A Vida que Ninguém se Importa

Demon é um garoto louco. Perdeu a mãe ainda jovem e o pai o emancipou. Vive de romances baseados em suas visões e tem uma vida monótona e chata

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8. Evitar ou Perdoar?

É natal. Por todo o caminho da sorveteria vejo enfeites e pais noéis chacoalhando seus sinos com a intenção de induzir ingênuas crianças ao consumismo. Nem me lembro da última vez que ganhei um presente natalino, algumas vezes ganhava um livro novo da editora. Esse é Natal é diferente. Um beijo de presente a cada minuto. Ah, Roy... Por que tinha de ser tão fofo? Íamos a sorveteria várias vezes na semana. Sabores novos todos os dias. Ele sempre pagava, não importa quanto dinheiro eu levava, ele sempre pagava.

Sabíamos que aos olhos dos outros deveríamos ir para o inferno, mas ninguém merece isso por amar. E hoje, em pleno dia de Natal, quando completamos uma semana juntos, ele me dá um presente na sorveteria que se diz aberta apenas para casais. Ele retira uma pequena caixinha preta aveludada do bolso. O bobo sorriso estampado em sua cara demonstra a ansiedade que ele está sentindo. A caixa é colocada em cima da mesinha onde meu sorvete está em repouso e eu apoio meus cotovelos. Acredito que a minha cara deva estar pior do que a dele.

- Bom, querido Rafinha, hoje já faz uma semana que você perdeu seu medo de sair do seu apartamento. E claro, que nós também estamos juntos. - Ele está com uma vontade imensa de rir, talvez de vergonha de ter decorado algum texto. - E sabendo como as coisas são aqui fora, vendo os estilos das pessoas desse século e o seu, eu te trago este humilde presente de família.

A criança dentro de mim pula animada como se fosse a caixa de um brinquedo se abrindo numa manhã de natal, quando na verdade é a metade de um colar daqueles de casais heteros.

- Não é grande coisa, né... Mas é de coração hahaha... - Mais nervoso do que antes ele me diz.

Uma pokebola rachada ao meio me cativa. Atrás dela há uma inscrição: "I love u". Roy puxa um cordão que ele escondia por debaixo da camisa e como se fossem os nossos lábios naquele momento, as metades do pingente referencial se grudam. Tudo por uma forte atração magnética.

- Que família louca a sua. - Comento depois de momento sexy.

- Veio do meu bisavô, Don Carlito, hahahahaha. - Don Carlito é o gerente de uma loja que eu apresentei pra ele. Eu ia muito lá quando era pequeno porque sempre gostei das coisas nerds.

- Ele poderia ser seu tataravô e eu não iria duvidar, a mesma boca. - O velho tem uma boca torta que ele dizia que era de tanto fazer careta. Eu contei essa história pro Roy.

Papeamos um bom tempo enquanto era o primeiro dia que eu experimentava o sorvete de sensação. Nossa meta é até o fim do ano que vem degustar todos os sabores que existem aqui. Mas que tentação! As mãos dele passam pelo meu pescoço quando decidimos sair.

- Você não pode sair daqui sem usar isso.

Uma corda negra agora enfeita meu pescoço. Roy faz uma breve massagem na minha nuca, me ajudando a recordar dos bons momentos que já tivemos à sós. Meu pingente fica por cima da camiseta e ele o aproxima do seu para um último beijo ali.

- Agora já deu. - Ele brinca.

A praça em frente à sorveteria me agrada. Uma fonte, alguns food trucks, muitos bancos e árvores que cobrem todo o recinto. Andamos de mãos dadas pela trilha menos movimentada. Um banco vazio clama por nosso peso sobre ele com algumas almofadas. Os moradores aqui perto cuidam dessa praça, pelo que Roy me disse, e algumas pessoas gostam de deixar o lugar mais agradável para os casais.

Meu rei e eu realizamos o desejo daquele branco banco e suas almofadas lavanda. O inesperado acontece quando ele decide ocupar menos espaço ao se sentar no meu colo, voltado para mim, de tal forma que eu pudesse segurar as suas pernas sobre o meu corpo e seus dentes devorassem meus lábios. Os seus, tão carnudos, aguardavam impacientes a minha língua. As folhas farfalham ao nosso redor como milhares de espectadores esperando pela conclusão daquela novela criada entre nossos beiços. Por que tão gostoso? Por que só aqui? Por que não só meu? Minhas mãos passam pelo seu corpo, guiadas pelos seus próprios braços, procurando e decorando cada linha daquela obra-prima por debaixo de suas roupas. Meus dedos buscam cada pinta que ele possa esconder nas costas ou mais embaixo. Chega o momento em que nossas bocas se descolam.

- Achei que aquele era o último. - Digo antes de voltar meus beijos para seu corpo.

- Cala a boca e desce. - Obtenho como resposta.

 

Como foi bom não haver ninguém ali para nos interromper naquele momento. “Depois a gente continua”, foi o que ele me disse da última vez que tentamos isso e a mãe dele apareceu. Agora começo a suspeitar se minha mente me engana mais uma vez, mas creio que não. Alguma criatura teria me impedido de ficar beijando o vento sozinho numa praça pública, ou pelo menos me impediria de tirar as roupas.

