Stage Lovers


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6. Culpa

 

Era madrugada. Não me lembro a hora exata, talvez duas ou três da manhã - meus olhos estavam inchados demais quando olhei o visor do celular. O que me fez lembrar de que eu haia ouvido algum som. A porta da frente. Eu já sabia quem era. A única pessoa que tinha a chave reserva do meu apartamento. 

Não me movi. Se ela quizesse ver se eu estava dormindo, seria mais fácil fingir se ficasse imóvel. Escutei atentamente. O clique da porta se fechando, os passos de uma salto plataforma e... outros passos junto. Quieta... Continuei ouvindo. Cochichos e então risadinhas. Mas elas eram tão estranhas que não tive dúvida de que Liz estava bêbada. Logo senti o peso na consciência. Se eu tivesse insistido em ligar pra ela, em descobrir onde ela estava... Se eu tivesse tentado, teria sido o suficiente para impedir aquilo?

Sua covarde. Egoísta. Você só pensa em você mesma, no que você sente. Como acha que Liz vai ficar quando descobrir a verdade? E acredite, o caso dela é pior do que o seu coraçãozinho partido pela burrice. Senti uma lágrima escorrer, enquanto encarava o nada. Eu sabia que tudo aquilo que estava ouvindo em minha mente era verdade. Era verdade, era verdade. Eu tinha sido egoísta. Eu podia ter ao menos tentado, mas deixei que meus sentimentos se sobressaíssem.

Dez minutos depois, levantei da cama, jogando os cobertores de lado e saí do quarto. Estava tudo escuro. Caminhei devagar, lembrando exatamente onde estava cada coisa do apartamento. Fiz o caminho até a abertura para a sala. Dobrei a parede. E senti o corpo sólido.

Era alto, largo. Casey.

Eu era com certeza mais baixa que ele. Azar o meu. Minha cabeça foi de encontro com seu peito e quase cai pra trás. Se não fossem suas mãos segurando meus braços.

Desvencilhei um deles e acendi a luz do corredor. 

Quando consegui formar a imagem do rosto de Casey, percebi se dedo indicador posicionado sobre os lábios. Shh. Olhei para além dele e vi Liz dormindo no sofá, toda encolhida. Meu coração se aqueceu com a cena. Parecia uma criancinha.... Mas não era. Graças a mim.

- Mas que merda você está fazendo aqui?- perguntei de forma rude, sussurrando.

- Liz disse que iria dormir aqui. E também tinha de trazer seu carro.

Ele disse erguendo a mão. A chave do carro estava pendurada em seu dedo. Arranquei-a dali. Foi aí que surgiu uma ideia. Liz não merecia saber a verdade por mim. Ela devia saber pela boca de Casey. Ela tinha esse direito. Quis brincar com ela, então eu esperava que fosse homem o suficiente para assumir.

- E como você vai embora?

- Ah, sei lá, eu pego um táxi.

- Nessa chuva? - arqueei a sobracelha.

Ele abriu a boca para dizer alguma coisa. Mas a fechou enquanto bufava e coloca as mãos nos bolsos traseiros da calça jeans.

- Eu te levo.

- O quê? Não, não precisa, é sério.

- Você vai comigo, escutou? - disse firme.

- Ow, calma aí, você vai me sequestrar ou coisa do tipo? - ele riu.

Respondi com um revirar de olhos.

Peguei meu casaco pendurado na entrada e abri a porta. Assim que Casey saiu, olhei Liz dormindo e senti nojo dele. Tranquei a porta. Não disse nada enquanto o elevador descia até a garagem. Estava guardando para depois. Finalmente, já dentro do carro, criei coragem.

Claro, tranquei as portas primeiro e não pude deixar de notar os olhos de Casey se arregalando. Não tanto quanto queria que tivessem se arregalado, mas foi um começo. Segurei o volante - no caso de ficar mais nervoca ainda - e o encarei.

Talvez eu esperasse que ele entendesse o gesto e soubesse que eu já sabia... daquilo. Mas percebi que ele mordia o lábio inferior por dentro.

O quê?

- Casey... - comecei, mas não consegui continuar.

Minha boca tremia e tentava fazer as palavras sairem, mas não saíam. Não ali, olhando para ele. E ele olhando pra mim daquele jeito. Mas que merda, Natalie. Lembra do que ele fez. Liz. Lembra. Lembra! Então saiu:

- Eu sei o que você fez, Casey. Caramba, como você pôde fazer isso? Você tem ideia do que fez? A Liz não merece isso, ninguém merece. Você... 

