A Vida que Ninguém se Importa

Demon é um garoto louco. Perdeu a mãe ainda jovem e o pai o emancipou. Vive de romances baseados em suas visões e tem uma vida monótona e chata

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6. Oração

Ainda em cima do balcão deixo o envelope ainda lacrado com a carta de meu pai, não me interesso por nada do que ele tenha para falar, mas não descarto a ideia de que seja uma carta de óbito. Olho para o envelope todos os dias. O nome dele escrito com aquela belíssima caligrafia dele me recorda sempre dos tempos em que nós escrevíamos histórias juntos. Eu era tão pequeno que ainda tinha ideias mirabolantes: dinossauros de terno que dominam a escola, robôs alienígenas que devoram nossos cérebros. Meu pai escrevia tudo, sem julgar. Transformávamos o manuscrito numa obra-prima com capa dura e tudo. Às vezes esqueço que meu pai já foi bom comigo, sei lá, depois que mamãe morreu tanta coisa mudou... Eu sinto falta dele por perto...?

Durante meu devaneio diário alguém me atrapalha. Limpo uma lágrima que almejava cair e abro a porta sem imaginar o que poderia ser. Roy me espera do outro lado, ele está carregando seu notebook e entra no meu quarto apressado.

- Bom dia. - Digo ironicamente.

Ele se senta no meu sofá, no mesmo lugar em que dormi sobre ele, e ele finalmente acaba com o mistério:

- Venha ver isso:

Aproximo-me e vejo que ele está num site de notícias. A manchete está bem clara: "É preso o assassino de Gertrudes e Maria Helena Monteiro após três meses de procura". Há três meses Calisto jura vingar a morte da esposa e eu de minha amada. Há três meses Calisto procura aquele cafajeste e agora, diz a matéria, ele se entrega e o pior: ele é meu pai.

- Desculpa, Raimundo, mas você precisava saber que o cara foi pego.

Procuro a parede para socar e acerto uma fotografia que tinha com a minha mãe de quando era criança. Minhas mãos sangram pelo vidro, mas não me importo.

- Que foi? - Roy pergunta inocentemente.

Corro para a cozinha e pego a carta. Rasgo o envelope sem me importar com a caligrafia.

"'Raimundo', 'Demon', ou qualquer que seja seu nome agora, por favor, me perdoe. Eu errei com você em muitas ocasiões. Te expulsei de casa, não te dei o amor que você merecia e agora ainda pioro as coisas. Queria que você, antes do que todo mundo, soubesse que eu quem matei aquelas mulheres no acidente há três meses. Eu sou um assassino, filho. Eu estava bêbado, havia percebido que estava velho demais para ser amado como sou e tudo o que eu queria era sofrer um acidente e sumir daqui, visitar sua mãe do lado de lá. Eu não queria causar um acidente... Desculpe-me, filho, por ter errado com você tantas vezes, nunca ter te amado quanto você deveria... Eu deveria ter sido um pai melhor, uma pessoa melhor. Não tem nada nesse mundo que eu não sacrificaria para poder consertar nossa relação. Eu te amo, filho.

Com muito amor,

Seu péssimo pai e assassino, Oswaldo da Cruz"

Ouço a voz dele como se ele estivesse ali comigo lendo a carta pra mim. O papel está todo sujo do meu sangue.

- 'Tá tudo bem? - Roy me pergunta da entrada da cozinha.

Balanço a cabeça em sinal de não e rasgo aquela confissão como se não valesse de nada - e realmente não vale. Volto-me para Roy e digo:

- Talvez você e seus lábios possam me ajudar com isso.

- 'Cê 'tá louco? Eu não sou dessas coisas não, cara. Eu curto é mulher. - Ele diz enquanto me afasta de sua boca.

- Mas...? No dia em que você dormiu aqui nós concretizamos nosso amor...

- Do que 'cê 'tá falando? Eu nunca dormi aqui.

- Na noite em que você veio conversar comigo sobre a Maria Helena...

Houve uma pausa. Agora ele pareceu entender.

- Eu fui embora naquela noite, Raimundo. Você dormiu no meu colo e isso estava me deixando desconfortável. Sua boca bem próxima daquela região, sabe? Eu peguei um travesseiro pra você e fui pra casa, não antes de ter de abraçado e agradecido por tudo.

Então o que foi que aconteceu naquele dia?

- Eu me lembro de você conversando com a sua mãe aqui.

- Cara, eu estava num encontro no outro dia. Saí com uma garota do colégio que está louquinha por mim, pode perguntar pra minha mãe. Isso é coisa da sua imaginação, amigo.

