A Vida que Ninguém se Importa

Demon é um garoto louco. Perdeu a mãe ainda jovem e o pai o emancipou. Vive de romances baseados em suas visões e tem uma vida monótona e chata

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5. Virgem

O Cheiro de algo sendo preparado na cozinha me acorda um pouco tarde. São 11h, diria que ovos estão sendo preparados. Levanto a cabeça do travesseiro que Roy pôs em seu lugar. Estou com a cara amassada e molhada. Eu babei? Solto um baixo riso com esse pensamento e Roy me ouve.

- Bom dia, pequeno demônio. – Ele grita da cozinha.

Bocejo ao invés de responder. Não estou interessado em palavras. A caminho da cozinha encontro a carta jogada no chão. Memórias de Maria Helena me vêm à tona. Minha doce Maria Helena... Ela se foi. Sinto saudades, mas não há nada que possa fazer. Creio que ela desejaria que eu seguisse em frente. “Deixasse passar”, como ele diria.

Várias sacolas de compras me assustam por preencherem minha cozinha que sempre fora vazia. Roy está fritando alguns ovos numa frigideira nova.

- Obrigado. – Consigo dizer da porta do cômodo. – Obrigado por estar me ajudando. Eu não...

Ele faz o som mais irritante o possível, aquele típico “shhhh” baixinho, como se quisesse que eu continuasse a falar, mas não sobre esse assunto.

- Como passei a noite na sua casa, tive a oportunidade de listar as coisas que faltavam por aqui e com uma parte da pensão da minha mãe consegui comprar a maior parte delas. Mamãe está comprando algumas roupas novas pra você. Relaxa, cara, ela conheceu seu estilo.

Abraço as costas dele como forma de agradecer. Aperto bem meus braços em volta daquela criatura de avental e digo bem baixinho: “obrigado”. Estou fraco, não é grande coisa, mas ele retribui com seu sorriso galanteador.

- Saiba que eu sempre estarei aqui pra você. Pro que der e vier. Eu sei pelo que você passou, ouvia Calisto contando várias histórias sobre você para Maria Helena no hospital, e acho que agora, mais do que nunca, deveríamos nos ajudar. – Aquela face sorridente me responde sem tirar seus olhos verdes dos meus azuis. – Os omeletes estão prontos. Pode devorar.

Sinto vontade de corrigi-lo, mas não quero estragar o momento. Tomei o que acredito ser o melhor café-da-manhã da minha vida. Há tempos não comia algo que não estivesse próximo de estragar. Ele acertou ao servir uma omelete com queijo. Era algo que não comia desde que minha mãe morreu.

- Omelete com queijo é a melhor coisa já inventada. – Ele dizia enquanto pedaços dela caíam por toda a sua roupa.

Concordei com a cabeça, não queria desperdiçar. Perguntava-me para que estava sendo tudo isso, até me dar conta.

“Eu te amo”, foi a mensagem de boa noite que ele me dera. Eu me lembro. Ele tocou minha face molhada que estava sobre seu peito e deixou que suas mãos escorregassem até meus braços, lembro-me da boa sensação. Isso é errado?

- Está tudo bem, meu pequeno demônio? – Ele disse sem tirar os olhos da comida.

“’Seu’, ainda não sou seu”, tive vontade de dizer, mas me contenho e respondo com um grunhido. Ele me olha e percebe que estou aflito com alguma coisa. Ele se levanta para tocar minha face novamente e acaba por derrubar suco em sua camiseta branca.

- Mer... – Ele tenta dizer, mas meus dedos o interrompem.

Estou de pé, ainda mastigando minha omelete. Ele bravo com o suco que está manchando sua camiseta. Meu dedo em seus lábios não tornam as coisas mais fáceis.

- Vou ver se tenho algo que lhe sirva aqui pra você se trocar, depois podemos jogar alguma coisa, se você quiser. – Digo enquanto vou em direção ao meu quarto. Roy ainda parece paralisado.

Encontro uma cinza maior que eu, parece ser do tamanho ideal. Roy está sem camisa ainda comendo à mesa. Agora eu vejo qual foi o travesseiro que dormi a noite inteira. Jogo a roupa na casa dele.

- Se vista, bobão. – Ele ri.

Quando percebo, ele já está vestido e próximo de mim. Ele me abraça e me levanta. “Obrigado”, vejo seus lábios se mexendo. Nossas faces estão bem próximas. Minhas mãos sobre seus ombros e as suas em torno de minha cintura. Quentes, respirações pesadas. O tempo não parecia passar, mas nossas faces se aproximavam cada vez mais. Nunca havia feito aquilo antes, estava com medo, mas excitado. Seus olhos se fecham e ele abre a boca. Noto que tenho de fazer o mesmo. Ouço a porta se abrindo lá longe no mesmo momento em que ele morde meu lábio inferior e puxa.

- Roy? Raimundo? Estão aí? – A mãe de Roy grita da porta.

Ele me deixa no chão e responde a mãe. Ainda estou desnorteado pelo que acabou de acontecer, mas o sigo até a porta de entrada onde ajudamos a Sra. Ninian com algumas sacolas.

- Pra quê tudo isso? – Pergunto enquanto levo algumas sacolas de roupas para meu quarto.

- Alguns vizinhos e nós achamos que seu pai não te dá o que você merece. Agora, principalmente com uma tragédia dessas tão próxima de você, gostaríamos que você soubesse que todos aqui te apoiam, que você é bem-vindo sempre que quiser em nossas casas, sempre que quiser dinheiro poderá pedir. Trouxe o que faltava da lista de Roy e algumas roupas que achei que você gostaria. – A senhora Ninian se explicou.

Passamos todo o dia ali, arrumando meu apartamento, como eles querem que eu o chame agora. Disseram que agora poderei fazer parte das votações como o morador do 133 e que poderei colocar os números na minha porta, se quiser. Poderei colocar os números que meu pai retirou dizendo que ninguém nunca se importaria com eles.

- Obrigado por tudo senhora Ninian. – Agradeci antes que eles pudessem ir embora. Era tarde, 22h.

- Me chame de Emma, sem formalidades. Somos amigos agora. – Ela me corrigiu.

Emma chamou o elevador que ficava de frente para meu apartamento. Roy aproveitou que a mãe estava de costas e se despediu com um beijo e um tapa nas minhas costas. “Mais tarde continuamos”, li aqueles lábios carnudos mais uma vez antes de fechar a porta.  Encosto minha testa na madeira e lembro-me do rosto de Roy próximo ao meu. Lembro-me do meu lábio sendo puxado e da boa sensação. Soco a porta desejando que tudo aquilo não passasse de coisa de minha imaginação, mas foi real. Pelo menos o que sinto por ele é real. Sou um amuleto de azar para as pessoas, imagino no que eu transformarei Roy se continuarmos com isso ao mesmo tempo em que anseio por conhecer todo o seu corpo. Uma carta surge ao meu lado, alguém acabara de passa-la por debaixo da porta. Busco informações sobre ela e encontro um remetente: meu pai.

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