Stage Lovers


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1. Chá de Camomila e Hortelã

 

A música usada nesse capítulo não pertence a mim! Os créditos pertencem a Megan and Liz!

 

Nove da manhã. Nove da manhã? Nove da manhã!

Merda!

Joguei as cobertas para o lado e pulei da cama. Minha cabeça ainda estava pegando fogo e o martelo ainda causava dor do mesmo jeito que dois dias atrás. Essa gripe já devia ter passado! E agora?? Iria assim mesmo. Talvez eu tivesse sentido uma pontada de vergonha quando me encarei no espelho do banheiro. Meu nariz estava todo vermelho e ainda escorria. Eu não merecia isso.

Essa gripe realmente me pegou de jeito. Liz iria me matar se eu me atrasasse.

Fiz minha higiene e vesti uma calça jeans preta, moleton cinza e o all-star branco com tiras vermelhas. Não estava nem um pouquinho animada para me produzir visualmente. Prendi meu cabelo num rabo-de-cavalo desajeitado e coloquei o violão dentro da capa.

Pronta.

Dirigi com o nariz escorrendo. Eca. Nojento, eu sei, teria que correr para um banheiro depois que terminasse. Pois é. O dia que poderia decidir minha carreira e eu gripo. Ai como eu me odeio.

Avisei a moça que estava na recepção pra onde iria e corri para dentro do elevador. Estava puxando a mão um pouco para dentro da manga da blusa para limpar um pouco do nariz escorrendo quando meu coração acelerou e imediatamente abaixei o braço. Tudo bem, é só fingir que não ia fazer o que você ia fazer, isso não faz sentido! Tá. OK.

Naquele instante um braço coberto pela manga de uma jaqueta preta impediu que o elevador se fechasse. Apertei a alça da capa do violão.

Um cara até que baixo com alargadores entrou seguido de um outro bem mais alto e um com uma mecha loira. Cara de convencido, shhh!

O de alargador acenou com a cabeça para mim. Apenas sorri sem mostrar os dentes. Educação, se é que me entende.

Eles sussurravam. Merda, por que não podiam agir normal? Assim que pensava ainda mais que estariam falando algo inapropriado. Senti meu pé batendo contra o chão. Nervosismo. Era sempre assim, não era a toa que eu nunca tinha namorado ninguém nos meus 17 anos e meio.

Ouvi umas risadas. Continuei em silêncio. As portas finalmente se abriram no meu andar. Dei o fora o mais rápido que pude e corri em direção à porta que ficava quase ao fim das janelas estilo vitrine. Dava para ver todos os painéis e os caras trabalhando. Que música estariam editando?

Entrei e Liz se levantou da poltrona como se fosse me bater ali mesmo. O rosto dela estava muito vermelho. Tipo, exageradamente vermelho e contrastava com o cabelo - hoje ondulado - loiro.

- Desculpem.

Foi tudo o que consegui dizer. Na verdade até gaguejei para dizer algo depois disso, mas não saiu absolutamente nada.

- Podemos começar logo com isso?

O homem responsável pelos contratos estava de terno e sentado de frente à um dos painéis do estúdio de gravação.

- Claro!

Liz disse e em seguida mexeu a boca como se dissesse para mim: "anda logo!". Sentei-me no banco ao lado de Liz e peguei o violão.

Os primeiros acordes de "Bad For Me" soaram estranhos. Não sabia dizer se era por causa da minha gripe ou se era culpa do meu nervosismo.

*****

Soltei um suspiro quando toquei a última nota e deixei que Liz finalizasse o "feel so good but you're so bad for me". Acho que demoramos um segundo para tentar controlar a ansiedade.

O homem bufou. Nos encarou. Olhou para os papéis em seu colo. Nos encarou de novo. E abriu a boca.

Senti a mão gelada de Liz segurar a minha. Meu Deus do céu, essa garota iria quebrar meus ossos.

- Garotas.

Garotas. Continue.

- Vocês vão gravar a demo!

Meu coração parou. Liz soltou uns gritinhos. Meu Deus. Meu Deus. Meu Deus! Nosso sonho tinha começado. Aquilo abriria as portas necessárias pra nossa carreira, tinha certeza!

- Ficaremos imensamente felizes em tê-las trabalhando conosco.

- Muito obrigada, muito obrigada!!

Podia ver no rosto de Liz que ela não conseguiria falar muito. Estávamos a um passo de conseguir o contrato.

- Vou pegar a papelada.

O homem deu um sorriso e saiu.

- AHHHHHHHHH! Eu não acredito!!!

Liz me abraçava forte. Eu ria e pulava com ela. A loucura é contagiante, já ouviu falar disso? Enquanto ela me abraçava, olhei para o vidro que separava nossa sala do corredor e.. Ai meu pai do céu. Aqueles três. De novo não.

Garotos. Por que me intimidam tanto, hein? Senti minha pele facial esquentado. Não, Natalie, agora não é uma boa hora.

- A gente vai gravar uma demo pra "Bad For Me"! Dá pra acreditar que... O que foi?

Minha melhor amiga viu meu rosto de "acabei de ver um fantasma, ai meu Deus!" e se virou para ver o que eu encarava.

Aqueles três estavam mais cinco. Aquilo era o quê? Uma gangue de rapazes - bonitos?

- Você conhece eles? - Liz perguntou-me arqueando a sobrancelha direita.

