Stage Lovers


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15. Brincadeira

'Cause all day
And all night....

O ritmo não saía da minha cabeça. Acho que exagerei na noite passada.

Liz não atendeu. Liguei pelo menos cinco vezes e nada. No fim das contas acabei acreditando que talvez o destino não quisesse que eu resolvesse as coisas com ela. Virei a noite escrevendo uma, duas, mil músicas que não foram terminadas. Algumas folhas do caderno estavam amassadas depois da curta noite em que acabei dormindo sobre elas. Minha visão ainda estava afetada pelo sol que penetrava a cortina. 

Mais um dia.

Tudo parecia tão... normal. Exceto por... Dou algumas fungadas. Isso é... Há um cheiro tão forte de...Fumaça? Fogo? Fogo?! Joguei as cobertas de qualquer jeito e caí do sofá, mas nem senti a dor do impacto contra o chão frio. Corri para a cozinha e quase escorreguei quando dei uma freada brusca. Ela estava ali.

Às 8:45 da manhã.

Na minha cozinha.

Depois de tantos anos.

Não sei qual minha expressão. Meu cabelo provavelmente está todo bagunçado e minha boca aberta, mas sem as palavras para dizer. Ela olha para trás enquanto frita as panquecas. Aquele cheirinho... Quase sorrio, mas me contenho.

- Você acordou!

Ela praticamente abre o maior sorriso que consegue.

- Achei que talvez podíamos colocar mais umas conversas em dia enquanto saímos para comer fora e talvez....

- Wow wow wow wow! - interrompo - Vai devagar. Você chegou aqui ontem, não sei se... a-ah... se já estou pronta para dar outro passo. Se é que me entende. 

Ela continua sorrindo e tenta mais uma vez, um pouco mais calma:

- Eu sei, eu só... Só achei que podíamos almoçar em um lugar diferente, fazer algumas coisas que nunca fizemos e....

- Não posso. - interrompo mais uma vez, de forma mais dura.

Então o sorriso vai embora e a expressão em seu rosto dá lugar ao desapontamento. Eu não sei o que se passa na cabeça dela. Não tenho raiva ou coisa do tipo, mas isso simplesmente não funciona assim. Passamos anos sem o menor contato, sem notícias... E então ela aparece de repente, temos uma conversa e ela já quer avançar nessa relação? Não estou pronta. Tenho que focar no que estava fazendo. Minha música. Meu trabalho. Minha vida.

- Eu tenho que ensaiar para minha audição. - paro e suspiro - Vou fazer uma audição no X Factor. Sei que você nunca apoiou isso, mas é o meu sonho, é o que eu quero...

Não sei por que estou tentando me explicar para ela então paro de falar. Saio da cozinha, mas ouço-a dizer baixinho:

- Tudo bem.

******

Minha mãe acaba saindo um pouco do meu apartamento. Isso é tão estranho. Essas coisas não acontecem na vida real, acontecem? Demorei um tempo para arrumar e limpar a sala até que tudo ficasse em ordem. 

- Espera, espera. Mais uma vez. - Barclay diz e aperta os olhos para ouvir melhor.

Não perguntei nada sobre aquele assunto e ele também não fez referência de querer continuar aquilo, então apenas começamos uma chamada de vídeo como todos os outros dias.

Obedeço e volto os dedos para a primeira nota do refrão.

Boy you can say anything you wanna
I don't give a shh, no one else can have ya
I want you back, I want you back
Wa-want you, want you back
I broke it up thinking you'd be crying
Now I feel like shh, looking at you flyin'
I want you back, I want you back
Wa-want you, want you back

- Uau! Está ótimo, Natalie! - Ele ri do outro lado da tela, o que me faz sorrir. - Não sei o que vou fazer se você não conseguir os quatro sims.

- Não fale isso, Barcs! - rio.

Então ele para e me encara.

- Natalie... sobre aquele dia - ele tosse de leve para começar - Primeiro, você tem que saber que o James não é o mesmo sem você. Acho que ele e o Casey te amam de verdade, cada um do seu jeito. James fica estressado, Casey sofre sozinho e o clima fica tão pesado que aquela briga acabou sendo meio que inevitável. Não sei como vai ser daqui pra frente, honestamente. Então, James estava tão exaltado naquele dia que fiquei com medo dele fazer alguma besteira. Tive que contar sobre você.

Tentei fazer com que meu coração parasse de bater rápido. Pare, coração maldito! Aquela simples palavra, aquele nome, conseguia fazer isso comigo. Em todo caso, já havia percebido que meu coração era dele e me doía saber que Casey realmente me amava e eu não correspondia. Eu havia causado tantos problemas, mas precisava continuar com aquilo. Seria melhor para eles, mesmo que não pareça isso no início. Mesmo que não seja o melhor para mim.

- O quanto você contou? - pergunto baixo.

- Não se preocupe, eu não contei seu endereço. O máximo, talvez, a cidade. Contei o que você havia decidido fazer e que eu estava ajudando. Isso pareceu acalmar ele, pelo menos um pouco.

Meu olhar ficou vazio enquanto absorvia tudo aquilo. Eu iria chorar? Não. Não podia. Pisquei para afastar as lágrimas e sorri para Barclay.

