Submundo - Tumumbo kinsasha

Conheça a incrível estória da personagem do livro Submundo, Tumumbo Kinsasha.

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1. Tumumbo Kinsasha

Tumumbo é uma personagem integrante do

livro SUBMUNDO que está em construção no

momento. O relato abaixo a princípio,

não fará parte da obra principal e tem como

objetivo apresentar o contexto de vida do

mesmo.

 

   Tumumbo Kinsasha. Nascido no Zimbábue em 1988. Cresceu na região do parque Chimanimani, mais precisamente na vila de Nzou. Tinha três irmãos: Opankabi, Shegunmiub, Otaba e uma irmã caçula, a doce Inebawe.

Dos homens, Tumumbo era o mais novo. Não tinha recordações do seu famoso pai, Obwebin Kinsasha. Pelas histórias contadas por seus parentes, amigos, vizinhos e até estrangeiros, muitos motivos tinha para dele se orgulhar e de fato, orgulhava-se. Seu pai era alto, esguio porém forte e muito bem quisto entre seus semelhantes, os Masai. Era sábio e humilde - algo redundante pois não se consegue atingir um sem ter o outro – muito conservador em suas atitudes; prudente em suas caminhadas e explorações; amava a natureza e respeitava todos os povos e religiões que a mãe África produzira. Conseguia ser neutro nas questões políticas e étnicas; reservado,

tinha um grupo muito seleto de amigos, quase todos com o mesmo perfil de fidelidade plena a uma amizade pura e sincera desprovida de interesses. Era também muito hábil com as questões de sobrevivência nos ambientes hostis das florestas e savanas africanas. Conquistou grande respeito por parte da milícia local quando um grande grupo de oficiais apareceu em sua remota propriedade em vários automóveis. A história foi registrada assim:

 

Eram quatro e trinta da manhã, hora local, Obwebin, filhos e esposa não se encontravam no casebre, há muito haviam escutado a comitiva e previamente se retiraram do local. Vários soldados tomaram a mata em volta da casa, que já estava sendo vasculhada. Um sujeito com mais estrelas nos ombros que todos os presentes, desceu do LandRover camuflado de pistola em punho, aos berros, expulsando a todos que entraram na casa de Obwebin. Em frente a porta, do lado de fora, já com a pistola no coldre, pôs as mãos na boca para poder melhor direcionar o que ia falar e virando-se para a selva gritou:

 

- Obwebin, sou o general Sosabo, antigo amigo de seu pai. Venho aqui pedir a sua ajuda, você é a única pessoa que pode nos ajudar nesse momento, por favor, se estiver nos escutando, pode se aproximar que nada lhe acontecerá, eu prometo, apenas precisamos de sua ajuda.

 

Alguns soldados levemente balançavam a cabeça, como que quisessem persuadir o general de que era impossível alguém estar na mata pois os soldados haviam tomado todas as posições no seu entorno, mas mesmo assim uma outra voz se fez ouvir do fundo da floresta:

 

- O que deseja general?

 

Imediatamente todos os soldados viraram-se na direção e alguns engatilharam suas armas. O general reprovou a atitude deles e novamente aos berros disse:

 

- Porra, seus filhos de cadelas prenhas, será que eu não posso conversar um segundo sequer com ninguém sem que sempre alguém esteja com uma arma engatilhada. Maldição! Todos de volta para os carros, eu quero ficar sozinho aqui apenas com meus oficiais, sumam todos daqui desgraçados, antes que eu faça cada um engolir as próprias bolas. Seguiu-se uma correria frenética para os carros, pois a fama das punições de Sosabo quando irritado eram lendárias. Rapidamente se fez silêncio, logo quebrado por uma risada vindo mais uma vez de algum ponto da floresta no entorno da casa. Aquilo trouxe grande dúvida aos presentes, o próprio Sosabo parecia não estar gostando e respondeu:

 

- Posso saber o motivo de estar rindo senhor Kinsasha?

