A Vida que Ninguém se Importa

Demon é um garoto louco. Perdeu a mãe ainda jovem e o pai o emancipou. Vive de romances baseados em suas visões e tem uma vida monótona e chata

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3. Reis e Flores

Alguém bate na minha porta. São 22h de Domingo. Estava tentando dormir e o som da porta me atrapalha. Faz uns dez dias que jantei na casa da família Monteiro e desde então não saí mais do meu apartamento, muito menos vi algum vizinho. E logo agora, às 22h está alguém do outro lado da porta. Abro com um olhar fuzilante.

- Olá... - Ele começa a dizer com os olhos voltados para meu tapete de entrada - Moro alguns andares abaixo e queria saber se... - Seus olhos estão em mim.

Percebo que em sua mão há uma xícara. É aquela velha história do açúcar, mas ele não fala nada. Mais de quarenta segundos de silêncio, um verdadeiro constrangimento.

- Sou Demon, aliás.

Ele parece acordar de seu devaneio.

- Ah, claro. Me desculpe por isso. Eu só queria uma xícara de açúcar, tinha me esquecido. Desculpa.

Dou lhe logo um saco inteiro - tenho bastante açúcar em casa, não vivo sem umas três colheres no meu café - e nos despedimos com um curto "boa noite". Volto as minhas tentativas de adormecer.

Acordo na Segunda-feira com uma carta debaixo da porta e cinco batidas - meu chefe. "O Anjo Caído" foi reprovado. Foi me dada um prazo de entrega. Deveria entregar um manuscrito em até um mês; o prazo acaba amanhã. Estou sem ideias, "O Anjo Caído" era tudo o que eu tinha. Soco a porta com minha cabeça. Decepção é o que eu sinto.

A campainha toca logo em seguida. É aquele cara de ontem.

- Oi. Só vim agradecer de novo pelo açúcar e perguntar se você quer jogar video-game lá em casa.

Video-game. Se há algo que eu não gosto no mundo é video-game. Uma coisa idiota que te deixa com raiva. Perdi quase todos os meus amigos por esses jogos fúteis e minha competitividade excessiva.

- Claro.

Qual é o meu problema? Vi um sorriso no rosto dele. Nem sequer conheço aquele cara e já me atirei em sua casa.

No típico momento constrangedor no elevador não pude deixar de notar que seus olhos eram verdes, como os de Maria Helena. Ele me olha e desvio o olhar rapidamente.

- O que você gosta de jogar? - Ele me pergunta enquanto o elevador está parando.

Estou olhando para ele pelo espelho. Não consigo falar, algo me impede, mas meus lábios se movem normalmente: "Tudo", sibilo. Ele ri.

Suas mãos percorrem toda a porta do apartamento dele em busca da maçaneta. As luzes do hall não funcionam por algum motivo. Vejo uma luz vermelha por debaixo da porta. Já me lembro do assassino e fico assustado. A porta se abre rangendo.

- Me desculpe por isso. Minha mãe precisa colocar um óleo nessa maldita porta. Venha, você vai adorar o "quarto escuro".

Nada de assassino em série por enquanto. Sou levado para este tal "quarto escuro" enquanto ele vai me contando infinitas histórias que já aconteceram lá dentro. Percebo que ele evita me contar seu nome ou acender as luzes de qualquer cômodo da casa. Estamos nos aproximando da luz vermelha.

Acabou que o "quarto escuro" é apenas um apelido carinhoso para o quarto de jogos dele. Apenas uma lâmpada vermelha ilumina o lugar numa crença de que a luz não danificará nada no quarto. Há alguns computadores, uma gigantesca televisão de plasma - creio eu - e muitos, mas muitos mesmo, video-games jogados por aí. O quarto é uma verdadeira bagunça, o que não me agrada nem um pouco. Vejo uma cama atrás de pilhas de jogos.

Sentamo-nos em pufes que ele tirou sei lá eu de onde e começamos a jogar alguma coisa de terror. Ele trouxe alguns energéticos. Fizemos uma pilha deles. Há muito tempo eu não me divertia. Aquele incômodo que eu sentia passou depois da quinta lata. Ficamos por horas e horas jogando. Com a porta fechada a mãe dele não nos atrapalhava. Tive o prazer de conhecê-la. Boa moça. Jovem, provavelmente vítima de amores adolescentes. Ambos parecem que têm idade para serem meus irmãos mais novos.

- Tanta coisa louca e esqueci de me apresentar oficialmente. - Ele riu incansavelmente - Sou Roy, Roy Ninian. É um nome bem incomum, eu sei, mas significa bastante pra mim. Significa "Rei" em alguma língua aí.

- Então seremos os Reis. Reis de tudo e de todos. - Escapou de minha boca.

Rimos. Eu estava... Feliz? Quanto tempo faz desde que senti isso... Nem conhecia Roy, mas seus olhos, sua barba, sua expressão me convenceram de segui-lo. Acabei por dormir na casa de um estranho.

Acordamos com os choros da mãe de Roy. Ela estava aos prantos, ajoelhada na porta. Calisto estava do outro lado, também chorando. Imaginei o pior.

- "Raimundo"... Não sabia que estava aqui. Sinto muito, mas...

Ele nem precisou continuar. Comecei a chorar. Não importava qual delas fosse, eu senti tristeza. Roy me abraçou e Calisto continuou:

- Elas sofreram um acidente. Maria Helena está no hospital, quebrou vários ossos, talvez não possa mais andar. O volante penetrou o peito de Gertrudes, ela não sofre mais da dor. Ela está morta.

Achei que estava pensando o pior, mas isso bateu minhas expectativas. Calisto continuou falando, mas não conseguia mais ouvi-lo. Apenas queria ir para casa, onde não crio laços afetivos com ninguém, apenas com alguns personagens de meus romances. Essa vida de ser humano não é pra mim.

- Apenas vim aqui para convida-los para o funeral, amanhã às 15h. O corpo estará no cemitério municipal para o velório. - foram as últimas palavras que ouvi.

Corri para casa, não queria mais saber de nada. Estou cansado de decepções, de tristezas desnecessárias. Meu pai tinha razão; sou um verdadeiro Demônio. Quero me distanciar de Roy, tenho medo do que pode ocorrer a ele. Escondo-me debaixo de minhas cobertas como uma criança de oito anos, desejando que tudo tenha sido um sonho.

Às 15h do dia seguinte apenas deixo um buquê de violetas no túmulo de Gertrudes. Eram suas flores favoritas. Todo o pessoal do prédio estava lá. Roy e sua mãe, alguns outros vizinhos que me levavam comida antes de Gertrudes aceitar me fazer todas as refeições e Calisto. Sentirei saudades daquela voz suave, da comida deliciosa que fazia e de seu toque de mãe. "Boa pessoa você era, e será, eternamente, em meu coração" é o que deixei num bilhete junto às flores.

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