Unchecked

Charlie finalmente chegou em Paris. Depois de tudo que passou, descansar um pouco na cidade das luzes talvez fosse perfeito... Talvez. Agora aluna do Conde de La Voltre, não possui quase nenhum descanso. E, para piorar, começa a receber cartas que a fazem despertar cada vez mais curiosidade sobre seu passado. Cartas de alguém que parece conhecê-la bem intimamente... . Continuação da movella "The Lanfred's Horror".

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4. Capítulo 3

  Não era possível. Me senti de volta à Lanfred, onde os bilhetes misteriosos eram o meu maior tormento. Agora eu estava recebendo cartas misteriosas... Apenas torço para que não seja de outro deus raivoso. Saí do banheiro e sentei-me na cama, suspirando. Olhei para o envelope, ponderando se eu deveria abri-lo ou simplesmente deixá-lo para lá. Não, eu não poderia ignorar tal coisa, era intrigante demais. Abri o envelope, tirando seu conteúdo de dentro dele.

  Havia uma pena negra. Ela devia ter dez centímetros, era brilhante e maravilhosa, encantadora. Minhas memórias recorreram ao meu sonho, e assimilei essa pena ao pássaro que vi eu meu último sonho. Suspirei e amassei o envelope, pronta para jogá-lo no lixo. Porém, notei que havia algo ali a mais do que apenas a pena. Desamassei o envelope e tirei um papel branco de dentro dele, abrindo-o e examinando seu conteúdo.    O papel estava cheio de símbolos estranhos e, lá embaixo, em sua última linha, havia um floco de neve, como uma assinatura. A pena, a carta... Os itens do meu sonho. Não podia ser. Mas era!! Eu tinha alguma chance de desvendar o que queria me ser mostrado. Mas como eu o faria? Talvez o Conde me ajudasse, ele deveria ser bem sábio... Bom, talvez eu soubesse desvendar os símbolos, mas eu não tinha minha memória cem por cento recuperada.    Deitei na cama, fechando os olhos. Eu não queria dormir, não podia, eu precisava pensar, me esforçar para lembrar de algo... Mas... Um sono incrível se apoderara de mim. E eu não resisti. 

                                                                                                   ❅❅❅       

   Acordei suada no dia seguinte. Suada, cansada e segurando a carta cheia de símbolos incompreensíveis. Olhei para o relógio que ficava no criado mudo: cinco da manhã. Ah, que maravilha. Quem precisa de despertador, não é?     Sentei-me, suspirando. Eu não havia tido nenhum sonho esta noite. Por um lado, isso era bom, afinal, me trazia ligeira paz. Porém, por outro lado, era decepcionante. Eu precisava de dicas, informações, imagens que me ajudassem a resolver a carta, e nada viera.       

   Tantos pensamentos... Eu precisava me acalmar. Levantei-me, indo até minha mala e tirando de lá o bastão com a esfera azul dentro dela. Aquele bastão... Ele me dera forças e esperanças para continuar a lutar quando eu estava exausta. Toda vez que eu o segurava ou apenas o tocava, uma onde de paz me invadia, dando-me mais forças e esperanças para continuar.         

   Respirei fundo, aliviada. Como era possível algo me fazer tão bem? Outro item que me fazia bem era a correntinha, aquela que me protegera do deus. A correntinha... Ela me lembrava que eu precisava libertar as bruxas brancas. Calma, Charlie. Como eu iria libertá-las se nem controle sobre mim mesma eu tinha? Uma coisa de cada vez. Quando eu me sentisse pronta, libertá-las seria minha prioridade.       

   Ah, eu precisava muito dar uma volta. Sair, respirar um pouco, arejar meus pensamentos. Embora ainda estivesse escuro, era possível ver, da janela do meu quarto, um café com as luzes acesas. Coloquei uma roupa qualquer e peguei o cartão de crédito que Clark me dera para antes de viajarmos. "Apenas para emergências", ele disse. Bem, eu não gastaria mais que quinze euros. Guardei o bastão, a carta, e a pena na mala e saí do quarto, trancando-o.     

  Após sair do hotel, percebi o quão agradável era a rua onde estávamos hospedados. Os postes eram antigos, havia pequenos jardins  em cada janela dos prédio, algumas lojinhas e parisienses conversando aqui e ali, muito embora o dia nem houvesse amanhecido direito. Havia uma doce brisa, agradável o bastante para me fazer diminuir o ritmo dos meus passos até o café. Passei por algumas pessoas que me cumprimentaram com um educado "bonjour".      

