Damnatus

Yachal não conheceu seus pais. Cresceu em um orfanato onde viveu até a maioridade. Sua boa formação, disciplina impecável e inteligência acima da média, sempre lhe ajudaram a superar os degraus da vida e lhe proporcionaram um relativo sucesso profissional. Seguia sua rotina controlada de trabalho e atividades particulares. Ele imaginava que possuía pleno domínio de sua vida e de seu futuro, mas uma série de encontros fortuitos com pessoas a caminho do seu trabalho lhe mostraram que conhecia muito pouco de seu passado e suas origens. Quem são essas pessoas? Porque as encontra aonde quer que vá? Porque sempre estiveram próximas a ele? Porque nunca falaram com ele? Yachal não sabia, mas seu destino estava escrito muito antes dele nascer; e pelas mãos dos condenados.

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5. Destino

Sua campainha tocou longamente e Yachal não gostou. Ele até havia esquecido que tinha uma. Nunca tocava. Pôs o que seria sua primeira garfada de volta no prato e andou apressadamente. Viu no Olho mágico, que era seu vizinho, o número 3. Ele estava com uma expressão de medo. Yachal abriu a porta.

Por favor, me ajude, minha esposa está passando mal.

Eles correram juntos pelo corredor. A porta para o apartamento de seu vizinho estava totalmente aberta. O 3 entrou pela sala com Yachal logo atrás de si. Durante o percurso pensou no tempo que vivia naquele local sem nem saber que o vizinho era casado.

Yachal entrou e o apartamento não estava vazio, haviam várias pessoas. Ele parou atônito sem acreditar no que via. Ali estavam todos. Além do 3, seu vizinho; 7 o porteiro; 13 o jornaleiro; 27 o simpático; 31 o ranzinza; o casal 5 e 6; os senhores da praça: 20, 21, 22 e 23; e a frente de todos, a senhora 15 que disse:

Boa noite meu filho.

Yachal estava congelado. Enquanto seu cérebro ensaiava uma ordem para que as pernas começassem a correr, lembrou-se de sua promessa. Teria que entender aquilo tudo por uma simples questão de sanidade.

Boa noite me filho. - falou novamente a 15.

Bo, bo, boa noite.

Nos desculpe fazê-lo vir aqui assim, mas não encontramos outra maneira de lhe explicar tudo o que está acontecendo.

Poderíamos conversar depois do jantar. É que eu acabei de prepara… - foi interrompido pelo 27.

Um belo fettuccine com molho caseiro e linguiças finas defumadas, acompanhada de um bom queijo provolone e uma taça de tempranillo. - Yachal, abriu os olhos de uma maneira que nem ele mesmo sabia que seria possível fazê-lo. Cada frase com essa turma era um susto que ele levava.

Vocês estão me vigiando.

Sim - respondeu a 15 - desde que você foi concebido.

Faz o seguinte meu filho - disse o prático 31 - vá lá no seu apartamento, busque aquela comida, o vinho e traga pra cá.

Mas não é suficiente para todos - respondeu um preocupado Yachal.

Não se preocupe, disse a senhora 6. Eu e meu amigo - apontou para o 5 - fizemos a mesma refeição, mas gostaríamos de provar sua receita. Venha, vamos servir a mesa para conversarmos.

Yachal se virou e foi andando calmamente. A situação havia chegado a um ponto crítico e ele desistira de tentar entender. Resolveu se deixar levar para ver aonde aquilo iria parar.

Ok. Buscar comida. Vou precisar de ajuda.

Eu! - Respondeu o 27.

Aproveite e coloque uma blusa. Nem pense em vir jantar pelado dessa maneira - gritou o 21 para um Yachal que já saia pela porta com um 27 tagarela lhe segurando o braço.

 

Yachal entrou em seu apartamento acompanhado do 27.

Vou buscar uma camisa. Se quiser, pode ir levando as coisas.

27 pegou a panela pelas laterais e levou para o apartamento ao lado. Voltou rapidamente e Yachal ainda não tinha retornado do quarto. 27 então resolveu ver se estava tudo bem e foi lentamente andando pelo apartamento observando todos os detalhes da arrumação e da decoração. Yachal estava no banheiro.