- Claro que pode, são três os motivos. O primeiro é que o senhor me lembrou meu avô, Zinquemambi Amenokal, o tuareg. Suas palavras pareciam vindas dele, foi bom relembrá-lo. O segundo é que a quantidade de gente que lhe protege de nada adianta se está dentro de uma floresta.

Sosabo duplamente confuso, gesticulava e falava desconexamente algumas palavras quando parou e respondeu-lhe:

- Obwebin, não lembro de ter conhecido seu avô e sim o seu pai, que realmente muito coisa me ensinou, e talvez eu tenha até ficado com um pouco do jeito dele de falar mas sei que seu avô não era assim, que era um homem muito calmo e manso, embora fosse um guerreiro tuareg, um leão do Saara; e minha guarda pessoal é plenamente apta a me defender, pense em me atacar e seus miolos ficarão espalhados por toda a África; e sendo assim, acho que você não é Obwebin, acho que está me enganando, e

ninguém me engana e fica vivo. E estou aguardado o terceiro motivo para a sua gargalhada seu impostor. Pouco tempo lhe resta de vida seu rato. Então a voz continuou:

 

- O terceiro motivo, é que em hora nenhuma nos sentimos ameaçados, estivemos o tempo todo com a situação sob controle, podendo inclusive eliminá-lo a qualquer momento senhor.

- Há, há, há, há... - gargalhou o general – além de mentiroso, o rato é humorista, apareça desgraçado, eu como ratos no café da manhã e ainda não fiz meu desjejum, e parece que você já era, você não pode fazer nada comigo seu merdinha.

Nisso, um leve farfalhar de folhas fez-se ouvir ao lado do general, e como que surgido das profundezas do inferno um gigante negro calmamente se levantou apontando-lhe uma flecha, com um arco extremamente tensionado e a menos de dois metros da orelha de Sosabo.

- É melhor confiar na voz que escuta; tudo que ouviu e lhe foi dito, foi a mais pura verdade general, meu filho não mente jamais. O senhor fala como meu pai, sua guarda de nada lhe adiantou e assim como pode confirmar agora, em hora nenhuma esteve com o controle da situação. Aos olhos de meu pai, seria repreendido por se expor tanto em ambiente tão aberto, parece que não aprendeu muito bem os ensinamentos dele, ou realmente chegou-nos com a alma desarmada, meu caro Chibuku.

- Chibuku? Chibuku! Há quanto tempo não escuto esse nome, faz realmente muito tempo que ninguém me chama assim, Chibuku, a cerveja fedorenta que eu adorava. Quem gostava de me chamar assim era o pequeno Obwebin – que nesse momento abaixara o arco e já abrira um largo sorriso.

- Que hoje como pode ver, já não é mais tão pequeno e o sempre belicoso Sosabo quem diria, se tornou general.

Ambos se abraçaram e Obwebin assoviou para que seus filhos saíssem da floresta, todos armados até os dentes, menos o pequeno Tumumbo e sua irmã Inebawe; vinham de mãos dadas com a mãe, que foi recebida pelo general com o corpo inclinado e sem a boina militar em reverência e respeito a sua pessoa.

- Esses são Opankabi, Shegunmiub e Otaba o rato – disse Obwebin a Sosabo.

 

Sosabo, com surpresa de ver que se irritou com tão jovem rapaz, soltou nova gargalhada e sem mais demora começou a dizer:

- Meu saudoso Obwebin, certamente gostaria de me refastelar aqui pelo chão e começar a colocar o papo em dia a partir da manhã em que deixei a casa de seu pai há tantos anos, em busca de novas emoções no sagrado exército de nossa pátria. Vejo que seus filhos herdaram a sapiência dos homens da família Kinsasha.

- É Sosabo, tento passar tudo que meu pai me ensinou, mas você sabe como

é difícil ser um autêntico Kinsasha.

