Say YES

Eu tinha sonhos, muitos sonhos. Desde pequena, sabia que minha vocação era cuidar dos outros, curá-los de suas enfermidades. Eu também queria morar sozinha, formar uma família e ter uma lua de mel em Estocolmo; fazer um mochilão pela Europa assim que terminasse o ensino médio e morar em uma chácara no interior do país. Mas sonhos são apenas sonhos, já que o destino é o fator decisivo. Quanto mais fugimos dele, mais sagaz e faminto ele se torna, querendo te tragar a qualquer custo, colocá-lo em seu caminho pré-determinado. Dentre todos os meus desejos e previsões, não contava com a morte de uma pessoa essencial em minha vida, muito menos ser forçada a me casar com a pessoa que mais odeio. O destino não é irônico? Pelo menos, meu amado marido também me detesta e, se pensar bem, posso fazer de sua vida um pesadelo, assim como foi para mim essa união entre nós. Não importa como nem onde, Styles, nossos destinos estão cruzados. Só sorria e pareça feliz para as câmeras. Ah, e diga "SIM".

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1. O começo

 

 

Imediatamente após a abertura das portas principais da catedral, os flashes das câmeras fotográficas de cano longo e os burburinhos dos fotógrafos, que as empunhavam, atingiram meus sentidos sensíveis. Mesmo assim, eu continuei sorrindo e olhando para variadas direções, aferindo, de relance, os semblantes dos convidados mais próximos da entrada. Minha única demonstração de nervosismo estava no fato de, involuntariamente, apertar meus dedos contra o braço do meu pai, que, em determinado momento, percebendo meu desespero, cobriu a minha mão com a sua e quando eu me voltei a fim de fitá-lo, vi seu sorriso cúmplice em resposta. 

A marcha nupcial começou a ser entoada pelo órgão e, em concomitância, papai praticamente me arrastou pelo braço, visto que eu me encontrava temporariamente inábil em me mover ou tomar quaisquer decisões plausíveis, afora correr dali aos berros. Respirei fundo, desligando-me da parte racional do meu cérebro e entrando em modo automático no intuito de me deixar ser guiada sem entrar em pânico. Por isso, no segundo seguinte, prendi os olhos na pintura do teto abaulado como uma cúpula, percebendo a obra "A Criação do Homem" reproduzida fielmente e em seus devidos pormenores. Ademais, os pilares de mármore em estilo grego tinham partes confeccionadas em ouro e, portanto, reluziam ao menor contato com um ponto de luz. Não era de se esperar algo menos glamouroso para o casamento de uma celebridade, o problema é que eu também fazia parte de toda a encenação. Esse choque de realidade caiu em cima da minha cabeça como uma bigorna e exatamente nesse instante, como se a situação não fosse ruim o suficiente, eu encontrei o olhar da pessoa que mais me causava ojeriza nesse mundo: Des Styles. 

O senhor Styles, empertigado ao lado do filho, trajando seu terno chique de alfaiataria, encarava-me com olhos de ave de rapina, atento a meus passos rumo ao altar. Ao que me parece, papai também notou essa animosidade implícita entre nós, porquanto murmurou algo parcialmente ininteligível aos meus ouvidos, mas que soou como "um dia eu mato esse cara". Eu o olhei mais uma vez, dando-lhe um aperto amistoso no braço a fim de acalmá-lo e recebi seu olhar simultaneamente complacente e penoso.

Quando voltei-me para frente de novo, a princípio, achei minha irmã aos prantos ao lado das outras madrinhas. Ao me flagrar observando-na, ela chacoalhou seu lencinho no ar, lançando-me o maior dos sorrisos de contentamento. Dessa vez, eu sorri de verdade, genuinamente feliz por tê-la comigo e, em seguida, fiz um aceno discreto. Mas, por alguma força do universo, meu olhar foi atraído para a figura ao centro do altar, imediatamente defronte ao padre. Harry não parecia bem, sua palidez ia muito além da alvura natural dos britânicos, o que me fez concluir que ele desfrutava dos efeitos de uma ressaca, seja por álcool ou drogas ilícitas. E ninguém precisava conhecê-lo tão bem quanto eu para ter ciência disso, pois suas vestes maltrapilhas, o cabelo zoneado e as botas velhas eram indícios suficientes para qualquer um classificá-lo como um morador de rua embriagado, isto posto ele não fosse uma pessoa tão famosa. 

Muito antes do que previ, meu pai estacou e, dessa forma, notei que a música cessara, as damas já haviam tomado seus lugares e nós, papai e eu, estávamos de frente para o altar, aguardando o noivo descer. Harry apertou a mão do meu pai, sem se deter muito neste ato, embora eu tivesse notado a hostilidade entre eles, e, por conseguinte, afastou o véu e me beijou a fronte de maneira supostamente carinhosa, arrancando suspiros e comentários de alguns convidados às nossas costas. Eu, por outro lado, só sentia nojo e desprezo, principalmente ao me aperceber do cheiro de álcool impregnado nele e a sustentação de um sorriso cínico em seu rosto. 

Enquanto me conduzia escada acima, Harry aproximou-se do meu ouvido e sussurrou as palavras que só confirmaram quão miserável seria meu destino a partir dali.

— É bom vê-la, noivinha. Pensei que desistiria de passar o resto da vida ao lado do seu maridinho. Você não sabe no que está se metendo, Marina... Acabou de entregar sua alma ao diabo e, pode ter certeza, eu vou transformar sua vida em um inferno. 

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