Antes de Tudo Acabar

Nem todos se encaixam em algum lugar. Rafael é uma dessas pessoas, deslocado, sem muita perspectiva e cuidando de uma mãe alcoólatra em recuperação, ele precisa ainda se preocupar com o seu amor não resolvido pela melhor amiga e com os percalços de um pai ausente. As coisas ficam ainda mais complicadas quando novas pessoas entram no seu caminho e a vida adulta bate na sua porta. Esta é a história de um garoto que precisa se encontrar e compreender um mundo que se move mais rápido do que ele consegue imaginar. Um mundo onde amizades são construídas e desfeitas, amores morrem e nascem e as curvas acontecem de forma inesperada.

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1. 01

Para todos aqueles que tem dúvidas.

Para as perguntas sem respostas,

e para as dúvidas respondidas.

 

 

Era completamente comum e irrelevante. Apenas dois alunos no pátio da escola, obviamente matando aula. Ninguém mais dava bola pra aquela atitude, principalmente por sermos vistos vadiando ali toda semana. Sem falta. Eu e a Anne. Duas pessoas extremamente fáceis de serem reconhecidas devido a comum falta de uniforme, camisas de banda e calças pretas rasgadas. E costumava ser assim no começo e durante anos.

Eu e ela.

Sempre.

Anne esfregava uma boa quantidade de álcool nas mãos e sacudia para secá-las. Enquanto isso eu tentava me distrair olhando para os pombos que andavam chacoalhando suas cabecinhas. Ela passou um pouco do álcool nas minhas orelhas e nos alargadores: dois pequenos brincos de 2mm na haste. O sol torrava nossas cabeças enquanto matávamos a aula de matemática. Estava tudo em silêncio e apenas o grupo de pombos andava por ali, comendo os restos de lanche dos alunos e arrulhando.

A administração tinha enchido a escola com placas de “não alimente as aves”, mas não havia nada que pudesse ser feito para impedi-los de comer hambúrgueres. Um deles esbarrou em um copo de Fanta Uva, derrubando o líquido e manchando o chão de cimento com aquele corante roxo pavoroso que provavelmente dava câncer.

Não me lembro muito bem, mas acho que era agosto. Aquela época do ano em que era bom ficar debaixo do sol nos dias frios, fazendo fotossíntese, como dizíamos. Absorvendo o máximo de calor para quando esfriasse ainda mais.

Não ventava muito, então o sol aquecia de fato. Pior é que se fossemos para a sombra, provavelmente passaríamos frio. Então sentamos ali, onde o pedaço de sombra de uma árvore batia em nós.

Foi uma das últimas semanas razoavelmente comuns dos próximos meses. Eu estava prestes a entrar em um mundo tomado por hormônios adolescentes, dúvidas e alcoolismo alheio. E foi aquela sexta-feira que começou tudo. Éramos apenas dois moleques, nada demais em nossas vidas. Minha única emoção era ir para a praça nos fins de semanas e tentar convencer minha mãe de que ela precisava de comida para sobreviver.

 

 — Vai doer? — perguntei para ela.

Anne apenas riu. Era óbvio que ia doer. Ela estava prestes a enfiar um cotonete afiado no furo da minha orelha. Ela me olhou com um sorriso sinistro enquanto cortava o cabo do bastão azul com um canivete, fazendo uma ponta que imitava um cateter. Quase me arrependi de não ter ido a um estúdio. Fiquei olhando os desenhos e assinaturas feitos com canetas e corretivos no banco em que estávamos, tentando me distrair. Incrível a quantidade de porcaria que alguém é capaz de escrever num banco de escola. Um dos alunos desenhara um pênis com os dizeres “sente aqui” do lado. Era um pouco patético, parecia piada de quinta série, mas, ainda assim, era extremamente comum vindo de garotos da mesma idade que a gente. A maturidade ia toda para o saco quando havia um banco a ser riscado.

Anne jogou mais álcool no cotonete e nas mãos. Me perguntei se aquela era  a melhor forma de esterilizar os materiais, mas não havia muito o que podia ser feito.

— Preparado? — ela perguntou.

— Acho que sim — respondi com a voz falhando.

Sim, eu era um covarde. Meu estômago afundava só de pensar naquele cotonete sendo enfiado pelo meu pequeno furo de brinco comum.

Peguei o celular da mochila e coloquei uma música em volume baixo para tocar. Quem sabe aquilo serviria para me distrair. Eu confiava nela, a Anne. A conhecia há anos e sempre estivera do meu lado, mesmo nos momentos mais ferrados de minha vida. Como daquela vez, três anos atrás quando meus pais se divorciaram. Ela veio até minha casa na chuva. Chegou lá encharcada, tremendo de frio. Você é doida, eu disse. Ela não se importava. Minha mãe lhe deu uma toalha para se secar e Anne fez chá para todos nós. Ela conseguiu transformar o pior dia de minha vida em uma das melhores noites que tive em companhia da minha mãe. Choramos juntos e dissemos tudo o que tinha para ser dito e que fora ignorado em quatorze anos. Foi a última vez que vi meu pai até então. Eu não costumava gastar muito tempo pensando em onde ele poderia ter ido ou onde poderia estar. Não queria nada vindo dele a não ser distância e a pensão na conta da minha mãe todos os meses.

Eu costumava ter medo dele antes que fosse embora. Era o tipo de homem de poucas palavras, mas que quando era desafiado a interagir, sempre o fazia de forma violenta. Minha mãe o amava e idolatrava de uma maneira que eu nunca consegui entender. Eu sempre tentava ficar fora do caminho quando possível, me enfiando no quarto para ler, estudar ou qualquer coisa. Acho que ele tinha vergonha de mim para falar a verdade, já que eu era um garoto franzino e tímido que não fazia nada de útil, a não ser jogar videogame e ler sobre criaturas marinhas e dinossauros.

