Belo Desastre De Natal

Ela não tinha nenhum motivo para acreditar no Natal, mas nunca desistiu dele. Ele estava entre o parapeito e o abismo, e ela era a distância entre eles.

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1. Belo Desastre de Natal

Não tinha um motivo para que eu acreditasse no natal, ou em sua magia, foram nas vésperas de natal que eu perdi tudo aquilo que eu mais amei. Mesmo assim, eu nunca deixei o espírito natalino morrer dentro de mim. Foi na noite de Natal, há alguns anos, o pior dia da minha vida. Nós estávamos indo para a casa da minha vó, um alce passou à frente do carro e meu pai tentou frear, mas o carro deslizou, nem o alce, nem meus pais ou sequer meu irmão sobreviveram.

            Lembro-me de abrir os olhos e ver o rosto de um homem, com seu filho ao lado, tentando a todo custo me manter viva. Ele me acompanhou até o hospital. Repetia as palavras “tudo vai ficar bem.” Inúmeras vezes. Não tinha como tudo ficar bem, eu perdi quase tudo naquele natal.

            O homem era médico, pude perceber no dia seguinte. Vi-o entrar de jaleco. Sua expressão estava mais serena que no dia anterior.

            - Ei, princesa, está melhor? – Forcei um sim com a cabeça. – Sabe, ás vezes nem tudo sai como o planejado. Mas você me deu o melhor presente que alguém poderia dar. E recebeu o melhor também. – Eu não o entedia, não havia nada de bom para dar, não recebi nada bom tambem.

            Algo naquele homem me passava uma confiança incrível. Ele tinha olhos que me encantavam, e foi por ele que eu prometi para mim mesma que continuaria a acreditar no natal, com ou sem presentes, com ou sem qualquer motivo para ter esperança. Porque? “Sempre há uma luz no fim do túnel, você só não pode desistir de encontrá-la.” Foram essas as palavras que aquele homem me disse, o tal médico, que por menor que tenha sido nossa convivência me ensinou a acreditar e nunca desistir.

            Dois anos depois, um assistente social me separou da minha vó, em plena véspera de natal. E trouxe-me para cá. Não posso reclamar de como me tratavam, nem dizer que tinha esperança de ser adotada, queria completar meus dezesseis anos e receber a minha emancipação.

            E eu nunca desisti da minha chama, mas não achei a minha luz. Só que ela estava mais próxima que nunca.

24 de dezembro. Orfanato de Bankoff Hill. 10:55

Todos os anos, um garoto deixava no orfanato brinquedos novos, ele podia comprar mais brinquedos para si, mas sempre os deixou lá. Aquele garoto salvou o meu natal, várias e várias vezes. Ele era o meu Natal. Ficava na janela, observava os cabelos castanhos do garoto todos os anos, os mesmos olhos verdes. Ele reacendia minha chama todos os anos.

- Ally! – A irmã Sarah me chamou. – Desça aqui, tem um telefonema para você.

- Sim, madre. Já estou descendo. – Respondi e desci a escadaria. – Feliz Natal. – Desejei assim que cheguei e depositei um beijo em sua testa.

- Feliz Natal, filha. Tem alguém que quer falar com você.

Não recebia ligações com muita frequência, raramente alguma de minha vó. Atendi um pouco desconfiada.

- Allison Reed. – Uma vez masculina disse do outro lado da linha. – Sou Patrick Clarck, do juizado de menores. Parabéns, garota, sua solicitação de emancipação foi aceita. Parabéns, Allison, você agora é considerada de maior. – Estava feliz, era um belo presente de natal. Sentiria saudade das crianças, das irmãs, mas jamais as esqueceria. Foram sete anos neste orfanato. E não era monstruoso, longe disso, era incrível, nos tratavam muito bem. – Ainda hoje, o assistente social estará ai para te levar a sua antiga casa. A sua conta bancária também será desbloqueada.

- Hm... Sr. Clark, mas é natal, eu tenho deveres a cumprir com o orfanato, com as crianças, entende? – Não tinha pressa de sair do orfanato de Bankoff Hill. Afinal, foram sete anos aqui, e também não teria nada para fazer em minha antiga casa.