27 entrou em seu quarto e viu uma prateleira cheia de pequenos bonecos de super heróis. Ele abriu um sorriso e olhou um por um. Olhou a primeira prateleira e passou à segunda. Parou sua visão em um boneco específico. Um pequeno Homem Aranha com sua tradicional roupa vermelha e azul. Pouco mais de cinco centímetros de altura. Pintura descascada pelo tempo revelando o plástico cor de pele. 27 pegou-o na mão sem tirar o sorriso do rosto.

Gosta de super-heróis? - Perguntou Yachal e sem perder o sorriso, 27 respondeu.

Eu não, mas você sempre gostou. Esse aqui foi o único que te dei. Você tinha três anos e eu acabara de chegar da África do Sul. Comprei-o em uma feira de rua. Era o mais bonitinho. Eu não sabia se você iria gostar, mas quando lhe entreguei você pegou e saiu correndo para mostrar para alguém.

Não me lembro.

É, você era muito jovem. Como te disseram. Somos o que você pode chamar de família.

Como assim, algum de vocês é meu pai? Vocês são parentes?

Calma Yachal, temos a semana toda pra conversar. É o que diz o protocolo. Não podemos apressar as coisas mais do que já fizemos - Disse 27 saindo do quarto e batendo levemente a mão aberta no peito de Yachal.

Vem. Vamos levar o resto e veja se não esqueceu nada ligado na cozinha.

 

Eles jantaram todos juntos em uma grande mesa. Foi servido o mesmo vinho que Yachal havia escolhido. Todos provaram pequenas porções e elogiaram sua comida. Ele pelo contrário, comeu a deles e não achou-a diferente da sua. Estava exatamente igual. Ao final, a 15 trouxe à mesa uma travessa com ao menos duas dúzias do que pareciam ser bananas fritas carameladas, mais uma compota de sorvete de chocolate. Todos se olharam com alegria e Yachal embora falasse pouco já estava começando a gostar do jantar e da companhia dos velhinhos.

Ao final da sobremesa, o clima voltou a ficar mais sério, pois finalmente algumas respostas deveriam ser dadas a algumas perguntas prováveis.

 

Aos poucos foram saindo da mesa e se acomodando nos sofás daquela grande sala. Alguns estavam deitados no grande tapete felpudo e encostados em almofadões. Usavam somente meias. Yachal reparou e foi até próximo da porta para retirar os seus sapatos.

Yachal sentou no chão e apoiou as costas no sofá. Todos se entreolharam. Yachal percebeu que também estavam tensos e preocupados. Depois de alguns segundos de silêncio perguntou:

Quem são meus pais?

Todos ficaram em silêncio e 7, aquele que era o porteiro do prédio, tossiu limpando a garganta.

Todos nós somos.

Isso é impossível. Você poderia dar uma resposta mais precisa?

Sim claro. Existe uma probabilidade de 23% de que seja ele - apontou para o 27 - 18% de que seja ele - apontou para o 31 -, 12% de que seja ele - apontou para o 22-, e 9% de que seja…

Espere - disse Yachal - que tipo de resposta é essa?

A que você pediu. Uma precisa.

Do que estamos falando?

Das suas origens Yachal, elas estão aqui nessa sala.

Vocês são meus parentes?

Não como você define parentesco - respondeu 22. Nesse instante a 15 interrompeu e com a mão espalmada para frente disse:

Somente o senhor Reis Rothbarth responde!

Então esse era o nome do meu porteiro, aquele que eu chamo de 7” - pensou Yachal.

Vamos prosseguir então. Yachal deixe-me lhe ajudar a entender. Conte-me sobre o seu histórico médico.

Os problemas que tive?

Sim.

Bem, - pensou Yachal - não tive muita coisa.

Consegue se lembrar de algum problema grave?

Não.

Algum problema menor. Gripe, febre, sarampo, pneumonia ou algo similar?

Não. Sempre fui bem saudável.

Você acha isso normal?

Pensando agora, não acho.

Você tem amigos?

