Lifetime

Merlin esperou por tempo de mais. Quando um homem estranho com uma cabine policial azul aparece, fica relutante em aceitar sua proposta, mas, enfim, cede. Merlin não precisa mais esperar.

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1. The boy who waited

O feitiçeiro fitou seus próprios sapatos -sujos, gastos e antiquados. Quem olhasse, não veria nada além de uma coisa "velha", ou simplesmente ignorariam, como as pessoas naquele século tendiam a fazer. Mal sabiam eles quantos séculos aqueles "pares sujos" haviam atravessado. Mal sabiam eles que nada, absolutamente nada, nem mesmo o par mais caro, bonito e confortável, compensaria o fato de terem pisado na própria Camelot. Mal sabiam eles que aqueles sapatos haviam sido sujados pelo próprio Arthur Pendragon.

Arthur.

As letras brilharam por trás de seus olhos, acesas como flashes de fogo. Arthur. O mesmo Arthur qual esperara por tanto tempo. Tantos séculos. O mesmo Arthur qual estava disposto a esperar... E esperar.

Todos se foram, eventualmente. A Rainha fez Albion um reino próspero e brilhante, o melhor que podia-se esperar. Gaius se foi alguns anos depois... Ainda se lembrava de pegar a mão so velho em seu leito de morte. Sua mãe. Ah, sua mãe... Esteve com ela até o último segundo, quando ela fechou os olhos eternamente. Os rapazes também; Leon, Percival... Todos. E ele sentia falta. Sentia falta dos dias aconchegantes ao redor da fogueira quente, junto a toda a Távola Redonda. Sentado ao lado direito de Arthur. Sentia falta do narcisismo excessivo de Gwaine, da amizade e apoio de Lancelot... Até mesmo de Morgana.

Ele sentia falta dela. Às vezes, pegava-se pensando se as coisas seriam diferentes se ele tivesse contado a ela sobre sua natureza mágica.

"Alguns destinos são grandes demais para serem mudados". Talvez não. Talvez Arthur ainda pudesse ser salvo, talvez Merlin não estivesse se sentindo tão sozinho quanto se sentia agora. Ele estava sozinho. Freya falava de vez em quando, em seus sonhos... Mas fazia um longo tempo desde que falara pela última vez. E ele sentia falta.

De todos os castigos, o dele era o pior. Morgana morrera, assim como Mordred. Ambos tiveram uma morte nada agonizante, na verdade. Mas não ele. Merlin estava fadado a esperar... E esperar.

"Dói, não dói?", e o feitiçeiro virou-se, desesperado, para encontrar um homem sentado bem ao seu lado.

"O quê?" Voltou sua atenção ao lago. Estava surpreso, claro. As pessoas geralmente eram desinteressadas nos pensamentos umas das outras. Principalmente quando estas se pareciam com um velho mendigo de sapatos sujos e gastos.

"Ter visto tanto e não poder compartilhar..." O feitiçeiro virou-se novamente.

De alguma forma, o pensamento dentro de sua cabeça era: será?? Uma onda de esperança crescia dentro de si. "Ser o último... E ter de esperar eternamente".

Merlin sentiu, então. Durante sua juventude, havia estado tão cercado por magia (na terra, nos seres, nas pessoas...), que agora cada mísero pedaço desta o feitiçeiro conseguia sentir. Eram poucas as coisas que exalavam magia em tempos como aqueles. Algumas pessoas raras, o lago onde o corpo de Arthur descançava e ele mesmo. E ele conseguia sentir uma certa magia no ser ao seu lado.

"Como sabes que vi muito? Que sou o último?" Havia tempo que Merlin não falava. Sempre invocou o necessário para sua espera. Ainda vivia na mesma cabana escondida na floresta que Morgana havia deixado-lhe e não praticava magia senão para um propósito necessário.

"Eu lhe observo" e sorriu. Tinha os dentes perfeitos e brilhantes, uma face jovem, embora seus olhos contivessem uma sabedoria milenar "Por muito tempo".

"Sabe que tenho magia?" De alguma forma, Merlin sentiu como se pudesse confiar naquele estranho em especial, então, brilhou os olhos, que tornaram-se dourados por alguns instantes.

"Lhe observo desde Camelot, claro que sei!" Seu tom era irritadiço, mas sua expressão suavizou "Estou aqui para lhe dizer que não é hoje..."

Merlin suspirou.

"Eu não me importo".

"Deveria. Poderia gastar seu tempo num propósito mais nobre" e deu de ombros.

"Não há propósito mais nobre do que Arthur" e manteu os olhos na água.

"O garoto que esperou...", o homem colocou sua mão no ombro de Merlin, que deixou "Eu conheci uma garota que esperou. Ela esperou por muito tempo, mas não tanto quanto você espera".