Sosabo concordou balançando a cabeça e mudou de assunto tentado ir direto ao ponto:

- Infelizmente não posso mais me demorar aqui, infelizmente. Os tempos são de incertezas e uma grande dúvida paira sobre a mente e o coração de todos nós meu caro Obwebin. Nosso grande líder o general Ikbebi sofreu um acidente aéreo na região da Gorongosa, no país vizinho, Moçambique e não conheço nenhuma pessoa capaz de liderar um resgate por terras tão ermas, senão alguém da linhagem Kinsasha. Deposito em você meu meio irmão, toda a minha esperança no resgate de Ikbebi, não saberíamos o que fazer se perdêssemos, nossa luta por um país mais justo tem sido muito dura, e Ikbebi é nosso pilar de sustentação e vela de vento, rumo a nossa tão sonhada nação democrática. Ele é o pé que está acertando o rabo

vermelho desses comunistas.

E sendo assim, Obwebin Kinsasha com a ajuda dos filhos e alguns militares, coordenou com maestria o resgate do general Ikbebi. Todos os tesouros ao alcance e que não eram poucos, lhes foram oferecidos como agradecimento. Ikbebi em alto e bom som, disse para todos que ele, poderia pedir o que desejasse e Obwebin sabiamente pediu:

- Meu senhor, desejo de todo o meu coração, com a mesma gana que tive para achá-lo dentro de todo o Moçambique, que a família Kinsasha fique fora de qualquer envolvimento nos conflitos da região, tanto eu, Obwebin Kinsasha, esposa e todos os meus filhos; e que minha filha possa escolher a seu gosto e sua vontade, seu esposo. Somos uma família de paz, moramos há muitas milhas de qualquer civilização, sempre fizemos de bom grado tudo o que nossa mãe pátria nos pediu, mas creio que somos muito mais úteis ao nosso país, sendo o que realmente somos, os guias dessas terras inóspitas.

Todos os presentes se chocaram com tal pedido, alguns tiveram-no como insolente e outros como corajoso, o próprio Ikbebi perdeu o sorriso, olhou para Sosabo que levemente balançou a cabeça em sinal de aprovação, afinal o próprio general havia dito que o homem poderia pedir o que desejasse e ele assim o fez. E o general ajeitou sua boina, levantou-se da cadeira e disse:

- Faço conhecer a todos os presentes o desejo do homem que me salvou, e que esse desejo deverá ser mantido enquanto a nação do Zimbábue existir - todos concordaram com o general e comprometeram-se a manter o desejo de Obwebin, estranho para muitos mas respeitado por todos.

 

Algumas semanas depois, a oposição ao governo sabendo do feito de Obwebin, enviou um comando de dez homens com a missão de eliminar a família. As equipes de inteligência do governo souberam do fato, e conhecendo a ligação do general Sosabo com Obwebin, imediatamente enviaram um mensageiro com as más notícias. Sosabo organizou uma equipe de assalto com seus melhores homens para ir ao socorro de Obwebin, pois a milícia já havia enviado os seus há alguns dias, restando pouco tempo ou nenhum para a família Kinsasha.

Um avião foi utilizado pelo pelotão de Sosabo, que saltou de para-quedas nas redondezas das terras da família Kinsasha. Dez dias depois, os homens de Sosabo retornaram exaustos após percorrerem mais de 600 quilômetros a pé, encontrando o general inquieto, com muitas perguntas atropeladas, querendo saber da missão.

 

- Muitos túmulos encontramos nas terras dos Kinsasha senhor, um terrível combate foi travado naquele local.

O general perdeu a cor de sua pele, sua boca começou a ficar roxa, parecia que o homem iria ter um treco. Não suportara a idéia de ter falhado perante a família que tanto admirava e gostava. Sua cabeça era um turbilhão de imagens de Obwebin e as crianças, quase que murmurando, Sosabo perguntou ao seu soldado:

 

- Quem morreu meu caro, quem morreu?

