Stage Lovers


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4. Tecnicamente Namorando

Então era isso. Tinha acabado. Nossos sonhos, nosso futuro. Tudo desapareceu como fumaça. Foi tão rápido... como eles tinham recusado sem nem tentar ver a recepção da mídia?

Abracei Liz. O mais forte que pude. Ela chorava tanto que já nem fazia mais barulho, só gritava em silêncio. Eu estava tentando sentir alguma coisa. Mas não conseguia. Simplesmente não sentia nada. Minha mente era um vazio. Perdido. 

- O que.. - Liz soluçava - O que nós v-vamos fazer agora.... Natalie??

Pausa para respirar.

- Shh... Vamos dar um tempo. Você não tá em condições de pensar nisso. - respondi enquanto separava do abraço para ficar face a face - Nós vamos dar um jeito, mas não essa noite.

Ela concordou com a cabeça e me abraçou de novo. Aquilo era um grande problema. Liz sempre era a mais confiante e era exatamente por isso que era a que mais se desapontava. Não que ser confiante seja um problema, mas o excesso de animação dela.... Quanto mais alto, maior a queda, certo?

Liz ficou um bom tempo chorando. Vê-la naquele estado me deixava depressiva. Nem eu conseguia pensar direito. Levou uma longa conversa sobre o desenho que passava na TV e uma dose de chocolate para Liz finalmente limpar as lágrimas e se acalmar. Peguei as chaves do carro e desci com ela até o estacionamento do prédio. Lá fora a chuva que eu tinha previsto naquela manhã caía. Talvez eu virasse a mulher do tempo caso "ser cantora" não desse certo. Tá. Sem piadas.

Acompanhei Liz e tentei conversar durante o caminho até o quarto dela. Eu tinha uma cópia da chave da casa de Liz, os pais dela haviam me dado alguns anos atrás quando anunciei que iria morar num apartamento. Eles também tinham me convidado para morar com eles, mas como já é óbvio... Eu recusei. Mas toda essa baboseira é história pra outra hora.

O tempo que levei para acalmar Liz foi o suficiente para a noite chegar. Nenhum sinal dos pais dela na casa. Ela se jogou na cama e abraçou o travesseiro. 

- Você vai ficar bem por hoje?

- Acho que vou.. - sorriso fraco - Meus pais voltam logo.

- Tá. Liz... A gente vai dar um jeito. Não se preocupa, ok? Descanse por hoje. Qualquer coisa, me liga. 

- Tudo bem, Natalie.

Dei um sorriso para confortá-la e fui para o carro. Dirigindo de volta para meu apartamento, minha mente voltava a funcionar aos poucos mesmo com o rádio ligado no volume médio. Incrível. Tinha sido hoje que James e eu fomos até aquele café e conversamos como amigos antigos?? Eu até tinha me esquecido disso.

Mas minha cabeça não parou só nessa pegunta. Como íriamos colocar nossa carreira para funcionar agora? Estava tudo perdido? Assim, do nada? E eu tinha me esquecido de que mais do que nunca agora teria que correr atrás de lugares para aquelas apresentações baratas.

Mas tudo parou.

Então agora vamos de música inédita! Depois de muitos pedidos, vamos tocar para vocês o cover dessa banda do X Factor, Stereo Kicks! 


Stereo Kicks? Era. Era. Era a banda dele? Eu nunca tinha ouvido eles cantarem já que a única oportunidade que tive, havia desperdiçado indo ai banheiro por causa daquela gripe. Quase ri. Uma gripe havia começado tudo isso. Acho que estava começando a ficar grata!

Os toques de piano começaram e logo reconheci a letra. Just The Way You Are estava tocando na rádio. Dava para perceber claramente quando outro garoto começava a cantar. Mas eu soube. Deus, como eu soube quando a voz de James se tornou audível. Aquela voz me fez sorrir automáticamente mesmo sendo a primeira vez que eu a ouvia. Naquele momento eu havia esquecido completamente dos meus problemas. 

Só sei que quando a música acabou, estacionei o carro o mais rapido que pude e subi correndo para o apartamento. Coloquei meu pijama e pendurei a bolsa que deixara cair antes de receber a notícia que, agora não parecia tão cruel assim. Liguei o notebook em cima da cama, em meio as cobertas e procurei por "Stereo Kicks" no YouTube. Nem me preocupei em colocar os fone de ouvido. Deixei a som alto mesmo. Eu não ligava. 

******

Deitada na cama, meu coração batia rápido. O sorriso era inevitável e cobria quase todo meu rosto. Aquele definitivamente era meu recorde: guardar 8 nomes na cabeça numa noite só.