Sim vários.

Quantos vieram lhe visitar?

Aqui em casa nunca.

Quantos amigos você visitou ou saiu para passear ou viajou junto em alguma aventura?

Eu nunca fiz isso.

Então você não tem amigos. Apenas conhecidos do trabalho. Você acha isso normal?

Não. É bem diferente né - respondeu Yachal já envergonhado.

Quantas namoradas você teve?

Nenhuma - respondeu já baixando a cabeça. Aquele era umas das suas maiores frustrações. Nunca conseguira gostar de ninguém.

Você acha isso normal?

Não.

Então, por favor. Não procure achar um padrão de normalidade para sua vida. Aceite as coisas como vamos lhe contar, pois essa é sua verdadeira história.

Tudo bem, vamos lá - respondeu Yachal.

Você é fruto de um longo trabalho genético de reprodução.

Ok, e porque não puderam fazer da maneira tradicional?

Calma, tudo no seu tempo.

Então não tenho pai nem mãe. Sou fruto de um laboratório?

Sim, é verdade.

Mas vocês precisaram de alguém para a gestação.

Não e sim.

Não? - Respondeu um surpreso Yachal.

Você é parcialmente gerado por meio artificial. Bem, excluindo o óvulo e o espermatozoide e a gestação inicial, tudo que vem posterior foi feito por nós.

Vocês são geneticistas?

Alguns sim e outros não, mas evitamos esse tipo de classificação. O conhecimento das ciências é suas várias especialidades é algo que temos todos. Alguns são melhores em alguns pontos enquanto outros em outros.

Quem fez a gestação inicial?

Uma pessoa especial. Seu nome era Elaine. Ela não sobreviveu. Só conseguiu lhe gestar até o terceiro mês.

O que houve?

Uma série de incompatibilidades. Depois de um início calmo, o corpo da Elaine lhe rejeitou. Fizemos de tudo para salvá-la, mas ela morreu e você continuou vivo por algumas horas. Você deveria ter morrido, mas isso estava acontecendo a um ritmo muito lento. Vimos que talvez você tivesse uma chance. Empregamos tudo que tínhamos e sabíamos. Passamos os seis meses seguintes nos revezando vinte e quatro horas por dia para poder fazer todo o trabalho que um corpo faz para gerar uma criança.

Isso é incrível - disse Yachal.

Sim, foi mesmo, nunca tínhamos feito nada parecido e nem nunca havia sido registrado no passado. Calculávamos minuto a minuto todos os ingredientes químicos que deveriam ser administrados em sua câmara gestacional e em sua corrente sanguínea. Todos nós e alguns outros amigos que não estão mais conosco.

E como foi o fim.

O que vocês chamariam de “parto” para todos nós foi algo mágico. Temos um vasto conhecimento científico, sabemos atrasar a morte, mas não tínhamos domínio sobre a criação da vida. Ainda não temos plenamente, mas no seu caso foi excepcional.

E ?

Definimos uma data e hora para lhe tirar da câmara. Todos os exames apontavam uma criança normal, mas você deveria respirar o ar. Ser retirado da solução amniótica e respirar por seus próprios meios. Você conseguiu e aquilo foi mágico mesmo. Todos nos abraçamos e comemoramos. Você chorava e nós também. Enfim, havíamos conseguido.

Legal, emocionante, mas pra que? Porque eu era importante ou ainda sou, não sei?

 

7 olhou para a 15 que com um sinal de cabeça concordou que prosseguisse.

Bom Yachal, você foi o primeiro de nós a nascer aqui.

Hã? Nenhum na Europa ou Estados unidos?

Estamos falando daqui, na terra.

De que espécie vocês são? E eu também claro? - perguntou um já preocupado Yachal.

Ora, somos todos humanos.

E o resto do planeta é formado por o que? Tatus-bola?

Calma Yachal, eu sei que é estranho. Somos todos humanos, mas nosso grupo é diferente porque tivemos uma origem diferente.

Sim, pelos nomes são todos alemães - respondeu Yachal.

o somos alemães.