- Senhor, não obtivemos o menor sinal da presença da família Kinsasha, mas pudemos verificar que os túmulos que encontramos, pertenciam somente aos combatentes milicianos somando um total de dez covas com seus fuzis servindo de lápide para os mesmos. Tivemos que bater em retirada do local correndo por muitos quilômetros senhor, corremos como se tivéssemos o próprio demônio em nossos calcanhares, flechas zuniam de todas as direções e de nada adiantava berrar que éramos do exército e que estávamos ali para tentar protegê-los dos milicianos, estávamos em um vespeiro senhor. Não entendo porque o senhor Obwebin fez isso conosco, poderia ter nos matado.

 

- Quantos dos nossos perdemos?

- Nenhum senhor.

- Quantos feridos?

- Todos estamos feridos senhor.

- Quantos por flechas ou zarabatanas?

- Nenhum senhor.

 

Sosabo relaxou na cadeira e lentamente jogou a cabeça para trás colocando as duas mãos no rosto. Quando as retirou estava sorrindo.

- Meu jovem, está tudo explicado, Obwebin certamente reconheceu os senhores como pertencentes ao nosso glorioso exército e propositadamente não aumentou o número de covas na região, afinal suas terras já estavam devidamente adubadas. Pelo que conheço do safado, ele deve ter feito isso por um misto de decepção por termos lhe envolvido nisso tudo e ao mesmo tempo deve ter se divertido bastante vendo vocês correndo feito umas galinhas leprosas fugidas de um cão sarnento. Se deve.

 

Obwebin havia realmente acumulado grande fama por liderar quase todas as expedições pelo Zimbábue, fossem elas inglesas, americanas ou não, ele sempre era indicado como o melhor guia. Seus filhos desde cedo acompanharam o pai, o que facilitou em muito o aprendizado de outras línguas e outras culturas. Todos gostavam da profissão familiar de guia.

Pelas palavras e lembranças de sua mãe, foram os melhores tempos de sua vida. Ser guia, trouxe muito dinheiro para Obwebin, mas ser guia também lhe trouxe a ruína. A ruína em meio a tragédia que não pôde evitar mas que como guia, se sentiu responsável.

Opankabi, Shegunmiub, Otaba e integrantes da comitiva, retornando da amaldiçoada expedição, relataram que ao atravessar a região de Gonarezhou com uma equipe inglesa, foram atacados por um grupo de leoas famintas no início do anoitecer; todas foram repelidas com muitos tiros mas uma leoa conseguiu levar pelas pernas a filha de um integrante da comitiva, uma menina inglesa de uns 13 anos que desde o início deixara Obwebin incomodado com a inépcia do pai em trazer para algo tão arriscado, uma menina tão frágil.

Obwebin presenciando a cena, correu ao encontro da leoa com toda a velocidade que seus deuses poderiam lhe dar. O animal trotava com tranqüilidade se afastando do grupo quando súbito, deixou cair ao chão a inconsciente menina. A leoa não entendeu porque havia feito aquilo, virou-se para pegá-la novamente e nesse momento caiu para o lado nitidamente perdendo toda a sua coordenação motora. A vinte metros dela estava parado de joelhos em meio a vegetação Obwebin, imóvel, com a zarabatana em punho, fina, preta, um metro e meio de uma madeira muito resistente. A leoa morria lentamente e algumas pessoas da comitiva já corriam em direção a menina; Obwebin virou rapidamente a cabeça e falou algo em sua língua local que os membros europeus do grupo nada entenderam, mas seus filhos e ajudantes, prontamente puseram-se a carregar suas zarabatanas e misteriosamente a tapar os olhos com uma das mãos inclinando a cabeça em direção ao solo. Um joelho estava no chão e o ante-braço apoiado na perna esquerda. Todos faziam isso inclusive Obwebin.

Em pleno crepúsculo vespertino, um protesto geral havia se formado, os europeus, queriam a qualquer custo buscar a menina. Um simples sinal com a palma da mão aberta em direção aos ingleses, fez com que todos entendessem que algo estava por acontecer; aprenderam durante a viajem a confiar no guia.

 

Obwebin sabia que o ferimento da menina não era mortal, mas ele também sabia que o cheiro de sangue já havia se espalhado pela planície e que dentro em pouco não só leoas poderiam aparecer, mas leões e hienas.

