Contos de Terror: O preço de uma vida

Elenna Bluebell é uma garota de 15 anos que está sozinha em casa. A pureza e inocência da jovem Elenna faz com que ela deixe entrar em sua casa a última pessoa do mundo na qual ela devia acreditar... Quando um estranho bate a sua porta, você deve ser humilde para o ajudar e corajoso para o deixar entrar? Ah... Talvez um pouco de covardia faça bem...

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1. Capítulo Único

Tic-Tac

Tic-Tac

Tic-Tac

O silêncio na sala dos Bluebell era tamanho que se ouvia o barulho do relógio por toda acasa.

No andar de cima apenas uma luz fraca cintilava pelas frestas da porta do quarto da jovem Elenna.

Tic-Tac Tic-Tac

Tic-Tac Tic-Tac

Os olhos de Ellena percorreram o quarto, ela jurava ter escutado o som do relógio mais rápido e alto do que o normal, fechou o livro cuidadosamente e o pousou sobre a mesinha de cabeceira ao lado de sua cama.

Trovões acompanhados por relâmpagos foram o ponto de partida para o início de uma violenta tempestade. Era nesses momentos que a garota de 15 anos mais odiava ficar sozinha em casa. O fato de seus pais trabalharem em um hospital na cidade e sua casa estar muito afastada da urbanização a deixava um tanto nervosa, tirou os óculos de leitura e os colocou suavemente sobre o livro.

Seus pés tocaram o chão frio e o tatearam em busca das pantufas. Por cima da camiseta cinza ela colocou o casaco de lã rosa, saiu do quarto acendendo o maior número de luzes possíveis. A medida que seus pés tocavam os degraus de madeira, estes rangiam.

–Eu odeio essa maldita casa velha! -Ela reclamou baixo. - Muffin?

Ela assobiou e logo o cachorro de pelagem cor de mel apareceu abanando o rabo com a língua para fora, a jovem afagou as orelhas do cão e se dirigiu à cozinha para preparar chá de canela.

Colocou água na chaleira e ouviu batidas fortes na porta.Hesitou em atender.

–Deixe de ser boba Ellena! - Disse dando um tapa leve em sua fronte. - Eles devem ter esquecido as chaves ... Apenas isso.

Tic-Tac Tic-Tac Tic-Tac

Tic-Tac Tic-Tac Tic-Tac

"Essa velharia deve estar defeituosa!" - Pensou a garota enquanto se dirigia à porta. Notou que já se passavam das duas da madrugada.

Confiante de que seria seus pais, já que ninguém andava naquela região nesse horário, Elenna abriu a porta deparando-se com uma homem alto,de pele pálida,lábios fartos e cabelo louro escuro.Seus olhos foram o que mais lhe chamou atenção; eram dourados e profundos.

–Boa Noite. - A voz ecoou pela sala.

–B... Bo... Boa... - Ela gaguejou assustada. Se arrependeu profundamente de não ter ligado para os pais para ter certeza se era ou não eles. De qualquer forma, ela nunca havia visto homem de tamanha beleza, ele era jovem, ela tinha certeza, 25 anos no máximo.

–Sou Lucy, venho do interior e estava a caminho do hospital da cidade, o Sr. Bluebell havia me prometido um emprego há umas duas semanas, bem, o meu carro quebrou e eu não consigo concertá-lo devido a chuva... Eu sei que não me conhece, sei também que é um pedido estranho e muito propício a ser recusado... Mas será que você poderia, por favor, deixar que eu espere aqui até que a chuva amenize?

Elenna olhava o rapaz, ele parecia jovem demais para ser médico, talvez fosse enfermeiro ou estagiário. Ela pensou em se desculpar e pedir que ele fosse embora, mas ele parecia tão bom e tinha um sorriso bonito que passava confiança,então ela sorriu.

–Bem, deixarei que entre... Mas apenas porque o "Sr. Bluebell" é no caso o meu pai.

–Não creio! - Lucy mostrou-se surpreso. - Que sorte a minha de bater justo na porta de uma Bluebell. Na verdade eu nem sabia que elas existiam...

