Country Love

Samantha, ou apenas Sam, cresceu em um haras em Wyoming nos Estados Unidos, e desde pequena já montava cavalos. Agora com 17 anos, Sam vê sua vida virar de cabeça para baixo quando um garoto da cidade se torna seu vizinho. O típico garoto da cidade, que nunca sequer viu um cavalo exceto pela televisão. E a típica garota do campo, de jeans e botas, apaixonada por cavalos.

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3. CAVALO PROBLEMA

 

Escute a música enquanto lê: 

Heartbeat - The Fray

 

 

 

 

 

CAPÍTULO 3 - CAVALO PROBLEMA

Eu não estava entendendo nada do que estava acontecendo ali! Nem esperei minha mãe estacionar o carro, simplesmente desci. Natalie também ficou sem entender nada, mas permaneceu no carro por ordens da minha mãe. Vi meu pai, que conversava com John, os dois pareciam preocupados. Escutei um pedaço da conversa antes de chegar a eles. "Ele está bem?" meu pai perguntou. "Ele vai ficar..só não está acostumado" ouvi John dizer. Quem não está acostumado com o que? Me perguntei. 

– Pai! - andei até ele. - O que tá acontecendo?

John trouxe três de seus cavalos para ficar aqui no haras por um tempo, mas um dele se soltou do cabresto e fugiu. - ele explicou.

– Eu trouxe meu sobrinho pra passarmos um tempo juntos, ele tem a sua idade por sinal. - John me dava detalhes.- Mas ele é da cidade e não sabe lidar muito bem com cavalos e quando pedi para segurar um dos cavalos, o cavalo empinou e tentou se soltar, e ele não conseguiu segurá-lo por muito tempo. -ele dizia sorrindo, meio que achando graça. - Desculpe por isso, Hank. - John se desculpava com meu pai.

– Não precisa se desculpar, John. - meu pai sorriu. John não tinha nada de culpa naquilo. -

– Certo, vou atrás do cavalo. - John disse.

– Não, deixa que eu vou. - me ofereci, eu realmente queria ir.

– Filha, esse cavalo é arisco, você pode se machucar. - meu pai tentava me impedir de ir.

– Pai, tudo bem. - eu tentei o confortar. - Eu levo jeito com cavalos.

– Isso não podemos discordar. - John disse sorrindo.

– Não se preocupe, eu vou ficar bem. - afirmei.

Meu pai estava pensando. Ele sabia que podia confiar em mim, e sabia que eu levava mesmo jeito com os cavalos. Mas ele não poderia me deixar ir sozinha, seria contra as regras do "manual dos pais".

– Muito bem...John, vá com ela por favor.

– Sem problemas. - John tocou a ponta de seu chapéu fazendo um cumprimento.

– Isso! - comemorei, fazendo um "high five" com John.

– E Samantha, tenha cuidado! - meu pai advertiu. Eu pisquei pra ele como que dizendo "tudo bem, não se preocupe", e ele sorriu.

Meu pai pediu para que alguns de seus empregados nos ajudassem na busca. Dois iriam pelo lado sul, outros dois pelo leste e oeste. Eu e John procuraríamos pelo lado norte do haras.

Selei Red, e John pegou um dos nossos cavalos já que a égua que chegou junto com o cavalo que fugiu estava à poucos dias de dar à luz, e o potro de três anos que veio com os dois ainda não era domado.

Não lembrava de John ter dito que tinha um sobrinho, e olha que eu o conheço desde pequena e nós conversávamos sobre tudo. Ele era quase um outro pai pra mim. Me perguntei onde o "garoto da cidade" estaria agora, já que não estava aqui para ajudar na confusão que ele mesmo criara. Imaginei que estivesse na casa ao lado, que era de John. Digo ao lado mas era a quase um km daqui. Era uma área de campo, as casas eram longes umas das outras devido aos grandes pastos e propriedades do haras. 

Cavalgamos durante alguns minutos em busca do cavalo. Durante esse tempo, John me descreveu o cavalo, para que, caso eu o visse, pudesse identificá-lo.