A Anne chamou minha atenção, estalando os dedos na frente do meu rosto.

— Sério, se você não quiser fazer isso, tem que me dizer agora.

Eu só neguei com a cabeça e falei para mandar bala. Deixei meus devaneios de lado já que eu tinha coisas mais importantes para pensar, como por exemplo, o cotonete abrindo espaço milímetro por milímetro na minha carne.  Fechei os olhos e apertei as mãos com força. Prestei atenção na música do Phoenix saindo do celular, mas sem captar direito qual música tocava. Mordi a língua para não reclamar de dor e parecer um fracote na frente dela.

Anne era daquelas meninas marrentas que tentam esconder toda e qualquer fraqueza que pudesse sentir. Ela furara as próprias orelhas. Me dava um pouco mais de motivo para confiar no que ela estava fazendo, mas também me fazia sentir um pouco inferior. Não em um mal sentido. Os problemas dela eram muito piores que os meus, mas era eu quem ficava me lamentando pelos cantos. Eu só queria ser forte igual a ela, que aguentava merda todo o dia e se mantinha firme. Às vezes eu me perguntava se o que eu sentia por ela era amizade ou algo mais. Nos conhecíamos desde sempre, o que deixava tudo muito confuso. A mãe de Anne morrera durante o parto e minha mãe foi sua ama de leite. Nascemos no mesmo dia, no mesmo hospital. Tentei por muito tempo colocar em minha cabeça que éramos apenas como irmãos, mas eu sentia um frio na barriga quando ela tocava em mim que estava longe de ser um sentimento inocente.

A Anne cortou o cotonete rente na minha orelha e passou para o outro lado. Próxima orelha! Ela disse, com uma empolgação sinistra. Enquanto isso, meu lóbulo latejava de dor.

— Sério, você tem o que, algum tipo de tara por tortura?

— Não, só quando é para torturar você.

Aí ela sorriu aquele sorriso lindo e eu tive de desviar o olhar. Ela tinha cortado o cabelo recentemente. Estava na altura dos ombros, os fios completamente desalinhados e rebeldes. Uma faixa vermelha os prendia para trás. Contraste perfeito com o rosto delicado que ela tinha. Eu gostava da forma como ela se recusava a usar o uniforme da escola e não abria mão das calças jeans surradas e alguma camiseta de banda ou desenho engraçado. Cadê o uniforme? Os professores perguntavam. Ela dava de ombros e continuava a fazer seja lá o que estivesse fazendo. Principalmente no inverno, nunca usávamos uniforme. O moletom da escola estava longe de ser quente o suficiente. Seja como for, o casaco dela naquele dia era estampado com uma imagem da Chiquinha, de Chaves. O All Star estilo bota por cima das calças. Um vermelho, um preto.

Sim, éramos motivo de piada, eu e ela. Mas tínhamos um ao outro, então não era um grande problema. E era o suficiente na maioria das vezes.

Sempre achei interessante como na escola você é definido por suas roupas ou música que ouve. No meu caso, as calças skinnys (como você entra dentro disso, oh, imbecil), a camiseta de banda (você tem que te problemas mentais para escutar isso) e o cabelo (seu emo viado) eram os maiores motivos de zoação. Sendo que sequer franja eu tinha, ou qualquer coisa parecida. Aparentemente o simples fato de você não gostar de música pop ou sertanejo universitário era o suficiente para ser considerado um anormal. Claro que meus queridos colegas nunca perdiam uma oportunidade para zoar com o fato de minha mãe ser alcoólatra e meu pai ter nos abandonado. Os óculos, por incrível que pareça, era o que menos zoavam. Anne fora apelidada de Bruxonilda, o que para ela era um elogio, ela dizia. Adoro a Bruxonilda, ela dizia. E gostava mesmo e de fato não dava a mínima para as piadas.

Estudávamos em uma escola pública bem grande, no centro da cidade. As paredes haviam sido recentemente pintadas de azul — cor esta, escolhida para tentar evitar as pichações. Nem preciso dizer que seria inútil. Em poucas semanas estaria tudo pichado novamente. Sempre achei que a melhor coisa que podiam fazer com as paredes era contratar uns grafiteiros pra fazer algum desenho legal. Assim acho que os outros garotos parariam de desenhar peitos e bundas por ali.

Naquela época nós matávamos aulas o suficiente para não reprovarmos, o que nos dava direito a uma matéria perdida vez ou outra. Não nos importávamos e não é como se alguém fosse sentir nossa falta naquela espelunca.

A Anne já havia encostado o segundo cotonete cortado na minha orelha quando nos sobressaltamos com os pombos voando. Ela xingou e rapidamente enfiou tudo o que estava sobre o banco dentro da mochila. Um dos seguranças da escola se dirigia até nós. Pelo jeito a escola não tinha problemas com alunos matando aulas, desde que não colocassem alargadores pelo pátio.

Pegamos nossas coisas com a agilidade de quem matava aula com frequência e corremos dali. O homem atrás de nós gritou algo, mas não prestei atenção no que ele disse. Como não se pode vencer todos os dias, em poucos minutos estávamos sentados na diretoria levando uma suspensão.

Foi mais ou menos naquela época que tudo começou a dar errado. A começar pelo namorado novo da Anne. E foi também nessa época que descobri que eu não apenas gostava dela. Eu “gostava” dela. Enfim. Foi em agosto, estava frio, foi uma droga.

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