Antes de Tudo Acabar

Nem todos se encaixam em algum lugar. Rafael é uma dessas pessoas, deslocado, sem muita perspectiva e cuidando de uma mãe alcoólatra em recuperação, ele precisa ainda se preocupar com o seu amor não resolvido pela melhor amiga e com os percalços de um pai ausente. As coisas ficam ainda mais complicadas quando novas pessoas entram no seu caminho e a vida adulta bate na sua porta. Esta é a história de um garoto que precisa se encontrar e compreender um mundo que se move mais rápido do que ele consegue imaginar. Um mundo onde amizades são construídas e desfeitas, amores morrem e nascem e as curvas acontecem de forma inesperada.

9Likes
3Comentários
385Views

2. 02

Não havia muitas coisas que me davam prazer quando eu comparava com o número de coisas que me incomodavam. Jogar videogame, ouvir música, ler um livro de uma vez só. Às vezes eu gostava de ficar sozinho sem fazer nada de especial e havia vezes em que a solidão me incomodava.

Odiava filas, ônibus, multidões, gritaria, barulho de carros e construções. Eu precisava estar preparado psicologicamente para poder ir a uma festa ou frequentar praças de alimentação em shoppings. Excesso de gente me incomodava. Muito. Fazia eu me sentir sufocando. De qualquer maneira, uma coisa que eu gostava de fazer era passar tempo com a Anne. E essas pequenas aventuras, fruto de nossa irresponsabilidade, são alguns dos momentos que guardo na minha memória.

Saímos da sala da diretora de cabeças baixas, mas apenas para fazer cena. Assim que a porta se fechou saímos correndo pelos corredores, contendo nossas risadas. Em nosso mundo, suspensão era uma ótima maneira de poder ficar dormindo até tarde. Não era como se minha mãe bêbada fosse se importar e brigar comigo. E não é como se o pai maluco da Anne fosse deixá-la de castigo.

Fomos da escola direto ao McDonald’s e pedimos dois milk shakes e algum sanduíche barato da promoção. Sentamos em uma mesa afastada, de poltronas acolchoadas. Lado a lado. Mas eu era covarde demais para fazer qualquer coisa a não ser ficar ali, me fazendo de melhor amigo e fingindo não sentir nada por ela.

O cheiro de batatas fritas me deixava morrendo de fome e fazia o sanduíche parecer ainda menor do que era na verdade, mas eu sempre me recusava a pagar pelas batatas caríssimas que mais pareciam papelão.

— Temos de terminar sua orelha, Rafa — Anne lembrou, dando uma mordida no lanche.

Minha orelha direita ardia horrores com o cotonete ainda enfiado. Sério mesmo, doía demais.

— Você não quer fazer isso aqui dentro, né?

— Claro que não, vamos na sua casa depois. Ta doendo?

— Óbvio, Anne. Ta latejando e tudo.

— Te dou uma coisa pra passar depois.

— Depois quando? Não quero perder a orelha.

— Deixa de frescura. Não vai acontecer nada.

De onde estávamos dava para ouvir o sino da escola e tudo. Já era meio dia e as aulas haviam acabado, isso significava que já tava na hora de ir embora. Muitos dos alunos iam almoçar no McDonald’s, e a gente odiava ter que dividir o mesmo teto que aquele bando de remelento. Se fosse só o povinho da escola pública, tudo bem, mas o lugar lotava de playboys leitinho com pera. Eu já estava levantando quando Anne segurou em minha mão, e calmamente pediu para que ficássemos. Ela era assim, a Anne. Muito calma quando queria, mas explodia do nada e virava o bicho. Era engraçado - quando a bronca não era comigo.

— Eles vão zoar a gente — eu disse.

— Não tem importância, deixa eles falarem o que quiserem.

Essa costumava ser a política dela. Mas o fato era que eu me importava de ser chamado de algumas das coisas que eles diziam. Podia apostar que a primeira coisa que notariam seria o canudo na minha orelha.

Voltei a me sentar ao lado dela contra minha vontade. Em poucos minutos o lugar estava lotado de estudantes. A Anne rolou os olhos para um grupo de garotas que se sentou perto de nós e logo fomos surpreendidos por duas meninas sentando-se a nossa mesa.

