O Café Duplo

Um casamento acabado, um marido frustrado e uma decisão tomada irão fazer parte desse breve conto onde um amante de café encontra nessa arte o pretexto para dar um novo rumo à sua vida. Mas cuidado, o final é inesperado.

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1. O Café Duplo

Um conto inspirado nos textos de Nelson Rodrigues a partir de um desafio proposto pela turma do “Curto Café”, que lançou um tema onde um homem que gostava de café, se relacionava com duas mulheres diferentes. Disseram que era ficção, mas acredito que seja verídico. Não me deram detalhes. Me deram risos… então vamos soltar a imaginação.

 

 

O Café Duplo

Oliveira Lima

 

João estava tenso.

Havia combinado um encontro casual com uma amiga de trabalho. Seu convite falava apenas em experimentar o melhor café da cidade mas suas intenções estavam muito além disso. Mas vamos primeiro entender o contexto desse cenário:

 

Ele era casado mas as coisas não andavam bem dentro de casa. Tinha um filho pequeno que a esposa sempre buscava na escola no horário de almoço, deixando João livre para suas aventuras antes que ela regressasse para o Fórum. Trabalhavam juntos. Se conheceram lá.

Antes de se casar, João era do tipo que não recusava um rabo de saia. Jovem, atlético, simpático e inteligente, conquistava todas às possíveis e investia incessantemente nas impossíveis até que um dia conheceu sua esposa. Se encantaram; apaixonaram; casaram; viveram; procriaram; conviveram; discutiram; cansaram; desgostaram e se acostumaram.

João em sua visão, estava convencido que tinha feio de tudo para salvar seu casamento mas que havia chegado ao limite. Na medida do possível queria restabelecer sua vida sexual sem perder a convivência diária com o seu filho amado. Foram longos anos e muitos recursos gastos em clínicas de tratamento para que conseguissem ter um filho. Ele não queria a separação. A condição para que esse plano funcionasse, era fazê-lo sem que a esposa descobrisse. Não sentia mais nada por ela e sofria de pavor com a possibilidade de lhe sacrificar com a dor da traição. E por fim, ela não gostava de café; uma das paixões de João que aspirou por grande parte de sua vida, viver um ménage à trois todas as manhãs antes de ir para o trabalho com uma fêmea ofegante na mão esquerda e um café espumoso e aromático na direita.

Qual não foi sua surpresa quando descobriu que uma das advogadas mais bonitas do Forum, também era uma admiradora declarada de um bom café. E foi ela quem lhe confidenciou, pois em sua seção havia um pequeno pacote que João havia comprado no mesmo dia, no Curto Café. Ela pediu para ver a embalagem e ele prontamente a atendeu entregando-a em suas mãos. Ela abriu o pacote e de olhos fechado, cheirou longamente aqueles grãos. Parecia ter saído de si degustando cada molécula daquele aroma. Ela abaixou os ombros, abriu os olhos, fechou o pacote e devolveu para um João estático, congelado e balbuciando palavras sem contexto.

— Muito bom. Onde você comprou? - Disse a linda mulher.

— Aqui pertinho, no, no, é, aqui em frente, perto. Alí, logo, depois, no Edifício Garagem. - João fechou a boca, parou de falar e tentou se controlar. Sentiu vergonha.

— Não entendi. Onde fica?

— Me desculpe, é tão raro eu encontrar alguém que goste de café como eu gosto, que fiquei sem palavras. Qual seu nome?

— Carla.

— Muito prazer Carla, eu sou o João e esse café é vendido aqui próximo. É um dos melhores que já provei na vida e o local também é muito diferente. Ele não se parece com nenhuma cafeteria que você já tenha visto.

— Puxa, João, agora fiquei curiosa. Sou apaixonada por café e gostaria de conhecer esse local.

João rapidamente baixou o olhar e olhou com mais atenção para aquela mulher. Ela era linda, com curvas perfeitas e um perfume tão bom quanto o próprio café. Deveria ter trinta anos de idade e uma grande despesa pessoal, pois era toda bem feita, desde as unhas, até o cabelo, pintura e sobrancelha impecável. Uma obra de arte irretocável. Ele desejou aquela mulher naquele mesmo instante e para isso sabia que teria que ativar todos os protocolos do seu tempo de solteiro. E aconteceu rápido.

