Stage Lovers


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14. Poderia chamar isso de amadurecer?

1 mês mais tarde

Mais uma vez, disse para mim mesma. E do começo. Posicionei os dedos no primeiro acorde pela milésima vez. Tinha agendado a audição para dali uma semana e meus dedos tremiam e ficavam gelados só de pensar. Barclay e Tom vinham dando algumas dicas e, às vezes, Reece e Charlie davam alguma opinião também. Estávamos fazendo chamadas no Skype desde que contei para eles que tinha tomado a decisão de participar do The X Factor, mas pedi que não contassem para ninguém, então apenas nós cinco sabíamos disso. Uma vez, quando estávamos só eu e Barclay ele me contou algumas coisas. Coisas que vinha trabalhando para superar nesse último mês. 

- A coisa tá ficando feia. - ele disse - Uma vez pareceu que o James estava falando sobre sair da banda. Você tem ideia de como eu me senti?

Naquele dia todo o meu esforço parecia ter ido por água a baixo, mas algo vinha martelando na minha cabeça desde então. Meus dedos formigavam. Segurei o violão com menos força e encarei o celular. Segurei-o e fiquei ali, apertando o celular como se aquilo fosse mudar alguma coisa na situação. Lembrei-me do que Barclay tinha dito no dia em que James foi embora - da minha vida. "Se você ama o James, vai atrás dele." Quase berrei quando o celular vibrou na minha mão.

Senti uma pontinha de decepção quando vi "Barclay". Eu esperava mesmo que ele...

- Oi! - atendi sorrindo.

- Eles brigaram.

Meu coração parou ao ouvir a voz abatida dele, parecia até que estava chorando. Eu era a culpada. Deus, como isso aconteceu? Digo, como tudo isso aconteceu? O que quer que eu estivesse tentando fazer estava começando a dar errado e eu não podia deixar, mas também não podia lavar as mãos como se eu fosse inocente.

- O que aconteceu, Barclay?

- Eles vinham se estranhando há um tempo, mas hoje... Sei lá, Natalie. Quando eu vi já estavam quase se pegando e berrando, o James falando que iria sair da banda assim o Casey poderia ficar com você em paz. Acho que se não fosse o hábito da mãe do James ligar pra ele todo santo dia ao 12:17 em ponto, eu não saberia dizer onde aquilo teria acabado. - pausa para respirar - Me desculpa.

Minha mão tremeu e olhei para o nada. 

- Pelo o quê? - foi o que consegui perguntar depois de tudo o que ele havia me contado.

- Natalie... Eu acabei contando tudo.

- O quê? - berrei. - Contou o que, Barclay?

Eu estava ficando gelada, aquilo não era para acontecer, nada disso estava previsto para acontecer. Por que eu não posso seguir em frente?

- Eu contei que você foi embora... Não... Não tinha jeito, Natalie! Se você visse o estado do James depois da briga....

Uma batida na porta. Olhei automaticamente para ela enquanto procurava as palavras para dizer. Gaguejei:

- Tem visita, te ligo mais tarde. 

Não o esperei dizer um "tchau", apenas desliguei e corri para porta branca da entrada. Quando vi quem estava ali, foi exatamente como naquelas cenas de câmera lenta dos filmes. Será que poderia existir algum momento no futuro em que poderíamos parar o tempo? Ou apagar memórias selecionadas... A boca entreaberta inspirando e expirando no lugar do nariz, a lágrima quente e sensível caindo. Naquele momento não havia James, Casey ou Barclay. Não havia tempo, não havia voz, não havia ação.

Porque a pessoa que estava ali parada era a minha mãe.

*****


Era inverno. A lembrança da noite anterior ainda estava fresca na minha mente. Claro, seria difícil demais esquecer aquilo, talvez ficasse gravado na minha cabeça como uma cicatriz permanente. Eu havia chorado tanto e o esforço para não emitir som algum ao fazê-lo escondida nas cobertas tinha me esgotado. Aquilo tinha significado muito mais para mim. 

Lembrava-me dos gritos. Eu devia ter levado pouco mais de dez tapas àquela altura e meu rosto ardia sob as lágrimas. Mas eu ainda estava de pé. Ainda estava ali. Berrava e xingava o máximo que podia, mas ada era o suficiente. Ele me deu as costas e direcionou um soco ao rosto da minha mãe. E aí eu não consegui. Peguei a cadeira mais próxima e a atirei nas costas dele. Não, ela não quebrou porque aquilo não era um filme e eu já estava perdendo as forças. Mas foi o bastante para que ele gritasse um pouco e se virasse para mim, a cadeira no chão. 

