A banda, meu marido e eu: ou talvez nada disso!

Nora passou a adolescência escrevendo fanfictions sobre a sua banda preferida. Broken dreams, era uma banda de rock alternativo que encantava multidões com suas baladas açucaradas e uma pequena agitação rebelde, há quase uma década já, mas o que essa banda tinha de mais especial eram seus quatro integrantes que pareciam vindos direto do Olimpo, deuses gregos em forma de roqueiros. Mesmo adulta, Nora continuava com suas pequenas composições, a diferença agora é que ela ganhava para isso, publicando seus sonhos platônicos sobre Luke Hamilton, o guitarrista da banda e sua personagem fictícia, que por acaso e sem vergonha nenhuma levava o seu próprio nome. O que Nora não contava era com um acidente que apagaria a vida que ela conhecia e a levaria para aquela que ela sempre sonhou.

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1. Capítulo 1 - Nora

  _E então Luke a segurou forte nos braços, mas com todo o cuidado para não machucá-la. Nora era seu bem mais precioso. Ele a amava até mais do que ele amava aquela banda, muito embora a banda fosse tudo na vida dele.

TRIMMMMMMM.

Odeio quando o telefone toca bem quando eu estou escrevendo. Odeio ter que parar esse momento lindo entre eu e Luke que estava brilhando em minha mente para ter que atender a droga do telefone. Odeio quando eu atendo e é a operadora de telemarketing do cartão de crédito dizendo que eu tenho mais um cartão disponível para mim. Como se eu quisesse outro! Mal consigo pagar a conta do que eu já tenho. Odeio tanto que me interrompam quando eu estou exercendo minha função de artista promissora, uma escritora nata compondo mais uma cena linda sobre o amor que Luke sente por mim. Na verdade não é bem por mim, é por minha personagem que poderia ser eu, já que ela tem todas as minhas qualidades e Luke, não é O Lucas Hamilton do Broken dreams de verdade, mas alguém que eu criei na minha cabeça que poderia ser ele, já que eu não o conheço pessoalmente. Mas o que importa mesmo é que eu ODEIO ser interrompida, e não que nenhuma dessas pessoas existe.

_ Alô.

Eu poderia ter sido sociável e ter fingido que levantar no meio do meu trabalho para atender o telefone não me incomodava, mas eu não sou assim.

_ Nora!

Era Valentina, eu tinha certeza que se não fosse o telemarketing do cartão de crédito seria ela. Quem mais poderia me atrapalhar em um momento único em que eu desfrutava da imagem de Luke Hamilton sem camisa do que a minha melhor amiga destrambelhada Valentina Martinelli. A pessoa com a qual eu convivo desde os meus dez anos. Não posso criticar tanto o jeito espalhafatoso da Vale, foi ela quem segurou as pontas quando eu perdi meus pais aos doze anos e mesmo depois que eu fui morar com a Vovó Lúcia pra bem longe da casa dela e fui transferida para outra escola, ela continuou sendo minha melhor amiga e dividindo comigo os melhores momentos da minha adolescência, talvez Vale tenha sido a minha única amiga de verdade, acho que dizer amiga de carne e osso seria mais apropriado para explicar o que eu quero dizer, fora Vale minhas amigas eram personagens das minhas histórias com minha banda preferida.

Dois anos atrás Valentina estava lá do meu lado de novo quando foi a vez de Vovó Lúcia me faltar. Ela era com certeza minha melhor amiga e eu a amava, no entanto isso não tirava o meu direito em ficar muito irritada com essa coisa dela me interromper nos meus melhores momentos (na minha cabeça) nos braços de Luke Hamilton.

Não mesmo!

_ Oi Valentina. - resmunguei no telefone.

_ Nossa Nora, isso é jeito de atender o telefone! - Ela dramaticamente se fazia de ofendida. - Você estava escrevendo de novo aquelas suas histórias do Broken dreams?

_ É o meu trabalho Vale! Nesse momento é o meu período de trabalho. - Eu queria muito voltar ao computador e continuar a descrição da minha cena enquanto ela ainda estava viva na minha cabeça.

_ Ainda bem que você recebe pra fazer isso né? Se a gente soubesse disso quando tinha quinze anos com certeza a nossa vida teria sido diferente. - Ela gargalhou no telefone enquanto eu batucava o pé impaciente na espera dela dizer logo o que queria e eu poder voltar pra praia deserta onde Luke me pediu em casamento. - Então, você parou de me colocar com aquele porto riquenho estranho? Eu odiava ele. - Ela gargalhou. - Fala sério, você só considerou na sua cabeça fazer uma personagem minha namorando com ele porque eu disse que achava o teu cara dos cachinhos bonito, não é?

_ Eu acho que você combina com o CJ. - Eu suspirei, ela combinava com ele, não?

_ Você me colocou com ele de novo, não é? - Ela ria no telefone- Ah Nora, me coloca com o bonitão que canta! Lembra que ele sorriu pra mim no show?

_ Valetina, ele não sorriu pra você. - Ele não tinha sorrido para ninguém, Liam Palmer não sorria nunca, ele era sério demais e não se jogava para as fãs, não que Valentina fosse uma fã. Ela era apenas a acompanhante e melhor amiga de uma fanática do Broken dreams, ou seja Eu. 