— Carla, eu adoraria lhe acompanhar nessa experiência degustativa mas pelo horário, eles já fecharam. Amanhã, depois do almoço, posso lhe acompanhar até o local. O que me diz?

— Por mim tudo bem, como faremos?

— Eu te encontro lá. Fica no Edifício Garagem Menezes Côrtez, no segundo andar. Você sobe o primeiro lance de escada rolante que eu estarei lhe aguardando às 12:30. Só não posso prometer que não beberei nada até que você chegue.

Carla abriu um sorriso natural, ajeitou o longo cabelo atrás da orelha e disse:

— Combinado então João. - Carla pegou seus processos e saiu do setor. João virou para voltar ao trabalho, torcendo para que ninguém estivesse acompanhando sua conversa. Perfeito, não havia ninguém em atitude suspeita. Uns liam o Diário Oficial enquanto outros digitavam coisas nos computadores.

 

Voltemos então ao cenário inicial.

 

João viu a silhueta de Carla saindo da escada rolante e prendeu a respiração. Ela estava acima do padrão que ele sonhara algum dia. Vendo-o, ela abriu um sorriso e continuou caminhando em sua direção.

— Olá João!

— Boa tarde Carla. Você está preparada para uma nova experiência?

— Sim, claro, e muito curiosa.

— Então vamos. - João colocou sua mão levemente nas meio das costas de Carla para que ela o acompanhasse. Ele também queria ver qual seria a resposta corporal que ela teria com esse gesto. Foi positiva.

Chegando ao balcão, João foi recebido pelos sempre simpático barista que de imediato comentou.

— Temos visitas João?

— Sim, e uma amante de café, pronta para ser surpreendida. Você conseguiria não decepcioná-la?

— Mas é claro. Qual o seu nome senhorita?

— Carla.

— Carla, nós temos hoje torras frutadas, amendoadas e achocolatadas com diferentes graduações de acidez.

— Bom, eu gosto muito de torras amendoadas e com acidez média. Faça-me um expresso duplo.

João estava surpreso. Aquela fêmea conseguiu fazer uma escolha em menos de dois segundos. Que incrível.

O barista trabalhava rapidamente e João passou a descrever os elementos para se construir um bom café:

— Carlinha, a água deve ser filtrada e quente, mas não pode estar fervendo. A moagem deve ser adequada e apropriada para a máquina de café em questão. A proporção pó, água deve ser uma obsessão. Os grãos devem ser frescos. O café, depois de aberto o saco, mantem suas propriedades de aroma e sabor por até sete dias e aqui um saco nunca dura mais que uma hora.

O barista entregou a chícara da Carla e logo a seguir a de João, cliente contumaz que nem precisava mais escolher. Enquanto Carla levava a xícara à boca, João ao seu lado e se aproximando, descreveu o que ela deveria fazer nesse momento:

— Cheire o café calmamente. Coloque-o próximo ao seu nariz, feche os olhos e sinta todos os aromas que estão presentes. Pense nos adjetivos, busque associações na memória. Beba-o lentamente. Saboreie e veja se a temperatura está adequada para uma sorvida maior. Dê um grande gole mas não engúla-o, deixe-o conhecer cada pedacinho da sua língua. Descubra qual deles te dá mais prazer e memorize. Explore sem pudor esse prazer. - Suas últimas palavras foram ditas próximas ao ouvido de Carla.

Ela abriu os olhos, engoliu o café e suspirou profundamente. Repousou a xícara no balcão, fechou os olhos novamente e pôs-se a passar a língua nos dentes e nos lábios como que buscando cada resto daquele delicioso café. João estava sentindo o rosto esquentar tamanha era sua excitação ao vê-la se entregando daquela maneira ao prazer degustativo. Ele precisava degustá-la por inteiro e não sabia como. Carla parecia ter recobrado a consciência e encontrou um barista com os olhos vidrados e a boca semi aberta, assustado com a performance dos dois. Carla abriu um sorriso e disse:

— Obrigado pelo café. Realmente incomparável. Agora preciso ir. - João jogou cinco reais em uma cuba de vidro que serve como caixa da cafeteria e foi acompanhando-a. Carla estava andando rapidamente e com passo decisivos.

