A Vida que Ninguém se Importa

Demon é um garoto louco. Perdeu a mãe ainda jovem e o pai o emancipou. Vive de romances baseados em suas visões e tem uma vida monótona e chata

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9. Estranho

Feliz ano novo. Imagine-me te abraçando agora e te desejando tudo de bom. Estou um pouco atrasado, eu sei, mas estive ocupado cuidando do meu garoto. Alguém em algum lugar deve ter errado o nome ou sei lá o que e a sorte veio parar do meu lado. Se eu ainda estivesse em setembro, nunca imaginaria que iria namorar alguém como o Roy. Sempre me achei tão inútil e não-hábil para relacionamentos que já estava pronto para passar o resto dos meus dias sentado na frente de uma máquina de escrever verde e comendo às custas dos meus vizinhos. Agora eu tenho alguém em especial que paga a minha conta e é como eu queria. Ele é só meu. Ao menos até alguma guria ou um marginal roubarem o coração dele que me pertence… Não quero pensar sobre isso agora.

Estive aliviado desde o natal. Ter meu pai presente foi o melhor presente que Roy poderia me dar. Pra ele só pude dar uns amassos e um cordão. Que péssimo namorado sem dinheiro que eu sou. Ele me apresentou para um novo mundo chamado Netflix. Na casa dele temos pipoca, um quarto com fechadura e som na altura que quisermos. A mãe dele não se incomoda nem um pouco. O maior medo dela com um filho como o dela era que uma garota viesse pedir dinheiro pelo bebê que eles tiveram, mas comigo ela pode ficar tranquila quanto isso. A renda deles é bem baixa, mas com o dinheiro do pai dele e o serviço da mãe, Roy tem a melhor cama que eu já dormi — como se eu já tivesse dormido em muitas camas —, mas não é algo que fazemos muito nela.

Então mais uma festa vem aí. É meu aniversário. Sou de Capricórnio sim, mas meus ascendentes devem ter algo em Câncer por que minha carência não tem explicação. Por tanto tempo esse dia sempre foi um dos que eu mais odiava, logo atrás do dia em que minha mãe morreu e do dia em que fui expulso de casa. Por que? Nem quando eu tinha mesmo uma linda família nuclear eles se lembravam de mim. Mamãe tinha suas ocupações e meu pai queria saber das despesas do meu tratamento. Eu desejava morrer a cada segundo que eu continuava respirando. Roy faz eu me arrepender de cada vez que um dia eu rezei para algum deus me levar daqui.

Acordei nesse dia especial no chão do quarto de Roy. Eu deveria estar na cama, mas devo ter caído dela. Procurei por um calçado e encontrei os chinelos dele que são imensamente maiores que os meus. Ajeitei meu pijama e abri a porta do quarto. Esperei por um bolo ou uma torta na cara, mas não houve nada. Silêncio consumiu a casa.

- Emma? Roy?

Ninguém me respondeu. Devem ter saído. Um relógio na cozinha me assustou quando seus ponteiros mostraram 6h. Estive certo de que Roy e eu tínhamos ido dormir perto das 5h graças à maldição vermelha que ele me lançou. Logo atrás de mim estava Jesse com a sua voz sombria.

- Rafinha, que surpresa você por aqui! — Ignorei a presença dele e tentei voltar para o quarto. Ele me impede. — Não. Nada disso, Rafinha. Sabe onde você está?

- Claro que eu sei. É o apartamento do meu namorado, Jesse. Pode me dar licença? Quero voltar para o quarto dele.

- Isso não está rápido demais, querido? Não acha que as coisas andaram mais rápido do que  você poderia compreender e agora ele só está com você pelo uso dessa palavra? “Namorado”.

- O que você quer dizer com isso?

- Você está morrendo, criatura, e ele sabe disso. Algum tempo depois que ele descobriu isso e te rejeitou vocês já estão quase que grudados. Não é suspeito? Creio que ele esteja fazendo isso como uma forma de se redimir com o próprio deus.

- Saia daqui. Você não vai me fazer acreditar que Roy está fazendo isso por bondade. Ele realmente gosta de mim.

Ele começou a desaparecer numa escuridão inexplicável.

- Se você acredita nisso, quem sou eu para te dizer ao contrário?

 

O despertador soou às 8h do meu lado. Tentei desligá-lo, mas o corpo de Roy estava na frente. Ele estava sem camiseta e vestindo uma calça moletom azul. Para me chamar ele tirou a escova de dentes da boca:

- Ei, frutinha, já está na hora de levantar. - Era engraçado como ele falava com espuma na boca.

- Eu quero dormir, capitão, a noite de ontem foi difícil com aquele soldado.

- Isso não é problema meu.

Seus braços me puxaram para fora da cama e acabei caindo em seus pés. 

- Desculpe-me, capitão.

Levantei-me depois de ele trazer uma câmera, deitar-se ao meu lado e tirar uma foto nossa.

- O que é isso, Roy?

- Estou inaugurando sua nova câmera, Rafa. 

O cheiro de tinta começava a invadir as minhas narinas.

- Na verdade é nossa câmera. É quase como uma Polaroid, mas mais barata.

A foto foi impressa na hora e ele ficou exibindo a monstruosidade que eu pareço antes de me levantar.