–É, tem aquela droga de lenda que os moradores contam sobre um tal feitiço. - Ela fez uma careta. - São todos uns loucos. Para mim não passa de uma coincidência!

–Ah, claro! Mas você tende a admitir que é bastante... Curioso... Faz muito tempo que não nasce uma menina em sua família.

–É curioso... Mas nada que a ciência não explique! - Ele sorriu como se concordasse. - Colocarei mais água na chaleira.

–Tudo bem. - Lucy sorriu e seus olhos dourados brilharam.

••• 02 de março de 1859 •••

Sereena olhava para seu bebê sem vida em seus braços com imensa tristeza.

Com a mão esquerda a jovem apertou amuleto do colar contra o peito. Ela sabia o quão era perigoso o que ela tentaria,mas era a sua criança.

Disse algumas palavras na língua dos anjos e a sua frente ele apareceu com uma leve expressão facial.

–Ah, por favor, você sabe que não precisa desse ritual todo para me chamar, minha cara... Afinal,eu odeio esse idioma ridículo.

–Eu preciso de um favor... - Sua voz soava desolada.

–Outro? Há 9 meses você me pediu um favor, se lembra? Eu a tornei fértil. Não achas que estás abusando demais de minha boa vontade?

–Eu lhe imploro! - A mulher estava de joelhos. - Não posso viver sem meu bebê...

–Se imploras é porque tens algo a dar em troca.

–O que quiseres... - Ele gargalhou sarcasticamente.

–O que uma fêmea não faz por sua cria, não é mesmo Sereena Bluebell? Bem, não sou um anjo bom,por isso cobrarei.

–Você já tomou tudo de mim. - O quarto estava iluminado apenas por uma vela, o restante da casa estava escura, o barulho do velho relógio ecoava.

Tic-Tac

Tic-Tac

Ele riu.

–Senhora, não me refiro a bens materiais. Eles não tem real significado para mim!

–O que queres, oh infeliz? - Ela se levantou de forma rude enquanto cuspia as palavras em desespero.

–Você me pede um favor e grita comigo? - Seu sarcasmo a irritava. - Você grita com o próprio Diabo e ainda exige dele um favor? Quanta ousadia e arrogância tem vocês, pobres mundanos mortais! - Ele se aproximou da mulher e sussurrou a fazendo estremecer.

–Eu quero uma alma, Sereena...

–Uma alma? - Ela pressionou o corpo de seu garoto contra seu próprio corpo. Ela não aguentaria ter de prometer a vida dele, era melhor não tê-lo, se era assim!

–Não seja tola, mortal! Eu quero a alma de sua descendente... Mas não qualquer mísera descendente! Quero a alma da garota mais loira, dos olhos intensamente azuis, de lábios rubros e de pele tão branca e brilhante quanto o luar. Ah, o mais importante, a descendente nascida em 02 de março e ela virá diretamente do pequeno Raphael Bluebell... Filha, neta, bisneta... Tanto faz, compreende Senhora?

–Por que diretamente de Raphael?

–Porque a Senhora terá outros filhos, é claro, mas apenas Raphael será culpado por esta alma "vendida".

"Quais as chances de isso acontecer?" - Sereena pensou brevemente.

–Eu aceito. - Não havia em que pensar, ela queria seu filho mais que tudo.

–Coloque o garoto no berço e vá dormir, ou tente. Amanhã acordarás com o insuportável choro de seu bebê.

–Muito obrigada! - A mulher chorava de alegria por ter recuperado seu filho.

Antes de sumir na escuridão, o diabo se virou para Sereena Bluebell.

–Lembre-se: O diabo sempre cobra suas dívidas.

A mulher assentiu. No outro dia levantou ao ouvir o choro do seu pequeno Raphael.

Embora achasse que as chances de nascer uma Bluebell em 02 de março, com tais peculiares traços, fossem impossíveis, Sereena tratou de procurar algumas feiticeiras das redondezas e pediu que juntas, elas fizessem um feitiço forte que impedisse que nas próximas gerações dos Bluebell nascesse uma menina.