- Por que você não vem pra cá? 

Ele parece surpreso com o convite. A verdade que é que ele vinha sendo minha única companhia, meu único amigo. É meio difícil acreditar que já faz um tempinho que estou aqui e ainda não tenha conhecido ninguém. Eu sentia falta disso. 

- Eu?

- É. Eu não conheço niguém aqui, preciso de um amigo. Tem uma coisa... acontecendo. - digo e a imagem dela se forma na minha mente.

- Tá tudo bem?

- Mais ou menos. - respondo com sinceridade.

Ele assente e sussura um "chego aí logo".

*****

Os minutos passavam quase que devagar demais, eu já estava me sentindo sufocada ali. As coisas são engraçadas. Quando você tem um zilhão de coisas para fazer, não vê a hora de deitar e dormir pra sempre. Mas quando a rotina se torna sempre a mesma e você nunca tem nada para fazer... simplesmente fica insuportável. Claro, isso piora na minha situação, quando não se tem ninguém por perto.

Coloquei o caderno amassado sobre a mesinha de centro da sala e me sentei no chão com o violão. Barclay deveria chegar logo. Eu não tinha nada muito decente na cozinha, então provavelmente pediríamos alguma coisa mais tarde. Eu não morava mais no bairro pequeno que quase não tinha gente. Agora era diferente. Tudo era diferente. 

Encarei os dois parágrafos já escritos naquela página, cerrando os olhos para ler minha letra quase ilegível. Enquanto lia, tentava formar uma melodia mentalmente. Então não foi difícil. Comecei com uns acordes fracos que logo se tornaram uma sequência boa. Depois foi só encaixar a letra. E BUM!

It's all good
Yeah baby
It's alright
I release you tonight
It's all cool
N-no need
To think twice
I release you

Goodbye
Goodbye
Goodbye
Goodbye

YEA-

Batidas na porta me fizeram parar de repente. Coloquei o violão no chão e me levantei o mais rápido que consegui. Meu coração estava batendo forte só de saber que estava a alguns passos de rever alguém conhecido.

Será que ele tinha ouvido a cantoria? Rio só com a possibilidade. As vezes isso parece meio estranho, canatr e saber que todo mundo está ouvindo. Mas nada que me faça querer parar. É isso o que eu quero na vida. É pra isso que estou caminhando e preciso ficar firme.

Por incrível que pareça, vinha repensando se "Want U Back" realmente seria uma boa escolha para uma primeira audição. Talvez algo mais sério fosse melhor. Não havia tomado uma decisão concreta ainda e sabia que isso era péssimo, já que não faltava muito tempo para a audição. Isso provocou frio na barriga, como sempre. Mas eu podia me distrair um pouco, não é? Ninguém é cem por cento trabalho durante as vinte e quatro horas do dia.

Nem esperei para ver o rosto de Barclay e já fui falando:

- Acho que você bateu o recorde em rapidez para...

Assim que abri a porta e parei para olhar, minha boca congelou. Aquilo só podia ser brincadeira.

Ele estava segurando uma bandeijinha de plástico com dois copos da Starbucks - clichê, eu sei - e não esboçava um sorriso muito animador. Claro, eu também deveria estar com uma expressão facial como se tivesse visto um fantasma. Mas não seria exagero. Não ali.

Acho que eu estava ficando fria. Parecia que estava congelando e iria cair ali mesmo, não conseguia mexer meu pés. Eu queria dizer alguma coisa, fazer alguma coisa! Feche essa maldita porta! Mas alguma parte de mim berrava um "não!" de volta ao comando do meu cérebro. Eu não queria. Tente alguma coisa, Natalie, tente!

- James. 

A única coisa que consegui dizer. Ou pelo menos sussurrar, ou talvez menos. A palavra deixou uma mistura amarga e doce em minha boca.

- Natalie.

Ele parecia desconfortável ao dizer meu nome, mas ainda assim dá alguns passos em minha direção. Não ouso recuar. Consigo sentir a respiração dele em mim, o hálito fresco e o cheiro do seu perfume. Também não ouso desviar o olhar. Dessa vez não. Olhando dentro de seus olhos parecia que nada do que passamos tinha acontecido, como se pudessemos nos beijar ali mesmo, sem nenhum ressentimento, sem nenhum passado ruim. Engoli a saliva, quase pronta para falar de novo. Um "o que você está fazendo aqui?" ou um "senti sua falta", "me desculpe por tudo", "eu te amo" fosse o que ele esperasse, mas o que ouviu não foi nada parecido.

- Onde está o Barclay? - perguntei, minha voz um pouco mais fria do que pretendia.

- Ele não pôde vir. Era eu ou o Casey. - James responde quase na mesma frieza e tento não ficar vermelha.

Eu não era tão alta. Meu olhos batiam bem de frente com seus lábios. Não vou negar, aquilo me deixou com uma vontade louca de matar a saudade deles. Queria tanto sentir o beijo dele de novo, o gosto, o toque... Acho que ele sentia o mesmo apesar de tudo.

Quando me dei conta, sua mão livre puxava meu pescoço, selando o beijo. Ele estava me beijando.

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