_ Que seja, você não vai mudar de ideia uma vez que na sua cabeça você me imagina com o porto riquenho, embora ele seja muito o meu tipo também. - Ela riu e então respirou fundo. - Nora, estou te ligando pra confirmar que você vai hoje a noite, né?

_ Hoje a noite no que? - Eu tinha que ir em algum lugar hoje? Eu simplesmente não me lembrava.

_ No aniversário do Rafa!- Acho que pelo tom exagerado Valentina estava brava.

Droga, o aniversário do Rafael, eu tinha simplesmente me esquecido desse pequeno detalhe chamado namorado da Valentina.

_ Ah, vou sim, claro que vou. - EU ia? Droga, agora eu teria que ir.

_ Não se esqueça de ir de vermelho.

_ Porque de vermelho?

_ É a festa do vermelho. Ano passado era do branco e preto e você foi de verde exército! Não vai dar a furada de novo.

_ Porque o Rafael tem dessas de fazer festas relacionadas a cores? Você tem um namorado muito esquisito.

_ E você é a pessoa mais normal do mundo para falar isso, não é?

Ok. Eu sou estranha, mas as pessoas poderiam não ficar jogando isso na minha cara diariamente, especialmente as melhores amigas, ou a única amiga que eu tinha.

Valentina respirou fundo e suspirou alto pelo telefone.

_ Me desculpe, OK. - Ela parecia chateada. - É que é difícil de lidar com você e com o Rafa juntos, estou me preparando psicologicamente para isso.

_ Tudo bem. - Eu dei de ombros, muito embora ela não pudesse ver o meu gesto.

_ Você estará lá certo?

_ Pode contar com isso.

_ Então nos vemos mais tarde!

 

Rafael não era a minha escolha para Valentina. Tudo bem, dizer que CJ, o baixista latino da Broken dreams, combinava mais com ela também não seria algo maduro a dizer, mas o Rafa era com certeza a última opção que eu apresentaria a minha amiga. Ele era chato demais, com manias estranhas e todo certinho. Rafael vivia implicando com o meu trabalho e dizia que já era hora de esquecer essa brincadeira de escrever histórinhas de amor sobre minha banda preferida e encarar o mundo real, porém, escrever era o meu mundo real.

Aos dezesseis anos eu conheci a Broken dreams, na época eles eram uma banda de moleques, começaram tocando na garagem da casa de Liam, o vocalista sisudo da minha idade. Os outros integrantes da banda tinham por volta de seus quinze anos e então o grande amor da minha vida, o guitarrista de cabelos cacheados e olhos verdes tinha apenas quatorze anos.

Ignorando qualquer rótulo, meu coração parecia querer saltar pela boca a cada vez que eu o via. Luke se tornou o personagem dos meus sonhos e de repente eu me via materializando cada uma dessas cenas com palavras.

Aos dezoito eu recebi uma proposta de publicação, uma revista online tinha interesse em meus devaneios literários e me ofereceu dinheiro para continuar escrevendo. Se eu não precisasse financeiramente deles eu teria feito um grande barraco para que não mudassem os nomes dos personagens antes de publicar, mas dinheiro não era algo que caia do céu na minha vida. E hoje aos vinte e cinco era essa a minha fonte de renda.

 Eu tive sorte de ter a pensão dos meus pais por um longo tempo e depois também a herança da vovó Lúcia, que não era muito, pelo menos eu tinha onde morar e consegui terminar a faculdade, e de quebra eu tinha um gato velho, o Sebastian. Vovó Lúcia amava esse bichano e eu mal sabia dizer quantos anos ele tinha agora. Era quase uma espécie mutante de felino que estava contrariando a lei biológica e se arrastando pelos anos.

Fechei o computador porque de repente toda a minha inspiração tinha ido embora. Eu estava bem brava com Valentina interrompendo o momento único entre eu e Luke, ops, digo Nora e Luke.

Resolvi procurar uma roupa vermelha então para a tal festa. Mesmo que eu não gostasse de Rafael, eu teria que ir pela minha amiga. Por uma razão totalmente abstrata, a minha presença era importante para Valentina.

O vestido era simples, mas era a única peça vermelha no meu guarda roupa. Luke gostava de azul, logo eu era uma menina de azul. Antes de sair de casa eu me lembrei de amolecer a ração de Sebastian, estava difícil para o gato se alimentar ostentando apenas uma presa!

Entrei no carro e estava saindo em ré da minha garagem quando o meu celular apitou me mostrando que eu tinha uma mensagem. Olhei rapidamente no visor ainda dirigindo quando vi o nome do grupo de fãs do broken dreams brilhando sobre a tela.

Ainda manobrando o carro com apenas uma mão eu peguei o celular rapidamente para ver do que se tratava a mensagem. Talvez fosse um novo album da banda, eles estavam meio estagnados e nada novo havia sido lançado nesse ano.

No entanto não era sobre um novo album, não era uma música nova, não era sequer sobre a turnê europeia que eles estavam tocando. Era algo que eu queria acreditar que era montagem. Uma foto de Luke beijando uma loira aguada! Luke nem sequer era um cara de loiras! Ele gostava de meninas bem clarinhas com cabelo preto, como os meus!

Não poderia ser verdade, não o meu Luke!

E então eu só me lembro do barulho.

Pois é acho que eu bati o carro.  E então tudo mudou.

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