O Hóspede

Essa é uma história real acontecida no Rio de janeiro em 1958. Um músico ao dar abrigo a um senhor de idade avançada, não imaginava o que estava por vir.

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1. O Hóspede

O ano era 1958, pouco mais de 10 anos após a segunda guerra. Cláudio de Oliveira Lima nesta época tocava violino no teatro Carlos Gomes, praça Tiradentes em duas seções: 19:00 e 21:00 horas, findando a lida as 23:00 horas quando retornava para sua residência na Ilha do Governador, mais precisamente na Base Aérea do Galeão. Funcionário concursado como Técnico de Laboratório e em apoio ao serviço de emergência da pista de pousos e decolagens. E para isso, recebeu uma casa estrategicamente posicionada próximo a pista. 
Saíndo do teatro às 23:00 horas, se dirigiu para o ponto de ônibus no Passeio, depois da Praça da Cinelândia. Seguindo pela Rua da Carioca, atravessou a Avenida Chile, entrou na Senador Dantas e na altura da Rua do Passeio parou para tomar um cafezinho. Fazia frio e a espera pelo ônibus era demorada, assim como a viagem. 
Reparou em um senhor de uns 55 anos próximo a ele que contava uma história chata sobre o desencontro com um amigo no centro do Rio. Tinha uma excelente aparência, pele bem tratada, cabelo bem penteado, barba impecável, terno feito sob medida, uma grande mala de viagem e uma valise menor. Mas o que lhe chamou a atenção foi o fato do tal senhor, falar um espanhol amarrado e contar o fato ocorrido com bastante alegria. Tipo aquelas pessoas que riem da própria desgraça, ao mesmo tempo que a lamenta. Reparou também que ele pagou o café da pessoa que estava conversando. Uma forma de retribuir a atenção dada, fato comum entre amigos ou recém amigos aqui no Brasil. Dava boas gargalhadas e repetia a história para qualquer um que desejasse conhece-la. Cláudio não precisava ouvir mais nada pois escutara já por duas vezes. Perdera-se do amigo no centro e o amigo é que estava com o endereço do hotel que ele não sabia nem o nome nem o bairro. Marcara o encontro naquele bar desde a hora almoço e até o momento não havia aparecido. Algo deveria ter acontecido com o amigo ou algum rabo-de-saia como sugeriam algumas pessoas no bar. Cláudio imbuído da boa alma que sempre teve e pensando na possibilidade de um homem com a idade de seu pai (meu avô) passar a noite ao relento, imediatamente convidou-o para pernoitar em sua residência. Proposta imediatamente recusada pelo pobre senhor que alegava não querer dar trabalho. Meu pai exitou, reparou que ele fez o mesmo. Refeita a proposta, foi aceita, com um largo sorriso e um longo suspiro. 
Pelo caminho, não conversaram muito. Simplesmente porque dormiram o tempo todo. Chegando próximo ao ponto final o senhor cutucou Cláudio e perguntou se estava chegando. Ele abriu apenas ¼ de um olho e informou que faltava pouco. Desembarcaram e foram a pé para casa em uma curta caminhada. Acomodou o hóspede o mais confortavelmente possível e informou que as 6:00 da manhã, compraria um pão para o café. Que ele dormisse tranquilamente pois as 6:50 sairia o ônibus que o deixaria novamente em frente ao bar. 
Às 5:30 o relógio despertou e Cláudio levantou-se indo para o banheiro. Quando cruzou a sala lembrou-se que tinha um convidado. Fez silêncio no caminhar no fechar de portas. Às 6:00 bateu levemente na porta do quarto do convidado para chama-lo para ir na padaria e assim conhecer um pouco do local onde dormira, afinal pouco haviam conversado e estavam em uma área interessante: A Base Aérea do Galeão; Gostaria de mostrá-la.

Por três vezes mais bateu na porta e ninguém respondeu, nenhum som vinha daquele cômodo. Tentou abrir a porta e a mesma estava trancada. Saiu e foi pelo lado de fora da casa verificar se o seu hóspede tinha realmente o sono pesado. O quarto estava vazio. A cama estava feita, somente sua mala grande estava em cima da cama. Entrou pela janela que estava aberta e destrancou a porta. A mala estava com o zíper aberto, que possibilitava verificar mesmo que precariamente o seu conteúdo. Sua atenção foi capturada por um brilho prateado no canto esquerda do fundo da mala. Afastou ligeiramente a roupa e pegou o objeto. Sentiu-o espetar o dedo. Franziu a sobrancelha e o pôs na palma da mão. Era muito bonitinho, um adorno de fardamento militar prateado com detalhes em preto. Diferente. Pegou os outros objetos e se pôs a verificar um a um. Nunca os tinha visto. O maior de todos era acompanhado de uma tira de uma seda escura que percebera servir para se colocar no pescoço como um colar. Parecia muito com um cordão que um padre conhecido usava, só que o do padre era um crucifixo e tinha um comprimento bem maior; aquele deveria ficar bem rente ao pescoço.