Aquelas eram a Jéssica e Tamirys. Sim, Tamirys com Y. Mas nós as chamávamos de Ratazana e Urubu. Um apelido tão velho para nós, que sequer conseguia me lembrar do porque as chamávamos assim. Eram as duas meninas mais otárias da classe, que nos infernizavam há anos. Sem brincadeira, eram tão chatas que me dava vontade de vomitar na cara delas.

 — Bom dia, meninos — disse a Jéssica. Podia sentir seu perfume enjoado do outro lado da mesa.

—Ora, bom dia para vocês duas — Anne respondeu, com o maior sorriso falso que conseguiu montar na cara.

Jéssica olhou para mim torcendo a cabeça igualzinho um cachorro faria. Rafael, ela disse, eu sei que sua mãe é uma bêbada e seu pai te abandonou por motivos óbvios, mas não tinha ninguém para te ensinar a usar cotonete? Você colocou no buraco errado.

Como sempre, tudo o que eu sentia era um mal estar no estômago. Minha sorte era ter Anne para me defender, ou eu sairia dali correndo igual um moleque besta.

— Mas Jéssica, mil perdões. Tenho vários outros cotonetes aqui se você quiser enfiar em seja lá qual buraco você tenha preferência por enfiar as coisas.

Então enquanto Jéssica gastava todos seus neurônios pensando em uma resposta, Anne me pegou pela mão e fomos embora. Só tive tempo de me espichar e agarrar meu copo de milk shake.

Acho que foi mais ou menos nesse momento que minha mente começou a viajar e não ouvi absolutamente nada do que ela dizia. Só o que eu pensava era na mão dela na minha e depois de um tempo de sonho acordado nossas mãos estavam em lugares completamente diferentes e inapropriados.

De qualquer forma, fomos até a minha casa. Eu e minha mãe morávamos numa casinha até que simpática. A pintura amarela estava desgastada aqui e ali, mas nada que a deixasse muito feiosa. A gente morava ali desde sempre. Por dentro era hiper comum e não é como se sobrasse dinheiro para gastarmos com decoração ou móveis melhores. Mas não era de todo ruim.

Minha mãe estava dormindo no sofá da sala, então subimos até meu quarto em silêncio. Não tinha muita coisa por lá além da cama, escrivaninha e armário. Alguns posteres ocupavam espaço na parede e num canto ficavam minhas várias pilhas de livros comprados em sebos.

Anne largou a mochila em um lado, o casaco em outro e chutou os tênis para o terceiro canto do quarto, destruindo meu perfeito equilíbrio e organização. Eu gostava de deixar tudo impecável, limpo e arrumado. O resto de minha vida era um caos, e a casa costumava ficar bagunçada já que minha mãe passava seus dias bebendo e vendo o canal de vendas da Polishop na televisão. Eu tentava ajudar para deixar tudo limpo, mas ela sujava mais rápido que eu lavava. Então meu quarto era o santuário. Não reclamei com Anne até porque sabia que ela não dava a mínima. Ela se jogou em minha cama minúscula e eu sentei com as costas apoiadas na parede, recuperando o fôlego.

— Eu odeio isso — comentei depois de um tempo. — Sério, qual o problema deles, porque não deixam a gente em paz?

— Porque ser estranho é dez vezes melhor que ser normal. Eles te invejam — ela respondeu.

— Você tem problemas mentais — eu disse.

— É eu sei — disse Anne. — Ninguém nunca te invejaria.

— Obrigado — respondi.

Descansamos um tempo, falando só bobeira e depois ela terminou o serviço em minhas orelhas. Retirou os canudos de cotonete e colocou os alargadores pretos. Lavei as orelhas e fiquei encarando minha cara no espelho, tentando adivinhar se agora minha aparência estava melhor, pior ou só com mais motivos para ser chamado de emo. O que era um insulto que eu estava longe de entender. Ninguém ofendia alguém dizendo “ei, seu metaleiro” ou “você ouve pagode”. Ou ainda, “Cara, você gosta de chocolate”. Onde estava o insulto? Te chamar de algo que você gosta é um insulto em que mundo? Aí vinha a segunda parte. Seu viado. Okay, eu não sou gay, mas e se fosse? Eu nunca xinguei ninguém dizendo “ei seu hétero”. Mas isso não me impedia de ficar extremamente irritado. Sério, eu ficava muito incomodado com essas coisas. Nunca fiz nada pra provocar ninguém e eles vinham com aquelas histórias bestas e xingamentozinho de quinta série. Eu me pergunto por que diabos dava tanta bola.