No Wyoming, vivem manadas de mustangues selvagens, então seria difícil distinguir um cavalo que eu sequer conheço de outros caso ele estivesse perto de uma manada de cavalos selvagens.

Pouco tempo depois, vi alguma coisa se movendo por perto, era um cavalo de pelagem escura galopando entre as árvores. E o cavalo batia com a descrição de John. Minha primeira reação foi sair da estradinha de terra e entrar no meio das árvores atrás do cavalo. Na hora nem me toquei que estava me afastando de John, só pensava em alcançar o cavalo.

Quando John se deu conta, eu já tinha quase sumido por entre a floresta de pinheiros.

– Vamos, Red! - eu pedia para que Red aumentasse a velocidade.

Eu tinha um plano. Depois da floresta havia o riacho e as cercas do limite do haras. Eu pretendia encurralar o cavalo lá, assim seria mais fácil pegá-lo. Mas galopar por entre as árvores não é lá muito fácil. Vez ou outra um galhozinho batia no meu rosto, até que um cortou minha bochecha.

Droga. - resmunguei. Não era nada sério, só um arranhão, mas estava ardendo.

Eu tinha me distraído com o arranhão e perdido o cavalo de vista. Diminuí a velocidade, não tinha porque continuar galopando. Agora restava continuar andando e prestar atenção, o cavalo não deveria ter ido muito longe.

John estava preocupado. Agora eu estava sozinha, atrás de um cavalo arisco. Eu poderia cair de Red, bater em uma árvore ou até mesmo levar um coice.

John estava tão preocupado que não conseguiu nem imaginar as possibilidades. Não poderia perder tempo em voltar para o haras e chamar mais homens para lhe ajudar a me procurar. Cada segundo significava minha segurança e John se importava demais comigo para desperdiçar um segundo sequer. Então pegou seu celular velho e discou o número de um de seus ajudantes, que vieram ajudar a trazer os cavalos.

– Preciso que me ajude! - John quase gritou ao telefone, desesperado. - A filha do Hank está por aí atrás do cavalo, eu a perdi de vista há alguns instantes. Preciso que mande alguns homens para procurá-la.

– Certo, senhor. Onde vocês estão? - o funcionário perguntou do outro lado da linha.

– Estamos do lado norte. - e John desligou.

Depois de alguns minutos já estávamos quase no limite da floresta. Então enxerguei o cavalo negro na beira do riacho, bebendo água. Red se inquietou, batendo a pata no chão.

– Shhh. - sussurrei - Não podemos assustá-lo.

Desci de Red e o puxei pelo cabresto na tentativa de não fazer barulho. Quando chegamos mais perto, decidi amarrar Red em uma árvore, assim eu poderia me aproximar mais do cavalo sem assustá-lo.

Ele era um cavalo lindo. Tinha a pelagem negra reluzente, a crina comprida e lisa, um corpo forte e tinha apenas uma macha branca na cabeça, que ia da testa até o focinho.

Me abaixei para não assustar o cavalo e fui me aproximando lentamente. Quando eu estava a mais ou menos dois metros do cavalo, suas orelhas se levantaram e sua cabeça se moveu em minha direção, e agora ele me observava. Parei, senti que não deveria me mexer. O cavalo ficou me olhando por um tempo, sem fazer nada, apenas observando. Tentei me aproximar mas dessa vez foi ele quem decidiu chegar mais perto. Abaixei levemente minha cabeça para não olhá-lo diretamente nos olhos, não é muito recomendável para animais ficar encarando. Então senti seu focinho gelado e molhado pela água, no meu ombro, me cheirando, reconhecendo. Concluí que o cavalo não veria problema se eu me levantasse, então o fiz, e ele apenas afastou a cabeça.

Ele era lindo, parecia ter saído de algum filme. Estiquei minha mão na tentativa de tocá-lo. Ele se afastou e empinou relinchando.

– Ei, calma rapaz. - falei suavemente. - Não vou te machucar.

