A Vida que Ninguém se Importa

Demon é um garoto louco. Perdeu a mãe ainda jovem e o pai o emancipou. Vive de romances baseados em suas visões e tem uma vida monótona e chata

1Likes
7Comentários
1377Views
AA

4. Anacrônico

Todas as noites desde o acidente Roy costuma aparecer no hall. Seus punhos cerram-se e aproximam-se da porta, mas por algum motivo, ele regride o movimento e me sinto sozinho novamente. Não converso com ninguém desde aquele dia. A última vez que ouvi a voz de algum vizinho foi de Calisto, alertando-me que Maria Helena havia piorado. Agora ela estava em coma, não teria muitas chances; ele queria que eu a visitasse, mas eu não tenho forças para vê-la nesse estado. Sento-me todos os dias de frente para minha máquina de escrever velha que herdei de minha avó por parte materna, bem conservada, nela que produzo meus maiores manuscritos, inclusive meu maior fracasso: “O Anjo Caído”, e torço para que algo de bom me venha à mente.

Talvez as pessoas não queiram mais esses romances sem graça e com fins óbvios, desinteressantes, querem apenas paixões verdadeiras, morte, sangue, bondade; tudo o que almejam e não podem ter em vida. Raimundo Selva foi enterrado junto a Gertrudes naquele dia, ainda lembro-me bem dele, dia 15 de setembro, o dia em que “Demon” nasceu. Meu mais novo pseudônimo introduziu um novo estilo na minha vida. Desisti de romances fajutos, não valem a pena. Publiquei minha primeira obra como Demon há algumas semanas, “Demônios e seus Adolescentes”, livro de crônicas, creio que pode ser chamado de novela pela quantidade de núcleos envolvidos. São várias crônicas narrando alguns dias sofridos por alguns adolescentes desacreditados que acabam por se conhecer em certo momento, mas todos tem o mesmo desejo alcançado: a morte. Fiz questão de que Roy recebesse uma cópia e ainda espero que ele venha agradecer o presente, levando em consideração que o aniversário dele foi na mesma data do lançamento do livro.

Hoje se completam três exatos meses de silêncio. Sem frango, sem batidas carinhosas na porta para convites para jantar. Gertrudes faz falta, e é só nisso que consigo pensar. Espero o dia inteiro por Roy sentado numa cadeira ao lado da porta. Às 22h me levando e posiciono-me de forma que não consiga ver a sombra de meus olhos. A porta do elevador bate ao fundo, ouço passos e as luzes se acendem. Um garoto moreno alto, barbudo, de olhos verdes e feições delicadas está com uma xícara na mão e parece envergonhado. É Roy com seus típicos utensílios: uma xícara e um punho cerrado. Suas mãos aproximam-se da madeira que nos separa. "Bata", penso, mas ele hesita. Vejo a raiva em sua face, talvez por ter de fazer isso todos os dias ou por não ter coragem. Uma lágrima cai na xícara que ele carrega. Ele se debruça sobre a porta e começa a chorar. Não suporto vê-lo daquele jeito, mas tenho de. Ele se vai alguns minutos depois se arrastando e com uma xícara quase cheia de lágrimas que o prende a minha porta.

Acordo com algumas batidas na porta. É Roy novamente, agora com uma carta na mão. Está sério, não se parece com o garoto que vai me visitar todas as noites.

- Raimundo... - ele começa, mas o interrompo.

- É Demon agora.

- Demon, sinto muito por não ter esclarecido as coisas antes. Você já deve saber que Maria Helena está em coma, e provavelmente isso deve ter te afetado muito, mas o que eu não te contei era que eu também curtia ela. Eu chamei você para "eliminar a concorrência", mas acabou que você era um cara legal, e eu não tive coragem de te ameaçar ou qualquer coisa assim. Eu sinto muito, cara.

- Ao menos você está aqui agora. Quer ao menos entrar para enxugar as lágrimas?

Ele balança a cabeça e passa as mãos nos olhos tentando fingir que nada estava acontecendo. Ele me entrega a carta que está segurando.

- Ela queria muito que eu te entregasse isso antes de ela entrar em coma... Não esquenta, cara, você nunca mais terá de olhar para a minha cara. Me desculpe por ter sido um idiota e não ter te entregado antes, você merecia saber.

Pego o envelope. Já está aberto, Roy deve ter olhado a carta, não o culpo. Estou bravo por ele não ter me entregado a carta antes, triste por pensar no que acontecerá com Maria Helena, mas feliz por Roy ter me visitado. Percebo que ele está pior que eu. Confuso. Estendo a mão para puxá-lo para dentro. Seu corpo se contrai, mas sei que é isso que ele quer. Ele é mais alto e mais forte que eu, mas não resiste ao abraço que lhe dou. Mais do que nunca ouço seus prantos. Ele soluça. Maria Helena morreu.

Sentamo-nos no sofá, ainda abraçados. Arranco a carta de dentro do envelope para lê-la e Roy arranca da minha mão e começa a disserta-la:

“Raimundo, Demon, ou seja lá qual for o seu nome. Você é extremamente misterioso e triste. Pude ver isso em seus olhos quando você jantou em casa aquele dia. Aquele ótimo macarrão com almôndegas que mamãe fez e você pegou apenas quatro delas. Você parece ser uma ótima pessoa, queria ter te conhecido melhor, antes de toda essa droga que aconteceu. Ah, mas você já sabia de tudo, já sabia de tudo o que eu sentia e pensava, afinal: você é um poeta. Sim, garoto de dezesseis anos que mora no apartamento vizinho, eu adoro você. Ver você passando no corredor, seus olhos azuis combinando com seu cabelo e aquele gorro que você sempre usa quando sai de casa. Meus risos não são atoa, eu realmente gosto de você, mas sei que você perdeu todas as suas esperanças sobre tudo. Você terá o Roy e muitas outras garotas que conhecerá porquê você sabe que eu não sairei daqui, creio que seja por isso que você não me visita. Te espero todas as noites, como se você fosse me levar daqui para longe, fosse o cavalheiro resgatando a princesa na torre do castelo. Só tenho mais uma coisa a te dizer: perdoe o motorista que causou o acidente, por favor. Ele não merece toda a fúria do meu cavalheiro. Fúria é algo forte demais para se sentir por alguém que não gosta. Apenas deixe passar. Com amor, Maria Helena Monteiro, a princesa que te esperará para todo o sempre na torre do castelo.”

Choro sobre o peito de Roy. Estou deitado sobre ele no sofá quando ele termina de ler. Ambos estamos desequilibrados. Adormecemos ali mesmo, naquela posição, entrelaçados e fracos. Ouço um “Eu te amo” antes de me aconchegar no corpo de Roy e dormir.

Join MovellasFind out what all the buzz is about. Join now to start sharing your creativity and passion
Loading ...