Stage Lovers


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13. Recomeço

 

Ele esperou que eu me acalmasse. Quando já conseguia falar e soluçar menos, ele me olhou de lado, respirou fundo e perguntou:

- Aconteceu, não é? O Casey, digo...

Olhei para ele com cara de espanto. Aquilo por acaso não era outra aposta, era? Quase ia perguntar isso, mas ele falou primeiro.

- Natalie, ele gosta de você há um tempão.

E pá. Aquela surpresa me atingiu com força total, como se eu já não estivesse acabada o suficiente. 

- Você quer desabafar? - arqueou a sobrancelha.

Não respondi, apenas o abracei como se pudesse me defender de tudo o que vinha acontecendo. Barclay respirou fundo enquanto passava os braços ao redor de mim. 

- Eu estraguei tudo, como sempre... - disse num tom abafado pelas roupas dele. Contei o que tinha acontecido e Barclay me abraçou um pouco mais apertado.

- Posso falar a verdade? - balancei a cabeça - Você fez tudo errado mesmo. 

Incrivelmente aquilo me fez rir, mesmo ele estando falando sério. 

- É complicado... James te ama, de verdade, sabe? O que você vai fazer agora? 

Boa pergunta. Não era o que eu mais queria, mas sentia que era o que eu devia fazer se não quisesse causar mais dano. Aprontaria minhas malas hoje mesmo. A única coisa que tomaria mais tempo seria a locação de algum apartamento. Não sabia como estava conseguindo sequer raciocinar direito. Havia perdido Liz, James, Casey provavelmente não olharia na minha cara de novo - não depois de eu ter escolhido James sem pensar duas vezes -, minha mãe e meu pai.... Só sabia que tinha que agir agora. Antes que perdesse a coragem.

- Não posso contar agora. - respondi baixinho.

- Não é outra merda, né?

Ri de novo e o empurrei.

- Claro que não! 

Espero que não.

Ficamos ali sentados no corredor. Limpei umas poucas lágrimas que ainda desciam e funguei, lembrando-me daquela gripe. Sorri.

- Eu também já passei uns bocados, Natalie. - ele começou olhando para o nada - Ela se chamava Reagan Delilah. A gente nunca mais se falou. 

Olhei para ele. Seu rosto estava triste. Sussurrei um "sinto muito" e ele sorriu de leve. Aquilo parecia doer de verdade nele.

- Você tem que se decidir senão vai ficar sem ninguém. Se você ama o James, vai atrás dele.

Senti o aperto no coração e raiva por não ter essa coragem. Eu havia tomado minha decisão. Sorri para ele.

- Vou embora.

Comecei a me levantar do chão, meio cambaleante. Lembrei. Acho que ainda tinha um pouco de álcool correndo dentro de mim. E acho que foi aí que ele percebeu.

- Você tá bêbada? - perguntou ficando sério.

Não respondi, sentindo um pouco de vergonha. Eu tinha mesmo bebido assim? 

- Ah meu Deus. Entra, vai.

Barclay me empurrou pelos ombros para dentro do apartamento. Entrei tropeçando e vi Casey, sentado no sofá, se levantando. Barclay apertou meu ombro de leve e foi para o quarto. E agora a casa caía mais uma vez e eu já estava com os olhos inchados. Desviei o olhar de Casey parado e pendurei o violão nas minhas costas.

Teria saído sem olhar para trás, mas claro, tive que perguntar:

- O que foi aquilo? - disse tentando manter a voz branda. - O que aconteceu, Casey?

- Você teve um pesadelo. 

Eu lembrava disso.

- Eu sei, mas...

- Antes do que você se lembra. - se adiantou - Você teve um pesadelo, pareceu feio. Você começou a se debater e gritar meu nome, nem sabia o que fazer. Aí eu te abracei e você parou.

Ele contava aquilo tão rápido e olhava pro nada. Não era bem o que eu esperava, mas abaixei a cabeça concordando. Tudo bem. James não fazia ideia de que era isso que tinha acontecido. Tudo bem. Eu estava tentando ficar bem. Tudo bem.

Não disse nada, apenas saí.  

E levei a tarde toda para chegar em casa.

Meu carro.

Havia desistido dele.

Assim como todo mundo havia feito comigo.

E como eu havia decepcionado todo mundo.

Aqui era o meu recomeço. 

Tudo seria diferente.

Recomeço.

******

Às oito da noite, minhas malas estavam prontas. Abri o notebook sobre a cama enquanto a chuva caía cada vez mais forte do outro lado da janela. Fiquei uns dez minutos procurando apartamentos sendo alugados até entrar em contato com um locador e resolver o básico para me mudar.

Coloquei "Born Bob Dylan" para tocar e deitei abraçada no travesseiro. O frio que sentia por fora parecia pior por dentro. É horrível sentir e saber que se está sozinho, que não há mais ninguém para contar. Os outros meninos vinham sendo ótimo amigos, mas já era hora de deixar eles para lá. Eu já havia feito estrago o suficiente.

Tentei fingir que tudo o que tinha acontecido daquela dia para trás não tinha acontecido, que tinha esquecido tudo. Estiquei o braço até a cabeceira e puxei o papel. Última esperança. Suspirei e fechei os olhos. 

Dormi com a música no replay.

******

Na manhã seguinte, a chuva ainda caía. Eram quase seis horas e ainda estava escuro como se fossem onze da noite. A bateria do notebook estava acabada, a tela escura e sem vida continuava no mesmo lugar em que a deixara.

Me arrumei sem pressa e desci para o salão de entrada. Avisei que iria desocupar o apartamento e assinei alguns papéis. Subi de volta sem animação alguma. 

Comecei a embalar algumas coisinhas pessoais dali. Queria chorar, mas parecia que as lágrimas haviam secado. Ou eu só havia perdido as forças para isso. Mas peguei o celular, meus dedos correndo pela tela de mensagem.

Tá bem?

Assim que digitei, meus dedos congelaram sobre o celular. Cancelar.

Joguei o celular no sofá.

******

As coisas básicas estavam no táxi. Dava uma última olhada no apartamento com uma dor no peito. Eu estava deixando grandes memórias ali. Mas estava na hora, estava na hora, estava na hora. Siga em frente. Mordi o lábio segurando o choro.  Pendurei a bolsa no ombro e entreguei as chaves para o homem que estava ali. Nem abri o guarda-chuva que estava na minha mão, corri para dentro do táxi e fechei a porta. A partir dali ainda teriam algumas horas de metrô e um pouco de táxi. E finalmente. Meu recomeço.

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