Passava um pouco da meia noite. E aquela quinta-feira louca havia ido embora. A agitação era tanta que nem conseguia fechar os olhos, só ficava virando de um lado para o outro. Tudo parecia desconfortável e já sabia que não dormiria assim. 

 Levantei da cama e coloquei Let It Be/Hey Jude para tocar num volume mais baixo. Eu não ligava, mas também não queria arranjar encrenca na madrugada. Deixei o celular em cima do balcão enquantoo abria a geladeira. Meu pequeno tédio ficou desapontado quando vi que não havia muita coisa para comer. Peguei uma garrafa de água e fui para o quarto. Ouvindo a música e olhando as luzes da cidade pela janela senti uma tristeza. Vinha como uma onda. Se eu tinha falado sobre Liz e sua alta queda... A minha já estava a caminho. Talvez eu estivesse errada. Talvez sofrer em silêncio no começo seja pior. É como se guardar tudo o que você sente pra depois fosse pior, já que voltava mil vezes pior. Minha mente ficava sussurrando coisas. Você nunca vai conseguir. Por que ainda tenta seguir essa carreira idiota de cantora? Não percebe que isso não é pra você? Quem você pensa que é? 

Não demorou para meus olhos se umidifcarem e meu coração apertar. Agora que eu pensava, era pior. Eu via a montanha de problemas que havia se formado na minha vida. 

Apertei o travesseiro contra o rosto e aquilo foi o suficiente para meu corpo entender que eu podia gritar e chorar o quanto quisesse. Quanto mais chorava, mais lembrava de Liz dizendo que tínhamos sido rejeitadas e isso me fazia encolher na cama, em meio as cobertas, como se elas pudessem me proteger da dor. E então nada. 

Minhas lembranças daquela madrugada acabaram ali. O sono foi tão profundo que na manhã seguinte meus olhos estavam pesados demais para se abrirem. Meu corpo parecia exatamente como naqueles dias que estava gripada. Não queria levantar da cama. E nem iria. 

Abracei o travesseiro de novo e teria pegado no sono se não fosse aquele toque maldito do celular. Nem vi quem era no visor, apenas atendi.

- Bom dia! Se prepara, tenho compromisso importante para nós duas. E advinha só, a companhia é a melhor!

Aquela era... Liz? Ela só podia estar brincando. Nossa chance com a gravadora havia ido embora, ela já estava de bem com isso???

- Natalie? Natalie?!

- Me deixa.

Murmurei com a cara enterrada no travesseiro. Eu não entendia como ela tinha ânimo. Eu queria ter pais para me sustentar, para me apoiar. Ela tinha e será que era por isso que se recuperava assim tão rápido? Pais. Meus olhos ficaram quentes de novo. 

- Naaatalie, qual é, garota! A gente não conseguiu com aquela gravadora, mas a gente ainda pode tentar outras coisas. Já tenho meus planos em mente. Então vá se arrumar. Nós estamos passando aí daqui quarenta minutos.

- Nós? Nós quem, Liz? Liz? Liz!

Ela já tinha desligado. Bufei. Só queria continuar na cama e chorar o dia todo. Talvez dormir. Não iria com Liz e seja mais quem a lugar algum.

Não iria.

Não adiantava.

Não iria mesmo.

Me troquei em dez minutos.

Liz entrou arrrombando a porta do meu apartamento. Pra alguém que estava acabada há alguma horas, ela estava bem disposta. 

- É hoje que a gente começa nosso plano pra mostrar o que aqueles babacas perderam recusando nosso contrato! - ouvi a voz de Liz - Pode entrar, amor!

Amor? 

Saí do banheiro e me dirigi à sala. Se eu já estava toda deprimida desde ontem, minha situação só piorou quando vi a cena diante de mim. 

Liz estava toda pendurada no pescoço dele e...Beijando ele.

Casey a segurava pela cintura sobre a blusa xadrez vermelha. 

- Vocês aí! - não sei de onde tirei fôlego para gritar - Minha casa não é uma boate qualquer pra vocês ficarem se pegando assim. 

Liz separou o beijo, mas continuou pendurada no pescoço dele. Ela sorria. Palhaça. Dei um sorrisinho para Casey enquanto terminava de amarrar meu coturno marrom. Ele era bem mais bonito pessoalmente. Na verdade, desde que assisti aos vídeos da banda dele tive a oportunidade de pensar de novo nos momentos em que os vi pessoalmente e perceber que eu não havia de fato reparado neles. Não como deveria. 

- Aonde nós vamos?

Casey respirou fundo e respondeu:

- Encontrar alguns dos meninos num lugar legal.