Escureceu rápido, os minutos pareciam horas, reinava o silêncio quando um ajudante de Obwebin, o experiente Onjiburana de excelente audição, rapidamente destapou o olho e com a visão totalmente adaptada ao escuro soprou sua zarabatana em direção a vegetação adiante. Um forte ganido de uma leoa, varou o ar; todos se assustaram pois não tinham idéia que o animal estivesse tão perto. Outros disparos foram feitos e os ganidos foram se repetindo. Sentindo a urgência da situação, Obwebin pediu aos ingleses que fizessem tochas rapidamente, estava com a criança quase que aos seus pés, uns 2 metros, mas não podia confiar somente na sua visão, usava toda a sua concentração diretamente na audição. Novamente voltou a tapar os olhos e a se manter imóvel. Escutou algo que o deixou estarrecido; os outros nada ouviram mas ele rapidamente retirou um frasco de sua cintura, abriu-o e espalhou o conteúdo naquele corpinho desacordado, esfregou principalmente sobre a ferida; tudo muito rápido sem tempo para explicar o que estava fazendo mas não sem antes lembrar de sua menina, Inebawe.

 

Um som rouco veio pelo ar, quase subsônico, reverberava no interior do corpo de cada um. Nesse mesmo momento Obwebin fechou os olhos e amaldiçoou a insistência dos ingleses em passar por aquela região.

 

O líquido que ele passou na menina começava a mostrar a sua força e exalar um cheiro ocre que deixou algumas pessoas nauseadas; pediu a todos que pegassem as tochas e que se preparassem para partir dali; local maldito, onde todas as criaturas têm fome e a lua começava a ficar encoberta deixando a noite mais escura do que desejariam que ficasse.

 

Todos estavam pegando suas coisas quando Obwebin apontou sua zarabatana para a mata. Todas as tochas viraram-se em direção ao local onde estava a menina. Ela se encontrava junto ao pai, sentada, calada, imóvel, de costas para todos e com a cabeça voltada em direção ao matagal em frente. Obwebin pressentiu algo estranho no ar, cerrou os olhos em direção a menina buscando ver algo. Seu pai estava acendendo uma tocha e a medida que o fogo nascia, tudo em volta foi ganhando mais luz. Um silêncio se fez presente de uma maneira tão grande que se poderia escutar uma articulação caso alguém se mexesse. Em frente a menina, a uns dois metros, estático, estava um leão enorme, agachado, parecia um furgão com juba; estava encarando a menina e pelos movimentos do seu nariz, cheirava o ar tentando entender o odor que vinha daquela criatura ferida.

 

Súbito, o leão levantou e com grande velocidade correu do local, mas não sem antes receber simultaneamente umas quatro setas de zarabatana, podia-se sentir suas passadas de encontro ao chão durante a corrida, muitos corações ficaram mais leves naquele momento, mas Obwebin permanecia estático, as passadas não diminuíram de intensidade nem tão pouco se distanciavam. Não estava fugindo, ele estava correndo em volta do grupo. Não mais buscava alimento mas sim um acerto de contas pela propriedade daquela região com aquela criatura pequena e ferida que cheirava a urina de leão. O odor espantou todos os outros pequenos e médios predadores. Restou o maior deles.

 

Obwebin correu e se colocou entre a menina e a trajetória prevista do leão pela seqüência de suas passadas. Desta vez ele estava com sua lança de guerra e mal teve tempo de levantá-la. Súbito, por seu posicionamento, chocou-se com o leão e foi arremessado a grande distância. O leão, tão logo estabilizou-se, mudou bruscamente de direção e quis realizar um novo ataque em Obwebin, que sem ar nos pulmões, tentava se levantar.

 

Muitos tiros e setas zuniam no ar e o leão já apresentava ferimentos sérios em todo o seu dorso. Lá estava ele parado em meio a vários seres humanos, alguns com rifles, outros com zarabatanas e outros apenas com medo. Um novo rugido se ouviu. Havia outro leão por perto. Obwebin mais uma vez amaldiçoou o universo por tê-lo colocado em situação tão extrema.