- Não, não. Na verdade só vi três deles no elevador. Eles são...são....

- São...?

- Estranhos. Sei lá, intimidadores, diria.

Ela riu.

- Ah qual é, Natalie! Você que é muito tímida!

- Tímida? Eu? - Essa era boa! - Eu acabei de tocar e cantar na frente de um completo estranho, Howe!

Liz colocou a mão no coração como se o tivesse ferido.Na mosca! Ela odiava quando eu a chamava pelo sobrenome.  Ela iniciaria uma discussão se a porta não tivesse sido aberta e o cheiro excessivo e variado de perfume invadiu a sala.

- Olá, garotas!

A recepcionista disse. Algo no tom dela não me agradou. Parecia uma.... Deixa pra lá.

- Oi.

Liz sorriu. Não disse nada, apenas me virei e comecei a recolher o violão pra dentro da capa de novo. Sabia que não deveria, Meu Deus, como eu sabia, mas arrisquei espiar com o canto do olho. O cara com a mecha loira viu que eu olhava. Porcaria. E como se não fosse suficiente, ele ainda ousou piscar! PISCAR! Ele piscou pra mim.

Relaxa, Natalie. Relaxa.

- Os meninos vão conversar com o Jaden, mas podem ficar até ele voltar.

Dessa vez ela não tentou ser simpática. Saiu rebolando. Metida. Revirei os olhos e fechei o zíper da capa preta.

- É... Então, o carinha vai voltar logo. Eu acho.

Minha amiga com certeza estava nervosa. Rá! Quem está sendo tímida agora, Elizabeth Howe??!

- Ah, claro. Sem problemas!

Um deles disse. Ele era forte. E tinha um sorriso bonito, amigável até. Alguns deles se jogaram no sofá e outros ficaram se ajeitando em pé mesmo.

Momento desconforto. Não sou social. Eu devia praticar mais lições do tipo "como ser social" ou "como acordar para a vida e deixar de ser tímida de uma vez por todas".

Todo mundo estava quieto. Pois é, ninguém sabia o que dizer.

Espirrei. Minha falha tentativa de o fazer em silêncio acabou resultando num som estranho. Todo caíram na risada. Ai que vergonha.

- Desculpem. - soltei.

Pela minha voz eu estava com uma cara acabada, de flor murcha. Fiz um esforcinho para respirar. Meu nariz estava começando a entupir. De novo.

- Muito bem, garo... Ah, olá, rapazes! Já chegaram! Esperem só um minutinho.

- Ok. - O de topete disse.

- Garotas - chamou - assinem aqui, por favor.

Liz ia assinar primeiro,mas peguei a caneta antes que estendesse o braço por completo. Assinei e passei a caneta para ela, em seguida disse:

- Vou ao banheiro, já volto.

- Tá. - ela disse tranquilamente.

Lá no fundo, bem no fundo mesmo, eu invejava um pouco da confiança que Liz tinha. Era admirável. Claro, para uma pessoa como eu, sim. Deixei o violão por perto e saí da sala. Parecia que só agora eu conseguia respirar. Incrível.

Depois de ter fechado a porta e dado três passos, lembrei que não sabia onde era o banheiro. O dia estava perfeito. Não, como se não bastasse a única pessoa - que havia acabado de entrar no corredor - era aquela recepcionista metida. Passei a mão na minha cara tentado parecer um pouco mais apresentável mesmo com essa gripe, mas aquilo pareceu me deixara ainda pior. Meus olhos estavam lacrimejando.

- Oi, onde é o banheiro? - perguntei quando ela passou por mim.

Olhando de perto até que ela não era velha. Uns 21 ou 22 anos. Loira, óculos de grau - e de marca, claro - e a melhor produção de maquiagem possível. Típico.

- Vire à esquerda, é a terceira porta. - respondeu e voltou para onde eu tinha saído.

Devo admitir, os banheiros tinham cheiro de perfume caro. Fui até a pia e lavei o rosto. Estava todo vermelho. Depois que o enxuguei, olhei ao redor. Vazio. Essa gente fazia banheiros caros e ninguém usava. Balancei a cabeça.

Encostei na parede e sentei no chão. Precisava de um tempinho. Olhei para cima para ver se o nariz desentupia. Nada. Fiquei tentando respirar por um tempo. Ok, talvez um longo tempo. Tempo suficiente para minha mente ficar voltando com  imagens daquela gangue de garotos. Eles realmente eram cantores? Deviam ser. Tanto faz.

Levei um pequeno susto quando senti a vibração do celular no bolso da calça. Liz.

Cadê você, Sanders? Tem um carinha perguntando o que você tinha!

Carinha? Ela tava falando sério?

De qualquer modo, dei uma última olhada no espelho. Abri a porta enquanto guardava o celular de volta. Maldito hábito de olhar para baixo. Maldito!

Se não fosse esse hábito eu teria visto a pessoa na minha frente. Ou seja, o esbarro foi inevitável.

- Desculpa, eu não...

Eu mesma me interrompi quando vi quem era. Um deles. Aquele alto. De topete. O jeito que me olhou...

- Eu não vi... você, desculpe.

Mas ele não sorriu. Nem respondeu. Ele segurava meu braço.

Meu nariz não me deixava respirar e senti os pelos do meu corpo inteiro se arrepiarem quando tudo o que ele disse antes de sair andando foi:

- Chá de camomila e hortelã.

 

 

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