- Como quiser, Srta. Reed, você é quem manda. Amanhã ás 11:30 lhe parece conveniente?

- Sim, senhor. Muito obrigada, feliz natal.

- Adeus, Srta. Reed. – Ele respondeu simplesmente, senti pena. Mas desliguei o telefone.

24 de dezembro. Orfanato de Bankoff Hill. 20:12

A ceia começou, era um dos poucos momentos do ano em que se tinha fartura, e isso fazia as crianças tão felizes. Começamos com a reza e agradecemos pelas crianças que agora tinham uma família, pela comida de todos os dias e cada um de nós fez seu desejo de natal. O meu? O de sempre: Que minha vó esteja bem, e o bom “velhinho” não nos decepcione.

Depois de todas comerem, agradecerem e se divertirem com as gincanas de natal, colocamos as crianças menores para dormir, ao acordar esperávamos que seus presentes estivessem lá, para diverti-las.

Sentei-me junto ás irmãs. Elas estavam felizes por mais um natal com as crianças. Por tudo aquilo.

- Tenho um comunicado a fazer. – Elas todas pareciam já ter conhecimento, mesmo assim uma delas fez sinal para que eu prosseguisse. – Recebi minha emancipação legal e vou deixar vocês em breve. Queria agradecer por tudo.

- Não agradeça, filha, nós agradecemos a Deus por ter te colocado em nossas vidas. E nos alegrado por todos esses anos. Foi um belo presente de Natal. – Sarah, a mais velha, e a que me acolheu em meu primeiro dia, falou emocionada.

Já era quase meia-noite, como de costume cantaríamos uma música de natal à frente da casa. Cantamos Bate o Sino Pequenino como manda a tradição. Recebemos alguns trocados, os maiorzinhos dormiram também.

25 de dezembro. Orfanato de Bankoff Hill. 01:24.

Um carro preto estacionou, uma mulher saiu dele, pegou o saco dourado cheio de brinquedos, sim, o saco dourado que ele sempre trazia. Mas dessa vez o garoto não estava lá. Aquela mulher me era familiar. Ela parou há alguns metros da porta, ela suspirou. E tive a impressão que chorava.

Uma das irmãs, que reconheci por Mônica, abraçou a mulher e agradeceu. Eu não entendia mais o que estava acontecendo. A mulher andou em direção ao carro. Eu continuei ali, esperando por ele. Ficaria ali até ele chegar.

- Ele não vem, filha. – Irmã Sarah disse, eu virei para observá-la. – Ele não acredita mais. – Ela suspirou.

Era como se o destino desejasse com todas as suas forças que eu desistisse do natal, sempre que algo bom acontecia, algo muito ruim retirava minha alegria, era meu último natal no orfanato. E ele estragou isso. A ausência dele estragou isso. Uma lágrima solitária escorreu por meu rosto.

...

O natal era a minha época favorita do ano. Porque eu podia fazer pessoas felizes. Eu podia experimentar a bondade de meu pai. Desde pequeno, aprendi a levar os presentes ao orfanato todos os anos, não porque me obrigassem, mas me fazia feliz saber que no dia seguinte crianças acordariam e iriam sorrir. E eu daria esperança a elas. Manteria o natal vivo dentro delas.

Há um ano, tudo mudou. Voltei do orfanato, mas não sem antes olhar para a garota, na janela. E como sempre ela estava lá, os nossos olhares se cruzaram por um instante. Troquei algumas palavras com as irmãs, deixei o saco dourado e sorri. Aquele sorriso contagioso, um de despedida. Uma delas olhou para mim, se não me confundo era Sarah, ela sabia do diagnóstico. Desejou-me sorte. Eu não me importava. Segui em direção ao Audi preto, mas não sem antes olhar para aquela janela novamente e fazer o mesmo que a garota fazia, sorrir, eu me despedi mentalmente. Meu peito já doía, mas ninguém precisava saber dessa dor. A admirei por alguns segundos, era tão cheia de vida. A dor aumentava a cada segundo, mas eu continuei a lhe olhar, e desejei um feliz natal. Um ótimo natal aquela garota. Me perdoa? Sim, essa foi a pergunta que fiz olhando para cima. Eu não estaria lá no ano seguinte.