Não consegui terminar a frase. Eu sentia nojo de pronunciá-las em voz alta. Minha mente - mesmo que eu tentasse evitar - ficava formando imagens do que eles tinham feito. Liz era como uma irmã pra mim, eu estava sofrendo como se aquilo estivesse acontecendo comigo, o que não era tão absurdo já que eu havia sido afetada por causa daquela aposta.

- Eu não pensei que você fosse assim.

- E eu fiz tudo errado.

Encarei-o. Ele esfregava as palmas das mãos contra o rosto.

- Eu nem sei como te contar. 

- Contar o quê? 

Repreendi-me pelo tom de insegurança na voz. Ele ficou encarando o nada, o olhar para baixo e ficou em silêncio, provavelmente pensando nas palavras certas. 

- Você tem ideia do que isso ocasionou? Não foi uma coisa só entre você e seus amigos, eu briguei com o James por causa disso! Tudo porque ahco que você não sabe o quanto Liz é importante pra mim. Ela é boa demais pra alguém como você. 

Imediatamente senti a culpa. Eu estava sendo dura, e ele merecia, mas aquilo tinha sido demais até para mim. 

- Desculpa, Casey. Isso foi demais, me desculpe. Não era para....

As palavras saíam todas em disparada, parecendo que apostavam corrida para ver quem saía primeiro da minha boca. Eu não devia sentir tanta vergonha ou culpa, mas eu ainda era eu. Mas ele não me deixou terminar. Avançou para cima de mim. Seus lábios eram quentes e macios. A sensação era boa. Meu Deus, era boa. Ele pressionava os lábios contra os meus, ele queria aquilo. Com a surpresa, meus olhos estavam fechados com muita força e eu sabia que minha testa estaria excessivamente franzida. Mas aí senti o toque da língua dele na minha. Aquilo com certeza me causou arrepios. Minha mão involuntariamente tocava seu pescoço, roçando a nuca e meus dedos subindo para o cabelo dele. Eu queria segurá-lo e puxá-lo enquanto ele me beijava cada vez mais. Se eu apenas ficava no querer, Casey não. A mão dele já segurava metade do meu cabelo, e segurava forte. Eu sentia o frio na barriga só de pensar no que poderia acontecer ali. Qualquer insegurança que eu estivesse sentindo, ele me fez esquecer... Quase como o efeito que... James. E Liz também. E aquela aposta

Parei o beijo.

- Casey...

Recuei um pouco e ele se inclinou para tentar aproximar nossos lábios de novo. Conseguia sentir sua respiração na minha boca.

- Casey, para. - sussurrei com os olhos fechados, ainda absorvendo a sensação daquilo.

Senti seus lábios selando os meus por um segundo. Eu não podia. Eu sentia nojo, não sentia? Empurrei ele para seu lugar.

- Casey! Eu sei o que você fez, merda!

Merda era o que eu também havia feito e estava fazendo ali com o carro parado na garagem. Estiquei a manga longa do pijama de frio que vestia para limpar minha boca e já sentia minha visão se embaçando de novo. Que ironia... algum tempo atrás eu ainda achava idiotisse garotas que viviam chorando. Agora eu era uma delas. Talvez eu não entendesse como é estar apaixonada e ter o coração partido pela primeira vez - como alguns dizem. Acho que agora sei como isso pode ser devastador. Porque o amor nos cega, nos ilude. O amor nos leva ao paraíso e então, quando ele acaba ou é interrompido por pessoas como eu, ele te leva ao fundo do poço sem piedade nenhuma. O amor... nos leva à loucura.

Então eu chorava. 

Ele ainda estava com a respiração acelerada. E me olhava, parecendo um menino perdido. Dei meu silêncio em resposta, ainda com o braço na boca. Ele entendeu. Finalmente. Sua expressão mudando de perdido para preocupado.

- Eles te contaram, não é?

Acenei com a cabeça.

- Natalie.....

- Não! - disse surpreendentemente alto - Eu tenho nojo de você! Como é que você pôde sequer ter aceitado fazer isso? Não só a aposta, mas isso - finalmente tirei o braço que limpava minha boca.

- Você não... Natalie. - ele respirou fundo - Você não sabe o motivo de eu estar com a Liz.

- É claro que não, vocês deviam estar juntos porque gostam um do outro.

- Mas é de você que eu gosto.

O mundo parou. 

Encarei-o pela centésima vez naqueles minutos que estávamos ali. Infelizmente, não encontrei nenhum sinal de mentira no seu olhar. E eu queria muito ter encontrado. Ver explícitamente que ele estava mentindo pra mim, que aquilo não estava acontecendo.

- E eu sabia que não tinha nenhuma chance de estragar a relação de você com James - seus olhos se reviravam como se não quisesse estar contado tudo aquilo - Mas eu senti alguma coisa quando te vi. - ele sorriu - Lembra? Do elevador?

