Stage Lovers


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12. Fantasmas

 


Os olhos de Casey queimavam minha pele. Como ele conseguia fazer aquilo? Era algo diferente, como se Casey fosse um incêndio perto do fogo de James. Ainda estávamos no banheiro, minhas costas contra a parede fria e a mão de Casey segurando minha cintura. Ele chupava meu pesçoco, não havia para onde fugir. O que não era um problema já que eu não queria aquilo.

- Casey.. - sussurrei.

Senti os músculos dos braços se retesando, a boca se contraindo contra a pele de meu pescoço. Ele havia parado. Eu estava em êxtase com o momento, tanto que nem percebi que agora o olhar que me queimava era o de James. Automaticamente senti vergonha. Queria dizer alguma coisa, desculpas, talvez. Mas minha boca gaguejava e nada saía. James franziu a testa. Meu Deus, aqueles olhos... Ele não merecia. 

Senti meus olhos ficando úmidos e meu rosto queimando quando James começou a falar. A voz era num tom duro, desapontamento, tristeza... Raiva. Acho que a pior parte foi quando ele começou com os xingamentos. Parecia que as simples palavras não eram o suficiente.

Olhei para o lado. Meu rosto implorando pela ajuda de Casey. Fechei os olhos e só os abri novamente quando a voz de James se tornou inaudível. Ele puxava meu cabelo.

- Eu te amei tanto, Natalie... Como você pôde ter feito isso?

Aquilo doeu. Não só as palavras, mas sua mão puxando meu cabelo. Não era prazeroso ou excitante como tanto havia sido antes, mas era... violento.

- Casey! - o que era para ter sido um grito acabou saindo pouco menos do que um suspiro. Tentei de novo até finalmente gritar - Casey!

- Natalie! Ei! Acorda!

Casey estava me balaçando pelos ombros. Oh meu Deus, oh meu Deus. O que... Seu rosto encarava o meu, já suado e pálido. Minha respiração acelerada entregava tudo. Eu tinha tido um pesadelo. Talvez aqueles garotos estivessem mesmo afetando minha vida. Fazia um bom tempo que eu não tinha um pesadelo, aquilo tinha se tornado raro.

Casey passando a mão pela minha testa. Segurei sua mão e ele me puxou para si. Não vou mentir, ele me abraçando conseguiu fazer com que minha respiração de pânico se acalmasse e voltasse ao normal.

- Tá tudo bem...  - ele disse e deu um beijo de leve na minha cabeça.

Só quando me acalmei o suficiente para prestar atenção ao redor foi que percebi que estávamos numa cama. Senti o cobertor diretamente na minha pele, olhei para a parte do meu corpo que estava descoberta para abraçar Casey e foi quando reparei que estava de sutiã. Ai meu Deus. O que eu tinha feito?

Alguns pedaços do momento em que estava banheiro voltaram em minha mente. Senti um frio na barriga. Eu não lembrava de nada depois que Casey me levou para o quarto e... Sua mão descendo para minha calcinha.

Pisquei algumas vezes tentando espantar o que quer que eu estivesse sentindo. Só quando Casey s elevantou para buscar minhas roupas - e depois de eu vestí-las, é claro - é que tive coragem de perguntar:

- Casey... O que... aconteceu? N-nós...? - gaguejei esperando que ele entendesse o que eu queria dizer.

Ele estava de costas para mim, mexendo no guarda-roupa e bufou, parando o que estava fazendo. Demorou um pouco, mas ele balançou de leve a cabeça. Quando se virou para olhar para mim, sentada na cama, coçou o queixo. 

- Não, não, eu... Não podia fazer aquilo. 

Já sabia que aquilo tudo era errado, mas não tinha conseguido pará-lo. Não acreditava que tinha me disposto a seguir com aquilo, a deixá-lo fazer o que quisesse. Não sei o que foi pior: isso ou saber que ele não fez nada simplesmente porque não quis. E uma nova onda de culpa chegava para me arrastar em meio à correnteza. 

Então ele não disse mais nada. Deixou uma blusa de frio em cima da cômoda, perto das minhas roupas já secas e saiu. Era isso. Eu estava vazia por dentro, a culpa me consumindo. 

Coloquei as roupas, mas deixei a blusa onde estava. Arrumei a cama e respirei fundo. Só Deus para saber o que aconteceria lá fora. Fechei a porta. Procurei meu celular no bolso da calça e verfiquei o horário. 13:42. Há quanto tempo eu não dormia tanto assim? Eu estava preparada para ver alguns dos meninos por aí ou até alguém sem camisa. Com certeza estava. Só não estava preparada para ver Betsy abraçando Casey por trás. Foi aí que eu desisti. Dar de cara com aquela cena foi como dar de cara com um muro. E doeu. Mas que merda! Eu me xingava por dentro. Por que tinha que ser assim? Por que eu tinha que sentir aquela merda de atração por ele?

Eu choraria. Mas não ali. Como sempre, me deixava vencer pelo orgulho. 

