Damnatus

Yachal não conheceu seus pais. Cresceu em um orfanato onde viveu até a maioridade. Sua boa formação, disciplina impecável e inteligência acima da média, sempre lhe ajudaram a superar os degraus da vida e lhe proporcionaram um relativo sucesso profissional. Seguia sua rotina controlada de trabalho e atividades particulares. Ele imaginava que possuía pleno domínio de sua vida e de seu futuro, mas uma série de encontros fortuitos com pessoas a caminho do seu trabalho lhe mostraram que conhecia muito pouco de seu passado e suas origens. Quem são essas pessoas? Porque as encontra aonde quer que vá? Porque sempre estiveram próximas a ele? Porque nunca falaram com ele? Yachal não sabia, mas seu destino estava escrito muito antes dele nascer; e pelas mãos dos condenados.

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1. Damnatus

Damnatus

Oliveira Lima

Yachal escutava ao longe algo repetitivo. Sua mente estava nebulosa e não entendia o porquê daquele som contínuo. Aos poucos o som foi ficando mais alto e puxando consigo sua consciência. Tornou-se insuportável, presente, real. Sua mente foi ficando mais limpa e ele abriu os olhos. Tudo estava escuro e sua vista foi aos poucos se adaptando. Olhava para algo branco e com formas indefinidas. Fechou os olhos longamente e deitou a cabeça para o lado. Abriu novamente os olhos e viu um pequeno borrão verde sobressaindo sobre um fundo escuro. Não identificou o que era, mas o som vinha da cor verde. A visão se ajustava ganhando foco e nitidez até que leu alguns números. Levantou a cabeça, olhou em volta e reconheceu seu quarto. Respirou fundo, se espreguiçou e olhou novamente para os números que marcavam “5:26” sem entender o que eles significavam. O som repetitivo lhe angustiava. Números verdes que produziam som. Não fazia sentido.

Súbito, tal como uma erupção vulcânica, toda a consciência adormecida de Yachal chegou à superfície fazendo com que em uma única fração de segundo, tomasse conhecimento de seu ser, suas lembranças e suas obrigações. Levantou-se de um salto e desligou o despertador com raiva, pois estava tocando por vinte e seis minutos sem que ele percebesse. Chovia forte e ele se sentou na cama que lhe exercia um poder magnético pelas manhãs. Permaneceu por longos minutos coçando a cabeça de forma lenta e ritmada ao som da chuva, o que de certa maneira acalmou seu espírito. Adorava o som de água.

Pensou no que tinha de fazer durante o dia e tudo o que havia feito nos anteriores. Pensou também na calça que iria vestir, sapato, cinto e camisa. Repassou na mente os itens e verificou se tudo iria combinar, pois tinha um relativo bom gosto para se vestir. Pensou no seu itinerário até o trabalho. Olhou para o relógio e verificou que haviam passados treze minutos desde que desligara o despertador. Assim era Yachal, um jovem metódico, inteligente, disciplinado e com uma vida organizada. Não sabia de onde herdara essa maneira de ser. Ele não conheceu seus pais, viveu em um orfanato até maioridade quando já trabalhava e estudava. Um ano depois, já havia passado em um concurso público, terminado a faculdade e financiado seu apartamento. Sua vida era impecável.

Desde cedo Yachal já havia percebido que conseguiria alcançar qualquer objetivo, se definisse claramente os requisitos para aquele fim e transformasse cada um deles, em elemento integrante de sua rotina. Cada tarefa chata, cansativa ou monótona, deveria ser acompanhada por algum tipo de prêmio. Isso alimentava o ciclo. Uma semana de estudos noturnos, seria premiada com um apetitoso jantar e um bom vinho na sexta-feira. Uma manhã de malhação era premiada com um bom e longo banho quente. Qualquer motivo que lhe tirasse da rotina, também lhe tirariam esses prazeres. Nada de boa comida e o banho era frio.

Yachal saiu de casa um pouco atrasado para seus padrões de pontualidade, mas com alguma folga em relação ao horário que deveria estar em seu trabalho. Deslocava-se de metrô, tanto na ida quanto na volta. Como morava próximo de uma das primeiras estações da linha, quase sempre o vagão estava vazio. Gostava de ficar no mesmo local, de pé, próximo à porta de saída, mas sem atrapalhar a entrada. Mantinha sua postura ereta observando a todos.

Sua rotina não era diferente da de muitos. Com o tempo, acabou por conhecer de vista aqueles mesmos passageiros diários. Conseguia identificar os que estavam preocupados, relaxados e os insones. Alguns rituais se repetiam. Um jovem que sempre corria para sentar, mas que na próxima estação cedia o lugar para um idoso. Trocavam sorrisos, mas nunca se falavam. O idoso olhava em volta e batia a cabeça para Yachal. Algo como um bom dia à distância. Yachal sempre acompanhava esses pequenos movimentos com alguma curiosidade antropológica como da vez que acompanhou parte da história de um casal de adolescentes.

Yachal, nunca trocou uma palavra sequer com ambos, mas se sentia uma espécie de padrinho. Ele pode acompanhar o rapaz olhando-a com alguma insistência, desviando a cabeça para poder vê-la quando alguém lhe fechava a visão e viu-a com seus pequenos sorrisos de canto de boca. Com o passar do ano, eles foram se aproximando dentro do vagão, até o dia em que a moça entrou, caminhou entre os passageiros em direção ao rapaz e ambos se abraçaram. Yachal tomou um susto. Algo tinha acontecido fora do vagão e agora estavam juntos, felizes e apaixonados.

Sentimento estranho; Paixão. Yachal pensava que o amor não existia como se mostram nos filmes e nas músicas. Sempre que via alguns casais com aquela expressão de calma e felicidade, achava que não passava de encenação e como nunca foi bom nas artes cênicas, encontrava nisso a explicação para aquele vazio que sentia. Sim, ele olhava para os casais e acreditava que aquilo era falso, mas ao mesmo tempo sentia uma dor enorme dentro do peito. Não era inveja. Era o eco provocado pelo vazio. Ele era uma pessoa oca, solitária, vagando pelo seu mundo perfeito e por suas controladas rotinas. Durante a vida, havia conhecido centenas de mulheres, mas nunca passando das formais cordialidades. Embora ele tenha deixado um rastro enorme de suspiros, olhava para aquelas pessoas assim como se observa uma planta. Nenhum sentimento. Yachal não era burro. Ele sabia que isso não era normal, assim como também sabia possuir aversão a homens e isso lhe acalmava. Tentava não pensar no assunto e entrou em acordo com o futuro para que esse, lhe resolvesse essa questão.

Alguns finais de semana eram mais difíceis.

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