Desafarçadamente dei um olhar bravo para Liz. Ela era muito bipolar. E tinha mais essa dela beijando Casey. O que eu havia perdido???

- É naquele lugar novo, onde vários artistas fazem showzinhos, sabe?

Ela disse sorrindo vitoriosa. Claro, ela sabia que eu não iria dar ataques na frente de Casey.

- Ah, claro- menti.

Ela ainda ia me pagar. Não só com a vida, mas com as respostas que eu tinha o direito de saber. 

Peguei as coisas e em poucos minutos estávamos parando o carro de Liz em frente ao que parecia um restaurante. A parade era de tijolinhos. Tinha vitrines com bordas pretas e luzinhas neon na entrada. 

Saímos e entramos. Meu olhar rapidamente encontrou a mesa deles. Não estavam todos. Só Barclay, Chris, Tom e... James. Tremi por dentro. Mesmo depois de termos conversado ontem - o que parecia ter sido anos atrás - ele ainda conseguia me fazer  sentir um nervosismo estranho. E eu não iria mentir, gostava daquela sensação. 

Desviei o olhar quando ele percebeu que eu olhava. O interior do lugar era interessante. Havia várias mesas espalhadas pelo salão e claro. Um palco. Enorme. Bem lá na frente.  

Aquilo também me fez sentir nervosismo, mas de uma forte diferente. 

Senti o braço fino de Liz passando no meu e me puxando para a mesa que os meninos estavam. 

Até que o lugar estava cheio para as primeiras horas da manhã.  James se levantou. Ele não sorria. 

- Chegamos!

Casey anunciou levantando os braços e, em seguida, ajudando Liz a se sentar. Ele olhou para mim enquanto eu observava a cena. E depois desviou o olhar, piscando. 

James ainda estava de pé, ao meu lado. E me abraçou. Um gesto inesperado. E bom. O abracei de volta sentindo o calor do corpo dele próximo ao meu e sorrindo sem mostrar os dentes. 

- Que bom que você veio. 

Sua voz em sussurro me arrepiou da cabeça aos pés.

Nos separamos e ele me ajudou a sentar. Aquilo era tão simples quando vi Casey o fazendo com Liz, mas comigo... Parecia tão.... Grandioso. 

James se sentou no seu lugar, ao meu lado e olhou de leve para mim. 

- Então, o que era o compromisso tão importante pra vocês me arrancarem da cama tão cedo?

Liz sorriu.

- Alguém quer contar? - perguntou arqueando a sobrancelha. 

- Não, acho que você devia fazer as honras! - Chris disse alto e rindo.

- Tudo bem! - ela ergueu as mãos em rendição. 

Estava prestando tanta atenção que quando senti alguma coisa na minha mão, por baixo da mesa, levei um susto. Mexi a mão e então percebi o que era. Outra mão. Os dedos de James se entrelaçaram nos meus e ele apertou minha mão. Apertei de volta. 

Estávamos meio distantes, com toda aquela gente junto, mas aquele pequeno toque me consolou por todas as lágrimas que havia chorado. Era como se ele afastesse todas as coisas ruins que me deixavam mal e simplesmente trazia sentimentos inexplicáveis, insubstituíveis.

- Ontem à noite, depois que você me deixou em casa, Casey veio com uma notícia BOMBÁSTICA! - Liz abria o maior sorriso que eu já tinha visto em toda minha vida enquanto batia palminhas. 

Pois é, coloca "bombástica" nisso. Liz nem parecia que estava acabada por causa da rejeição da gravadora. Olhei de relance para Casey, sentado ao lado de Liz. Até que ele ficavam bonitinhos juntos... mas o quê?! Eu nem sabia se eles estavam namorando mesmo. Tudo bem eles se beijaram, mas hoje em dia isso não significa namoro, certo?

Tive a sensação de que meus olhos se arregalaram quando vi que Casey olhava de volta. Peguei-me implorando para que não ficasse vermelha. Desviei o olhar.

- Olhe bem pra esse lugar. Porque é aqui que a gente vai começar a se apresentar!

O mundo parou por um segundo. Ela estava dizendo que... Casey havia feito aquilo? Ele e os meninos sabiam que tínhamos sido rejeitadas? Ela tinha contado tudo?

- Não vai dizer nada, Natalie? - Liz me despertou do transe.

- Ah, claro, claro! É, é... Isso é demais! Tem certeza de que isso não é uma pegadinha comigo...? - perguntei brincando e olhando ao redor como se procurasse uma câmera escondida.

James soltou uma risada e apertou ainda mais minha mão. Que por sinal ainda estava entrelaçada na dele. 

- Agradeça aos meninos por isso!

- Eu... eu... obrigada! Vocês fizeram isso?