As feiticeiras lhe asseguraram de que a partir daquele dia, nenhum Bluebell de sangue nasceria do sexo feminino.

•••

Tic-Tac Tic-Tac

Tic-Tac Tic-Tac

Tic-Tac Tic-Tac

Elenna acabara de colocar a chaleira no fogo quando as luzes se apagaram.

Por um segundo seu coração parou, ela sentiu suas mãos suarem frio, um vento gélido tocou-lhe a face, um raio cortou o céu negro iluminando a cozinha por dois segundos.

Ela ouviu o assoalho ranger.Passos.

–Lucy? - A garota perguntou hesitante. Nenhuma resposta, tateou a pia em busca de algo para se defender, encontrou uma faca e a empunhou com força. Sentou-se atrás do balcão, ficou bem encolhida. Os rangidos pararam.

–Estás com medo, pequena Bluebell?

Elenna olhou para os lados e seus olhos azuis se encontraram com os olhos dourados de Lucy.

–Que susto! Como me encontrou aqui nesse escuro?

–Enxergo bem melhor na escuridão.

–Será que a energia acabou? - Ela procurou por Lucy, mas este já havia sumido.

Tic-Tac Tic-Tac

Tic-Tac Tic-Tac

Tic-Tac Tic-Tac

–Lucy? - A garota gritou amedrontada. Ela começara a se arrepender por ter deixado o rapaz ficar. Soltou a faca no chão e limpou algumas lágrimas do rosto.

Outros raios cortaram o céu, iluminando a garota e dessa vez ela viu Lucy em sua frente e este a ergueu pelo pescoço e a prendeu na parede.

–O que está fazendo? - O rapaz riu e tirou as mãos do pescoço da garota, mas uma força invisível ainda a matinha no alto e sendo levemente sufocada. Elenna respirou com dificuldade.

–Pequena, sua mãe nunca lhe dissera que não abrisse a porta para estranhos? - Ele riu sarcasticamente. - Que espécie de mãe vocês, mortais, tem em pleno século XXI?!

–Quem é você?

–Ah, mas isso você deveria ter me perguntado antes, doce e ingênua Elenna! - Ele a olhou nos olhos. - Pensei que seria mais difícil entrar em sua casa, mas você tão boa acreditando que eu tinha boas intenções, sentiu pena, não foi? Afinal, um rapaz tão bonito...

–Me solta! Você pode pode levar o que quiser! - Ela falou com dificuldade.

–Eu sei bem disso. Vocês mortais oferecem tudo em troca de suas vidinha miseráveis! E este é um dos motivos pelos quais, estou aqui. - Ele sorriu. - Mas voltando a sua pergunta, ao contrário do que pensavas Senhorita, não sou Lucyan, Luke ou Lucio... - Com os lábios próximos aos da garota ele sibilou como uma serpente. - Eu sou Lúcifer.

Elenna o olhou com espanto.

–Faça sua saudação ao anjo mais bonito e temido...

– O que queres comigo?

–Quitar uma dívida de sua tataratatara bla bla bla bla vó. Como disse o último rapaz que busquei : "Esses ancestrais só ferram as nossas vidas!". Mas eu não tenho ancestrais! Mas acho que a frase dele se aplica a você... Aliás, que piranha, não é?! Prometer a única garota da família!

–Não acredito! - A força invisível que a prendia na parede soltou-a bruscamente.

–Ora, como ousas duvidar daquele que possui essa sua vidinha medíocre e desgraçada?

–Você não possui nada! - Ela gritou.

–Errada! - Ele sorriu como um psicopata. - Eu tenho tudo Elenna. Eu lhes dou riquezas e sugo cada gota de suas felicidades, eu lhes dou mulheres e maridos influentes mas lhes trago doenças... Eu dou a cura ou até trago seu ente querido de volta a vida, mas eu também os guio até uma morte dura, lenta e dolorosa. Uma vez nesse jogo e ele jamais acabará! O primeiro favor é por conta da casa, mas os próximos tem seus preços peculiares...