— Tudo bem Carla?

— Eu preciso fazer algo urgente! - Nesse momento ela passou da entrada da escada rolante e continuou andando em frente para o fim do corredor.

— A saída é por alí Carlinha.

— Eu sei. Não estou buscando uma saída. Eu quero outra coisa.

— Mas aqui não tem nada. As lojas estão fechadas e está vazio.

— Para mim está perfeito. - Nesse momento Carla parou de andar, pôs a mão no peito de João e o jogou contra a parede.

— João, o que eu quero agora é um beijo.

Os dois se beijaram por ofegantes e longos minutos. João percorreu todo o corpo de Carla com suas mãos e ela também não se colocou limites. Súbito, Carla deu um passo para trás e disse:

— Eu quero você na minha cama, mas não vai se hoje. Não me procure; Não fale comigo; Não tente me encontrar. Eu vou até você quando for o dia e será logo.

João estava com o coração acelerado e sem reação. Ela se arrumou, pegou sua bolsa e seguiu sozinha para o trabalho. Ele deixou as costas escorregar na parede e sentou no chão sem acreditar no que tinha acontecido. Seu celular tocou.

— Alô, João? Onde você está? Já voltei da escola e você não está no setor.

— Estou no café. Chego logo. - João desligou o telefone se foi. Chegando no trabalho, foi ao banheiro para verificar se estava tudo bem. Jurava que a Carla queria deixá-lo careca de tanto que puxou seus cabelos. A esposa não poderia perceber nada.

 

Alguns dias se passaram e João nunca mais viu a Carla. Aquilo estava consumindo-o. Todo dia era uma agonia olhar para a porta do setor toda vez que abria e verificar que não era a Carla. João retornava ao café e os amigos baristas confirmaram dia após dia que aquela mulher não havia retornado. João comprou alguns pacotes para levar para casa e chegando ao Fórum, resolveu sentar em um grupo de cadeiras vazias de um corredor deserto. Colocou os sacos ao seu lado e passou a pensar na vida. Relaxou e cochilou. Acordou com um movimento no banco. Uma pessoa havia sentado ao lado dos seus pacotes de café. Era uma advogada qualquer com seus processos de capas rosas e parecia estar buscando algo em sua bolsa. João quieto, ficou observado com alguma curiosidade até o momento em que a moça ajeitou o cabelo atrás da orelha, fazendo com que seus seios ficassem a mostra. Ela estava com o corpo curvo procurando algo na bolsa e não havia percebido a exposição. Pela curta distância, João pode admirar cada detalhes da sua anatomia. A curva perfeita, a auréola pequena e mais escura que a pele branca, João jurava que poderia deduzir a textura mas não lembrava do sabor. Era um espetáculo gratuíto mas para ele também deprimente. Sua insatisfação sexual com a esposa e a decepção com a Carla havia levado-o a beira de depressão. Ele pensava nisso tudo sem tirar os olhos do que via, mas aquela mulher tirou-o do transe quando disse:

— Ei ?

João gelou. Ela descobriu que ele estava olhando ? João não queria passar tamanha vergonha, mas ela continuou falando.

— Ei, esse cheirinho é de café?

— Sim, comprei grãos para fazer em casa.

— Hum, adoro café.

— Nem me fala. - Suspirou João - Café para mim é um mistério. Embora você conheça o seu sabor e saiba quando está bom, é muito difícil encontrar palavras para descrevê-lo. A experiência do sentido por vezes é incompatível com a nossa línguagem. Como descrever uma coisa que possui uma fragrância perfeita. Quando você bebe, ele não é um líquido qualquer. Possui uma forma, uma textura, um sabor que no encontro com o nosso palato, pode nos proporcionar uma suavidade equivalente a sua maturidade e por fim, sua acidez que se traduz em vitalidade.

— Uau, você falando assim, deixa o café parecendo afrodisíaco.

— Comprei esses grãos aqui pertinho.

— Onde?

— Aqui em frente no segundo andar do Edifício Garagem.

— Xi, não conheço nada por aqui. Sou nova no Forum.