Entrei no carro, as coisas pioravam a cada instante, mas era noite de natal e eu não tinha o direito de estragar a noite de ninguém. Cheguei em casa, cada passo uma pontada forte e intensa, mas aquilo não me assustava, eu não tinha medo da morte, assim como meu pai.

Depositei um beijo na testa de meu pai. E sussurrei um “eu te amo”. Ele me abraçou com todo o calor que podia.

- Feliz Natal, pai. Você é o homem mais incrível que já existiu. – Minha voz saía fraca. Pude perceber uma lágrima rolar por seus olhos.

- Feliz natal, filho. Eu te amo, me orgulho muito de você.

Tudo começou a girar, mas não queria preocupar meu pai, então reuni todas as minhas forças e subi as escadas que dariam para os quartos. Não cheguei ao meu quarto, meus joelhos fraquejaram, não tinha mais força. Eu senti que aquele era o fim.

Mas aquele foi apenas o começo do fim, o começo da minha ruína.

Eu podia ver minha mãe, sim era ela, eu sabia que era ela, repleta de luz, ela estava acompanhada por uma mulher que usava um manto longo e cobria seu rosto. Cada vez mais sua luz foi se afastando e o escuro me envolveu.

Quando abri os olhos, um médico amigo de meu pai, estava com olheiras profundas. O analisei por alguns segundos. Onde estaria O Carter, obviamente ele estaria ali por seu filho em seu leito de morte.

- Descanse. Amanhã contarei tudo o que precisa saber. – Eu preferia ter morrido, o que viria a seguir foi o que me matou, o que apagou todas as luzes.

- Você tinha um câncer raríssimo benigno, mas mesmo assim fatal. – O homem dizia o que eu já sabia. – O câncer de coração, já estava em um estágio avançado. Você não resistiria por muito tempo. Você é forte, campeão. – Ele fez uma pausa, sua voz falhava. – Seu pai... Josh, ele era compatível. Salvar vidas era o que ele fazia. Deixar o próprio filho morrer não era uma opção, ele tinha certeza do que estava fazendo. – Eu entendi que meu pai morreu. E a culpa era toda minha.  

25 de dezembro. Bankoff Hill- Hospital. 11:32 – Por ELE

Doeu meu coração deixar as crianças esse ano. Não era só porque eu não acreditava que eu tinha o direito de estragar o natal de tantas crianças. Então falei para Maria, levar os presentes esse ano.

Eu não tinha motivos para acordar todos os dias. Qualquer força que me movesse se apagou com o diagnóstico, o coração que batia dento de mim era o dele. Como se não bastasse perder meu pai recentemente, eu perdi a minha própria vida, eu fui o culpado por tudo aquilo. E se era isso que o destino queria, acabar com a minha vida, eu acabaria com ela primeiro.

Passei no hospital antes de fazer qualquer coisa, precisava ter meu pai por perto nem que uma última vez. Ele amava aquele hospital, amava salvar vidas. Isso fazia ele feliz. Ele morreu feliz, fazendo o que amava. E eu morreria feliz, na minha época favorita do ano. Com um ótimo presente, saber que fui o culpado pela morte do melhor homem que já conheci. E que mesmo assim eu poderia morrer a qualquer momento.  

Olhei para o quarto que meu pai escolheu para passar os seus últimos segundos de vida, o mesmo quarto em que ele passava todos os natais há sete anos. Eu sabia que não era isso que ele queria que eu fizesse, talvez meu pai se decepcionasse comigo. Mesmo assim peguei o carro e me dirigi ao Imperial Palace, o prédio mais alto de Bankoff. Estava pronto para alegrar meu destino, dar a ele o presente que ele queria. Estava pronto para morrer.