E aí a Anne olhou para mim e disse que eu estava bonito. Devo ter ficado absolutamente vermelho. Acho que não respondi nadinha pra ela. Só lembro de ter ligado o aparelho de som para tentar não me sentir constrangido. E o pior é que isso nunca tinha acontecido antes. Sempre passávamos tempo juntos e constrangimento nunca fizera parte do pacote. Aparentemente meus hormônios estavam trabalhando demais ou os recentes seios desenvolvidos nela estavam anuviando minha cabeça. Céus, o que estava acontecendo comigo?

Anne escolheu um CD qualquer e deitou a cabeça em meu colo.

— Você anda muito folgada — eu disse.

Ela encolheu as pernas e se virou.

— Estou com sono — respondeu. — Não dormi noite passada.

Ela ficou ali deitada, de olhos fechados com enormes olheiras em volta deles. Aí passei a mão pelos ombros dela e foi quando vi uma enorme mancha roxa.

— Ele ainda está te batendo? — Perguntei.

Ela me olhou vagamente, apoiando a mão no hematoma.

— Claro que bate, Rafa. Sempre bateu e sempre vai bater.

Sacudi a cabeça, sem querer acreditar. O que fazia um pai bater na filha do jeito que acontecia com ela? Por mais medo que eu tivesse do meu pai quando ele estava conosco, pelo menos foram poucas as vezes que apanhei dele.

— Você não deveria mais deixar isso acontecer. Porque não conta pra alguém? Denuncia, sei lá.

Anne deu uma meia risada.

— Rafa, você é louco. Se eu contar para alguém e meu pai ser preso, pra onde eu vou? Prum orfanato? Ou o conselho tutelar aparece e me leva embora e de qualquer forma, não é como se as coisas fossem mudar.

— E suas tias?

— Minhas tias? Claro que não, prefiro apanhar a viver com elas. Já me acostumei a levar porradas de qualquer forma.

A Anne tinha duas tias solteironas, gêmeas e mega religiosas. Era meio chato, e as duas doidas faziam comentários desagradáveis de vez em quando. Tipo, no aniversário da Anne de quinze anos, elas ficaram aporrinhando a roupa dela, dizendo que aquilo era do demônio e coisa e tal. Ridículo. Aí a gente pôs um CD, acho que era Green Day. Credo, as duas surtaram. A gente ia por um black metal do capeta, mas ficamos com dó das duas. Vai que elas despirocavam de vez, ou se trancavam no banheiro pra rezar. Na boa, elas não liam livros, não assistiam novela, nada assim. Tentaram até convencer a Anne a queimar a coleção de Harry Potter dela.

— Não gosto de ver isso, Anne. Sério — falei para ela.

— Eu sei, Rafa. Eu também não gosto de ser machucada. É o que tem pra hoje.

— Isso é ridículo, você não se cansa disso? Até eu já me cansei.

— Eu também cansei da sua mãe bêbada falando merda, Rafa, mas somos menores de idade e não temos onde cair mortos. O que você sugere? Fugir?

— Eu sei Anne, só queria que tivesse algo que pudesse ser feito.

Ela virou para meu lado, me abraçando pela cintura. Minha cama estava pequena para mim, quem diria para nós dois. Ela encolheu as pernas. Os pés cobertos por meias roxas. Escondeu o rosto na minha barriga em uma das raras demonstrações de afeto.

Minha mãe entrou no quarto e ficou um tempo olhando pela janela. Ela fazia isso de vez em quando, a minha mãe. Ficava ali na porta do meu quarto com a mão na maçaneta olhando pro absoluto nada. Ela tava usando o mesmo roupão há cinco dias. O cabelo preto virado num caos. Oi crianças, ela disse. Juízo crianças, ela disse. E foi embora, falando que iria tirar uma soneca. Completamente doida.

— O quão pesado você acha que sua mãe vai dormir — perguntou Anne.

