ele esquecer você e esse seu corpo de modelo. Vá se ferrar, ou engordar pelo menos, assim seria mais fácil para todas as outras.

- Se fosse fácil não seria tão legal conquista-los, né?

O assunto morreu ali. Começamos a falar sobre o tal de Raimundo de novo e como ela adorava imaginar o que aquela mente sombria escondia e faria com o corpo dela. Apenas mordidas ou lambidas, quem sabe tudo junto? Era nossa diversão. A noite caiu rápido e Maria Helena teve de ir embora. Fiquei só em casa, meus pais estavam fora. Minha mãe trabalha até tarde e meu pai foi jantar na casa de uns amigos. Ficarei sozinha até amanhã. A janela por essas horas me assusta, tenho medo do que posso acabar vendo do outro lado. Cigarros me acalmam enquanto tenho de estudar. Literatura, uma das minhas matérias prediletas, junto com Redação. Pretendo fazer Jornalismo se algum dia eu sair da faculdade por conta das outras matérias. Acho que seria uma boa blogger.

Recebo um beijo de boa noite às 2h de mamãe. “Eu te amo, filhinha”, ela diz antes de sair do quarto. Sinto-me segura perante o monstro que ando tendo pesadelos com: o senhor Ninian e o que ele pode fazer comigo caso alguém descubra o que ele anda fazendo à luz da lua.

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