25 de dezembro. Bankoff Hill Imperial Palace. 13:42

Talvez eu realmente tivesse me esquecido de como o mundo é horrível, estava há duas horas e alguns minutos livre. E o que eu via? Bombeiros, policiais e uma multidão de gente em frente ao Imperial Palace. E era dia de Natal. Era um contraste muito grande deixar as crianças sorrindo, para ver essa cena. Pessoas corriam para todos os lados. Respirei fundo, olhando para Mark, o motorista que veio me buscar. O homem era grisalho, tinhas olhos castanhos bonitos e parecia se estressar com trânsito.

- Mil desculpas, Srta. Reed. O trânsito está um inferno. – O olhei assustada pelos termos, mas me lembrei que era uma gíria popular.

- Tudo bem, Mark. O que está acontecendo?

- Me parece que algum maluco, sem amor à vida, decidiu ter seus minutos de fama se jogando do Imperial Palace. – As irmãs sabiam que o mundo era assim do lado de fora? Assustador, era como eu descrevia essa cena.

- Ninguém faz nada? Vão deixar ele morrer?

- Srta. Reed, esse é o mundo real. O que todos querem é vê-lo cair.

- Um minuto. – Peguei o celular e disquei o número de Sarah. Após tocar três vezes a irmã atendeu. – Sarah, é horrível, tem um moço querendo pular do Imperial Palace, e é isso que o público quer ver. Como podem ser tão horríveis?

- Sim, filha, este é o mundo real. Não posso ajudar. Mas você pode. Ensine a essa pessoa a ter amor à vida. – Eu não tinha esse amor todo pela vida, mas com certeza queria ajudar aquele homem. Talvez o meu natal ser ruim, não significava não desejar um ótimo natal a todos.

- Obrigada. – Falei simplesmente e desliguei o celular. – Vou descer aqui. – Avisei a Mark que ficou confuso. Desci correndo do carro. Passei ente os jornalistas e espectadores. Até ser barrada por um policial.

Por alguns segundos observei, a pessoa no prédio, como se já fosse fácil decidir pular, helicópteros ainda atrapalhavam o equilíbrio do rapaz. Os telões exibiam seu rosto. E foi ai que percebi... Não era qualquer pessoa. Era o meu anjo de natal, o meu papai Noel. Era ele. Aqueles olhos verdes brilhantes, me pareciam sem vida. Todos esses anos ele salvou o meu natal, e essa seria a minha vez de dar um presente a ele: A vida. E a vontade de viver.

Entrei no prédio discretamente, enquanto os policiais se concentravam em dar entrevistas. O elevador nunca me pareceu demorar tanto. Subi 43 andares de elevador e então os últimos dois de escada. Ao passar pelo 44° andar pude ouvir policiais e bombeiros conversando com o rapaz. Eu não tinha nada a perder. Subi até o terraço.

Ele abria os braços, eu sentia que estava chegando o momento em que ele iria pular. Então segurei seu braço.  Loucura? Loucura seria deixar alguém morrer e não fazer nada para impedir.

- O que você está fazendo aqui? Eu falei que se alguém mais subisse eu me jogava imediatamente.

- Se você pular, eu Josh junto com você. E tenho certeza que você não quer ser o culpado pela morte de uma jovem de 16 anos.

- E o que você tem a ver com isso? – Mais do que ele imaginava.

- Me escuta? Me dê alguns segundos. – O garoto concordou com a cabeça. As luzes focavam em nós, sabia que neste momento muitas câmeras filmavam-nos. Mas não me importava mais.

- Você tem três minutos. – Ele falou e programou seu relógio. Meu coração disparou. Sentei-me no parapeito. E comecei a contar a minha história de vida. Os meus motivos para continuar. Contei tudo o que me lembrava, tudo o que me contaram.

- ... Sabe ás vezes você tem todos os motivos do mundo para desistir. Parece que você está perdido em um labirinto escuro e que por mais que tente achar qualquer luz. Não há nada lá. Então você senta e pensa em desistir de tudo. Nesse labirinto há criaturas que farão de tudo para te fazer ficar lá afundando cada vez mais. Então você pode desistir ou encontrar uma chama que te faça continuar. E você acendia minha chama...

- Como assim? – O garoto perguntou simplesmente.

