A Vida que Ninguém se Importa

Demon é um garoto louco. Perdeu a mãe ainda jovem e o pai o emancipou. Vive de romances baseados em suas visões e tem uma vida monótona e chata

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7. Rafael, o Medroso

Tateio as paredes em busca de imperfeições enquanto vou em direção ao elevador. Estou assustado. Meu coração disparado. O que me espera lá é um mistério. Quanta coisa devo ter perdido por ficar tanto tempo só dentro de casa...

- Ei, cara... - Uma voz me chama. Volto-me para trás e lá está ele, Roy, se exibindo com uma calça de pijama. Mesmo com quinze anos ele poderia ser um modelo de cuecas. Acabei esquecendo que estava no andar dele, tentando criar coragem pra falar com ele também.

- Está tudo certo? Porque eu vejo você sempre aqui no hall. Pensei que você pudesse querer alguma coisa. - Ele continua.

- Ah, claro... - E eu pensei que você pudesse ser meu. - Eu só estou tentando criar coragem pra descer até o térreo.

- Você tem medo?

"De ir sem você, sim." 

- Um pouco. Eu não sou a pessoa mais sã do mundo depois das coisas que meu pai me disse, então, né. Imagina.

- Quer que eu vá com você? Assim a gente conversa um pouco mais.

"É tudo o que eu mais quero"

- Pode ser...

- Vou só me trocar, então. Se quiser entrar, fique a vontade.

Sigo-o até o seu quarto. Ele se troca na minha frente, como se nada daquilo antes tivesse acontecido. Como se eu nunca tivesse tentado tocá-lo ou coisa assim. O quarto está mais bagunçado do que nunca. Esqueço-me de que as aulas no colégio dele acabaram. Estamos em dezembro já.

- Como vão as férias? - Quebro o silêncio enquanto ele coloca uma camiseta.

- Ótimo! Finalmente. Eu não via a hora. Agora saio mais ainda com garotas, uma pra cada dia da semana. Hahahaha. - Está aí o que eu precisava ouvir. - Vamos. Você precisa ver o mundo lá fora com os próprios olhos.

Ele me puxa pelos braços até o elevador onde ele fica se olhando no espelho e eu só me lembrando da sensação depois que eu imaginei ele mordendo meu lábio inferior. Ele veste uma camiseta branca e uma calça jeans. São 10h e eu estou todo agasalhado, com medo e calor.

- Você deveria ter tirado essas blusas. É verão. Lá fora não faz tanto frio, cara. - Ele dizia enquanto esfregava seus dentes brancos com a ponta dos dedos.

- O tempo lá fora é imprevisível, não é?

Ele parece aceitar a minha desculpa.

O elevador chega quando estou prestes a perguntar se estava tudo bem entre a gente e contar do meu pai. Por incrível que pareça, ninguém ainda descobriu. Já faz quase duas semanas desde que ele foi preso. Roy abre a porta de ferro, a luminosidade quase me cega e quando percebo já estamos na rua. Meu coração está mais acelerado do que antes. Roy segura minha mão e aperta firme.

- Calma, cara. Está tudo bem... - Ele tenta me reconfortar.

Surge atrás dele o meu pesadelo, Jesse.

- Você vai morrer de infarto? Que pena. Queria que meu xará te levasse. Ha. - Jesse me diz, mas não posso respondê-lo devidamente.

- Vamos, amigo. Tem uma pracinha aqui perto com uma sorveteria. Lá tem os melhores sorvetes do mundo e de vez em quando aparecem umas gatinhas lá. - Roy diz.

Ele me guia sem soltar a minha mão, mas em cada esquina que passávamos ele paquerava garotinhas iludidas. Pobres corações perdidos. E pensar que eu sou um deles.

Finalmente a tão esperada sorveteria chegou. Eu estava assustado ainda, muita gente, pouco espaço. Roy me puxou num canto lá e perguntou:

- Que sorvete você quer? Eu pago.

- Qualquer um... - Eu realmente não me importava.

- Ah, vamos, cara. Por favor. Eu quero muito que você se divirta aqui fora e quem sabe comece a sair comigo. - Ele socou o meu ombro com a outra mão.

- Eu tenho que ver, faz muito tempo que eu não tomo... - Tentei entrar na fila do self-service, mas ele não quis soltar a minha mão e veio junto.

