Damnatus

Yachal não conheceu seus pais. Cresceu em um orfanato onde viveu até a maioridade. Sua boa formação, disciplina impecável e inteligência acima da média, sempre lhe ajudaram a superar os degraus da vida e lhe proporcionaram um relativo sucesso profissional. Seguia sua rotina controlada de trabalho e atividades particulares. Ele imaginava que possuía pleno domínio de sua vida e de seu futuro, mas uma série de encontros fortuitos com pessoas a caminho do seu trabalho lhe mostraram que conhecia muito pouco de seu passado e suas origens. Quem são essas pessoas? Porque as encontra aonde quer que vá? Porque sempre estiveram próximas a ele? Porque nunca falaram com ele? Yachal não sabia, mas seu destino estava escrito muito antes dele nascer; e pelas mãos dos condenados.

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3. Contato

Yachal acordou no horário correto. Repassou em sua mente o dia anterior e novamente perdeu sua atenção no caso dos velhinhos. Fora realmente uma estranha coincidência decorrente do seu atraso. Embora tivesse encontrado o 31 e o 27 em algumas ocasiões, nunca havia acontecido por duas vezes, Ao menos ele nunca havia percebido.

Seguiu sua rotina com um bom banho quente, café da manhã e uma pausa para assistir o sol nascer da varanda do seu apartamento.

Pegou sua carteira e a pôs no bolso direito traseiro da calça. O crachá de acesso no bolso esquerdo, o celular do bolso de dentro do paletó e foi com as chaves em direção à porta. Parou por alguns segundos e imaginou:

Se sair no horário, encontrarei o 27 e o 31?”

Resolveu deixar o acaso trabalhar. Pegou na mesa, o livro que estava por terminar para que lhe acompanhasse no metrô. Saiu de casa.

Chegando à plataforma, tomou posição em seu local. O metrô chegou; as portas se abriram; Yachal entrou e prometeu a si mesmo que não olharia para nenhum dos lados. Abriu seu livro.

Depois de um tempo, percebeu que não conseguia se concentrar na estória e isso o surpreendeu. Até então, “O Processo Maurizius” o havia capturado. Mas não agora. A vontade de olhar para os lados e saber se eles estavam lá, era enorme. Primeiro, olhou à direita e depois à esquerda. Eles não estava nos bancos. Yachal riu sozinho e voltou para sua leitura. Agora mais calmo.

 

Chegou sua estação e ele se posicionou para sair do vagão. Algumas pessoas já estavam a sua frente. Uma inclusive, com uma boina parecida com a do 31. Ele olhou, mas não conseguia ver o rosto. Tentou no reflexo do vidro, mas também não conseguiu. O metrô parou. A Porta se abriu. Todos saíram e Yachal resolveu andar mais rápido para ver se era mesmo o 31 quando alguém bateu em seu ombro. Yachal se virou e deu um passo atrás com o susto ao ver que era o simpático 27.

Bom dia senhor - disse o 27.

Bo.. Bom dia - respondeu Yachal.

Já li esse livro!

Esse aqui? - Disse confuso.

Sim, é a história de um erro judiciário e do empenho de um jovem para libertar o homem que seu próprio pai condenara.

É, é isso mesmo - respondeu Yachal já pensando se aquele velhinho não seria louco.

Tem uma continuação, o senhor sabia? - Perguntou 27.

Não sabia.

Tem sim - respondeu o 27 já com um sorriso no rosto e pegando Yachal pelo braço -, foi publicado na língua original, o alemão. Não foi traduzido para o português e chama-se “Etzel Andergast” e depois o terceiro e último que… esqueci o nome.

O senhor leu em alemão? - perguntou um já admirado Yachal.

Ah, sim, eu morava lá na época.

E em que ano foi isso? - 27 pensou e viu que 1931 estava bem distante e que iria acabar se enrolando.

o lembro, mas foi na minha juventude. Como me lembraria? A idade á algo que acaba com a nossa memória.

Súbito, ambos pararam ante o vulto de uma pessoa estática diante dos dois. Yachal olhou e começou a achar que esse dia seria mais estranho que os outros. A plataforma já estava vazia e diante deles, prostado estava o nada simpático 31.

O que você está fazendo - perguntou o 31 para o 27.

Eu? Conversando sobre literatura.

Vocês se conhecem - perguntou Yachal?

