A banda, meu marido e eu: ou talvez nada disso!

Nora passou a adolescência escrevendo fanfictions sobre a sua banda preferida. Broken dreams, era uma banda de rock alternativo que encantava multidões com suas baladas açucaradas e uma pequena agitação rebelde, há quase uma década já, mas o que essa banda tinha de mais especial eram seus quatro integrantes que pareciam vindos direto do Olimpo, deuses gregos em forma de roqueiros. Mesmo adulta, Nora continuava com suas pequenas composições, a diferença agora é que ela ganhava para isso, publicando seus sonhos platônicos sobre Luke Hamilton, o guitarrista da banda e sua personagem fictícia, que por acaso e sem vergonha nenhuma levava o seu próprio nome. O que Nora não contava era com um acidente que apagaria a vida que ela conhecia e a levaria para aquela que ela sempre sonhou.

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2. Capítulo 2 - Luke

Estar na estrada era algo que eu gostava bastante, a banda era minha vida e se não fosse o Broken dreams eu realmente não saberia dizer o que seria dela. Estávamos por uma turnê europeia já há três semanas. EU já tinha me acostumado tanto com essa vida um tanto nômade que eu já não prestava muita atenção no que acontecia ou onde estava. Eu poderia parecer petulante ao dizer que não havia nada novo para se conhecer, porque todos os lugares que visitávamos não eram novos para mim, mas isso não era verdade. No fundo eu mal conhecia qualquer um deles. No início, tudo era uma grande festa que nunca acabava. Só queríamos aproveitar todo o tempo possível nos divertindo e entrando em confusão. Não dava para culpar ninguém, tínhamos apenas catorze e quinze anos, erámos crianças perdidas no mundo do rock. Depois, quando tudo começou a ganhar mais sentido e a febre passou, nos tornamos uma banda respeitada e foi a hora de encarar que não éramos mais crianças, não dava para ficar por aí zuando como se não houvesse amanhã. Só que então, não sobrava mais tempo para nada.

Hoje sou sincero em dizer que essa vida cigana de músico estava me deixando entediado. Nunca podíamos ser apenas pessoas comuns. Ás vezes me sinto preso e monitorado 24 horas por dia. Não posso dar um passo a mais que o mundo recaí sobre mim, quanto mais me desfrutar de conhecer uma praia ou visitar algum museu. Nada dessas coisas de turista, nada que eu gostaria de fazer.

Ontem mesmo foi um desses dias. Conheci Rebecca numa premiação da MTV há um ano, ou um pouco mais. Na época eu nem estava muito interessado em falar com ela. Parecia apenas mais uma aposta da música country disfarçada de lixo adolescente que fala sobre como o mundo é mal com você, não era o meu tipo de conversa e com certeza eu poderia simplesmente ser uma escada social para ela. Então, estamos em Amsterdã para uma mini turnê de dois shows e o destino quis colocar a loira em meu caminho de novo quando nos encontramos nos bastidores de um programa holandês de TV, que por sinal eu não estava entendendo nada.

Assim que coloquei meus pés na rua com Rebecca na busca de um encontro normal, no qual pessoas saem para jantar juntas, eu sabia que não ia dar numa coisa boa.

Quando eu a beijei então, acho que a coisa só piorou.

Foi assim que meu rosto voltou a ser manchete de milhares de tablóides e revistas mundo afora. Lucas Hamilton em um relacionamento sério com Rebecca. Ridículo! Eu mal tinha um relacionamento comigo mesmo quanto mais com a loira do country que eu mal conhecia, apesar de não me arrepender em nada da noite passada!

O show de ontem foi terrível. Milhares de fãs chorando por todos os lugares como se eu as tivessem traído. Me pergunto o que teria acontecido se Liam estivesse no meu lugar.

Pode parecer gayzisse o que eu vou falar, mas Liam é o cara da banda. Toda a arrogância que poderia se instalar em uma pessoa se concentra em um único ser desta banda, e William Palmer é ele.

Vocalista da banda, o que já lhe dá crédito por natureza para ser um total idiota, Liam consegue esbanjar em mal humor. Engraçado que somos amigos há tanto tempo que eu já me acostumei com esse jeito dele.