Vocês então são de onde? - No mesmo instante que Yachal fez a pergunta, revisou a frase dita há pouco: Se ele fora o primeiro deles a nascer aqui, eles logicamente não nasceram aqui, ou seja, eles não são terráqueos.

Yachal, somos de um planeta muito longe daqui.

Fez-se silêncio. 31 perguntou se alguém queria mais vinho e todos concordaram, inclusive Yachal. Alguns segundos depois, 7 prosseguiu com seu relato.

O que vou lhe contar agora, só foi dito a cinco terráqueos. Elaine foi uma das pessoas e deu sua vida para nos ajudar. Os outros morreram com o tempo.

Sim prossiga. Agora eu fiquei curioso. - Yachal estava com seu batimento cardíaco acelerado e com a testa suada. Estava tenso. Era muita informação ao mesmo tempo. Queria fazer centenas de perguntas, mas viu que seria melhor deixá-lo prosseguir.

Nós pertencemos a um planeta desconhecidos dos humanos e que se chama Alani. Nosso planeta fica em outra galáxia a muitos milhões de anos luz daqui.

Você poderia ser mais preciso.

Não, porque não sei a distância certa.

Tudo bem, mas o que vocês estão fazendo aqui?

Agora vai ficar mais interessante. Nosso povo possui uma tecnologia muito mais avançada que a terráquea. Foi com ela que lhe salvamos. Hoje, conhecendo bem a história desse planeta, diria que tivemos evoluções parecidas, mas conseguimos ir mais longe em virtude de vários fatores. Fica mais fácil explicar pelos atrasos dos terráqueos do que pelos nossos avanços. Deveríamos estar no mesmo patamar, mas eles erraram muito e ainda erram. Mas, voltando. Depois de alguns milênios de evolução já estávamos no espaço. Passamos a fazer viagens mais longas até os planetas que considerávamos prováveis candidatos à vida. Qual não foi a nossa surpresa ao constatar que os “Humanas” estão presente em centenas de planetas. Não sabíamos o motivo. Não sei se o nosso povo hoje descobriu, pois estamos há muito tempo sem contato. Mas por onde quer que encontrássemos vida inteligente, eram humanos em diferentes estágios de evolução. Sempre humanos.

Há quanto tempo vocês estão sem contato? - Perguntou Yachal.

Seiscentos e trinta e dois anos.

Vocês querem que eu acredite que vocês têm essa idade?

Eu, particularmente não me importo muito se você acredita ou não, estou apenas expondo os fatos que nos levaram a ter essa conversa. Somos todos de uma missão exploratória. Fazíamos parte da tripulação de uma grande nave militar que viajou para um setor da nossa galáxia. Buscávamos um planeta que havia sido localizado pelos instrumentos de longa distância e que pelas análises de espectro, parecia apresentar capacidade de sustentar vida. Eu sei que você assistiu Startrek, porque fui eu quem recebeu a caixa com as coleções.

Sim eu me lembro de você me entregando a noite.

Então, fica mais fácil eu lhe dizer que buscávamos um planeta classe “M”. Eles são abundantes no universo. A vida é uma constante no universo. Buscávamos entender esse fenômeno.

Então vieram para Terra?

Não, esse nunca foi nosso objetivo.

E como vieram parar aqui?

Não sabemos. Literalmente não temos a menor ideia.

Agora não entendi.

Como lhe disse, fazíamos parte dessa missão, mas não éramos militares. Estávamos na nave em nossas atividades normais quando soaram os alarmes. Logo a seguir sentimos uma fortíssima aceleração. Fomos jogados contra a parede por diversas vezes. Muitos morreram nesse momento, outros ficaram muito feridos. Eu mesmo quebrei os dois braços. A nave suportou, mas quando subimos para os andares de controle e navegação, estavam praticamente todos mortos. Restaram poucos de nós. Estávamos mais para o interior da nave e acreditamos que isso nos salvou.

Quantas pessoas haviam nave?

3659, respondeu a 15.

Quantos sobreviveram?

Quarenta e duas.

Meu Deus - exclamou Yachal - que tragédia.