   Entrei, enfim, no café. Estava quase vazio, exceto por um grupo de estudantes e um casal de idosos. Sentei-me em uma mesa afastada e perto da janela. O garçom trouxe o cardápio, fiz meu pedido e o chocolate quente não tardou a chegar. Nada como um pouco de chocolate quente para animar o dia. Beberiquei um pouco do chocolate, olhando para a janela. Clark não ficaria bravo comigo, afinal, ele deveria estar dormindo e entenderia perfeitamente minha decisão de sair para tomar uns ares.         

   "Com licença... Posso me sentar aqui?"         

   Eu estava tão perdida em meus pensamentos que nem notei o estranho se aproximar. Era um homem alto, com cabelos negros até a altura dos ombros, sobretudo negro e estava com ambas as mãos nos bolsos. Seu tom de voz era baixo e calmo, como se temesse incomodar.        

   "Claro, sente-se." Eu não deveria estar falando com estranhos e deixando-os sentar à minha mesa. Da última vez que fiz isso o resultado não foi muito satisfatório...          

   "Perdoe-me a intromissão." Ele disse, se sentando. "Mas não sou daqui e, como me pareceu que você também não é, resolvi tentar me enturmar."  

   "Não é do seu feitio, não é? Se enturmar..."  

   "Não, mesmo." Ele respondeu. "Mas estou cansado de ficar só em uma cidade onde todos parecem ter companhia."  

   "Sei bem como se sente." Tomei um gole do chocolate quente. Eu não estava flertando com ele, eu realmente sabia como era se sentir deslocada, diferente de todo o resto.  

   "A propósito, sou Damien." Estendeu a mão por cima da mesa.  

   "Sou Charlie." Apertei a mão dele.    

   "O que faz tão sozinho aqui, em uma cidade onde todos parecem ter um par?"   

   Ele pediu um café ao garçom antes de responder:  

   "Vim achar meu par, soube que ele estaria por aqui. Estou rodando por Paris há semanas sem ter notícias dele. Bem, sua data de chegada não era precisa, eu apenas tinha conhecimento da época do ano em que eu o encontraria aqui. O pior é que, mesmo depois de encontrá-lo, ainda haverá muito a ser feito antes de eu ser aceito de volta." Damien deu uma risadinha, e esperamos o garçom servir o café e sair.  

   "Bom, boa sorte, então. Você deve ser alguém muito persistente."  

   "Pode ter certeza que sim, eu sou." Ele bebericou o café, encarando-me com os olhos negros. "E você? O que veio fazer em Paris? Lua de mel?"  

   "Lua de mel? Pareço tão velha assim para já ser casada?"  

   "Não. Mas já vi mulheres da sua idade casadas."  

   "Coitadas." Ri. "Perderam sua liberdade tão cedo... Deve ser horrível ficar presa a alguém logo no início da vida."  

   "Isso depende muito do ponto de vista. Existem casais que se acompanham desde cedo e têm uma vida muito mais dinâmica e aventureira do que a sua, aposto. Mas você ainda não me respondeu: o que vieste fazer aqui?"  

   "Vim... Visitar alguém importante. É imprescindível que eu o conheça. Ele esclarecerá algumas dúvidas que vêm me atormentando nesses últimos dias."   

   "Interessante." Ele olhou para o relógio. "Preciso ir. Nossa conversa está muito boa, mas temo ter que continuar minha procura. Foi um prazer encontrá-la, Charlie."   

   Damien se levantou, virando para ir embora.  

   "Ah, mais uma coisa." Ele voltou para perto de mim, como se houvesse se lembrado de algo muito importante, e colou a boca em meu ouvido. "Precisa ser mais cuidadosa ao guardar suas coisas. Não sabe o número de pessoas que desejariam ter isso em suas mãos." Colocou algo bem fino entre meus dedos e saiu andando.   

   Olhei para o que ele havia me dado e me surpreendi. Abri o papel e era ela: a carta que eu havia guardado na mala antes de vir para o café.   

   Ergui os olhos na direção de Damien e pude ver, de relance, algo brilhante em seu pulso esquerdo. Uma correntinha dourada, idêntica à minha. Levantei-me, correndo atrás dele. Porém, quando cheguei na porta do café, não havia nem sinal dele.   Damien sumira.   Ou melhor: ele parecia nunca haver estado ali.       

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