- Sabe o orfanato onde você deixava os presentes? – Ele assentiu com a cabeça e eu resolvi continuar. – Eu morava lá, até hoje. O meu natal sempre foi um desastre. Sete anos atrás foi o pior. Meus pais e meu irmão morreram em um acidente. E eu me senti neste... – O som do relógio tocou e eu o olhei, preocupada. E pela primeira vez o garoto sorriu. Sorriu e jogou o seu relógio no chão.

- É uma bela queda... – Ele disse. – Continua.... Eu gostei de você... Quero escutar.

- Eu me senti neste túnel, mas um médico, que me salvou no acidente me ensinou algumas coisas. E me disse que eu dei o melhor presente de Natal a ele. Eu não entendia. Mas hoje quando eu vi você aqui... – Uma lágrima escorria pelo rosto do rapaz. – Eu entendi que ás vezes o melhor presente é a vida. Mesmo a vida de alguém que não quer mais viver, ainda sim é uma vida e nós temos que lutar por ela.

- Allison Reed. – Ele falou e eu o olhei espantada. – Esse médico é meu pai e ele morreu. Por mim. Foi tudo culpa minha. Ele morreu por mim. A sua, foi a primeira vida que ele salvou. – Então veio a minha cabeça o acidente de carro. O garoto agarrado a perna do pai, aqueles olhos verdes. Sim, era ele. Era engraçado como nossos destinos se enroscaram mesmo que não soubéssemos disso.

- Sinto muito. – Falei sincera. – Vem comigo...

Um sinal de não com a cabeça. O garoto olhou para baixo. Meu coração disparou novamente.

- Você tem uma vida inteira pela frente... Não vai pular comigo.

- Vou. Porque você tem uma vida inteira pela frente. Nós estamos no mesmo barco. – Ele suspirou brevemente.

- Já fui o culpado pela morte de meu pai. Não quero que morra por minha culpa. Mas esse é um direito meu...

- Ei, presta atenção. Tudo vai ficar bem. Se ele morreu, para que você vivesse, você não pode deixar que a vida dele seja em vão. – O garoto assentiu.

- Ninguém vai notar. Não precisam de mim. O meu pai era O Carter. Eu sou apenas eu.

- Eu preciso de você. Para reacender as chamas que seu pai deixou em mim. – O garoto chorava. – Quer me contar o que aconteceu? – Eu precisava ganhar tempo, tempo o suficiente para que os bombeiros montassem o esquema ou algo do tipo.

- O meu coração não deveria mais estar batendo. Foi há exatamente um ano, quando eu voltei do orfanato, ele parou, e ainda naquela noite, tinha um novo dentro do meu peito. Eu fiquei feliz por estar vivo, mas quando descobri que uma vida foi tirada para que eu sobrevivesse e essa vida era a vida do meu pai, eu preferia ter morrido.

- Fui um belo ato. – Falei sorrindo. – Ele te deu um presente de Natal. - O garoto não me respondeu. As lágrimas já escorriam livremente por seus olhos.

Desci do parapeito e o abracei. Precisava mostrar a ele o quanto eu me importava. Ficamos assim por algum tempo. Os helicópteros já haviam se afastado, mas ainda muitas câmeras nos filmavam. Lá em baixo a multidão estava curiosa.

- Você confia em mim? – O garoto assentiu e colocou sua cabeça em meu ombro novamente. – Então vem comigo... Eu preciso de você. – Nós estávamos juntos há cerca de trinta minutos, mas eu não estava mentindo. Eu precisava dele.

Ele segurou a minha mão, olhou para baixo novamente. Logo depois olhou para o céu.

- Me perdoa? – Ele cochichou, para o alto. Sem resposta ele olhou para mim. – Você me perdoaria por pular?

- Jamais. Te odiaria até o último segundo.

- Então também não iria ao meu funeral... Ninguém iria, a não ser que eu pagasse. – O garoto suspirou.

- Em plena noite de natal? – Falei irônica. – Nunca. – Completei. – Eu não vou ao seu funeral, porque não quero que você morra.

Um silêncio se instalou entre nós, a minha tensão só aumentava. Então ele riu irônico.