— Bastante. Por quê?

— Eu queria saber se posso ficar aqui essa noite. Não quero apanhar do meu pai. E ele meio que vai me bater se eu voltar para casa hoje.

— Porque ele faria isso? — perguntei, mesmo sabendo que aquele velho doido não precisava de muito motivo para fazer o que fazia. Na cabeça dele, a Anne ter “matado a mãe no parto” já era o suficiente.

Aí a Anne veio com um papo muito estranho pra cima de mim. Sério mesmo. “Eu queria ter te contado antes”, ela disse.

— Contado o que?

Ela ficou em silêncio, respirando calmamente. Eu acariciei seus cabelos e ela torceu a boca.

— Eu realmente queria ter te dito isso antes. Só que tudo foi meio que corrido. Então, posso ficar aqui?

— Claro que pode — respondi. — Mas porque seu pai quer te bater?

— Rafa, você lembra ontem quando eu fui ao bar e você preferiu ficar em casa sendo você mesmo?

— Lembro, foi ontem. Não sou eu quem bebe nessa casa.

— Então, é que eu meio que conheci alguém e nós ficamos e meu pai viu a gente se beijando na porta de casa.

Essas palavras entraram em meu ouvido uma por uma, e uma a uma, meu cérebro tentou ignorá-las ou achar que era mentira. Devo ter feito uma puta cara de idiota tentando absorver o que ela tinha dito.

— Você o que?

— Fiquei com um cara.

— E como diabos seu pai viu isso?

— Ele viu ontem de manhã quando ele me deixou em casa.

— Você dormiu com ele?

— Claro que não. Só ficamos até muito tarde na rua. Aí meu pai viu, mas eu me arrumei correndo e fui direto pra escola. Por isso que to com essa cara de traseiro hoje.

            A última coisa que eu queria imaginar era Anne beijando outro cara que não fosse eu. Tentei me esforçar para parar de pensar naquele tipo de coisa, pois era claro para mim que ela não me via como nada além de um amigo. Nem eu sabia direito o que sentia por ela, e morria de vergonha de pensar nisso naquela época. 

— Você vai vê-lo de novo? — foi só o que consegui perguntar. Se eu falasse demais, capaz de ela perceber que na verdade eu queria era beijar ela pra valer.

— Acho que sim, ficamos de combinar pela internet depois.

— E seu pai não vai surtar se você não for para casa?

— Com sorte ele nem vai perceber.

— E aí, qual é a desse cara?

Ela disse um monte de coisa sobre ele e tudo o que entendi foi que ele é tão cool, incrível, forte, inteligente e descolado que me deu vontade de vomitar. Apostei que fossem aqueles caras blasés que falam de vanguarda e usam as roupas dos avós. Apostei também que ele tinha bigode. Sério, qual o problema do bigode? Todos tinham bigode naquela época, capaz de as garotas começarem a crescer bigode também e achar super legal. Rolava essas campanhas imbecis na internet para que os caras crescessem barba. Ridículo.

Enfim, o odiei imediatamente, e minha vontade de agarrar Anne naquele momento só aumentou ainda mais. Parece egoísta, e de fato era. Eu a queria só pra mim.

Anne começou a rir, olhando para minha cara com suas bochechas rosadas. Você está com ciúmes, ela disse.

— Claro que não — respondi.

— Então é inveja porque você não beija uma garota há muito tempo — ela disse.

—Claro, como se tivessem muitas garotas dispostas a me beijar por aí.

— Elas devem ser doidas para não querer te beijar. Eu te acho bonitinho.

Fiquei quieto. Bonitinho é o típico elogio sem fundamento e que uma garota faria caso não tivesse verdadeiro interesse por alguém. Era a prova máxima que eu precisava para saber que minhas chances com ela eram nulas.

Me perguntei o que aconteceria se algo rolasse entre nós e desse errado. Aí eu a perderia para sempre e eu não queria isso. Talvez fosse um sacrifício necessário, perder a garota e ficar com a amiga, com alguém com quem eu sempre poderia contar. Quem eu estava tentando enganar com aquele pensamento?

Aí a Anne ficou dormindo em minha cama enchendo meu cobertor com o cheiro dela enquanto eu fazia dever de casa e começava o trabalho de geografia.