 

Dezenas de tiros foram dados e tombou inerte o leão ferido. Acabaram-se as setas das zarabatanas e os ingleses freneticamente tentavam recarregar suas espingardas quando lentamente o outro leão, muito maior, calmamente foi em direção ao leão morto e lambeu-o duas vezes querendo reanimá-lo. Obwebin sabia que não podia lidar com um animal daquele porte sozinho; sabia também que a única coisa que separava a menina ferida no chão, da morte certa, era ele e sendo assim, puxou de dentro de seu enrolado saco de dormir a sua Kukri Gurkha, um facão especial nepalês com corte duplo, tinha quase meio metro; lhe havia sido dada como presente por seu pai informando-o que pertencerá a seu avô, Zinquemambi, do tempo em que lutara por um pelotão especial francês durante a primeira guerra mundial. Ele recebeu-a de um homem que salvara. Muitas vidas aquela peça de metal havia tirado em toda a sua existência, mas desde que veio parar na família Kinsasha, um novo destino a ela foi imposto. Que não trouxesse a dor e a tristeza, mas a felicidade e a esperança, e sendo assim, desde então aquela faca, também era utilizada para cortar o cordão umbilical de todos os homens e mulheres da família Kinsasha. Todos sobreviveram, eram fortes e corajosos. Acreditavam que a faca era um amuleto de sorte e foi com esse pensamento que Obwebin olhava, hipnotizado pelo tênue reflexo das tochas na lâmina. Não hesitou em ver a esperança no brilho da Kukri. Uma menina precisava nascer novamente.

Terminou de desembainhá-la, abriu os braços, retesou todos os músculos de seu corpo e soltou um grito que congelou a espinha de todos. O leão voou sobre ele encontrando o aço frio asiático por entre suas costelas. Foi ferido, mas também dilacerou o abdômen e as costas de Obwebin com seu mortal abraço e suas gigantescas unhas de dez centímetros. Obwebin sentiu o chão bater-lhe as costas e o som surdo do corpo do leão encontrando o solo duro. Ambos esvaindo-se em sangue estavam imóveis. Obwebin e o leão com as cabeças a menos de um metro uma da outra, se entreolharam até o último momento.

Podia-se notar um respeito mútuo e respirações desacelerando. As pálpebras do felino se fecharam e logo a seguir as de Obwebin.

 

Morria ali heroicamente e em meio as lágrimas de seus filhos Obwebin Kinsasha.

 

O fato foi contado por muitos jornais do mundo, anunciando a morte do herói de ébano que salvou todo um grupo de ingleses. A rainha incumbiu um representante pessoal da coroa para buscar a família Kinsasha para receber postumamente a medalha de honra das mãos da própria alteza, mas ele nunca conseguiu sequer ter contato com qualquer integrante da família. A única informação era a que eles haviam se retraído ainda mais para o interior das selvas, transtornados pela morte de seu mais valoroso membro.

 

Um ano após o fato, foi assassinado do general Ikbebi.

 

Explodiu a guerra civil. Grupos de guerrilheiros varreram o país cometendo todo tipo de atrocidade. Opankabi, Shegunmiub e Otaba, irmãos de Tumumbo, tentavam a todo custo proteger a família desses guerrilheiros e em silêncio, eliminaram dezenas deles nas florestas; eles já estavam sendo tidos como espíritos malignos e errantes que levavam as almas de todos os que entrassem naquele território.

 

Um grande cerco foi montado na região e o combate aconteceu com muitos corpos

tombando sem vida. Os Kinsasha´s eram mestres em construir na mata todo o sortilégio de armadilhas e engenhos mortíferos para os infortunados inimigos, mesmo assim, eram muitos os guerrilheiros e em meio a todo o conflito, foi achado o local onde a esposa do famoso Obwebin se escondera com seu filho mais novo Tumumbo e a pequena Inebawe.