— Puxa, se eu não tivesse que voltar ao trabalho te levaria lá.

— Olha, eu estou na sala de um desembargador. Ele está de férias. Na sua sala tem uma máquina de café expresso que mói grãos. Podemos fazer um café lá. O que me diz? - João olhou para aquela gracinha a sua frente lhe fazendo uma proposta de ir para uma sala vazia sem acreditar no que ouvia.

— Sim, claro, deixe-me colocar essas coisas na minha sala e já lhe encontro lá. Qual o seu nome?

— Carla.

— Jesus!

— Oi?

— Não nada. Me diga qual a sala que eu já vou. - A nova Carla disse o número da sala e foi embora. João, passou na sua sala, deixou as bolsas, pegou o saco de café e voltou para o elevador. Chegando no local, viu de longe a nova Carla sentada na recepção vazia na ante-sala do gabinete do desembargador. Ao vê-lo, ela levantou a se adiantou para abrir a porta de vidro. Assim que ele entrou ela trancou a porta e o conduziu para dentro da sala do desembargador onde a máquina já estava esquentando a água. João então pediu licença e pôs-se a operar o equipamento para colocar os grãos. Acompanhou o indicador de pressão vendo-o subir rumo ao ponto exato de extração. João virou para falar com Carla e levou um susto. Ela estava nua deitada sob a grande mesa de mogno escuro. João não deixou a providência tomar outro rumo. Desligou a máquina de café a amou-a longamente e como a muito tempo gostaria de fazer.

Depois de um tempo, João voltou correndo para sua sala morrendo de medo. Não sabia se a esposa o havia procurado. Passou rapidamente no banheiro para lavar o rosto e se recompor. Entrou vigorosamente pela porta e esbarrou em Carla que aguardava atendimento. João não acreditava no que via. Carla puxou um bilhete com anotações e entregou na mão do joão que sem falar nada, segurou-o sem tirar os olhos daquela visão. Carla virou-se e foi embora. João olhou para baixo e viu que o bilhete era uma instrução. Continha o endereço de uma sala comercial no centro, próximo ao forum. Logo abaixo de endereço, estava um horário. Quatro horas da tarde. João olhou para o relógio e viu que eram três e trinta. Ele poderia sair mas teria que retornar às seis para encontrar a esposa antes de ir embora. Ele correu.

Às quatro horas em ponto, João tocou a campainha da sala. A porta se abriu e Carla estava nua, vestindo apenas um roupão claro. Foi um choque ver aquela mulher linda convidando-o para entrar. Ele estava sem fala, ela apontou para outro cômodo e disse.

— Se você quiser tomar um banho, tem um chuveiro. Eu estou na outra sala te esperando. Vou ligar o ar. - João preferiu tomar um banho para garantir que não tinha ficado com o cheiro da nova Carla. Ele não acreditava que depois de um longo período de abstinência, possuiria duas fêmeas no mesmo dia. Era um sonho.

João saiu do banheiro nú, apenas com a toalha na cintura e encontrou Carla deitava em um grande sofá, já sem o roupão e aguardando-o.

— João, você tem um belo físico.

— Obrigado.

— Quantas você consegue fazer em uma hora ?

— Não sei. Isso é importante?

— Claro. Vem João, eu quero tudo. - João deixou a toalha cair e avançou sem pudor dando tudo o que Carla queria.

Uma hora depois, João apressado atravessou a avenida Primeiro de Março retornando ao Forum. Do alto do prédio que acabara de sair, Carla observava entre as cortinas enquanto João caminhava pela rua. Nesse momento, alguém abre a porta da sala e Carla não se move. Continua observando João caminhar. A nova Carla entrou na sala e parou atrás da Carla ainda nua. Abraçou-a e beijou-a no pescoço.

— Foi tudo bem?

— Sim. Foi.

— Eu te disse. Na clínica de reprodução, ele foi o espermograma com a maior incidência de contagem e motilidade.

— Será que conseguimos?

— Fizemos tudo certo e na hora exata. Se tudo der certo, teremos a nossa família.

— E se não funcionar.

— Bom, de acordo com a esposa dele. Se pagarmos a mesma quantia, poderemos repetir tudo novamente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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