Do outro lado da guerra - Aquele que aperta o gatilho

A ironia é engraçada. Algumas pessoas não entendem e outras não tem a capacidade de dominá-la. O General Nazista da SS, Mathias Van Swiner, com certeza era um dos que não tinha a ironia em si. Em uma tentativa de usá-la, o alemão promete a uma judia à beira da morte a guarda de sua filhinha de cinco anos, tendo assim que lutar contra a honra de sua palavra ou seu orgulho nazista.

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1. Combate miserável

As traiçoeiras nuvens encobriam o céu noturno afogado em escuridão. A vasta paisagem fúnebre do campo de batalha era sucumbida pela aura de ódio e sangue que penetrava no solo ardente do deserto. A única fonte de luz naquele ambiente lamentável vinha de uma sucinta chama alaranjada que dançava na brisa e soltava faíscas luminosas na imensidão do céu negro. Ao redor da fraca labareda haviam cinco tendas presas por cordas que se aprofundavam nas areias. Todas cheias de vestimentas, armas, entre outros pertences, porém nenhuma delas abrigava uma viva alma.

As areias do grande deserto do Saara eram desleais. Escondiam minas explosivas, animais selvagens e diversas armadilhas naturais. O maior obstáculo do campo de batalha era a mãe Natureza, e o Segundo Batalhão Nazista de Forças Armadas tinha conhecimento desse fato. A tropa era formada por vinte civis recrutados como soldados rasos, quinze atiradores de elite e comandada pelo general de brigada Mathias Van Swiner.

Os soldados marchavam sobre as areias impiedosas enquanto defendiam-se na batalha eterna contra ferimentos, cansaço e fome. O suor escorria sobre suas peles sujas e umedecia suas fardas. Todos os combatentes trincavam seus dentes com o frio das noites desérticas entrando debaixo das mangas e atravessando o grosso tecido das vestimentas, fazendo suas mentes cansadas clamarem por um ponto de repouso. A expressão dos guerreiros transbordava um desespero melancólico tão seco quanto o clima que os rodeava.

À frente de todos, o general Mathias mantinha-se determinado. Os olhos azuis miravam as negras silhuetas das dunas e os loiros cabelos eram protegidos por um quepe verde decorado com uma águia prateada. O resistente uniforme militar cobria seu corpo forte e as luvas e botas negras impossibilitavam os grãos de areia a cortarem sua pele como pequenas lâminas. Mathias é o perfeito ariano. Sempre caracterizado como metódico, confiável, rigoroso, burocrático e serio, o loiro foi respeitado desde seu início de carreira no exército aos 18 anos, completando agora seus 23 anos de idade. Mathias era o homem mais jovem a alcançar o terceiro mais importante posto bélico e estava determinado a ser também o mais novo a atingir o primeiro.

***

Os passos se tornavam mais pesados a medida que o batalhão se aprofundava no gélido deserto. O frio se intensificava e a tristeza apoderava-se da alma dos alemães cansados. O tempo parecia mancar e as sombras estendiam-se pelo solo opaco. Após horas de esquerda e direita, o batalhão alcançou um pequeno acampamento abandonado. A pequena chama ainda ardia em meio aos ventos uivantes da paisagem gélida.

Gastos e aliviados, os soldados se acomodaram nas barracas, sem se importarem com seus antigos donos ou pertences.

Primeiramente, sob as ordens de Mathias, a chama foi reacesa em uma fogueira de tamanho médio, assim não atrairiam a atenção dos inimigos britânicos. A seguir, cada soldado foi designado a uma tenda baseado em seus postos militares, tendo outras 9 montadas ao lado das antigas. O cansaço esvaecia as dores, mergulhando os guerreiros em um sono profundo. Todos dormiam sobre os objetos abandonados em um silêncio macabro, com exceção de Mathias, que mantinha os olhos abertos para previnir um ataque surpresa, alerta a todo movimento criado pelos ventos.

Palavras eram escritas com esmero em um pequeno caderno negro. Com apenas um lápis e seu bloco de anotações, Swiner planejava cuidadosamente o dia seguinte, tentando prever condições climáticas, movimento inimigo e aproximação amiga. A missão designada a Mathias era alcançar o território Italiano, informar o comandante sobre a situação alemã em Paris e unir forças contra o exercido inglês. Mathias abusava de cada neurônio para anotar os detalhes, porém ainda era humano. Havia caminhado por quilômetros de areia enfrentando ataques americanos e britânicos. Já passava de quatro da manhã e a visão de Mathias começava a embarcar.

Abrindo o bolso de seu uniforme e guardando o bloquinho, o general Mathias se preparava para recolher-se, quando percebeu uma movimentação vinda de trás. A LUGER P08 deslizou em suas luvas em movimentos ágeis como um samurai retirando sua espada e apontou-a para o vulto que aproximava-se. Os olhos casados finalmente começaram a funcionar, formando uma imagem similar ao General de Divisão Heinz Wagner. Um homem robusto com um grosso bigode negro ligeiramente queimados nas pontas. O homem andava com as costas curvadas e os braços para trás. Em seu uniforme haviam sete medalhas de condecoração, das quais Heinz se orgulhava muito.

- Sei que não sou tão jovem quanto você, general Swiner. - Disse Heinz com um sorriso no rosto. - Mas creio que ainda não é minha hora de partir.

Com o susto, Mathias guardou a arma e estendeu o braço com a palma virada para baixo.

- "Heil Hitler"! Perdoe-me, general Wagner! Minhas ações não se repetirão, senhor!

Heinz parecia paciente e estranhamente satisfeito com a situação atual. Após aproximar-se e sentar ao lado do loiro, lentamente levantou o olhar na direção do céu. Por alguns segundos seus olhos cinzentos procuraram por uma estrela, porém perderam-se na densa fumaça seca e arenosa que traziam consigo o ardido aroma do óbito.

- Confio em você, general. - as apalavras filtradas pelo bigode soavam da boca de Heinz. - Assim como seu pai, o senhor sempre cumpriu com suas palavras.

Mathias desviou o olhar para o céu, com seu manto pesado refletido em suas órbitas azuis. O loiro tivera um passado atroz. Encontrado ainda criança pelo General de Exército Fritz Van Swiner, Mathias teve uma vida alegre até uma guerra anterior a Grande Guerra, o honrável senhor teve o corpo incinerado nas chamas de uma bomba inglesa, deixando para trás Mathias sozinho em meio a uma guerra com apenas 12 anos de idade. Quem não vê, imagina, quem vê, sonha. Desde então, Mathias vem tido pesadelos diários com cada cena em sua vida. O alemão sempre foi maduro em todos os aspectos, mas a pequena criança profundamente guardada lhe trazia os mais obscuros pensamentos. Fritz havia contado que sonhos se realizavam, mas tinha esquecido de falar que pesadelos também eram sonhos.

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