Sim, não sabíamos o que fazer. Por onde quer que andássemos, havia gente morta. A maioria foi por trauma contra as estruturas da nave devido ao deslocamento, mas alguns dos tripulantes da área de comando estava6m integrados as parede ou dissolvidos em uma geléia de carne e sangue. Nós conseguimos muito lentamente levar a nave para o planeta classe “M” mais próximo, a Terra, que apareceu nos sensores logo após o acidente. Nós não pousamos porque não sabíamos como fazer.

Como não sabiam?

Simples, imagine assim. Aqui eles possuem essas viagens de cruzeiro com grandes navios. As tripulações são compostas por centenas de pessoas. Quantas delas você acredita que sejam capazes de navegar com o navio?

É, realmente não tinha pensado nisso. - Disse Yachal já mais calmo.

A nossa sorte é que a senhora Golda Vélez estava habilitada para pilotar um veículo auxiliar. - Yachal olhou em volta, mas não haviam outras senhoras além da 15.

Ela trabalha em Arecibo no Chile juntamente com outro amigo. Devem chegar a qualquer momento. - Disse o 21.

Não é lá que existem os grandes telescópios?

Sim, e ela está há algum tempo tentando definir nossa posição no espaço conhecido. Conseguimos uma pequena esperança com um conjunto de estrelas que parecem pertencer ao que tínhamos como espaço profundo. Deixe-me continuar: Golda desceu ao planeta com alguns de nós para que pudéssemos enterrar os corpos de maneira digna. Havia na nave uma câmara específica para guardar os falecidos, mas ela naturalmente não tinha capacidade para três mil corpos. Os sensores registravam que o planeta estava repleto de vida e com muitas cidades populosas. Procuramos uma região isolada e desértica para que não houvesse nenhum tipo de contato. Descemos no que hoje se conhece como Peru e com equipamentos específicos de engenharia de construções, rapidamente conseguimos abrir um conjunto de covas para os mortos. Enquanto fazíamos isso, Golda realizava as viagens buscando todos que estavam sendo empilhados no deck de pouso da nave. Foram os dias mais tristes de nossas vidas Yachal. Nossa cultura tem um apreço muito grande pela vida. A morte não é algo comum. Como você pode ver, prolongamos a vida ao máximo. Enfim, fizemos os enterros com todo o cerimonial apropriado para que suas almas descansassem em paz.

Vocês possuem alguma religião.

Sim, claro, esse é um dos enigmas e motivos das nossas viagens. Todos os planetas que visitamos possuem o elemento religioso e em muitos deles com as mesmas origens… - o relator foi brutamente interrompido pela senhora 15 que disse em um tom de voz mais alto:

Hoje não trataremos desse tema senhor Reis Rothbarth. Siga o protocolo.

Mil perdões minha senhora. Então. Depois do cerimonial, voltamos à nave e passamos as semanas seguintes limpando-a e fazendo os reparos que seriam possíveis dentro das nossas capacidades. Ao final desse trabalho, as coisas melhoraram um pouco, mas mesmo assim não sabíamos como pousar nem o que fazer dalí por adiante. Pode parecer estranho, mas quando você possui uma capacidade de viver por centenas de anos, as decisões são discutidas longamente e sua execução pode durar muitos tempo. Levamos vinte e seis anos terrestres estudando nos computadores, todas as especialidades que precisaríamos para dominar o controle da nossa nave. Durante todo esse tempo realizamos um detalhado plano de sobrevivência no planeta, pois não poderíamos ficar na atmosfera sem descer. Afinal, somos exploradores e todo o material recolhido pelas sondas que enviamos era interessantíssimo.

Tudo bem, estou entendendo, mas onde que eu entro nessa história?

Bom, vivemos entre os terráqueos por mais de 600 anos. Alguns de nós morreram no início com algumas doenças que não conseguimos cura a tempo e outros por eventos violentos. Dois morreram quando deixaram nossa missão e resolveram se misturar aos humanos perdendo assim as doses regulares dos medicamentos que precisamos para prolongar a vida. Eles tomaram essa decisão livremente e nós respeitamos. Esse é o protocolo.

Então eles partiram e criaram suas famílias?