- É claro que sim! Quem mais poderia ter feito isso? - Chris gargalhou.

Sorri em agradecimento. Minha vida estava tão bipolar... Eu estava chorando e agora estava sorrindo. Aquilo era.... desconfortável.

Pedimos alguns refrigerantes para comemorar e puf! Nossos problemas haviam sumido. Aquilo era tão bom, ficar ali com todos eles, rindo e conversando, vivendo o momento, que decidi esquecer um pouco dos problemas e relaxar. Eu precisava daquilo.

James não largou minha mão por um segundo sequer e aquilo me fazia sorrir. Barclay e Tom coversavam alto e Chris ria junto. Meu Deus. Eles eram bem escandalosos e eu ria junto. Mesmo escutando as piadas e rindo delas, não pude evitar ver Casey e Liz juntinhos no canto da mesa. Ela apoiava a cabeça no cotovelo sobre a mesa e ele brincava com uma mecha loira. Aquele sorriso parecia tão impossível de ver ontem à noite... E ele o conseguia simplesmente por olhá-la nos olhos. 

Voltei meu olhar para James assim que senti dois apertos leves na mão. Ele parecia querer dizer algo, mas pela expressão em seu rosto, sabia que não o iria fazer. Rapidamente entendi o sinal que fez com a sobrancelha. Pedimos licença e depois das zombadas que os meninos gritaram, saímos da mesa. 

- Vou te mostrar o lugar, você vai adorar.

James me guiou pela mão e fez um tour nos camarins atrás do palco. Ficamos rondando por aí e por ali durante um bom tempo. 

- Vocês vão se apresentar aqui pelo tempo que quiserem. Eles pagam bem e se precisar se qualquer coisa, é só me falar, tudo bem? - James disse se virando ao final do tour, bem ao lado do palco.

Parei um momento para admirar enquanto ele olhava para mim. É. Acho que eu estava mesmo me apaixonando....


- James, a Liz contou alguma coisa... Digo, o que ela disse pra...?

- Ah, nada. Ela só disse que vocês precisavam de algum lugar pra fazer show o mais rápido possível. Casey fez tudo correndo e foi dar a notícia. Acho que no final das contas, ter contatos serve pra alguma coisa! Mas por quê?

- Ahm, nada. Nada..

Agora ele tinha me pegado. Cruzou os braços esperando que eu respondesse. Bufei. Pelo jeito não teria escapatória.

- É só que... - segure as lágrimas, segure as lágrimas - nós.... nós não conseguimos o contrato.

- O quê?

James descruzou os braços rapidamente e me puxou para si. Eu estava segurando as lágrimas, estava conseguindo. Só senti algumas deslizando contra a jaqueta de James. 

- Como eles rejeitaram vocês? 

Minha tristeza era moderada pelo cheiro dele. Aquilo me deixava mais tranquila. Era estranho. E ao mesmo tempo a melhor sensação que já tive. 

Levantei elntamente a cabeça, perto de seu queixo. Tão perto.... A respiração dele era quente e me provocava arrepios. Meus dedos dos pés se mexeram para que eu ficasse um pouquinho mais alta, o suficiente para... 

Minhas mãos já se penduravam no pescoço de James, exatamente como Liz tivera feito com Casey. É, eu estava seguindo os passos dela. Eu nunca tinha beijado antes. Sentia um frio na barriga de expectativa e ansiedade para saber como era. 

Seus lábios roçaram de leve nos meus, me deixando querendo ainda mais fazer aquilo logo. Suas mãos estavam em minha cintura e queimavam onde tocavam. James me puxou ainda mais para perto. Perto do tipo, colada ao corpo dele. Eu podia sentir... coisas demais. 

Ele roçou os lábios de novo e dessa vez não deixei passar. Colei os lábios e o beijei. Ele me guiava nos movimentos e eu o seguia de uma forma tão natural, como se tivesse feito aquilo várias vezes. Enquanto suas mãos me apertavam um pouco mais, ele abriu um pouco os lábio e eu fiz o mesmo. O primeiro contato com a língua dele foi intensa. Arrepiadora. O hálito de pasta de dente era até refrescante. Meus dedos acariciavam seu rosto e subiam para os cabelos, onde se entrelaçaram.  

Eu não queria que aquilo acabasse. Não queria. Mas nos separamos. Só o suficiente para podermos nos olhar frente à frente. 

Nenhum de nós disse uma palavra sequer, perdidos no momento. 

- Isso significa que estamos tecnicamente namorando? - perguntei baixinho.

James riu e sussurrou de volta:

- É... Acho que isso significa que estamos tecnicamente namorando. 

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