Born to die.


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Era uma forte noite de chuva, eu podia ouvir os berros de Beatrice afirmando ter visto algo saindo pelas paredes. Após ser carregada pelos enfermeiros para um dos quartos individuais o silêncio predominou novamente no prédio.

Consegui voltar a meu sono ao tomar uma das pílulas para dormir. Esse tipo de coisa acontecia praticamente toda noite naquele hospital, eu já estava acostumado. Tudo em minha volta começou a sumir de vez, fechei meus olhos e só pude ouvir meu coração batendo. Cai de vez no sono.

Levantei da cama bastante sonolento, abri a janela e notei a presença de uma criança no quintal. Ela olhava diretamente para a porta do hospital e então olhou para a janela do meu quarto. Mais precisamente para atrás de mim. Me virei passando o olho por todo o local e não me surpreendi com nada. Apenas aquela mesma bagunça de sempre. Me virei para a garotinha e seus olhos começaram a sangrar, enquanto ela berrava desesperadamente para o "nada" atrás de mim. Seus berros ficavam cada vez mais altos, pareciam estar entrando por dentro de mim, fechei meus olhos tentando suportar o som. Era insuportável.

Abri meus olhos, gritando. E quando notei, Brady, meu colega de quarto estava ao meu lado, tentando me acalmar. Era apenas um pesadelo, mas meu coração estava tão acelerado como se tivesse sido real.

- Mark, acalme-se!- ele dizia, desesperado- você quer que eu chame a enfermeira?

Quando percebi que tudo em minha volta estava normal a medida do possível naquele lugar, me acalmei. Agradeci Brady e o pedi desculpas. Me deitei novamente, mas sem coragem de fechar os olhos. Fitei o teto tentando formar desenhos. Bem, esse era o jeito que as enfermeiras nos faziam ficar calmos e relaxados... Adiantava. Até que uma outra loucura se iniciasse.

Oh, eu sou Mark Denner. Vivo no Instituto Psiquiátrico Saint Brow à exatos cinco anos. Entrei aqui aos treze, sendo diagnosticado com transtorno bipolar.

O sinal para o café havia tocado a uns dez minutos já, e ali estava eu calçando calmamente meu coturno marrom, após colocar um moletom. Me dirigi ao refeitório, observando a mesma cena de todos os dias. Aquilo era deprimente, estar preso a uma rotina monótona e não poder fazer absolutamente nada. Ainda mais eu, que não fazia idéia do porque ainda estava ali e o que precisava fazer para "estar pronto" pra dar o fora.

Me sentei ao lado de Brady após pegar uma maçã e ele olhou pra minha refeição matinal.

-Quer um pouco?- ele ofereceu um pedaço de sua panqueca, e recusei com a cabeça, danço uma mordida na minha maçã.

Estávamos ambos cabisbaixos, já vivíamos juntos no mesmo quarto a dois anos e mesmo assim não tínhamos assunto sobre praticamente nada. Mas afinal, sobre o que falaríamos também?

-Ele está chegando- Adriane, colega de quarto de Beatrice, virou de costas para sua mesa, olhando para mim e Brady de olhos arregalados.

-Ele quem?- Brady perguntou, confuso e no seu tom ingênuo.

-O mal- ela respondeu e eu sorri de lado, sem ninguém ver.

-Como você sabe?- Brady continuou a conversa.

O cutuquei o olhando e segurando o riso. Fala sério, ele não poderia estar acreditando mesmo.

-Beatrice me contou. Ela disse que corremos perigo e precisamos salvar nossas almas- Adriane respondeu, um pouco alto e nervosa, fazendo com que a enfermeira que estava mais perto pudesse ouvir e chamar sua atenção.

-Tudo bem Adriane, hora de ir tomar seu remédio!- a enfermeira logo a puxou e a levou para outra sala.

O silêncio reinou novamente na minha mesa e de Brady.

-Deve ser horrível... Quero dizer, estar certo de que algo aconteceu e ninguém acreditar em você- ele cortou o silêncio entre nós dois.

-É diferente. Elas tem problemas, Brady. Você sabe.

-Nós também temos, Mark. Mas bem no fundo acreditamos que somos normais. Elas também- ele ficou quieto novamente e ambos baixamos a cabeça.

Fiquei pensando em como seria ter vozes dentro de sua cabeça, pensando em como seria eu estar mandando-as calarem a boca que não me obedecerem, pensando em quão terrível seria ver coisas, acreditar em coisas e quando contasse pra alguém, ser considerado louco. Poderia ser real não é mesmo? Quem garante que não?

14 de setembro de 2013, 03:06 da manhã.

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