Sim! Não! - Responderam 27 e 31 ao mesmo tempo.

Opa, tem alguém mentindo - disse Yachal.

Que se dane - respondeu o 31, virando-se e andando em direção à escada de saída. No caminho pegou o celular e discou um número. Olhou para trás e viu, Yachal e 27 vindo em sua direção.

Atenção! O protocolo foi quebrado. Aguardo orientação. - Disse o 31 ao telefone.

Yachal não escutou o que 31 disse, mas estava achando aquilo tudo muito estranho.

 

Chegando a rua, 31 estava desligando o telefone com um semblante preocupado. Yachal se aproximava com o 27 falando sem parar.

Bom, agora preciso ir. Foi bom falar com vocês. Vemos-nos no metrô - disse Yachal.

Negativo mocinho - respondeu o 31. Você vai ficar bem quietinho aí, porque algumas pessoas querem falar com você.

Pessoas? Que pess… - nesse momento se aproximam o 20 e o 21. Yachal fica surpreso.

Você assistiu o sol nascendo hoje?

Sim... vi, como você sabe? - Perguntou tenso.

Sabemos tudo sobre você, desde o tempo do orfanato - respondeu o 20.

Oi? - Perguntou Yachal já de boca aberta e sentindo o coração acelerar. Eles estavam de pé na praça do Por do sol e o 31 pediu que ele sentasse no banco privilegiado. Imediatamente olhou para o 20 e 21 como que perguntando

Mas esse banco não é de vocês?”

Pode sentar - disse uma voz vinda de suas costas. Era o 22, acompanhado do 23.

Quem são vocês? Perguntou assustado.

Somos o que você poderia chamar de família. - respondeu o 23.

 

Aquela última frase tirou tudo de curioso que aquele situação parecia conter. Yachal tomou para si um novo nível de seriedade. Ele sentiu que deveria parar com aquilo imediatamente. Os senhores formavam um despretensioso semicírculo a sua volta no banco da praça. Ele queria sair daquele lugar. 31 deu dois passos para trás e disse para os demais:

Ele vai sair.

Todos olharam para Yachal que se levantou, bateu a poeira do terno e seguiu andando, mas sem deixar de tecer seu comentário:

Bela maneira de começar o dia; cercado de malucos! Au revoir senhores. - E lá se foi com passos decididos. Ninguém fez nada para impedir sua saída.

Nesse momento se junta aos demais, uma senhora muito bem vestida, conhecida de Yachal como a 15. Todos a cumprimentam com a cabeça. O 31, o 22 e o 23, retiraram suas boinas e inclinaram levemente o corpo em sinal de respeito.

Boa noite senhores. Vi que ele se foi. O que houve?

Desculpe senhora, ele ficou nervoso. - Respondeu o 31.

E porque ele ficaria meus caros?

Bem, - disse o 27 - dissemos que ele era parte de nossa família.

Ah, que interessante, e quem foi que quebrou o protocolo? - Todos se olharam e baixaram as cabeças. Apenas um continuou olhando-a diretamente.

Fui eu minha senhora - respondeu o 23.

E porque o senhor tomou essa decisão meu caro?

Creio que me precipitei senhora. Fiquei impaciente. Estamos trabalhando nisso há tanto tempo que cada dia está se tornando um tormento. Queria logo que o nosso menino soubesse de tudo.

Itzhak Primker. Depois de seiscentos anos sobrevivendo com o nosso protocolo, talvez você pudesse reescrevê-lo?

Desculpe senhora Golda Kroebner, não sou digno de tal ousadia. Seria um insulto. Seria contra tudo que acreditamos.

Mas Itzhak, você não poderia deixar de concordar comigo, que ao não segui-lo, criou uma versão nova para si e desrespeitou a todos que ajudaram a construí-lo ou que deram suas vidas em prol do nosso futuro. Pelo protocolo, Yachal só poderia saber de nossa existência e de seu destino, quando viesse até nós em buscas das respostas para todas as pistas que deixamos. Precisamos que ele queira saber e não que ele nos tenha como loucos.

Senhora? - Chamou o 20.

Sim, senhor Reuven Gernsheimer?

Desculpe a indelicadeza, mas precisamos de objetividade nesse momento não previsto. Temos que acertar as coisas e para isso, tive uma ideia do que fazer com o nosso menino. Com a vossa permissão e a dos demais amigos, gostaria de expô-la.

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