Sinto como se um dia inteiro da minha vida fosse uma mentira, mas foi apenas uma manhã. Não houve beijo, não houve pegadas, não houve promessas. Minha insanidade criou um Roy romântico que me amava, que faria tudo por mim. Só agora eu percebi o que está acontecendo: eu estou morrendo. Há tempos não converso com Jess, eu me sentia feliz com Roy, estava preocupado com o motorista que matou Maria Helena, mas nem me toquei que eu estava morrendo.

- Raimundo...? Desculpa, mas eu vou embora, ok? Eu só queria te mostrar aquela notícia mesmo, desculpa por qualquer coisa.

Nem o ouço saindo. Minhas pernas estão fracas e minha cabeça cheia de pensamentos. Terá um deus pra mim depois que a morte me beijar? Ou serei esquecido, julgado e odiado até mesmo pelos deuses? Caio no chão ensanguentado da cozinha. Pedaços da carta de meu pai estão espalhados por todo o cômodo - a janela está aberta.

Estou com as mãos cobrindo a face, totalmente desligado, mas alguém fala no meu ouvido:

- Você não percebe?

Quando me viro não há nada. O vento canta pela janela aberta e algo vem junto com a melodia:

- Tolo. Babaca.

Procuro pela origem da voz; em vão.

- Ninguém se importa com você. Por que você ainda vive?

- Não sei. - Respondo sem pensar.

Esfrego meu rosto para secar as lágrimas e quando abro os olhos me deparo com o vermelho-sangue da íris do assassino de meus pesadelos.

- Olá. - Ele me diz.

- Quem é você? Por que você está aqui?

- 'Cê acha mesmo que eu sou alguém? Você é muito besta. Eu sou você, ou melhor, a personificação dos seus medos. Jesse, a seu dispor. Estou aqui para te destruir ou reconstruir, depende de você.

- Mas por quê?

- Porque ninguém se importa com você. Um viadinho, escritor de bosta que se acha rebelde por ter cabelo azul. Vá se foder, você é apenas qualquer garotinho "mal compreendido" que preciso ouvir umas poucas e boas pra morrer logo.

- E é suposto que você me ajude com essas críticas?

- Sim, Rafael.

- Não me chame de Rafa...

- Eu te chamo do que eu quiser, eu sou você. Você sou eu, é assim que você realmente quer ser chamado. Rafael da Cruz, é assim que você sempre quis ser chamado: pelo nome que sua mãe te deu.

Aquelas palavras me atingem, é a mais pura verdade. Faz muito tempo desde a última vez que alguém me chamou de Rafael ou qualquer derivado. Sinto-me envergonhado de mim mesmo. Por que esconder o nome que minha doce mãe me dera? Besta. Ela não está morta, eu posso mantê-la viva em mim...

- Pare de pensar um pouco, covarde. Sem sentimentalismo aqui, ok? Vou te contar um segredo: não existe paraíso. Vocês já estão nele, num lugar onde podem amar, enriquecer, matar, isso sim é paraíso. Do outro lado só há o silêncio. Sua mãe está quieta, morta, não respira, não fala. Nem venha com essa coisa de "mantê-la viva em meu coração", ou seja lá qual merda você pensou. Ela não existe mais e logo você vai perceber isso. Você só quer ser chamado de Rafael para que possa ser você mesmo, seja lá quem for. Você não aguenta mais adotar diferentes personalidades para diferentes fases da vida. Você é apenas mais um, Rafinha. - Ele me acorda de meus pensamentos.

"Rafinha"... Apenas minha mãe me chamava assim. Quando o assassino me chamou assim quase que pude ouvir o último suspiro de mamãe me chamando.

- Sem sentimentalismo. - Ele me recorda.

Ele dá um tapa na minha cara quando demonstro minha vontade de chorar.

- Ok... Então o que eu tenho que fazer pra acabar logo com isso? Rezar para que alguém me leve daqui?

- Babaca... - Ele diz baixinho - Você precisa sair de casa, ver o mundo lá fora como é terrível, cheio de imperfeições e algumas coisas perfeitas como o corpo de algumas criaturas. - Ele solta algo como uma risada - Algo lá fora vai fazer você perceber o que está faltando.

Sair?! Ir para onde o vento fala comigo a todo instante, para onde as folhas me atormentam e as pessoas me julgam? Não, muito obrigado.

- Claro. Quando vamos? - Minha fala não condiz com meu pensamento.

- Você precisa se preparar para isso, morador do 133, precisa deixar de ter medo das vozes na sua cabeça. - Ele dizia enquanto flutuava por toda a minha cozinha.

- Então será logo?

- Logo.

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