A Vida que Ninguém se Importa

Demon é um garoto louco. Perdeu a mãe ainda jovem e o pai o emancipou. Vive de romances baseados em suas visões e tem uma vida monótona e chata

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1. Prólogo

"Sangue escorria dentre meus dedos. Ele se foi e eu não consigo sequer vê-lo. Procuro meus olhos dentre os pedaços de meu irmão. Dói. Levo minha última facada no peito e caio." - escritura em sangue na parede de meu quarto.

 

É preocupante imaginar que no mesmo quarto em que me refugio de todas as incertezas da vida, havia dois irmãos que aqui morreram. Não posso contar à ninguém, não tenho ninguém para contar. Todos já desistiram de mim e de minha insanidade. Cruéis, é isso o que são. Seres humanos só se importam com outro quando o outro tem algo a oferecer, caso contrário, é um menosprezo polido.

Entre palavras que passam pela minha cabeça para descrever a crueldade humana, tenho uma visão do que foi aquele homicídio. Vejo uma garota e seu irmão de mãos dadas até o último momento, quando o assassino arranca os olhos dela e retalha o garoto. E ainda imagino a carne dos dois sendo devorada pelo homem que fez isso. É macabro, mórbido, mas esse é meu dia-a-dia, pensando nas piores coisas para transforma-las em meus romances e ganhar a vida.

Não tenho muito o que fazer agora. Já arranquei parte do meu papel de parede para ler aquela mensagem em sangue, então aproveito e retiro o resto. Meu quarto antes parecendo com o quarto de uma velhinha, agora parece mais uma cabana abandonada.

Desculpe-me se não me apresentei ainda. Meu nome é um completo segredo, sinto muito. Mas por enquanto, pode me chamar de "Demon". Todos me chamam assim quando eu começo a falar. Não se assuste, apenas devoro adolescentes em fevereiro.

Na igreja, várias vezes fui tachado como "demônio" por eu ver o que vejo. Coisas no espelho, pessoas dentre as árvores que clamam pelo meu silêncio com um sorriso maligno e um dedo tocando os lábios -Shhhhh, eles estão aí. Ainda consigo ver trilhas de sangue que não existem, ouço revólveres atirando, garotas enlouquecendo e crianças gritando por suas vidas. Todos dizem que isso é coisa da minha cabeça. Eu até entendo eles quererem me botar num sanatório, mas quem disse que aquilo que você vê é o real? Somos todos loucos para outros povos. Lembro-me bem das aulas de História, quando minha professora dizia que os Índios eram bobos por trocar o pau-brasil por espelhos. Mas para eles, o pau-brasil era algo que viam todos os dias e achavam os portugueses loucos por quererem trocar um objeto tão valioso - algo que nunca tinham visto - por algo que eles viam todos os dias, tinham em abundância e já estavam cansados de ver. Como um de meus amigos diria: "Somos todos loucos aqui".

E não é nada disso que me abala. Pensar que talvez eu seja insano, que talvez eu tenha um parafuso a menos ou a mais não me afeta. Assim eu sei que sou diferente e até melhor que esses humanos desprezíveis. Sou um demônio, e aí?

Meu cabelo azul nunca me ajudou muito com isso. Sempre tive muita vontade de pintar o cabelo e fazia testes. Num desses testes acabei por jogar várias substâncias no meu cabelo e a cor azul nunca mais saiu. Fiz isso quando tinha por volta dos oito anos. Em algumas igrejas, os padres dizem que foi magia negra. Talvez tenha sido. Não me lembro até hoje o que foi que usei para fazer isso. É o único experimento que não me lembro...

Posso dizer também que minha mãe nunca gostou de minhas travessuras. Teve essa vez do cabelo, teve outra em que duvidei que meu pai me tatuasse no pulso. Foram várias histórias, mas sei que ela sempre me amou por tudo isso. Um pouco antes de ela se ir, ela me deu uma corrente dourada.

- Essa corrente é passada de geração por geração em nossa família como símbolo de proteção.- ainda consigo me lembrar de sua voz rouca e baixa me dizendo no ouvido. No dia seguinte, ele se foi.

Nunca vi minha mãe usando aquela corrente, pensei por vários meses em não usar também, mas achei que seria falta de respeito. É a única lembrança dela que tenho. Depois disso, meu pai nunca mais deixou que eu chegasse perto das coisas dela, disse que eu os amaldiçoei. Disse que meu sangue foi abençoado pelo Satã em pessoa e que Deus nunca iria me perdoar pelo que fiz.

É meio que assim a minha vida. Cheia de solidão, morbidez e incompreensão. É como a vida de um adolescente qualquer, é o que meus dezesseis anos o diga.

Sou emancipado desde que minha mãe morreu. Meu pai ainda paga minhas contas, mas fui expulso de casa e vivo sozinho num apartamento minúsculo. Meus vizinhos me "protegem". São eles quem me mandam comida a maioria das vezes, já que não tenho sede por comida, apenas lágrimas.

Meus romances pagam os vizinhos. É com o dinheiro de alguns livros que publico com o pseudônimo de "Raimundo Selva" que me sustento. Não dão muito dinheiro, mas dão pro gasto.

Ha... Falei tanto de minhas insatisfações que acabei por esquecer-me do mais importante: tenho câncer. Não vejo como algo ruim, aceitei o tumor há algum tempo. Sei que não viverei muito mais, mas pelo menos tenho uma inspiração melancólica ao meu lado. Muitas vezes é ele quem me dá algum nome para um personagem, um lugar ou uma doença... O chamo de "Jess" por não saber ao certo qual seria seu sexo.

Foi um dos amigos de Jess que matou minha mãe. "Death" é seu nome. Minha mãe sofreu muito, e eu tenho bastante culpa nisso. Minha família não é lá muito rica e Jess foi descoberto primeiro. Todas as economias que meus pais fizeram por anos para a minha faculdade foi gasta em alguns meses com meu tratamento. Minha mãe preferiu me dar mais alguns anos do que se tratar. Death crescia em seu peito e a levou em menos de um ano. Agradeço por Death ter sido gentil e a ter levado logo, ter feito sua dor parar. Jess não é tão bonzinho assim. Algumas noites ele faz questão de me deixar acordado. Rio como algumas vezes ele brinca com as palavras, os nomes, as cores e a vida. Pelo menos ele está lá pra mim, sempre que preciso.

E mesmo com todo esse passado triste, ainda vivo. Ainda estou aqui. Faço apostas com Jess para saber se é nessa semana ou na próxima que irei para o inferno.

 

É nessa onda depressiva que vos apresento a minha vida até agora. O que está por vir é um mistério que ainda está sendo escrito. Perdoe-me, leitor, mas essa história não terá um final feliz.

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