Damnatus

Yachal não conheceu seus pais. Cresceu em um orfanato onde viveu até a maioridade. Sua boa formação, disciplina impecável e inteligência acima da média, sempre lhe ajudaram a superar os degraus da vida e lhe proporcionaram um relativo sucesso profissional. Seguia sua rotina controlada de trabalho e atividades particulares. Ele imaginava que possuía pleno domínio de sua vida e de seu futuro, mas uma série de encontros fortuitos com pessoas a caminho do seu trabalho lhe mostraram que conhecia muito pouco de seu passado e suas origens. Quem são essas pessoas? Porque as encontra aonde quer que vá? Porque sempre estiveram próximas a ele? Porque nunca falaram com ele? Yachal não sabia, mas seu destino estava escrito muito antes dele nascer; e pelas mãos dos condenados.

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2. Velhinhos

Absorto em seus pensamentos, percebeu que o idoso estava lhe observando e que ao receber o olhar de volta, abaixara a cabeça. Yachal se pôs a pensar no que poderia estar sendo observado. Não estava falando sozinho, suas expressões faciais estavam congeladas como sempre e seu reflexo no vidro do metrô, mostrava sua roupa impecável. Em outras ocasiões, já havia percebido que chamava a atenção de algumas pessoas idosas que olhavam-no com alguma curiosidade. Quando esses velhinhos entravam em sua rotina ele batizava-os com números. O do metrô era o 27, ficava sempre a sua direita no vagão a uma distância de 5 metros. A esquerda havia outro, o 31, que embora já o tivesse encarado algumas vez, fazia-o com menor regularidade e nunca o cumprimentava.

Chegando ao centro da cidade, praticamente todos os passageiros desceram e rumaram em direção à escada rolante. Yachal seguia em sua passada cadenciada até a escada convencional. Aproveitava toda oportunidade que tinha para realizar um exercício, aquilo fazia muita lógica para ele. Rápido, acabava por chegar ao final da escada à frente de muitos, enquanto os mais lentos ainda andavam na plataforma. Yachal já deveria estar andando pelas ruas quando o 27 encostou ao lado do 31 na subida da escada convencional e começaram a conversar:

Bom dia - disse o simpático 27.

Bom dia, - respondeu o 31 com um semblante sério - ele está preocupado com alguma coisa.

Eu percebi.

Por mim, já deveríamos ter falado com ele - afirmou o 27.

Temos que seguir o protocolo - disse o 31, entre os dentes e demonstrando um pouco de impaciência com o seu interlocutor.

Ah, sim, grande protocolo. Por ele, estamos aqui. Eu entendo que dependemos dele para a maioria das coisas que nos mantém vivos, mas existem coisas menores que podem ter uma nova interpretação.

Siga o protocolo. Por ele estamos bem e por uma desobediência estamos aqui, disso não tenho dúvida. Falta pouco.

Ambos chegaram ao topo da escada e seguiram cada um o seu destino. Uma mulher que subia pela escada rolante, não pode deixar de perceber que eles haviam subido a escada vigorosamente e que ao chegar à rua, não demonstravam o menor cansaço.

Após mais um dia de trabalho, Yachal retomou o caminho de casa já pensando no que deveria fazer e no livro que terminaria a noite. Ele tinha alguns novos aguardando na estante e uma breve lista de filmes e series que haviam sido bem recomendadas.

Passou por uma agradável praça aberta, com pequenos bancos e jardins. Esse não era o caminho mais curto, mas era o que ele mais gostava. Invariavelmente essa praça estava sempre com muitas pessoas que também gostavam de parar um pouco para desacelerar e assistir ao por do sol entre dois grandes prédios. Haviam poucos ambulantes o que lhe permitia fazer um lanche ou beber alguma coisa. Os melhores lugares desse espetáculo eram sempre ocupados por um grupo de quatro idosos com aspecto de aposentados. Eles pouco falavam entre si, mas não perdiam um dia de “show”. Para Yachal, seus nomes eram 20, 21, 22 e 23. Ele já havia percebido que durante aqueles anos de contemplação, ele e os velhinhos eram presença constante, mas mesmo assim, Yachal nunca falou com eles e eles também nunca demonstraram vontade de dizer algo. Ficavam ali, sentados, fumando e olhando o movimento das pessoas antes do por do sol.

O sol se pôs e o céu começou a perder os tons de azul mudando para algo mais escuro. É o lusco-fusco do crepúsculo vespertino. Momento em que já se podem ver algumas estrelas e planetas com mais nitidez. Um segundo espetáculo que também captava a admiração de todos.

Yachal virou-se para deixar o local e viu que a 15 também estava lá. Não olhava para o céu nem para as estrelas. Olhava para ele. Yachal baixou a cabeça e pôs-se a andar em direção a estação do metrô. Antes de entrar, olhou rapidamente para trás e viu que o banco dos “vintes” também o acompanhava de longe. Enquanto descia as escadas, lembrava que encontrara a 15 inúmeras vezes pelas ruas. Uma vez, acompanhada por uma linda moça que pensou ser sua filha. Não conseguiu olhar seu rosto de frente para verificar se existiam traços entre as duas. Nunca mais a viu.

Chegou à plataforma e identificou o 5, um senhor que sempre andava muito bem vestido acompanhado da sua senhora a 6. Dirigiu-se para o ponto exato onde a porta se abriria e lá já estava o 31. Yachal reduziu o passo para observá-lo com calma. Vestia uma calça jeans nova, sapato preto bem engraxado, um cinto de couro largo. Tinha uma forma atlética de postura ereta, sem barriga. A camisa estava impecável. Sua aparente vitalidade se perdia quando a observação chegara ao seu rosto. Tinha mais dobras e rugas do que se imaginaria possível. Era a seriedade em pessoa. Yachal parou ao seu lado e o 31 não se mexeu. Permaneceu olhando para frente. O trem parou e ambos entraram. Yachal foi para seu local habitual assim como o 31. Se lembrou da manhã quando viera para o trabalho com aquele senhor no mesmo vagão e súbito: A sua direita estava o 27, no mesmo lugar e fazendo um aceno com a cabeça.

Yachal pensou na probabilidade de que isso acontecesse espontaneamente. O cálculo era ínfimo. Aquilo beirava o impossível tamanha a coincidência. Fez uma viagem inquieta, querendo logo chegar em casa. Seu instinto lhe dizia que algo não estava correto.

Desceu em sua estação e com passo acelerado em direção a escada viu o metrô passando para entrar no túnel. 27 e 31 haviam ficado dentro e prosseguiram viagem. Tomou a rua em direção ao seu prédio. Cruzou com o jornaleiro que chamava de 13 e seu porteiro nomeado como 7. Tomou o elevador juntamente com seu vizinho, o 3. Abriu a porta de casa e deixou suas coisas na mesa da sala. Foi na geladeira e buscou uma lata de cerveja stout Caracu, sua preferida. Sentou em sua poltrona de leitura e lembrou-se de quando começou a numerar as pessoas idosas que estavam ao seu lado no dia-a-dia, mas que ele não conversava. Os únicos que tiveram uma relação mais próxima foram os 1 e 2, aquele casal que cuidava do orfanato onde ele foi criado. Eram como administradores. Não falavam muito com as crianças, mas estavam sempre vigilantes com tudo, principalmente segurança e alimentação.

É - concluiu Yachal -, estou cercado de velhinhos.

Fechou os olhos e cochilou.

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