Então o cavalo voltou a se aproximar, estava a poucos centímetros de mim. Estiquei minha mãe novamente e ele permitiu. Agora eu estava o acariciando. Sorri, feliz pelo que acabara de acontecer.
– Tudo bem rapaz. - eu ainda sorria igual uma boba. - Tudo bem.

Me virei e andei em direção a Red para pegar o cabresto extra que tinha trazido na sela, e o cavalo simplesmente me seguiu, mas não chegou muito perto de Red.

– Ei, você nem é tão bravo como dizem. - eu sorria.

Não podia ser verdade o que me disseram desse cavalo. Que ele era um "cavalo problema", difícil de lidar. Ele simplesmente parecia o cavalo mais dócil do mundo. Red que me desculpe.

Tirei o cabresto da sela e deixei que o cavalo o avaliasse antes de tentar colocá-lo. O estiquei um pouco mais em direção a sua cabeça mas ele a sacudiu, negando. Recuei.

– Calma, isso não vai te fazer mal, eu prometo.

Tentei outra vez e pronto, e ele aceitou. O olhei, curiosa. Ele talvez só precisasse de alguém que lhe passasse confiança, que o tratasse bem.

Pegamos o caminho de volta. O cavalo ficou amarrado pelo cabresto na sela de Red, com uma certa distância entre eles para evitar algum acidente. O sol batia forte em meu rosto, devia ser pouco mais de uma ou duas da tarde. Ouvi minha barriga roncar, então me dei conta de que não tinha almoçado, logo que cheguei da escola já tinha saído para procurar o cavalo. Me lembrei de John, eu o deixara pouco depois de sairmos, ele devia estar preocupado, meu pai também, minha mãe e Natalie, que a essas horas provavelmente já haviam sido informadas do meu "sumiço". 

Chegamos e a agitação que havia antes, não estava lá agora. Vi minha mãe andando pra lá e pra cá ao telefone. Desci de Red, desamarrei o cavalo e os puxei pra perto das baias. Amarrei os dois em postes separados.

– Samantha! - ouvi minha mãe gritar. - Hank, ela está aqui! - ela disse ao telefone, meio aliviada, meio furiosa. Pelo jeito ela já sabia de toda a história.

– Mãe... - não deu tempo nem de continuar, ela me abraçou de repente.

– Nunca mais faça isso! - ela terminou o abraço e passou a me olhar séria.

– Mas mãe, eu estou bem. - eu me defendi.

– Nunca mais, Samantha! - ela disse séria e voltou a me abraçar. - Entendeu?

– Entendi... - discutir pra quê né? Eu não ganharia mesmo.

– E o que é isso no seu rosto? - ela se referiu ao arranhão.

– É só um arranhão mãe... - não havia necessidade de tanto desespero.

– Você poderia ter se machucado, e sem o John por perto quem é que iria te socorrer?

– Eu sei mãe... já entendi. Não vou mais fazer isso. - eu sorri, por toda essa preocupação, quase toda desnecessária.

E ela me abraçou maaaais uma vez. Parecia que eu tinha sumido por dias, mas não foram nem duas horas, mas, como para toda mãe, até minutos são muito.

– Ah, que bom! - ouvi a voz do meu pai, que vinha à cavalo. - Você está aqui.

Ele desceu do seu cavalo e se aproximou de nós.

– Você está bem? - ele perguntou segurando meu queixo como ele sempre fazia, eu sorri.

– Estou. - respondi.

– Então não suma de novo! Você nos deixou preocupados! - ele disse e minha mãe concordou com a cabeça.

– Está bem...

– E agora me diga, você trouxe o cavalo sozinha? - meu pai perguntou sorrindo orgulhoso da filha, eu ri.

– Hank! - minha mãe protestou, para ela, aquela era hora de dar bronca.

– Marion... ela já aprendeu a lição. - meu pai falou e eu consenti com a cabeça, minha mãe revirou os olhos mas sorriu também.

– Estou orgulhoso de você. - meu pai disse sorrindo, minha mãe sorriu, também orgulhosa pelo meu feito, que pra mim não era nada demais.

– Eu só trouxe o cavalo de volta.