Mas não disse nada. Esbarrou em meu ombro e subiu as escadas. Passei a mão sobre minha barriga sentindo a cicatriz que um pedaço da garrafa que atirara em mim um dia havia deixado. Não tive forças sequer para ajudar minha mãe, não consegui sair do lugar. E foi aí que ouvi meu pai descendo as escadas e quando olhei... Ele segurava meu violão em uma mão e uma garrafa de álcool na outra. E sorria.

Aquela foi uma das poucas vezes em que senti vontade de matar alguém pra valer. Não me mexi. Assisti o fogo consumindo minha esperança pela janela. O óbvio seria: "você pode comprar outro", mas o que eu sentia ia além disso. Aquele ato foi... Era como se meu sonho estivesse acabando junto as lascas da madeira.

E minha mãe não fez nada também. Claro, ela era só mais uma que não apoiava nada disso. Eu só não entendia por que nunca tinha feito uma denúncia, mas não a culpava. Naquela noite, fiz uma mala pequena e escrevi um bilhete. Filhos normais não faria isso. Se tivessem pais normais. Ou pelo menos qualquer coisa que os segurassem ali. Mas não dava mais. Se eu não tomasse alguma atitude, aquilo iria continuar e continuar, como num ciclo vicioso. 

Peguei um metrô e nunca mais os vi. 

Até hoje.

*****


Pisquei algumas vezes percebendo que segurava a porta. 

Deus, ela estava diferente. Os cabelos não mostravam mais os fios brancos, eram apenas castanho-escuro. O rosto carregava um ar diferente, as marcas da idade cobriam as marcas dos momentos difíceis. Ela era definitivamente diferente da mulher que eu conhecia.

Não consegui dizer nada e acho que nem ela. Limpei meu rosto quando a vi chorar também.

Talvez aquilo aquecesse meu coração e eu chegasse ao ponto de abraçá-la. Mas o fato de que ela nunca fez nada para proteger a si mesma e a mim não me deixava. Ela sequer tinha lutado. Só continuou ali, aguentando e aguentando. E quando precisei dela, me deu as costas. 

- Como é que você me encontrou?

Ficou claro que não era aquilo que ela esperava. Mas não iria receber um abraço assim de repente.

- Isso importa muito? - revirei os olhos com impaciência - Só...achei que você deveria saber.

- Saber do quê?

Ela esperou algum tempo antes de dizer.

- Seu pai morreu, já faz algum tempo, mas...

Aquilo me pegou de surpresa. Não o fato da morte, mas... Por que agora? Ela achava que eu precisava saber daquilo? Depois de tudo o que aconteceu? Aquilo não fazia sentido.

- Natalie - começou chorando -, filha, eu precisava te ver de novo. Só Deus sabe o que pode acontecer, então eu pensei em te encontrar uma vez.

Ela parecia tão... cansada. Eu não disse nada, só abri mais a porta e deixe que entrasse.

*****

Às 11:35 da noite, depois de um dia inteiro e conversas e lágrimas, minha mãe dormia na minha cama. Quase quis rir. Havíamos acertado algumas coisas, só o suficiente para que ela ficasse ali um tempo. Nada a ponto de nos abraçarmos e trocarmos algum carinho de mãe e filha. Mas foi um começo.

A noite estava fria, como sempre, e eu estava enrolada numa manta quente no sofá. Sorri ao pensar no que tinha acontecido. Acho que por um lado aquilo estava mesmo sendo um recomeço. Onde quer que meu pai esteja agora, espero que esteja refletindo tudo o que fez. Não sentia mais aquela raiva que senti no dia em que fugi de casa, em que me rebelei. Nem a cicatriz na barriga me fazia sentir aquela raiva. O tempo muda as coisas. Isso é fato. Quando falamos em amadurecermos, falamos em mudanças. As vezes as pessoas ao redor não gostam de certas mudanças que fazemos em nós mesmos, mas isso faz parte. Nunca mais serei como era antes, mas ao mesmo tempo, continuo sendo eu mesma. É meio confuso, sou exatamente quem eu era antes, mas não sou a mesma que era antes. Não penso nem sinto as coisas exatamente como antes, isso seria impossível diante de tudo o que sei e passei agora. Poderia chamar isso de amadurecer? 

Talvez esse amadurecer me mostrasse uma nova forma de ver as coisas. Eu poderia olhar para a situação de um modo diferente eencontrar outra solução. Mas isso envolvia um ponto que até doía. Isso não era um filme. James não viria até aqui para me encontrar. Essas coisas não acontecem na realidade.

E eu o queria aqui. Depois de um mês, eu finalmente admitia aquilo para mim. Estava disposta a deixar tudo o que Casey me fazia sentir para o amor que sentia por James. Seria muito tarde? 

Para ele, talvez. Mas havia outra pessoa que eu também queria aqui. 

Meu dedos voaram sobre a tela do celular. Já era tarde, mas nem liguei para esse fato. Senti um frio na barriga quando apertei o botão para fazer a chamada e o nome brilhou na tela. Liz.

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