O Broken dreams começou já com ele arrumando briga. Liam nunca foi do tipo que levava desaforo para casa, e quando CJ quis adotar o sobrenome Ramone, para combinar com o seu, Liam não achou muita graça e partiu pra cima do porto riquenho topetudo que se encarrega do baixo na banda.

Embora Liam se ache demais e seja  o queridinho de todos os fãs, sejam eles homens ou mulheres, ele continua meu melhor amigo. Eu respeito CJ e Théo tanto quanto eu o respeito, mas Liam é mais como um irmão.

Batidas na porta do hotel fizeram minha cabeça latejar um pouco mais. Depois de ver a cena decadente do show de ontem, com meninas se cortando e rasgando corações de papel na primeira fila do show, eu resolvi pegar leve e beber não menos que uma garrafa do melhor Jim Bean que eu  encontrei perdido nas coisas da banda. Eu sempre soube que Henri, nosso roadie mais antigo tinha alguma coisa boa bem guardada com ele por aí.

Dividir o quarto com Cj também não foi uma boa ideia. O celular dele já desperta com alguma salsa ridícula e estridente. Adepto da filosofia "green" de vida, Cj acorda muito cedo de manhã para suas corridas matinais. Um corajoso eu diria.

Se aquele desgraçado daquele porto riquenho tivesse esquecido o cartão do quarto e agora socava a porta para entrar aqui eu iria quebrar a cara dele quando conseguisse pelo menos abri-la.

Estava difícil aguentar a claridade do pequeno hall do quarto e minha cabeça ainda doía, mas eu ainda era forte o suficiente para atacar o latino topetudo.

_ Cj, eu já...

Mal tive tempo de falar qualquer coisa. Victor, nosso para sempre empresário entrou no quarto me empurrando para o lado com uma certa força.

_ Hora de Acordar, Hamilton.

Droga, Rebecca. Pensei comigo mesmo me lembrando dos jornais, Victor Palmer estava demorando para pegar no meu pé por isso. Depois do desastroso show de ontem era de se esperar que ele fosse agir assim.

O sobrenome Palmer não é apenas uma coincidência, Victor é irmão mais velho de Liam. Ele sempre nos apoiou e nos ajudou muito quando éramos apenas moleques tocando por aí, mas então o tempo passou e o cara dos negócios cresceu em Victor. Acho que deixei de ser o pirralho amigo do irmão para ser uma cifra a mais.

_ Olha Victor, eu posso explicar...

_ Explicar o que? - Ele me interrompeu, como sempre aliás.

_ Rebecca?- Eu ergui uma sombrancelha chutando o tópico de sua vinda triunfante até ali.

_ Rebecca é passado já. - Ele seguiu para o sofá a procura do controle da TV. - Com certeza você ainda não viu as notícias de hoje. - Ele parecia nervoso procurando o controle da tv.- Onde CJ enfiou o controle? - Ele perguntou chutando uma almofada para longe.

Eu abri minha boca para responder, mas Victor balançou as mãos ao alto me interrompendo.

_ Tá, nem responde.- Ele balançou a cabeça como se expulsasse uma imagem horrível de sua cabeça. - Vamos pro meu quarto, todos estão lá de qualquer forma.

_ Dá pra me explicar o que tá acontecendo? - Eu puxei uma camiseta qualquer pela cabeça antes de sair, descalço mesmo eu segui Victor para o quarto da frente.

_ Você vai ver. - Ele disse abrindo a porta.

A cena era bizarra. Liam estava sentado uma poltrona com olhos atentos ao que via na TV,  Cj e Théo, meu primo e baterista da banda, riam descontroladamente dando leve tapinhas no ombro um do outro.

_ Ae, chegou o maridão. - Cj sorriu irônico quando me viu na porta.

Sem saber o que isso queria dizer eu apenas sentei entre os dois no sofá enquanto Victor puxava uma cadeira para perto do irmão.

O programa na TV era um famoso talk show que passava todas as manhãs. Eu quase me perguntei o que fazia aquelas criaturas com quem eu trabalho assistirem um programa assim, mas eu me detive apenas na legenda da Tv que dizia: ESCRITORA NORA CRISTENSEN  ESPOSA MISTERIOSA DE LUCAS HAMILTON.

_ O QUE? - Eu gritei arregalando os olhos.