–Eu não preciso de seus favores! - Elenna sussurrou e levantou-se cuidadosamente.

–Ah, todos precisam pequena... Mas poucos são corajosos o suficiente para pedir.

–Errado. - A garota disse nervosa, suas pernas tremiam. - As pessoas acham que precisam.

Lúcifer riu.

–Deixe-me adivinhar: Você acha que pode se livrar de mim?

–Eu tenho certeza!

–Mundanos... Todos tão tolos... -A garota correu em direção porta e essa se fechou no momento em que a garota se aproximou. Lúcifer riu e atirou uma faca certeira na panturrilha de Elenna,fazendo-a cair.

Ele caminhou suavemente até ela e a levantou pelos cabelos loiros. Ele a prendeu em seus braços.

–Você irá morrer. - Seu sorriso era maligno,satisfeito,cruel...

–Eu não quero morrer... - Ela disse ofegante,os olhos estavam vermelhos de tanto chorar.

–Então peça... Você sabe o que tem que fazer.

–Eu lhe suplico. - Ela se deu por vencida.

Com as próprias unhas Lúcifer marcou uma cruz invertida na nuca de Elenna Bluebell.

–Uma vez neste jogo... - Ele sussurrou no ouvido de Elenna e então ela desmaiou.

•••

Elenna acordou com a chaleira apitando. Muffin estava deitado junto a ela no sofá da sala.

Havia sido apenas um pesadelo?

Ela olhou ao seu redor e tudo estava em perfeita ordem.

Por um minuto ela pensou que poderia estar delirando.

–Lúcifer? - Ela chamou baixo, hesitante.

Não havia tempestade, nem raios, não havia ferimentos em seu corpo, nem sangue pela cozinha...

Ela respirou fundo e serviu-se do chá.

••• 10 anos depois

02 de março

A Sra. Tolouver esperava ansiosamente para poder pegar o seu bebê.

O tempo fez bem a Elenna, ela estava mais bonita que nunca, casada, era uma arquiteta renomada e o melhor de tudo: Morava em uma casa imensa na Califórnia.

O enfermeiro a entregou o bebê de lindo olhos azulados e um ralo cabelo loiro.

–Já escolheu um nome "mamãe"?

–Giovanna Tolouver Bluebell.

Ele deu meia volta. Elenna tocou a mão da criança, lá havia uma ferimento, ela olhou a marca e sentiu um calafrio.

Cruz invertida.

Já ia chamar o enfermeiro para questioná-lo sobre aquilo mas este já havia se virado para a encarar.

Os olhos dourados cintilaram como os olhos de uma serpente.

–Você sabe o que fazer, não é mesmo? - Ela abraçou a filha mais forte e sentiu as lágrimas correrem.

–Ele não levará você... - Sussurrou para o bebê frágil em seus braços.

–Peça à pequena Giovanna que não abra a porta para estranhos, em hipótese nenhuma! - Lúcifer se virou com um sorriso satisfeito e enquanto saía do quarto completou: - Não que isso faça alguma diferença.

Naquele mesmo dia Elenna contou a todos sobre como o Diabo havia a perseguido, sobre o pacto de sua ancestral Sereena e sobre o confronto com Lúcifer que ela tivera aquela tarde.

Hoje em dia, Elenna Kathelyn Bluebell Tolouver, vive em um hospício no Sul da Califórnia. Nunca houve um laudo concreto mas os médicos acreditam que sua mente esteja perturbada pois talvez ela tenha distúrbios mentais.

Seu marido, Johnatan Edward Tolouver, está preso em um engarrafamento à caminho de casa.

Giovanna Marie Tolouver Bluebell tem doze anos, está sozinha em casa e sua mãe não teve a chance de a alertar sobre o perigo de abrir a porta para estranhos.

Uma tempestade está por vir e o rapaz de olhos dourados está parado em frente à porta de número 666, pronto para tocar a campainha.

Tic-Tac Tic-Tac Tic-Tac Tic-Tac

O seu tempo está acabando pequena Bluebell.

Dívidas devem ser quitadas...

De uma forma, ou de outra...

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