Tantos sabores. Lembro-me de que a última vez que vim numa sorveteria eram poucos. Creme, morango e chocolate, no máximo. Agora uma variedade me assombra. Há um sabor para cada dia do ano. Acabo escolhendo o de pistache depois de Roy levar um pouco do sorvete a minha boca. Sentamo-nos e foi a primeira vez que ele soltou a minha mão. Conversamos. Ele queria saber o que houve nessas duas semanas. Evitei com todas as forças dizer que meu pai era um assassino, e ele evitou falar sobre eu ter tentado beijá-lo. Seu sorvete de abacaxi também era delicioso.

- Sabe, eu sentia saudades de sair assim. - Deixei escapar.

- Isso que eu queria ouvir! - Ele riu um pouco. - Agora quem sabe você não venha sair comigo. A gente pode vir sempre aqui, se você quiser. Ou visitar seu pai, sei lá...

- Sobre isso... - Eu não conseguia mais me segurar. Eu precisava contar pra ele. - Eu...

- Não. Me desculpa. - Ele me interrompeu. - Eu sei que o que eu fiz foi errado. Eu tenho que te aceitar como você for, não posso deixar que isso interfira na nossa amizade. É errado. Ainda mais como eu fiz contigo. Eu só estava com vergonha na hora, me desculpa. E... Sei lá... Eu gosto...

- Meu pai está preso. Ele era o motorista que causou o acidente da Maria Helena. - Não consegui conter as minhas palavras antes de ouvir o que ele diria.

Suas mãos procuraram as minhas. Ele abaixou a cabeça e as apertou com força.

- Você tem certeza disso? O nome do cara era Oswaldo da Cruz, mas será que era mesmo o seu pai? - Sua voz estava trêmula. Acho que despertei lembranças que ele queria esquecer.

- Sim. Ninguém sabe meu nome porque eu escondo. Minha mãe me deu o nome de Rafael e meu pai o sobrenome. Ele me mandou uma carta antes de se entregar a polícia, sabe? É por isso que naquele dia eu estava tão abalado.

- Você não tem culpa...

- Mas eu sinto que sim. Eu estou piorando, Roy. Talvez chegue o dia em que você verá meu corpo esborrachado na calçada. É melhor do que ir para um manicômio.

- Não diga isso, por favor. - Suas mãos apertavam as minhas mais forte ainda. - Você vai melhorar. Eu vou te ajudar. Eu não quero mais perder ninguém.

- Você não pode perder o que nunca foi seu. - Vejo que ele não sabe do que eu falo. - Você se recusou a me ajudar quando eu mais precisava. Por mais que eu goste de você, a gente nunca fez nada para sermos bons amigos. Uma noite na sua casa não é nada. Ninguém deveria se importar comigo. Eu sou um amuleto de azar para as pessoas. Obrigado pelo sorvete, cara, mas eu não quero mais ninguém fingindo que gosta de mim.

Sinto que fuzilei uma criança. Sinto-me mal por ter falado tudo isso de uma vez, mas eu não poderia mais mentir. Jesse mesmo diz: ninguém se importa comigo. Minha destruição é iminente. Acho que já deveria me despedir daqueles que...

- Eu gosto de você, Rafael. - Roy levanta a voz em meio as lágrimas e me beija. Não de um jeito vulgar, mas como se ele realmente gostasse de mim. O toque dos seus lábios acelera mais ainda meu coração. As mãos em minha nuca fazem eu me arrepiar todo. Deixo-me levar por sua experiência. Sua cabeça se afasta mas suas mãos ainda me tocam. - Eu gosto de você. Isso não é o suficiente para te mostrar que é verdade?

Não sei o que dizer. Estou em choque. Quero mais daquela boca do que qualquer garota poderia querer, mas iria contra o meu discurso.

- Eu preciso de você aqui comigo, amigo. - Seus lábios me dizem enquanto ainda estou em choque.

Ninguém se importa comigo. Ninguém deve se importar comigo. Eu sou azar. Morte. Tristeza. Eu não tenho uma função aqui! Por que ele tem de ser tão fofo comigo? Dê-me seu corpo, Roy Ninian, e eu terei algo a quê me dedicar. Mas eu tenho medo, Roy. Tenho medo das pessoas me julgarem. Tenho medo de tudo e de todos. Tenho medo de Jesse e da tristeza que vou lhe causar quando ele me levar. Mas também não sou forte pra resistir ao mundo da sensualidade que você me proporciona.

- Hoje eu não quero voltar sozinho.

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