Eu lembrava. De cada detalhe. Até da piscada que ele havia me dado no dia em que assinamos o contrato para gravar a demo de Bad For Me. Minha vida estava tão certa, tão... planejada. E agora, depois de alguns dias, aquilo parecia impossível para mim. 

Assenti com a cabeça.

- A partir dali eu só me interessei ainda mais por você, inclusive quando vi você sorrindo enquanto cantava no estúdio. Mas aí eu e os meninos estávamos zoando numa noite e surgiu essa aposta e você deve ter percebido que eu não sou de amarelar. Foi por isso que não saímos naquela noite que tínhamos combinado. Só que ficar perto da Liz.... seria um pouco mais perto de você.

Ouví-lo dizer aquelas palavras confortavam meu coração. Ou pelo menos uns pedaços dele. Era como se eu pudesse perdoá-lo ali mesmo, naquele instante. 

- Mas você transou com ela, não transou?

Silêncio. Seus olhos se desviaram dos meus.

Qualquer esperança que tivesse tido... havia desvanecido. 

Não falei mais nada. Não queria mais. Saber de tudo aquilo era suficiente. Só queria que aquele dia acabasse. Minhas memórias de James parado sob a chuva enquanto o táxi me levava para longe ainda estavam frescas e agora eu sentia uma culpa enorme quando pensava nelas. O beijo de Casey tinha me confortado. Por um breve momento, mas tinham. Não podia sequer considerar o que ele sentia, ou que havia acabdo de me contar. Ele estava errado. Ele era errado. E eu queria ter James ali. 

Liguei o carro e dirigi em silêncio com o peso da minha vida nos últimos dias sobre meus ombros. Foi isso que me fez dirigir rápido. Em instantes estávamos parados na frente do prédio dele, eu encarando a chuva através do vidro na minha frente.

- Você vai contar pra ela. - disse simplesmente. - Ela tem o direito de saber por você.

Mesmo mantendo o olhar na rua em minha frente, senti o olhar de Casey me queimando.

- Na... - a voz dele estava meio fraca, como se estivesse lutando para falar.

- Sinto muito.

Olhei para ele e destranquei o carro.

*****

- Vem logo, Natalie! Já vai começar!

Liz vestia um moleton cinza. Eu tinha emprestado minhas roupas já que ela havia dormido ali. Já era meio da tarde de domingo. Juntei-me a ela no sofá com duas xícaras de chocolate-quente e esperávamos um filme começar.

- Preciso te contar uma coisa ma-ra-vi-lho-sa! - Els disse sorrindo enquanto segurava a xícara.

Senti meu estômago embrulhar. Eu sabia exatamente o que ela iria contar. 

- Hum, é sério? - perguntei fingindo curiosidade, mas olhava para a televisão. 

- Uhum! - tirou umas mechas do rosto - Eu e o Casey.... Aconteceu!

Tá, eu sabia o que ela iria dizer, mas não consegui evitar a engasgada quando a ouvi. 

- O quê?!

Liz berrou um "ahh" de animação. Quase vomitei.

- Bom, aconteceram algumas coisas....

- Não, não, não! Não quero saber detalhes da sua vida sexual, muito obrigada. - falei atirando uma almofada nela.

Ela estava rindo. Deus. As vezes que pensava que não aguentaria e acabaria contando tudo, mas me forçava a lembrar que não podia. Não podia! Ele teria que fazer isso. Não eu. Era o mínimo que ela merecia. 

Eu finalmente tinha conseguido me forçar a esquecer o que aconteceu na madrugada. Tudo o que Casey havia contado - e feito - estavam trancados em algum lugar da minha mente e por mim ficariam ali por um bom tempo. Talvez para sempre. Naquela manhã, antes de levantar da cama, tinha feito uma grande reflexão da minha vida. Eu ainda estava sentindo o que tinha acontecido com James, e cheguei a considerar que tinha sido injusta. Mas era meio tarde pra voltar atrás. Então decidi dar um tempo em tudo. Tudo o que havia acontecido de ruim nos últimos dias. Respirando fundo, vi uma válvula de scape. Eu mesma. Eu tinha que voltar a me concentrar em mim mesma, correr atrás do que eu queria. Do meus sonhos. O plano era começar aqueles shows no restaurante e colocar em prática uma ideia antiga. Vídeos. Estava na hora de agir, eu não podia mais ficar apenas sonhando. Não tinha mais nada a perder, então iria tentar de tudo. 

- Mas eu podia te contar algumas coisas...

- Cala a boca, Liz!

E então, o filme começou. 

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