Damnatus

Yachal não conheceu seus pais. Cresceu em um orfanato onde viveu até a maioridade. Sua boa formação, disciplina impecável e inteligência acima da média, sempre lhe ajudaram a superar os degraus da vida e lhe proporcionaram um relativo sucesso profissional. Seguia sua rotina controlada de trabalho e atividades particulares. Ele imaginava que possuía pleno domínio de sua vida e de seu futuro, mas uma série de encontros fortuitos com pessoas a caminho do seu trabalho lhe mostraram que conhecia muito pouco de seu passado e suas origens. Quem são essas pessoas? Porque as encontra aonde quer que vá? Porque sempre estiveram próximas a ele? Porque nunca falaram com ele? Yachal não sabia, mas seu destino estava escrito muito antes dele nascer; e pelas mãos dos condenados.

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4. Prelúdio

Yachal não teve um dia de trabalho fácil. Sua mente estava tal como um processador, ocupada com a tentativa de entender o seu evento matutino. Como era esquisito todos aqueles senhores que ele via em momentos diferentes do dia. Eles se conheciam e contavam a mesma história:

“…somos a sua família”,

“…desde os tempos do orfanato”.

Tornou-se um tormento. Ao mesmo tempo em que tentava esquecer aquela situação estranha, também queria entendê-la. Afinal, realmente ele nunca havia tido uma família e não conhecera seus pais. Só tomou ciência de sua situação quando mais velho. Sua infância no orfanato foi a melhor que ele poderia ter, pois era aquela a única infância que a vida lhe trouxera. Não conhecia outra para julgá-la.

 

Resolveu então sair mais cedo do trabalho e ir para casa abrir um bom vinho para ajudá-lo a pensar nesse assunto.

Saiu de seu prédio e escolheu um caminho diferente. Naquele dia, ele não queria ver o por do sol e tão pouco passar pela praça. Seguiu direto para o metrô. Já na plataforma, não mais se posicionou em seu lugar regular. Preferiu ficar mais afastado atrás de uma placa de sinalização de maneira que poucos na estação pudessem vê-lo. Enquanto se esgueirava, Yachal pensava no quão ridículo estava se comportando. Se escondendo de velhinhos.

Seu metrô chegou. Entrou na estação com os faróis altos e o barulho regular de frenagem. Parou. Abriu as portas e seu interior estava vazio. Não era hora do rush. Finalmente Yachal poderia sentar sem se preocupar. Assim o fez.

O metrô seguiu avançando pelas estações e Yachal estava em transe pensando no seu dia e sem perceber que aos poucos o vagão começou a ficar sem lugares disponíveis. Viu um par de pernas em uma calça de tergal escura parar na sua frente. Ele olhou para os sapatos e notou-os muito bem engraxados, mas havia algo estranho ali. Ele olhou por algum tempo até que encontrou o problema. O pé direito do homem possuía um laço do tipo “Army lacing” e o pé esquerdo um laço “Ladder lacing”. Os dois por si só já eram difíceis de ver, mas um em cada pé é coisa de louco. Alguém pousou uma mão no ombro de Yachal dizendo:

O senhor poderia ceder o lugar para um velhinho maluco.

Yachal olhou para cima e era o 27. Deu um salto tão rápido que chamou a atenção de todos no vagão.

Caralho velho, você mora no metrô? Parece assombração. Maluco. Com o cadarço todo trocado. Qual o seu problema? - 27 no momento não podia responder. Estava em meio a uma gargalhada silenciosa e se retorcendo de tanto rir.

Eu sabia que meu cadarço lhe chamaria a atenção. Ai... deixe eu respirar.

Yachal se afastou e foi para porta. Desceu uma estação antes do normal e ao sair à rua, viu que tinha saído no lugar errado. Ficou com raiva e se prometeu que não iria mais reagir dessa maneira. Passou toda sua vida orgulhoso do seu controle sobre as coisas e agora via que na verdade, havia sido pouco testado pela sorte. Sim, sua vida era bem controlada por ele, mas por outro lado haviam poucas coisas tentando levar caos ao seu dia-a-dia. Ele se surpreendeu com suas próprias reações e ficou com vergonha. Eram apenas pessoas idosas que em momento algum lhe ameaçaram.

O próximo velhinho que passasse na sua frente teria que dar boas explicações.

 

Yachal chegou em casa suado. A caminhada foi longa, mas compensou pelo tempo que pode meditar sobre os fatos. De seu celular, enviou email avisando que não trabalharia no dia seguinte. Depois do susto que passou e pelo tempo que refletiu sobre o que fazer, decidiu se presentear com um fim de noite mais agradável que o normal. Foi ao Closet e retirou os sapatos e a blusa. Ficou somente com a calça e a meia.

Passou pela sala e abriu a pequena adega. Sim, um bom vinho lhe aguardava inerte.

Pegou o celular na sala e o carregador no quarto. Colocou-os na cozinha. Yachal, escolheu um pequeno audiobook que desejava escutar há um bom tempo. “O velho e o mar”. Apertou play, colocou no viva voz e pos o volume ao máximo. Pronto, agora ele conseguia escutar o livro em qualquer canto da cozinha.

Pegou três panelas de tamanhos médios e idênticas. Pôs água em duas delas, somente até o meio. Acendeu as duas bocas de trás do fogão e as deixou ali, esquentando. Pegou na dispensa um caixa de fettuccini Barilla e colocou metade em uma das panelas com água já fervendo. Adicionou sal e um filete de azeite. Guardou a caixa.

Buscou no freezer, cinco linguiças calabresas finas e defumadas. Cortou-as em pedaços de três centímetros e pos na outra panela com água.

Colocou uma cebola inteira no processador com cinco cabeças de alho. Picou tudo e colocou na panela vazia. Adicionou um grande filete de azeite. Enquanto dourava a cebola, cozia a linguiça e o macarrão. Colocou um tomate inteiro no processador. Adicionou-o a já dourada cebola e mais um copo de água. O cheiro já era saboroso. Ele adorava fazer o molho sem o extrato de tomate. Não que ele não gostasse, mas preferia assim.

Apagou o fogo do macarrão e o pôs no escorredor. Retirou as linguiças cozidas e as colocou no molho para refogar e ganhar o sabor do tomate. Lavou todas as panelas e utensílios que havia usado enquanto o molho fervia. Aquele audiobook era muito interessante.

Pegou um bom pedaço de queijo provolone e mais uma vez picou no processador.

Colocou o macarrão cozinho no molho e desligou o fogo. Passou a mexer até que todo e qualquer macarrão estivesse coberto com uma generosa camada do preparado. Para terminar, pôs um boa pitada de orégano na Panela.

Foi à sala. Arrumou a mesa, pegou uma taça de cristal e seu vinho, um Zuccardi Q tempranillo.

Buscou na cozinha a panela, o saca rolhas, o queijo e os talheres.

Como ele gostava de curtir esses pequenos prazeres. Tudo pronto. O cheiro era indescritível e sua fome tornava-o ainda melhor.

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