Um pano vermelho vivo chamou-lhe a atenção. Estava esticado no último compartimento da mala que possuía quatro divisões, sendo essa última a mais estreita, parecendo ter sido feita para guardar papeis. Não sabia se o fundo era vermelho ou se este seria um pano vermelho. Desabotoou a presilha que impedia sua abertura e deixou que o compartimento se abrisse. Alguns documentos saltaram. Com muita curiosidade de saber o nome de seu hóspede, ou sua profissão, pegou o passaporte e abriu encontrando uma foto que parecia ter sido feita na noite anterior. Cabelo e roupas. Eram as mesmas. Leu o seu nome. 
– Hans Klaus Waden. Riu com a estranha graça e se pôs a colocar tudo no seu devido lugar. Neste exato momento, naquele milésimo de segundo que o seu olho tira o foco de um objeto próximo e regula o foco para um objeto mais distante, seu instinto lhe avisava que aquilo que ele estava vendo lhe era conhecido. O passaporte caiu de suas mãos, seu coração parou, ele recuou um passo para trás e sentiu o rosto esquentar. Estava diante de uma bandeira dobrada, vermelha com a suástica nazista ao centro. Voltou à mala com fúria, revistando-a por tolos os lados, procurava alguma arma ou algo que pudesse fazer mal a ele e a sua família. Encontrou um fundo falso. Forçou-o a abriu-o. Outro passo para trás e novo susto. Era dinheiro, muito dinheiro. Todos americanos. Os dólares. Todo o fundo falso estava forrado com eles. Imediatamente arrumou a mala de novo e fechou-a. Chegando na sala correu para o telefone quando súbito, parou na porta do quarto. Sentia uma presença diferente. Reparou que um vulto estava prestes a chegar na porta da frente. Não dava tempo de telefonar. Seu hóspede abriu a porta e lhe deu um grande sorriso. 
- Buenos dias. - Disse ele. – Caramba, nosotros estamos rodeados de militares.

Cláudio não falou nada permanecendo imóvel mas o senhor continuou:

- Esto no es un perro hermoso ? - Ele estava segurando um enorme cão Pastor Alemão, com coleira e tirante. 
Cláudio nada respondeu novamente. O dia estava frio e o suor escorria-lhe o rosto com várias gotas na testa. O hóspede reparou que algo de errado havia acontecido. Forçou a vista e reparou sua mala com o ziper fechado. Havia deixado-a aberta. Seu semblante ficou sério, perdendo todo o sorriso que caracterizava-o desde a noite anterior. Parecia outra pessoa. Até a sua postura dos ombros mudara, parecia ter ficado mais alto. Com um novo tom de voz disse: 
- Será melhor para todos nós que eu parta agora. Ou será que tens outra idéia? - Deixando um leve sorriso no canto da boca. Misterioso mas ameaçador. Rapidamente Cláudio pensou na sua esposa e filha que dormiam dentro de casa e que também não possuía nenhuma espécie de arma. Tinha mais a perder do que a ganhar em caso de confronto. Não sabia se o homem possuía alguma arma nos bolsos. Resolveu falar e respondeu: 
- Que parta imediatamente! 
O homem deu-lhe as costas e se foi, retornou dois minutos depois sem o cachorro. Entrou sem bater encontrando Cláudio ao telefone explicando todo o caso ocorrido para alguém. O hóspede pegou sua mala grande e parou na porta da frente como se fosse se despedir. Olhou seriamente meu pai e cochichou alguma coisa em alemão. Cláudio com instinto de defesa replicou: 
- Em instantes a polícia da Aeronáutica estará aqui! 
Ele bateu a porta e se foi com grande rapidez. 

 

  Com a chegada da Polícia da Aeronáutica, uma grande revista foi feita no quarto e a valise pequena foi encontrada pelos militares. Abriram-na e ali estava um grande radio de comunicação alemão. Rapidamente, uma ordem de busca na base foi expedido mas o hóspede deveria ter algum contato na região pois desaparecera completamente. Ele e o cachorro, para sempre.

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