Aquela noite foi particularmente torturante para mim e meus hormônios. Nem a ducha fria ajudou muito a resolver o problema.

Ela dormia pacificamente em um colchão ao lado de minha cama e fiquei com os olhos pregados no teto e as mãos em baixo da cabeça tentando ao máximo não colocá-las dentro da cueca. E eu era virgem, do tipo que estava a anos luz de dormir com alguém. Era daqueles garotos românticos que esperavam a pessoa certa, mas mesmo se eu não fizesse aquilo, continuaria do jeito que tava. Apenas por pura sorte do destino que já havia beijado garotas, mas nenhuma que eu tenha gostado de verdade. Coisas de uma noite só em um show e coisas assim. Eu tinha dúvidas se algum dia conseguiria encontrar alguém que realmente gostasse de mim e lá dentro eu sabia que essa pessoa não era a Anne.

Na manhã seguinte veio minha bomba de culpa por ter pensado nela no chuveiro, e assistimos Dragon Ball comendo cereal sem que eu conseguisse olhar para ela sem me sentir imundo. Uma criatura nojenta e indigna. Sentia raiva de mim mesmo por aquele tipo de coisa e morria de vergonha. O mais complicado de tudo era que por mais que eu não fumasse ou bebesse, tinha comportamento auto-destrutivo mesmo assim. Algo que eu escondia de todos, morrendo de medo que alguém descobrisse um dia. Não, eu não usava nenhuma droga. Eu me cortava.

Esperei a Anne ir embora e subi para meu quarto, liguei o som, abri o livro que deixava na gaveta da mesa e tirei do meio de suas páginas uma lâmina de barbear. Uma coisinha leve e pequena e super afiada.

Encostei a lâmina no braço e respirei fundo.

Fiz dois cortes across the street no meu punho. O tipo de corte fundo apenas o bastante para que doesse um pouco e sangrasse. Não muito, eu não queria morrer, se eu quisesse já estaria morto. Fiquei ali observando as gotas vermelhas brotarem da ferida antes de lavar o braço e esconder os cortes com uma munhequeira. Me senti culpado por me cortar e ocasionalmente eu me cortava por me sentir culpado. Só por isso você pode imaginar que a culpa e a vergonha e o medo faziam parte de mim. Aonde diabos aquilo me levaria? Era um círculo vicioso doente do qual eu não via saída.

A única coisa que conseguia me distrair, fazer minha mente se calar e tirar um pouco do peso em meu peito era aquilo. Uma lâmina de barbear escondida dentro de um livro. Pode parecer estúpido, mas funcionava para mim. Só queria que a dor passasse, e a dor física parecia ajudar naquela outra coisa que eu sentia e não sabia de onde estava vindo. Aquela agonia eterna que nos corrói por dentro, aquele peso que não importa o que você faça, nunca sai dali. O alívio durava poucos segundos, mas era o suficiente para me fazer agüentar mais um dia. Eu sabia que aquilo não me levaria a lugar algum. Já estava lutando para tentar acabar com aquele hábito fazia meses, mas só força de vontade não estava adiantando de nada.

Aquela semana foi um inferno. Cumprimos nossa suspensão, Anne apanhou do pai por beijar um garoto, minha mãe desmaiou, roubaram meu caderno de anotações e jogaram na privada, um cara esbarrou de propósito em minha orelha quase inflamada e doeu pra cacete. A pior parte foi a Anne, tagarelando sem parar sobre o cara que ela havia ficado. Eles estavam conversando na internet e ele parecia tão legal e descolado e eu já estava de saco cheio de ouvir aquilo. Ele já estava na faculdade, eu e Anne no terceirão. E cada dia da semana ia ficando pior porque eu deveria conhecê-lo na sexta.

Na quinta feira passei mal e na sexta quis pegar dengue para poder matar aula e não precisar ver os dois juntos. Mas na sexta-feira, lá estava eu, com minha roupa mais legal, e o cabelo o menos ridículo que eu conseguiria deixar, tudo para tentar impressionar um imbecil pelo qual minha amiga estava apaixonada. História da minha vida.

Join MovellasFind out what all the buzz is about. Join now to start sharing your creativity and passion
Loading ...