- Minha mãe não está em casa, o que quer fazer? Sense8?

- Sense8.

- “Maybe Sense8 will be our always”

Dei-lhe um soco no braço e clamei educadamente pelo seu silêncio:

- Cala a boca, idiota.

Encostei minha cabeça em seu peito e suas mãos acariciaram o azul do meu cabelo. Estávamos terminando a primeira temporada da série e ele acabou soltando:

- Você não tem ideia do quanto eu gosto de estar com você, Rafael da Cruz.

- Acho que eu sei sim, Roy Ninian.

Toquei os seus lábios com os meus.

- Não diga meu nome em vão. - Lembrei. - À menos que queira algo de mim.

- E eu quero, toda hora.

- É uma pena que eu queria terminar de ver Sense8. Quem sabe mais tarde?

- Eu te odeio.

- E eu te amo.

Ao meio-dia Emma bateu na porta do quarto do filho e abriu logo em seguida.

- Bom dia, meninos. Algum de vocês poderia me ajudar com as compras?

- Eu vou. — Respondi sem hesitar 

- Ótimo, venha assim que puder, tem muita coisa pra guardar.

Despedi-me do corpo de Roy com um beijo no seu pescoço.

- Eu já volto, não precisa chorar.

Eram muitas compras mesmo.

- Chegou o dinheiro, Emma?

- Sim. A casa estava precisando de todas essas coisas. Faz muito tempo que não compro algo para a casa, sabe?

Dei uma olhada em volta e acabei perguntando:

- Por que vocês ganham dinheiro do pai do Roy?

- Ele não te contou, Rafa? — Balancei a cabeça negando. — Roy não deve querer que você saiba…

- Por favor, Emma… Ele guarda esse mistério desde que nos conhecemos e nunca me deixa perguntar. Acho que essa é a primeira vez que podemos conversar à sós para você me contar o que há.

- Não será possível, querido. Roy guarda muito rancor do pai e eu não posso desrespeitar meu filho.

Acabei cedendo. Naquela hora eu queria mesmo era voltar logo para os braços de Roy, mas aquela pergunta realmente me deixava acordado algumas noites. Já havia teorizado milhões de vezes, me sentia como um fã teorizando sobre sua série predileta — o Netflix realmente estava me afetando. Finalmente ela abre a boca quando já estou de saída:

- Não pergunte mais nada ao Roy, ele odeia que perguntem.

Levantei meu polegar da mão esquerda e saí da cozinha.

- O que houve aqui, Roy?

- Derrubei a pipoca na cama toda, me ajuda a limpar? — Ele estava coletando cada grão de milho e colocando numa camiseta que estava usando de cesta.

- A gente pode sair? Quero respirar um pouco de ar fresco, quem sabe ir à sorveteria…

- Pode ser, mas minha mãe me mata se eu não limpar isso aqui.

“E deixar uma camiseta limpa cheia de gordura deve ser bem melhor”, pensei.

 

Já era um pouco mais de 13h quando descemos o elevador. Ele não parava de ajeitar o seu cabelo e ficar sorrindo pro espelho.

- Está se arrumando pra alguém em especial?

- Claro.

- Espero que esse alguém especial seja eu.

- Vai ficar esperando, guri.

Sua camisa regata branca e seu shorts verde combinados com o cordão que o presenteei me iludiram até chegarmos no térreo. Ele entrelaçou suas mãos, as colocou atrás da cabeça coberta por uma toca e ironizou:

- É engraçado, eu estou saindo com um cara de dezessete anos. Você deve ser o mais novo que eu pego. - Sua risada começava a me deixar com ciúmes.

- Como você é idiota.

- É a verdade, bebê. A primeira garota que eu tracei tinha uns vinte anos e isso foi há quase uma década.

- Um lustro?

- Você sabe que não pode usar palavras difíceis na minha presença, meu príncipe.

- Só quando você começa a ser um babaca total.

- Mas eu sou um em tempo integral! — E outra vez seu riso me ameaçava.

- E o seu pai? Ele era um babaca total em tempo integral? — Por algum motivo aquelas palavras saltaram da minha boca. Eu não queria que seu sorriso se fechasse, mas fechou. — Roy?

- Estranho.

- O que é estranho? — Ele só começou a andar um pouco mais a minha frente e parou na esquina.

- Pegamos o caminho errado. Você me distraiu, frutinha. — Evitando. De novo.

- Você quem estava me deixando com ciúmes.

- Não vou pedir perdão por ser tão galã. — O sorriso voltou.

Continuamos por aquele caminho que era um pouco mais longo e logo havíamos chegado à sorveteria. Ele pegou de avelã e eu de torta de limão, os novos sabores do lugar. Sentamo-nos na calçada dessa vez.

- Você entre todas as pessoas do mundo deveria me entender quando eu não quisesse falar do meu pai, Rafael. — Ele desabafou entre uma colherada e outra do seu sorvete.

Palavras não poderiam expressar a minha vergonha e o quanto eu sentia muito naquela hora. Deitei a cabeça dele no meu ombro e deixei que suas lágrimas caíssem sobre mim. 

- Eu sinto muito. - Resmunguei.

Seus braços pularam para o meu pescoço. Ele estava me abraçando e o sorvete caído no asfalto da rua. Ele choramingou uma última vez:

- Não é sua culpa.

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