Não. Somos damnatus. Condenados. Nossa espécie embora similar é incompatível para reprodução. Não conseguimos fecundação natural nem artificial. Eles formavam um belo casal. Bom, quando chegamos aqui éramos jovens.

Ah, entendi, então eles formaram família entre eles mesmo e hoje devemos ter essa linhagem andando por aí…

Não. Nós exploradores somos esterilizados antes de ingressar nessa profissão. Isso é feito justamente para evitar qualquer tipo de aventura populacional. Uma coisa muito séria que seguimos é o protocolo de não interferir nas civilizações que encontramos. Podemos até nos misturar, mas somente depois de muito estudá-los. Desastres de proporções inimagináveis podem acontecer quando ocorre o primeiro contato. É preciso um nível muito baixo de desenvolvimento ou um muito avançado para que isso ocorra sem muito trauma.

Bom, façamos um resumo - disse Yachal-, Vocês estão aqui há mais de 600 anos, não conseguem se reproduzir e não sabem onde estão no universo. Possuem uma nave estelar, um veículo auxiliar, muito tecnologia e uma medicina dos deuses. Repito, onde eu entro nessa história?

Com o trabalho de Golda nos Estados Unidos e no Chile, conseguimos ter uma pequena esperança de voltar para casa.

Espere aí - protestou Yachal - Vocês tem uma nave estelar cheia de recursos e precisam de um telescópio?

Sim, claro, nossa nave está no fundo do oceano em uma local conhecido como Fossas Marianas, bem guardada da vista de todos. Ela é bem grande, um porta-aviões caberia em seu deck. Mas nunca foi nossa vontade voltar. Como exploradores estávamos em êxtase. Descobrimos coisas maravilhosas.

O que? Ouro, prata, diamante.

Não sua besta, o universo está cheio disso. O que encontramos aqui foi algo que é diferente em qualquer lugar. Chama-se cultura. Em 1792, um de nós esteve em Viena e nos convidou a todos para a apresentação de algo que faria nosso queixo cair. Eu lembro que estava na Austrália quando recebi a mensagem. Tínhamos nessa época um satélite em órbita que nos permitia conversar. Eu disse que isso levaria meses, mas ele foi insistente. Utilizou o veículo auxiliar e nos buscou em todos os cantos do mundo. Acompanhamos as festividades de fim de ano e logo a seguir, no dia dois de janeiro de 1793 estávamos todos apertados em um teatro. Éramos 34 nessa época e ocupamos a sexta fileira, próximo ao palco. Sabe o que aconteceu?

Não? - Respondeu Yachal.

Assistimos a primeira execução pública do Réquiem de Mozart.

Vocês conheceram Mozart? - Perguntou Yachal espantado.

s não, ele morreu no ano anterior. Mas ele sim. - Apontou para o 21. Tomaram alguns porres juntos. Nós, conhecemos o Franz Xaver Süßmayr.

Quem? Nunca ouvi falar.

Foi ele quem terminou o Réquiem, Mozart morreu e o deixou incompleto. Franz era seu discípulo.

Dessa eu não sabia.

É, essa até que é registrada, mas a história oficial dos terráqueos por vezes é bem diferente do que literalmente aconteceu, mas voltando ao tema. Aquela apresentação foi uma explosão nas nossas mentes. Até então tínhamos os terráqueos quase que como bichinhos a serem estudados. Após esse evento, ficamos atônitos. A música clássica era algo novo no universo. Nunca tínhamos visto nada assim. Foi simplesmente o melhor momento da minha vida. Eu chorava de admiração. Como era possível que um ser, um simples terráqueo pudesse fazer aquilo. Como combinar dezenas de instrumentos e vozes e produzir aquilo? Nosso estudo mudou bastante, passamos a tentar conhecer ao máximo suas artes. Já lhe adianto que ninguém no universo tem a música como eles, nem a literatura nem o cinema. A maneira que vocês tem para fazer isso é o bem mais precioso que encontramos aqui. Isso nos motivou a tentar voltar para casa. Temos que compartilhar isso com os outros planetas e outros povos. Esse é o nosso trabalho e essa é a nossa razão de existir como exploradores, temos que compartilhar 600 anos de história e todas as experiências positivas e negativas que encontramos. Nosso banco de dados de vírus, de sementes, de música, livros é gigantesco.