Tentei dizer alguma coisa, qualquer coisa para avisar que estava indo embora, mas minha boca simplesmente não obedecia. Avistei o violão encostado perto da porta e rapidamente comecei a andar na direção. Teria dado tudo certo, uma fuga silenciosa. Se eu não tivesse esbarrado num vaso de planta de plástico. O vaso fez um estrondo caindo em cima da mesinha de vidro e eu senti minha pele entrando em chamas.

Casey e Betsy se assustaram num pulo e me encararam. Eu com certeza estava parecendo bêbada. 

- Natalie! Eu não... não sabia que você estava aqui. - Betsy disse sorridente, escolhendo as palavras certas.

Ela certamente devia estar pensando por que eu estava ali tão cedo. Querida, você não sabe de nada. Não queria sentir aquilo, mas era impossível controlar o borbulhar dentro de mim quando via eles juntos. Isso deveria ser estranho contando com tudo o que aconteceu recentemente. 

- Você precisa de ajuda? - Casey perguntou.

- Não. - murmurei.

Mais uma vez, orgulho.

Ficamos ali.

Ele olhando para mim.

Eu olhando para ele.

Parecíamos duas crianças emburradas.

Uma expiração pesada.

- Me liga se precisar.

Betsy saiu do apartamento pisando duro e revirando os olhos.

Por um segundo pensei em sair também, mas então lembrei que minhas pernas pareciam chumbo, os pés colados no chão querendo me fazer cair ali a qualquer segundo. Casey também parecia sentir o mesmo. Mas foi ele quem quebrou o silêncio.

- Natalie. Você não deve se lembrar, mas não aconteceu nada, juro.

- Então me conta, o que aconteceu?

Aquilo pareceu o suficiente. Casey se sentou no sofá, apoiou os cotovelos nos joelhos e olhou para baixo.

- Quando.. Quando fomos pro quarto, você ficou meio estranha. Tinham umas garrafas de cerveja num canto e... você deve entender o que aconteceu.

É. Eu. Bebi. Eu bebi. Desde quando eu bebia? As batidas fortes do coração só aumentavam a culpa que eu sentia por dentro, como se ela fosse bombeada junto com meu sangue. Eu nunca itnha bebido antes, não queria nem imaginar o que tinha feito ou falado depois do primeiro gole.

- Eu tentei fazer você parar, mas..

Casey esfregava as palmas das mãos no rosto, parecendo cansado.

- E depois? - cuspi as palavras.

- Você caiu na cama. Na hora eu não tinha entendido...

- É claro! Vai me dizer que não sabia? - minha voz quase chegando ao nível de grito - Mas que merda, Casey! Eu nunca bebi na minha vida, nunca beijei alguém de verdade, sequer cheguei ao ponto de transar! Por que você está fazendo isso comigo? 

Observei ele se levantando do sofá, em defesa, enquanto falava cada vez mais alto, tentando fazê-lo sentir minha indignação.

- Você vem com toda aquela histórinha de gostar de mim e quando me deixo levar por você... - pausei procurando as palavras - Então eu acordo e você e aquela Betsy estão se abraçando como se fossem namorados!

Parei de falar. Aquilo era totalmente... Eu estava.... Eu parecia uma louca com ciúmes. Infelizmente, ele percebeu. E teve a audácia de sorrir.

- Você está com ciúmes da Betsy?

- O quê? É claro que não!

- Natalie! Qual é! Nós somos bons amigos, só isso.

Amigos. Ele que era cego. 

- Você acredita mesmo nisso? - ri - O jeito que ela te olha, Casey. Nunca percebeu isso? 

- Tá, e como ela me olha? 

- Como propriedade! Ela te olha como se você fosse dela!

De novo. Meu Deus! Por que eu não conseguia calar a boca? Se o tivesse feito, Casey não estaria rindo.

- Eu não me importo, nós somos amigos, é isso que importa. 

- E quanto à mim? - perguntei num tom de derrota, falando mais devagar - Sou só mais uma na sua vida, não sou?

- Não é, não.

- Sou, sim.

- Não, não é! Eu gosto de você, Natalie! - ele gritou.

Aquilo e o xingamento que o seguiu me fizeram parar. E pensar.

- Você não consegue dizer, não é?

- Dizer o quê?

- Que ama. Casey. - respirei fundo buscando seu olhar - Você me ama?

Era uma pergunta simples. Para se fazer. Eu esperava uma resposta igualmente simples, não um beijo. Mas foi isso que recebi. Quente e intenso. A mão esquerda no meu pescoço e a direita no meu rosto. Não retribui o toque, apenas o beijo. 

Era como se cada vez que a língua dele tocava a minha, uma onda de eletricidade era gerada me fazendo querer mais. Mas me segurei. Minha cabeça começava a doer como consequência da noite passada. Quando ele se afastou para respirar, me distanciei e dei-lhe as costas. Ouvi sua respiração acelerada.

- Natalie...

- Eu não posso fazer isso. Agora é eu quem não posso fazer isso, Casey. 

- Por quê? - perguntou encarando minhas costas.

- Porque eu amo o James.

Aquelas palavras sendo pronunciadas em voz alta me trouzeram de volta. Como uma luz no meio de um pesadelo. Era àquilo que eu pertencia. Aquilo era a minha realidade. E era pura verdade. Eu havia cometido um erro comum. Confudir amor e atração era a coisa mais comum do mundo. E uma das piores também.

