Something Is Missing

Ninguém se da conta de que algo sumiu. Uma parte importante, que não pode ser substituída, essa parte se foi. Bem, talvez eles deem falta, mas são todos perfeitos, coisas como essas são guardadas e escondidas com sorrisos. A família daquela casa verde, no final da rua, eles sabem o que falta. Talvez por isso, eles prefiram ficar escondidos, não saem mais. Ninguém conversa sobre eles, também. Acham melhor não tocar no assunto, afinal de contas a mãe da família só faz chorar, e todos aqui deveriam sorrir. A outra garota, aquela da casa vizinha, ela também não sorri mais. Mas ela sai todos os dias na esperança de, por acaso, encontra-lo. Quem sabe, ela vire na esquina da rua e de cara com ele, com os fones de ouvidos, voltando pra casa.

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Nos sentamos na escada da varanda da casa, nós dois deixando a dor se mostrar. Caleb segurava minha mão, tentando me acalmar enquanto eu me perdia entre soluços.

– Tem mais uma coisa que eu preciso te contar.

Limpei as lagrimas do rosto, e o olhei.

– Ninguém me levou daqui. Eu fugi porque me sentia engaiolado. A família que eu amava se despedaçou e eles queriam me despedaçar também. Eu precisava ir embora ou nunca conseguiria ser livre, e não foi fácil. Entrei na primeira carona que me ofereceram, entrei em maus lençóis. Me envolvi com drogas, gente que matava e morria por um pouco de pó, eu virei um deles! Mais uma manha eu acordei e senti que você estava me chamando. Não que eu não tenha sentido saudades antes, mas parecia que dessa vez, dentre todas as outras em que pensei em você, eu morreria se não voltasse pra te ver. Mas quando eu voltei... Você parecia bem sem mim, eu não sabia em quem me apoia, as coisas foram se acumulando e eu me perdi. Fugi e acabei me destruindo de qualquer jeito, eu sei que te magoei e talvez eu não devesse ter voltado, eu queria encontrar uma parte de mim que faltava, e eu não sabia que essa parte era você.

Observei os olhos de Caleb, confusos e desamparados. Quis me arrepender de tudo que pensei sobre ele, mas também estava irritada demais como ele. Eu queria gritar com ele, como ele pode me abandonar assim? Mas não havia razoes para brigar. Mesmo arrependido, Caleb havia sim mudado, mas eu também. Se fosse em qualquer outra situação do passado, eu teria brigado com ele, gritado, até batido nele. Mas agora eu não sei por que, não conseguia guardar nenhum rancor. Eu conseguia entende-lo.

Eu sabia quanto nos completávamos, e ele precisava enxergar isso também. Foi errado ter partido por uma tolice dessas, mas quem iria impedi-lo? O pai ausente? A mãe depressiva? Ele voltou mais forte e humilde, e está tão assustado quanto eu. Não me culpo, mas sei que também fui cega. Eu deveria ter visto logo no primeiro dia que ele precisava de mim.

– O que você procura não está mais aqui. Eu não sou a mesma Amélia que você conheceu. Não há porque voltar. Não vou te obrigar a ficar aqui e sofrer...

–Está sim. Você continua a mesma, continua incrível como sempre foi, mas eu concordo. Não esse o meu lugar, nem o seu. Você nunca gostou daqui, sempre quis desbravar o mundo não foi? Eu sei que você não vai quere partir, e eu não posso te garantir um paraíso lá fora, mas eu ainda acho que vale a pena tentar. Essa é uma parte que eu sei que não mudou, nem em mim, nem em você. É essa vontade de querer ser livre.

Senti os soluços e as lagrimas voltarem. Não importava quem eu fosse ou quem Caleb se tornou, ainda nos conhecíamos. Arrisco dizer, ainda nos amávamos. Mas isso não iria acontecer agora. Precisávamos um do outro, mas ainda precisávamos nos encontrar. Ele já havia entendido isso, e me fez entender. Eu ainda tinha um mundo a desbravar antes de parar. Meu lugar não era presa atrás de um portão, de mãos dadas com alguém. Caleb soube quando eu tomei essa decisão, pôs seu braço ao meu redor, e eu sabia que estávamos nos despedindo. Chorei em seus braços ate adormecer.

Quando acordei, estava deitada num sofá. Já havia anoitecido, estava chovendo lá fora, mas fazia calor. Era uma cena comum, como se eu houvesse voltado no tempo. A mãe de Caleb soluçando, os policiais na sala, amigos e parentes fazendo ligações e aquela sensação de que algo estava faltando. Ele estava faltando. Naquele dia eu me senti desnorteada, mas agora eu sabia o que fazer, sabia onde ele estava. Corri debaixo da chuva, ignorando meus escorregões e tropeços, as pessoas gritando atrás de mim. Passei pelo lago, pela estrada, entrei na rodovia e ele estava lá, do outro lado da ponte, caminhando como se nada o preocupasse. Observei ele virar de costas e sorrir para mim.

Finalmente eu tive a chance de me despedir, de dar aquele ultimo adeus. Mas eu sabia que aquele não era o fim. Caleb não iria voltar pra me buscar, mas nós iríamos nos encontrar. Nós sabíamos disso. Quando encontrarmos o que falta, vamos saber a hora de nos encontrar. Ainda não acabou. Aquele era apenas o começo. Ele continuou andando, sumindo na nevoa provocada pela chuva. Eu não iria segui-lo, eu também acharia meu caminho.

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