Tem mais uma coisinha - disse a senhora 15 -. Uma que vou sentir saudade, mas que também temos registrado nos mínimos detalhes.

O que?- perguntou Yazal.

A culinária desse planeta.

Foi uma comoção geral, todos começaram a falar ao mesmo tempo fazendo gestos e rindo. Yachal achou aquilo muito interessante. Ele nunca imaginaria que a música, a culinária, a literatura e as artes, seriam os maiores valores do nosso planeta. Ficou pensando no assunto quando se lembrou de que ainda não havia escutado uma boa explicação para ele estar naquela sala.

Ei, pessoal, calma, vocês ainda não falaram como que eu entro nessa história.

Yachal, nós vamos voltar para casa. A viagem deve ser muito longa. Lembre-se. Não sabemos o que nos jogou aqui tão longe e precisamos formar uma nova geração para não só completar o quadro de tripulantes, mas também suportar a longa travessia, que não sabemos se vamos conseguir fazer isso vivos. Podemos esticar a vida, mas isso tem um limite. Estamos todos velhos e você é o primeiro de nossos filhos, que chegou aos vinte e cinco anos, plenamente saudável e com capacidade reprodutiva.

Mas eu não sei nada.

Temos tempo para te ensinar muitas coisas. Pretendemos deixar o planeta em 26 anos.

Caramba. Vocês confiaram a mim a reprodução da sua espécie? Pensei que fossem mais espertinhos. Eu nem tenho nem nunca tive uma mulher.

Mas nós sabemos disso. Nossa espécie, por algum motivo, não possui interesse sexual algum pelos terráqueos. Não sabemos o motivo e por isso que também criamos outros filhos e filhas que estão vivendo suas vidas. Você foi a primeira pessoa que contamos isso. Mas amanhã, sua vida vai mudar. Sua futura esposa estará lhe esperando em seu trabalho.

Oi? Vocês fabricaram uma mulher pra mim?

Não sua besta. Nós criamos uma menina que hoje é uma linda jovem e amanhã você vai conhecê-la - Disse o 31.

Como vou saber quem é minha empresa é bem grande.

Não se preocupe. Vocês dois são virgens com mais de 20 anos. - Disse o 27 - Na nossa espécie isso é algo como uma bomba atômica hormonal. Vocês vão se achar, vão se apaixonar e terão muitos filhos.

Não entendo nada de paixão. - resmungou Yachal.

Ah, deixa eu te contar uma coisinha que vai acontecer com você amanhã - disse seu vizinho o número 3 -. Sabe, eu lamento profundamente pelas pessoas que nunca experimentaram isso. Basta uma única vez para que toda uma vida tenha valido a pena. Não existe nada que lhe deixe mais alerta, cuidadoso e ao mesmo tempo desastrado. Essa é uma das melhores coisas que podem acontecer. Não sabemos o motivo ou explicar como que acontece, mas parece que durante toda a nossa existência, algo nos convida a amar por algumas poucas vezes. E creio que seja o mais próximo que o ser humano possa chegar da magia. O amor, o sexo e a paixão, são todos momentos únicos, mas existe uma pequena fração de tempo antes disso tudo onde você se desliga do universo e o mundo parece girar entre duas pessoas que estranhamente pouco se falam e não se tocam. Tudo acontece à distância e com os olhares. Olhar alguém nos olhos é algo bastante comum, fazemos isso milhares de vezes durante a vida, mas esse olhar é diferente. Ele dura dois segundos ou mais. É como se uma alma através dos olhos, pudesse ver outra alma. Existe uma conexão por esse breve período de tempo onde ambos seguram a respiração, dilatam suas pupilas, se olham nos olhos por um período mais longo do que o normal e acontece uma química única. Mesmo que você nunca tenha experimentado, saberá que aquela é a mágica. Seu organismo vai reagir. Seu coração dará uma forte batida e depois parará. Sua nuca vai arrepiar, a boca ficará seca, suas mãos ficarão suadas. Você pensa em falar e não consegue formular uma única coisa racional. Algo primitivo em você desperta. Logo depois os olhos se separam. Você gostou da sensação e busca novamente aqueles olhos. Surpreende-se porque eles também procuram os seus. A coisa se repete e acaba por dominar por completo a sua mente. Você não consegue pensar em outra coisa. Seu corpo assume o controle, seus instintos afloram, você ganha um motivo para viver, mas perde a razão. Se preciso fosse, eu morreria para ter isso novamente. Basta uma única vez para que toda uma vida tenha valido a pena.

