A Vida que Ninguém se Importa

Demon é um garoto louco. Perdeu a mãe ainda jovem e o pai o emancipou. Vive de romances baseados em suas visões e tem uma vida monótona e chata

1Likes
7Comentários
1377Views
AA

2. Olhos

Inspiração. O ser humano busca inspiração nas coisas a sua volta. Precisa de algo para se basear em. Há algumas semanas encontrei uma mensagem de morte na parede de meu quarto. Dois irmãos morreram de forma horrenda no quarto em que me refugio todas as noites. Desde aquele dia, nunca mais tive boas noites de sono. Sonho com os corpos daqueles dois irmãos retalhados e devorados. Carne macia, suculenta. Descarrego meus desejos em hambúrgueres que devoro sem compaixão. Não sou canibal, apenas um "demônio". 

Meras imagens dos olhos do assassino é tudo o que consigo em meus efêmeros sonhos. Vejo-no com uma serra, prestes a estraçalhar duas crianças inocentes e sem olhos. Vejo a sede por sangue em seus olhos; vermelhos e saciados. Imagino que se lambuze com o sangue, que se divirta com a carne e que, posteriormente, tenha de retirar resquícios de carne de seus dentes com um palito. Isso me inspira.

Vejo um típico terror-romance nisso. O assassino é na verdade o ex-namorado psicótico da protagonista que hoje é casada e tem duas filhas. Ele manda várias mensagens pedindo para que eles voltem, para que ela largue o pai de suas filhas e que deixe de ser fria, todas assinadas como "O Anjo Caído". Tipicamente a protagonista é ingênua e não relaciona os bilhetes a seu ex-namorado psicótico, o que leva, por fim, à morte de suas filhas e a sua loucura. "O Anjo Caído", como Jess o chamou, o publicarei na próxima semana.

Tenho de ter coragem. É o que mais me falta. Tenho medo de dormir e não enxergar nada quando acordar. Odeio essa vida, mas quero saber o final dessa estória como você, caro leitor.

Coragem. É o que boto na cabeça quando estou tocando a campainha de meus vizinhos às 20h. A família Monteiro que vive logo ao lado é minha maior protetora. Ao menos Gertrudes, a mãe, gosta de mim e faz um frango delicioso duas vezes por semana. Calisto, seu marido, não gosta muito da ideia de um jovem de dezesseis anos morando ao lado. Ele me imagina corrompendo sua filha, Maria Helena, ao mal da vida boêmia - ainda não estou nesse nível. Tenho meus desejos. Maria Helena é um deles. Seu toque suave, sua respiração em minha barriga, descendo cada vez mais... Sentir seus cabelos negros tocando minha face suada. É tudo o que desejo nela, mas não a posso ter. Nunca tivemos a oportunidade de nos conhecermos. Ela tem seus quatorze anos e um corpo de vinte. Perfeita em cada curva. Sou apaixonado por aquela garota e seus olhos verdes. Seus risinhos quando passo me derretem inteiro.

As luzes atrás de mim começam a piscar. Deixo de ouvir barulho dentro do apartamento. Uma luz forte mostra uma sombra se aproximando da porta. Tudo se apaga. Um olho vermelho me observa pelo olho-mágico. É o assassino, reconheceria aquela paixão por sangue em qualquer lugar. Percebo que somente seus olhos me iluminam. Estou coberto de sangue vendo Maria Helena morrer em meus braços enquanto seus pais estão mortos aos meus pés. A primeira vez que a toco e é em seu último suspiro. Num piscar de olhos vejo Gertrudes atrás da porta, empolgada como nunca:

- "Raimundo"! Que surpresa! Aceitou o nosso convite e veio jantar conosco?

Não entendo o que está havendo. Ainda estou revendo aquela cena diante dos meus olhos, mas meus ouvidos me enganam. Meu devaneio acaba. Percebo que faz mais de quarenta segundos que Gertrudes espera pela resposta, é constrangedor.

- Sim. Estava me sentindo solitário e resolvi aceitar ao convite. Ainda está de pé?

Ela me puxa para dentro. Calisto está à mesa comendo espaguete com almôndegas. Sinto falta do frango e de Maria Helena.

- Vejam só quem está aqui, o guri que mora ao lado. - diz Calisto meio arrogante - Achei que nunca o veria dentro da minha casa. Veio sequestrar minha filha mais cedo?

- Ora, seu... Desculpe pela insolência do meu marido. Ele tem ciúmes que algum garoto afaste nossa filha de nós... - Vejo nos olhos de Gertrudes que ela também - Temos espaguete com almôndegas, se quiser se servir.

Sirvo-me e sento ao lado de Calisto depois de tanta insistência. Maria Helena demora a chegar. Ela surge do corredor com um pijama curto. Ela se envergonha quando percebe que estou ali, vermelho. O pai a empurra de volta ao quarto e, aos gritos, obriga que ela ponha algo mais decente - para o que quero fazer, qualquer coisa serve.

Conto as almôndegas em meu prato enquanto espero Maria Helena voltar. Quatro. Num prato cheio de espaguete apenas quatro almôndegas. Ela chega vestindo algo mais apropriado para a ocasião. Ela se senta na minha frente. Gertrudes traz um prato para ela. Conto as almôndegas. Sete. A quantidade de olhos que vi em meu devaneio. Quatro no meu. Os pares dos irmãos que morreram em meu quarto. Admiro os olhos de Maria Helena por alguns segundos antes de Calisto reprimir o ato com um soco no meu braço. Dói, mas nem tanto quanto a dor que sinto por dentro por não falar com ela. A garota dos meus sonhos. Morro ao perceber que aqueles olhos não serão meus tão cedo.

Join MovellasFind out what all the buzz is about. Join now to start sharing your creativity and passion
Loading ...