 

Diante do grande número de guerrilheiros mortos nas armadilhas e a dificuldade que teriam para retornar, os guerrilheiros obrigaram aos Kinsasha a guiá-los de volta para fora da floresta sãos e salvos das armadilhas em troca da liberdade dos reféns.

 

Os irmãos Opankabi, Shegunmiub e Otaba não se perdoavam por tão grosseira falha. Não conseguiram proteger sua própria mãe se seus irmãos pequenos. Sabiam eles que não poderiam confiar nos guerrilheiros e que conduzí-los para fora da floresta seria assinar uma sentença de morte. Resolveram então guiá-los em direção a uma das guarnições secretas do antigo exército democrático que eles sabiam ainda existir no meio da floresta. Opankabi como irmão mais velho, foi na frente guiando-os, enquanto Shegunmiub acompanhava oculto o deslocamento do grupo, pronto para acertar qualquer um que ameaçasse sua mãe. Otaba encontrava-se muitas léguas a frente de todos buscando contato com guarnição, fê-lo sem demora, preparando para os guerrilheiros uma grande emboscada onde quase todos tombaram. Muitos tiros e gritos foram escutados naquela mata fechada, Opankabi o mais mortal dos irmãos, se fazia ouvir com sua poderosa voz ao longe:

- CONTEM OS MORTOS ! CONTEM OS MORTOS !

Opankabi, Shegunmiub e Otaba, ficaram levemente feridos enquanto sua mãe milagrosamente nada sofreu. O pequeno Tumumbo recebeu uma devastadora paulada de um guerrilheiro mortalmente ferido, fendendo-lhe o crânio e que por pouco não o matou. A doce Inebawe tombava sem vida com uma bala oportunista na sua fonte esquerda.

Após o incidente, o general Sosabo encaminhou-os para a embaixada do Brasil na capital - ou pelo menos o que restou dela - afim de tirá-los do país. Sabia ele que por toda ajuda, histórias e superstição, as cabeças da família valiam mais do que a sua própria nas mãos dos inimigos.

 

Uma barricada da guerrilha em pleno centro da cidade, fez com que o motorista do carro realizasse uma guinada em alta velocidade para uma rua antes da blitz. Foram prontamente perseguidos. Opankabi, o mais velho, indicou para o motorista que entrasse em uma rua a direita para ficar fora da visão dos guerrilheiros. Tão logo o carro parou, mandou que o oficial do exército se desfizesse de sua farda e que levasse a qualquer custo sua mãe e o desacordado Tumumbo à embaixada brasileira.

Opankabi seguiu com o carro com muito custo por vielas sem fim, não possuía muita habilidade na direção e acabou por ficar totalmente cercado em uma rua sem saída. Os três irmãos desceram do carro e escutaram o som metálico de armas sendo travadas. Uma voz veio do fim da rua:

 

- Quem são vocês e porque estão fugindo?

Opankabi silenciosamente e entre os lábios disse para os irmãos que quando dissesse a palavra “Agora”, que ambos deveriam pular o muro. Otaba a esquerda e Shegunmiub a direita.

 

- Não entendo o que você está falando? - Disse Opankabi dando dois passos a frente e colocando a mão no ouvido.

- Quero que todos vocês venham até aqui andando calmamente e se entreguem para interrogatório com nosso chefe – Opankabi sabia que aquilo representaria o fim.

- Você quer nós levar para um interrogatório......AGORA ! - Como um raio, Otaba e Shegunmiub pularam os muros mais rápidos até do que Opankabi esperava. Ele permaneceu imóvel e com o olhar fixo na patrulha. Seu ferimento a bala na perna impossibilitava-o de ter a mesma agilidade dos irmãos, que do outro lado dos muros imploravam para que o mesmo também fugisse.

 

Vários guerrilheiros correram em direção a Opankabi e o fizeram prisioneiro sob muitas coronhadas de fuzil. Otaba e Shegunmiub, já por sobre os telhados das casas, assistiram a tudo de longe e se entreolharam totalmente impotentes; esboçaram uma breve intenção de se voltar mas o som de uma familiar voz foi ouvida:

- CONTEM OS MORTOS !