- Você não sabe o meu nome. – Ele disse simplesmente. Era impressionante como ele não tinha medo. Estava à metros do chão, a queda seria fatal, mas em nenhum momento ele se segurou no parapeito, ou mostrou ter medo de cair. Seus pés não estavam inteiramente no terraço ele estava entre o parapeito e o abismo. E eu era a distância entre eles. Em um momento tão tenso ele falava coisas com simplicidade e calma. E em alguns segundos, tudo mudava, e eu tinha que mudar com ele. – É Josh. Caso você queira saber... Josh Carter.

- Agora você já me disse seu nome, não pode mais pular. – Ele me olhou confuso. – Sabe, dói mais ler no noticiário o nome da pessoa que morreu e saber que você esteve lá e não pode evitar. Além do mais, se você pular Josh, o meu espirito natalino cai junto com você. Eu vou me perder na escuridão novamente. Eu preciso de você.

- Eu não quero mais pular. – Ele falou em um tom suave. Como se já tivesse tomado essa decisão há algum tempo. – Sabe... Você acendeu a minha chama.

Ele abriu os braços novamente, pura hipocrisia, estava dando os sinais de que ia pular, mas ele se virou com todo o cuidado do mundo. E passou para o terraço.

- Você me deu um presente de natal, Allison Reed. Você me faz ter vontade de viver.

- Não, Josh, você me deu um presente de natal, você me deu a sua vida. Deu um presente ao seu pai, horando a vida dele. – O garoto voltou a chorar e desabou sobre seus joelhos.

Eu abaixei com ele, acariciei seus cabelos.

- Como pode? Uma menina surgir do nada e fazer você desistir de uma promessa que fez para si mesmo. Fazer você amar a vida?

- Não fui eu, Josh. Você não queria morrer, sua vida não podia acabar.

- Posso te dar um presente de natal? – Assenti com a cabeça e ele depositou um beijo em minha testa. E logo beijou minha boca. Um beijo doce e suave como o de um anjo.

Descemos do prédio e fomos abordados por muitos repórteres. Muitos perguntavam se aquilo fora enganação, um milagre de natal ou algo do tipo.

Por ELE

Não era como se tivesse medo de pular. Mas as forças que me empurravam, não eram mais fortes que aquela menina, o seu jeito de falar. Eu sabia quem ela era, perfeitamente. Ela era a garota da janela, a menina do acidente. Ela salvou meu pai uma vez, ela o fez acreditar no natal. Ela estava me salvando agora, ela me fez acreditar na vida, ela acendeu aquela chama. E esse foi um presente que dinheiro nenhum poderia comprar. Fama nenhuma me daria, tamanha gratidão. Eu não podia estragar o natal daquela garota mais uma vez. Dessa vez não.

Eu desci do parapeito para o terraço e olhei no fundo dos olhos daquela garota. Eu via verdade em seus olhos. Eu precisava dela, era como se ela fosse o fogo e eu estivesse com a vela nas mãos. Bastava acende-la.

Ela me fez querer viver, para saber cada detalhe de sua história. Viver para protege-la. Viver, para que ela acreditasse no Natal. Para mostrar que não presente maior do que simplesmente acreditar.

25 de dezembro. Bankoff Hill- Casa da Vó. 19:37

            Bati na porta, agora não era só uma chama dentro de mim. Eu encontrei a luz. Não só em Josh. Mas em ter minha vó de volta. Ela abriu a porta, a aparência cansada e tristonha deu lugar a um sorriso.

            - Minha neta... – Ela me abraçou com toda força que podia. – Nem posso acreditar que é você. – Algumas lágrimas se espalharam por sua face.

            - Vó, esse é Josh. Josh Carter. – Minha vó sorriu.

            - Sinto muito por seu pai, filho.

...

Por ELE       

- Ainda não é tarde para desejar feliz natal. – A garota disse simplesmente. – Feliz natal! – Ela sorriu.

            - Feliz natal. – Conclui, selando seus lábios com mais um beijo. Quem viu a cena no Imperial Palace, não imaginaria que acabaria assim, não na vida real, tudo estava bem.

(Coloque- Don’t Let Me Go)

25 de dezembro. Igreja de Bankoff Hill. 21:00. Sete anos depois.