E isso vai acontecer comigo amanhã.

Tão certo quanto o sol que vemos repousar todos os dias e daqui a poucos anos, todas essas famílias com as crianças que criamos, completarão quase uma centena de pessoas. Nesse momento, vamos utilizar o veículo auxiliar para abastecer a nave com todos os suprimentos que precisaremos e iniciar todo o período de capacitação dos novos astronautas. Muitos estarão aptos durante as viagens, mas o mais importante é que nossa nave será nosso planeta até que deixemos essa civilização perdida. Sentiremos saudades, mas Yachal existe outra constante universal. Todos sempre sentem uma vontade inexplicável de voltar para casa em alguma época. A nossa chegou. Ela nos chama.

A porta da sala estava aberta quando mais duas pessoas entraram. Era um casal que gerou um sorriso nos rostos de todos os presentes. Para os antigos, eram Golda Vélez e Yasar Sharma. Para o atônito Yachal, eram 1 e 2. Algumas lágrimas foram inevitáveis.

 

Yachal chegou tenso no trabalho. A porta do elevador abriu e o imenso andar se descortinou a sua frente. Ele conhecia a maioria das pessoas que ali trabalhavam, mas se o que seus novos amigos disseram era verdade, hoje aconteceria algo fora de seu controle. Ele entre cético e crédulo, atravessou o andar andando um pouco mais lentamente e observando as pessoas. Recebeu muitos “bom dia” e sorrisos, mas até então nada de anormal. Cruzou o corredor olhando calmamente para os lados quando percebeu uma nova pessoa com a cabeça baixa sentada a mesa. Não viu seu rosto, estava escrevendo. Súbito ela levantou a cabeça olhando em volta como que seus instintos estivesses lhe dizendo algo. Eles cruzaram olhares. Foi um choque. Era a mulher que ele julgava ser a filha da 15. Yachal perdeu o sorriso, perdeu o raciocínio. Já não lembrava mais o que fazia ali. Foi para sua sala, sentou a mesa e não conseguiu trabalhar. Foi várias vezes buscar água ou café e em todas as oportunidades, cruzaram olhares. Ele não conseguia resistir nem ela. O dia terminou e quando ela passou para ir embora, Yachal correu na porta e ela olhou para trás duas vezes. Ele viu que ela também estava perturbada sem entender aquilo. Sentou novamente em sua cadeira, colocou as mãos no rosto e ficou sem saber o que fazer. Viu um lápis solto na mesa. Olhou à impressora e pegou uma folha branca. Ele tinha que escrever algo e ela saberia que teria sido ele. Escreveu com letras de forma com cuidado para não errar. Deixou embaixo do teclado com metade do papel para fora para que ela visse que tinha algo ali; nunca mais esqueceria aquelas palavras que brotaram na folha branca:

 

Eu adoraria falar muitas coisas, mas confesso que fiquei sem palavras. Não sei explicar direito o que aconteceu, só posso dizer que a sensação é muito boa. Desculpe o atrevimento, mas adoraria que me telefonasse. Não se preocupe, só gostei da sensação de estar vivo. Adoraria conversar um pouco.”

 

Yachal trancou sua sala, colocou o terno nas costas e andando em direção ao elevador pensou:

Está começando, vou me apaixonar, ter filhos, viver seiscentos anos, viajar pelo espaço e conhecer outros planetas… adeus Terra e sua civilização perdida em algum canto do universo... damnatus”

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