"Esperou por quem?" Com o passar dos séculos, Merlin aprendera a perguntar apenas o necessário.

O homem riu, colocando as mãos no joelho.

"Por mim".

***

O homem estranho havia ido embora, assim, sem mais explicaçoes, entrando numa cabine policial azul e desaparecendo. Merlin sabia que ele apareceria novamente, eventualmente, algum dia. E ele tinha tempo. Ele tinha todo o tempo do mundo para respostas. Estava sozinho, como estivera desde Camelot. Era o único, e todos com quem se importara algum dia haviam ido embora. Sua magia podia ser uma benção, assim como uma desgraça. Esperar.

E, mesmo depois de todos esses séculos, Merlin ainda sentia falta de Arthur. Sentia falta de cavalgar ao seu lado, de fazer brincadeiras, de servir e, mesmo ainda, apanhar. Arthur fora seu melhor amigo, o melhor (e mais estúpido) homem que havia conhecido. Amara-o com todo seu coração e agora carregava o fardo de esperá-lo pela eternidade.

"Está na hora, jovem feitiçeiro" uma voz rouca e gasta chegou aos seus ouvidos como um sopro. E Merlin reconheceu. Reconheceu como quem reconhece a própria silhueta, como quem reconhece a voz de alguém muito querido. E esperara por isso por tanto tempo que doía-lhe.

"Kilgarrah?" Ergueu-se para trás, esperando deparar-se com o grande dragão. No entanto, era apenas um homem. Um homem muito velho e com olhos tão mais anciãos que os seus... Merlin era apenas um garoto quando o viu pela primeira vez. O último dragão. O grande Dragão. E, mesmo lá, Kilgarrah já era tão mais velho e sábio que ele.

"Sim, jovem warlock" e sorriu. Dentes brancos e pontudos. Um sorriso que fez-lhe lembrar das gargalhadas que o dragão costumava dar diante a sua estupidez. "Such great destiny for such little man", ele dissera.

"Em nossa última visita... Presumi que..." Merlin engoliu suas próprias emoções.

"Ainda és tão jovem, feitiçeiro..." Kilgarrah suspirou em sua forma de velho "Um dragão não se vai até completar sua missão".

Merlin assentiu. Queria abraçar o dragão e chorar em seu ombro, embora não tivesse certeza de que ainda tivesse lágrimas para usar ou se ainda sabia como abraçar alguém. Arthur fora a última pessoa quem abraçara. Nem mesmo sua mãe, que se foi de velhice, assim como Gaius e ele sequer abraçara-os. Mas, ao invés de tentar, colocou uma mão em cima do ombro da criatura mágica .O retorno de um amigo que acreditar jamais ver novamente.

"Por onde esteve?" Perguntou, sentindo-se como uma criança ainda.

"Esta pergunta não se aplica a mim, jovem feitiçeiro" e fez-se uma pausa "Onde você esteve por todo esse tempo?"

Merlin olhou para baixo, para seus sapatos milenares.

"Aqui. Esperando".

Kilgarrah acenou.

"Houve algum dia em que não estivesse?" E Merlin negou com a cabeça. Ele estivera lá todos os dias. Todos. Fitando o lago naquele banco de concreto que ele mesmo criara, carregando em seu colo o manto vermelho que pertençera a Arthur algum dia. Acariciou-o. "Pois então, rapaz, é hora".

"Não deixarei o lago" resistiu, numa postura defensiva.

Merlin não abandonaria o lago. Arthur poderia não coltar naquele dia, nem no dia seguinte, e nem no ano inteiro que se seguia, mas gostava de estar ali. Podia sentir o sussurro de Arthur por entre as poucas árvores, podia sentir seu sorriso lá, todos os dias, em seu ombro, brilhando.

"Hoje, feitiçeiro, é o dia em que verá the Once and Future King".

Merlin tremeu nas bases "Ele lhe espera em Avalon por tempo o suficiente".

Merlin levantou-se meio cambaleante, tremendo.

"C-como?".

"Caminhe até o lago e lá um homem encontrará".

Sorriu e correu, mas parando repentinamente do meio do caminho, virando-se para o velho dragão.

"Cumpriu seu dever agora... Você irá...?" Merlin falava com a voz embargada de emoção.

"Morrer?" E riu. Uma de suas risadas tão memoráveis à memória de Merlin que ele riu junto "Meu propósito se estende se fizeres a escolha certa" e sorriu "Lembre-se de fazê-la, jovem feitiçeiro. Sempre".

Merlin sorriu, e correu, correu tanto quanto suas pernas velhas poderiam aguentar, somadas ao poder sobrenatural. Correntes de adrenalina percorriam sas veias. Arthur está de volta, ele sorriu abobalhadamente, Arthur está de volta.

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