 

Era Opankabi, que após ouvir sua sentença da boca do líder dos guerrilheiros, sacou uma faca de um dos guardas e fez instantaneamente quatro mortos com as gargantas abertas e igualmente ao pai, retesou os músculos do corpo, dobrou levemente os joelhos e com os braços abertos recebeu a morte com o matraquear das armas automáticas de um grupo de guerrilheiros assustados com tamanha ferocidade.

 

Opankabi sentiu o chão em suas costas e de relance jurou ter visto um grande camelo negro passando por trás dos guerrilheiros que nesse momento sentiram um arrepio na espinha e se viraram como que pressentindo algo. Nada havia atrás deles, mas somente Opankabi viu aquele enorme animal com um guerreiro tuareg em vestimentas brancas e um grande sabre na cintura. Ao seu lado surgindo de trás do camelo, alguém que ele conhecia muito bem, era seu pai com uma grande lança e com o corpo todo pintado de branco e vermelho; pinturas de guerra. O tuareg só podia ser seu avô Zinquemambi. Obwebin estendeu-lhe a mão e o levantou do chão, o gosto de sangue na garganta lentamente sumia e ele conseguiu se por de pé. O pai pôs as mãos em seus ombros e com expressão de felicidade disse para Opankabi:

- Seja bem vindo meu filho, estou muito orgulhoso.

- Pai...., como é bom lhe ver.

Lágrimas correram de seus olhos e ele virou a cabeça para os lados avistando os dois irmãos estáticos. O tempo parecia andar mais devagar nesse novo mundo, todos os movimentos eram lentos e ele via claramente os guerrilheiros se dividindo e indo em busca de seus irmãos.

- Pai, meus irmãos.....

- Não se preocupe com eles por enquanto, muito falta para que o tempo deles termine. Quando for a hora, nós estaremos lá.

 

Otaba e Shegunmiub olharam em direção a Opankabi que sumariamente havia sido executado. Seus corações pareciam ter parado, o tempo parecia ter parado. O pequeno Tumumbo recobrou a consciência com um ganido sufocado e gritou por seu irmão. Sua mãe abruptamente virou-se em direção ao som com um nó na garganta e o pressentimento materno porejando-lhe a alma. Algo de ruim havia acontecido, ela balbuciou o nome do mais velho dos filhos. Mais uma vida havia sido perdida para salvar outras. Os irmãos nunca haviam estado em uma cidade e agora separados encontravam-se totalmente perdidos em um ambiente que para eles era desconhecido e e hostil.

 

Logo após a chegada de Tumumbo e a mãe ao Brasil, começaram as provações, pois não receberam a prometida ajuda de custos governamental. Sua mãe trabalhava informalmente como zeladora em um decadente prédio comercial. Embora compreendessem bem inglês, francês e mais uns 3 dialetos regionais de sua terra natal, tinham muitas dificuldades em conseguir um bom trabalho em meio a uma cidade grande. Não conheciam ninguém, não tinham estudo e moravam em um abrigo no centro da cidade.

 

Tumumbo não nutria muita saudade de sua terra. Já mais velho, Lembrava-se apenas de muitos tiros e muita selva. Considerava o Brasil um lugar muito bom, com belas cidades e um povo bastante amistoso. Tudo estava indo relativamente bem até o dia em que sua mãe perdeu o trabalho. A família deixou de receber o seu único sustento. Tumumbo, foi parar nas ruas tentando ajudar a mãe. Conheceu de perto as mazelas da cidade maravilhosa. Sem qualificação profissional e sem vocação para a bandidagem, tornou-se junto com ela, morador de rua e ele sem conseguir emprego virou pedinte. Aquilo muito o revoltava, sabia que sua mãe não merecia uma vida assim, tentava de tudo para superar essa condição, até o dia em que Tumumbo cruzou com um estranho.

 

Tudo mudou.

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