            Estava aflito, não sabia o porquê. Todos estavam lá, as irmãs e crianças do orfanato, Maria, Mark, os médicos do hospital e alguns poucos amigos meus. Meu pai estava lá, eu sabia disso. Ele sempre estava lá. Foi ele que a colocou na minha vida. Todos que realmente importavam. Então ela entrou com a sua vó. Estava linda, mais do que nunca. Eu sorria e ela também.

            Ela se aproximou de mim. Meu coração disparou, mas não eu não estava morrendo. Não dessa vez. Ela tinha os olhos bonitos. Minhas mãos suavam.

            - Á meia noite de hoje, celebrávamos o nascimento do menino Jesus, e hoje celebramos a união de dois jovens que mesmo tendo todos os motivos para desistir... Encontraram força em seus familiares, mas principalmente em si mesmo. Deus já abençoou essa união.

            Sem muita de longa, trocamos os nossos votos de casamento.

            - Josh Carter estava entre o parapeito e o abismo, eu era a distância entre eles. Acho que seu pai tinha um plano para nos unir, eu precisava de você, porque você era a minha chama, a minha luz, aquilo que eu lutei a vida toda para conseguir. Você Josh Carter é o melhor presente de natal. O meu anjo de natal. Valeu a pena lutar, porque agora eu serei eternamente feliz por ter você ao meu lado.

            - Allison Reed, eu lembro de você me observando na janela, eu sempre soube que era você. E foi no momento em que segurou meu braço que eu desisti de pular. Por mais que meu corpo quisesse se libertar ao cair dali. Você estava lá e tirava toda a força que eu tinha para pular. 14 anos atrás você deu ao meu pai o dom de salvar vidas. E a partir de hoje, eu estarei aqui por você e você por mim. Eu pertenço a você, meu amor, você pertence à mim. Meu anjo de natal. Me perdoa?

            O padre sorriu:

            - Eu, Josh Carter, prometo ser-te-fiel, amar-te e respeitar-te na saúde e na doença até que a morte nos afaste. – Sim, eu mudei a promessa. – Porque juro a ti meu coração além dessa vida.

            - Eu, Allison Reed, prometo ser-te-fiel, amar-te e respeitar-te na saúde e na doença até que a morte nos afaste. Porque juro a ti meu coração além dessa vida.

...

            A irmã Sarah, com a ajuda do casal aumentou o orfanato. As crianças cresceram e cada vez mais pessoas entravam para a vida dos dois, e cada vez mais eles acediam as chamas de alguém. Allison e Josh tiveram três filhos e adotaram cinco. A vó de Ally morreu aos 104 anos, realmente uma grande mulher. Allison morreu aos 74 anos em suas bodas de ouro. Ele encontrou em seus filhos, uma chama, e viveu mais sete anos. Deixou gravado na lápide de mulher “Feliz Natal, Allison, a chama de esperança que deixou em cada um de nós, jamais irá se apagar, brevemente estarei contigo.” Encontrou com ela no céu em uma noite de natal, ela estava lá, o esperando como sempre. E ele chegou. Deixando missão cumprida em terra. Ao lado de sua esposa podia ver seu pai. “Me perdoa?” Foram suas últimas palavras, dirigidas para seus filhos e netos. Mas dessa vez ele estava perdoado, e seu funeral não estava vazio, em pleno 25 de dezembro.

            Eles acreditaram no Natal, acreditaram em suas chamas. Acreditaram que a magia do natal está em cada coração, em cada pessoa que acredita e que não vai desistir

Os dois ensinaram que desistir não é uma opção. Você pode estar perdido em um labirinto escuro, com monstros que fazem de tudo para te manter ali, mas você encontra dentro de você uma chama, um alguém, um grande motivo que te faz levantar, os primeiros passos são duros, você se questiona o porquê deles, mas você pensa em sua chama que cresce cada vez mais dentro de você, e encontra o fim do túnel, a saída do labirinto e lá há uma luz. E cada passo, cada sofrimento passa a valer a pena, porque você se sente finalmente feliz.

 

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