– Não, você fez mais que isso. - minha mãe sorriu pra mim. Passando de implicante à mãe orgulhosa.

Eu sorri, eu tinha gostado muito daquele cavalo, apesar de quase ninguém mais gostar. Eu senti nele uma vontade de ser compreendido, como se ele tivesse algo a dizer. Olhei para meus pais, eles se entreolharam.

– Acho que ela está pronta, Marion. - meu pai disse.

– Não sei não, Hank. -minha mãe discordou seja lá do que fosse. - Ela ainda é muito nova, ainda nem fez dezessete anos.

– Eu tinha essa idade quando comecei. - meu pai tentava convencê-la. - Ela está pronta!

– Pronta pra quê? - perguntei, confusa com tudo aquilo.

– Samantha, você gostaria de ser a domadora oficial do haras? - meu pai perguntou.

– O que? - fiquei pasma. - Vocês estão falando sério?

– Muito sério. - minha mãe confirmou.

– Eu... eu, não sei nem o que dizer... - eu não podia acreditar. Aquilo seria perfeito, tudo o que eu sempre quis. Eu já domava cavalos desde os doze anos, por diversão e para aperfeiçoar a técnica, mas eu nunca tinha "trabalhado" oficialmente como domadora. - Mas espera, e o domador atual?

– Bom, tive que demiti-lo. Ele fez umas coisas erradas. - meu pai explicou.

– Ah.. - nós nunca confiamos muito nele na verdade, então acho que já era meio que esperado.

– E agora o haras está precisando de um novo domador, no caso, uma nova domadora. - minha mãe disse, sorrindo.

Tudo que eu consegui fazer foi pular para um abraço. Eu era tão grata a eles por confiarem a mim uma tarefa tão significativa como essa.

– Obrigada. - eu disse, desfazendo o abraço. - Agora... eu vou guardar os cavalos.

– Faça isso. - minha mãe disse, se afastando, em direção a casa. - E depois venha almoçar, não vai ficar sem almoço não.

– Vou avisar John que você está aqui. - meu pai me disse e saiu.

Eu estava tão feliz. Eu não podia acreditar nisso, eu, a mais nova domadora do haras. Dei um pulinho para o alto, comemorando com um "yeah!".

Fui até Red primeiro e o levei para dentro de sua baia, tirei sua sela e sua cabeçada. Ele merecia uma boa recompensa pela ajuda que ele me deu hoje. Abri o "armário de mimos" e peguei um pouco de açúcar em cubinhos.

– Obrigada por hoje. - eu disse enquanto, com uma mão lhe dava o açúcar e com a outra, fazia carinho em seu pescoço. Beijei sua testa. - Vou cuidar um pouco do nosso novo amigo.

Fui até o cavalo negro e parei em sua frente. Aquele cavalo me intrigava, queria saber mais sobre ele. Fiz um carinho no seu focinho e o levei não para a baia, mas para um cercadinho para que ele pudesse ficar livre mais um pouco. Pelo jeito, aquele cavalo não gostava de ter sua liberdade privada. O soltei lá e fiquei do lado de fora, apoiada na cerca o observando. Ele era lindo.

– Então aí está a fujona. - ouvi uma voz atrás de mim.

– John! Me desculpa por ter saído daquele jeito, foi o que me passou pela cabeça na hora. - eu me desculpei, eu realmente devia isso.

– Isso não importa. - ele sorriu. - Mas ficamos preocupados com você.

– É... eu sei. - voltei a olhar o cavalo. Ficamos segundos em silêncio, só olhando o lindo cavalo negro se mover pelo cercado.

– O nome dele é Thunderhead. - John disse, sem tirar os olhos do cavalo.

– Thunderhead?

– Sim, por causa da mancha branca na testa.

– Thunderhead... - eu pensei. - Ele é lindo.

– Sim. - John apenas concordou.

Thunderhead. O cavalo problema. Não parecia pra mim, nem um pouco. Talvez porque eu ainda não o conhecesse direito, mas eu pretendia.

CONTINUA...

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