E aquelas palavras pareceram machucá-lo. Talvez eu tenha odiado isso. Mas não disse nada.

- Eu não te entendo! - retrucou alto.

- E eu também não! - retruquei de volta no mesmo tom. 

- Vai me dizer agora que não sentiu nada quando eu te beijo?

- O quê? - o que ele estava pensando?! - Casey, se eu não sentisse nada, não teria feito nada disso! Só que são coisas diferentes. Você é...

- Diz logo, caramba! - berrou. - Confessa que não sentiu nada!

Estourei. Mais uma vez. Sentia meu peito queimando tanto que estava quase faltando ar para continuar ali de pé. Daria o que ele queria então. 

- Não! - gritei - Não, sinto nada!

- Ah, é? E quando você gritou meu nome noite passada?

- O quê? 

E não foi eu quem perguntei. Aquela vontade de cair ali mesmo, no chão, aumentou umas mil vezes quando ouvi a voz de James na porta de entrada. Se eu não estivesse no pós-primeira-vez-com-a-bebida talvez tivesse ficado tão pálida quanto um vampiro. 

James me olhava com espanto, expectativa...Ele estava com medo e confuso, dava para ver nos olhos dele. Aquilo me sufocou. De novo caímos num silêncio doloroso. Ninguém sabia o que dizer, eu muito menos. Na verdade, minha cabeça doía com o esforço para tentar entender sobre o que Casey falava.

- Não é o que você está pensando, James. - tentei dizer, mas tudo o que saiu foi um sussurro.

James olhou para Casey e aquilo doeu em mim. Eu não estava acabando só com a minha vida, estava fazendo uma bagunça na deles também. Observei enquanto ele passava a mão na boca e balançava um "não" com a cabeça. Aí ele saiu. Talvez não só do apartamento, mas da minha vida. 

Quando ele passou pela porta, obriguei-me a encarar Casey e as lágrimas que vinha guardando para depois começaram a cair. Corri atrás de James. Aquela era minha decisão final. Na minha mente, já começava a imaginar o que iria fazer.

O alcancei enquanto esperava o elevador. Que ironia. Agora era ao contrário. Senti um aperto no coração. 

- James! - chamei enquanto corria.

Ele se virou. Estava com os olhos úmidos. Aquela foi a primeira vez que o vi chorar. E era por minha causa. Saber disso piorou tudo, quase desisti do que tinha planejado nos segundo em que corri. Aquele rosto... Deus, o que eu tinha feito?

Ele permanceu parado mesmo quando minhas mãos estava em seu pescoço tentando aproximá-lo de mim o máximo possível, já que minha altura não ajudava. Meus dedos dos pés doíam quando me apoiava neles.

- James, James, James, James... - sussurrei várias vezes, bem baixo, minha boca contra a dele e seus olhos fechados.

Meu rosto estava todo molhado àquela altura. Não podia, não podia... Por dentro, eu implorava feito uma criança para voltar no tempo. 

Mas ele não abriu os olhos. 

- Não dá, Natalie. - sussurrou com dor.

- Por favor, James. Você tem que acreditar, não aconteceu nada do que você tá pensando. - sussurrei de volta com desespero.

Meu dedos desistiram e voltei à minha altura, baixa e pequena. Indefesa e destruidora. Minhas mãos ainda em seu pescoço quente e inocente. Ainda. James abriu os olhos úmidos e suspirou quando olhou para mim e abaixou minhas mãos. 

- Desculpa. 

Era exatamente o que eu pensava que iria acontecer. Olhei para baixo e me permiti um momento de culpa extrema. Não esperei as portas se fecharem, me encostei na parede e chorei ali mesmo. Minha mente pensava os piores xingamentos que podia e estava fazendo um ótimo trabalho. Não tive coragem de olhar para ele enquanto as portas se fechavam. Acabou.

O silêncio me deixou chorar por um bom tempo. A parte da calça jeans que cobria meus joelhos já estava encharcada, mais uma vez. A falta de ar já me fazia soluçar a ponto dos ombros subirem e descerem descontroladamente, nunca tinha chorado assim desde que era pequena. Desde que...

Chorei mais.

Como se as lembranças dos últimos dias da minhavida fossem o suficiente, algumas mais antigas ainda voltaram na minha mente. A causa dos meus pesadelos de infância estava voltando e eu estava ficando com medo. Agora eu não tinha mais ninguém para afastar meus fantasmas.

A dor dos tapas na minha pele pareciam doer de verdade, na mesma intensidade do cheiro de álcool que vinha da boca do meu pai. Se é que eu podia chamar ele assim. Todos aqueles xingamentos.... Gostaria de dizer que tinha orgulho de onde estava, mas....

- Natalie?

Levantei lentamente a cabeça, ainda soluçando. Não consegui enxergar direito com as lágrimas nos meus olhos, depois que pisquei algumas vezes,  vi Barclay com a texta franzida se aproximando.

- O que aconteceu?

- Barclay. - murmurei chorando.

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