Foi então que Cj riu um pouco mais alto.

_ Eu te disse que você deveria ver com seus próprios olhos. - Victor deu de ombros.

Eu balancei a cabeça não entendendo como isso tinha acontecido. Eu não tinha me casado depois da bebedeira de Jim Beam ontem a noite, ou eu tinha?

_ Você se casou, Luke? - Liam me perguntou sério.

_ Claro que não. Se eu tivesse você saberia, não acha? - Respondi ainda olhando para aquela moça na TV respondendo coisas sobre mim como se tivesse certeza de tudo.

_ Cara você tinha que ter escutado a história sobre a lua de mel, de como você se mostrou receoso por ser virgem. - Cj continuava rindo.

_ Você tá de brincadeira, né? De onde essa louca saiu? Victor, temos que processá-la, alguém pode acreditar nessas coisas que ela tá falando.

_ Calma Luke. - Victor disse ainda olhando para a tv. - Eu não sei bem o que podemos fazer. Já enviei um comunicado a equipe de imprensa e eles estão cuidando de tudo e negando todas as afirmações dela.

_ De onde surgiu essa louca afinal? - Eu apontei para a Tv.

_ Você não se lembra da sua própria esposa? - Théo perguntou debochado.

_ Cala a boca. - Bati em suas costelas com meu cotovelo fazendo -o se calar.

_ EU não sei bem. - Victor continuou. - Ela sofreu um acidente e acordou assim.

_ Se ela sofreu qualquer coisa o problema é dela. Não entendo porque ela tem que se meter na minha vida.

_ Aparentemente ela escrevia histórias sobre a gente. - Liam resolveu me explicar no seu tom sério de sempre. Poderia ser impressão minha, mas ele parecia um tanto quanto, comovido? - Ela sofreu um acidente de carro e quando acordou no hospital suas lembranças eram apenas de suas histórias. Ela não tem família e acredita que você seja a família dela.

_ Ok Liam, estou realmente tocado agora que eu conheço a história triste da Nora, mas volto a dizer, eu não tenho nada a ver com isso. - Me virei para Victor. - Se vira e faz ela sumir.

_ A imprensa está acabando com ela. - Liam voltou a interromper.

_ Então vai lá conversar com a imprensa já que você está tão tocado. - Eu dei de ombros. - Tô pouco ligando pra essa moça estranha louca que resolveu acordar e achar que eu era casado com ela.

_ Ann ligou. - Théo interrompeu o diálogo que eu e Liam tínhamos sobre a moça sem memória.

Théo era meu primo, dividíamos o mesmo sangue, mas com certeza não os mesmo neurônios. Falar de minha irmã nesse momento não era a melhor coisa que ele poderia fazer.

_ POrque Antonella ligou para você e não para mim? - Perguntei sentindo um leve ciúmes de minha irmã. Ann era a única coisa que eu tinha de família, além de Théo claro.

Primeiro foi mamãe. Ela se foi quando ANtonella tinha apenas dois anos, foi um acidente terrível. Então quando eu já estava com treze foi a vez de papai. Sabíamos que ele não iria longe, ele nunca conseguiu aceitar a falta que minha mãe lhe fazia.

Então Antonella e eu fomos morar com a tia Raquel, a mãe de Théo e foi dali que surgiu nossa banda. Na garagem dos Hamilton. Liam era o vizinho da esquerda e CJ o latino que se mudou para a outra casa. Nos tornamos amigos e acabamos aprendendo música quase que juntos. E assim nasceu o Broken dreams.

_ Se você atendesse o telefone você teria falado com ela. - Théo continuou me tirando das pequenas lembranças do início da nossa banda. 

_ AH, eu desliguei o seu celular ontem a noite. - Cj disse sem me olhar acompanhando a entrevista da louca "minha esposa" na Tv. - Deve ser por isso que você não ouviu. - Ele riu e deu de ombros.

_ O que Ann queria? - Me virei para Théo.

_ Queria saber sobre a história da Nora. - Ele apontou a tv. - Ela está preocupada.

_ Ela não tem que se preocupar comigo. - Eu me joguei no sofá. - Eu estou bem.

_ Na verdade.- Théo parecia receoso em falar. - Ela está preocupada com Nora!

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