“Só meu”, almejo que ele seja, mas a dúvida está sempre lá. Ele aperta firme a minha mão enquanto andamos pelas ruas de volta ao nosso prédio e aqueles mesmos corações perdidamente apaixonados degustam do prazer que é só de olhar Roy. Ele não recusa os olhares. Talvez se sinta bem com eles, não sei. Mas que é prazeiroso olhar pra ele, é.

Ele aperta o botão do décimo terceiro andar no elevador. 

- Na sua casa nunca tem ninguém. - Ele brinca.

Queria que ele estivesse certo como sempre está. Um homem está batendo na porta do meu apartamento. Ele parece impaciente e familiar. Roy solta a minha mão antes de começar a falar com o cara:

- Algum problema, senhor? - Roy pergunta com uma voz mais grossa do que o normal. 

- Vocês conhecem o cara que mora aqui? Ele me deve um bom dinheiro. - O homem fala e finalmente reconheço-o. É meu “chefe”, meu editor. Temos um contrato e eu não o cumpri. Minha sorte é que ele ainda não me reconheceu.

- Claro, eu saio com ele às vezes.

O cara parece não aceitar muito bem essa resposta. Para reforçar suas palavras, ele aperta minhas mãos como se estivesse com medo de me perder e o homem impaciente finalmente entende.

- Então vocês são viadinhos de merda? Que repugnante. - Parece que é Jesse quem está falando.

- É errado o senhor falar isso. - Roy abre a boca, mas a frase parece não chegar aos ouvidos do homem que já começa a perguntar:

- Qual de vocês tem um contrato comigo?

Humildemente levanto a minha mão que Roy não está segurando.

- Você me deve muito dinheiro, bichinha. - Tento debater, mas ele fala mais alto. - Precisamos do manuscrito até amanhã. Você e seu namoradinho têm que terminar tudo até a meia noite de amanhã ou o contrato estará quebrado e sem mais dinheiro para as frutinhas. Entendido?

- Sim, senhor. - Respondo finalmente.

- Obrigado pela atenção, bichas. Tem gente mais importante que eu preciso ver.

Ele passa entre mim e Roy quebrando nossa ligação sem se importar. Encontro os olhos de Roy voltados para as costas do cara. Se ele tivesse uma faca, talvez teria a usado agora mesmo. 

- Por favor, não. - Sibilo para ele.

Roy aceita o meu pedido e me puxa para dentro do meu apartamento enquanto o homem desce pelo elevador até o térreo.

- Ninguém deve falar assim com a gente, Rafa!

- Quer um copo d’água? Eu estou com sede…

- Isso não é brincadeira, cara. Você precisa reagir. Se o cara não aceita a gente você precisa me deixar fazer alguma coisa. Rafael, não quero ninguém falando assim com você.

Aproximo-me de seu rosto e passo minhas mãos por seu rosto delicadamente, passando meus dedos por todas as suas espinhas de adolescente e os fios da sua barba.

- Eu também te amo, Roy, mas por favor, não faça nada. Ele meio que é meu chefe. Sem ele eu não terei dinheiro. Eu não quero que os nossos vizinhos paguem tudo que eu faça, ainda mais agora com o meu pai preso. Preciso saber como farei mês que vem, ele não está mais aqui para pagar minhas contas. O pior é que eu não sei onde ele possa estar agora…

- Eu acho que eu sei. - Ele tira minhas mãos do seu rosto e me puxa para perto da janela. - Pode olhar lá embaixo. Espero que você reconheça o carro dele.

- Eu não sei o que… - Antes que eu possa terminar, ele me beija.

- Nada. Você não precisa fazer nem dizer nada. Eu o trouxe aqui por você e é por isso que ele está aqui. Pra você. Só pra você. Ele será só seu hoje. Iremos almoçar lá em casa e…

- Ele sabe que a gente está junto? 

- Sim. Eu contei pra ele, fica tranquilo.

Demorei para ter coragem de fazer qualquer coisa. Senti-me paralisado.

 

- Pai? É você? - Pergunto pela janela aberta para o homem que está sentado no banco da frente daquele golzinho preto depois de Roy me obrigar a descer até aqui.

Vejo as marcas em seu rosto. Tantas cicatrizes e machucados recém cortados. Ele está cochilando, já está aqui há muito tempo. Minha vontade é de largá-lo ali, esperando eternamente pela mão que virá a acordá-lo, mas que nunca vai chegar. Consigo sentir seu cheiro mesmo antes de me aproximar. Ele fede. Não sei se a bebida ou apenas a falta de banho. Não consigo imaginar como tem sido esses dias pra ele, afinal, ele é um assassino.

- Pai, acorda.

Chacoalho o corpo dele tentando acordá-lo. Ele acaba por se assustar e é engraçado. É bom ver que meu pai não mudou. Minhas mãos tocam seus ferimentos e ele solta um grunhido. “Que saudades”, penso eu, mas acredito que as palavras tenham passado dentre os meus dentes à altura de um sussurro.

- Eu também, Rafinha.

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