Wings

Tano é um cidadão típico de Ecram, uma cidade extremamente religiosa e conservadora, conhecido como um jovem exemplar que entende a grande responsabilidade de ser filho de Maã, supremo sacerdote da cidade e herdeiro da linhagem da família. Porem, entre quatro paredes, Tano se mostra um filho rebelde e ateu as crenças milenares de Ecram. Traumatizado pelas surras que levava de seu pai extremamente severo, o rapaz tem um comportamento lacônico, fazendo dele uma pessoa extremamente fechada e fria.
Manter a mascara de cidadão exemplar torna-se um desafio cada vez mais difícil para Tanos, que diferentemente de todos na cidade, não consegue conviver com sua manifestação espiritual, Temes, que por ser um fragmento de sua alma, também tem um temperamento difícil e rebelde.
Mas agora que Tano já tem idade para fazer suas próprias regras, decide deixar Ecram e viver uma vida longe das crenças, porem seu comportamento irrita autoridades e agora Tano precisa decidir se vai mudar ou lutar.

0Likes
0Comentários
227Views

1. Capitulo 1

Desde os primórdios, dividimos nossa existência com supostas formas de luz avançadas e poderosas. Sempre existiu uma busca por essas criaturas, e levados pela sede de poder, viemos tentado alcançar o mundo onde vivem.

Houve uma época em que essa busca abalou o mundo. Ciência e Religião finalmente se uniram e trouxeram ao mundo essas criaturas de luz. Mas a decepção de ambos os lados foram enormes. Não havia pureza nem magia na descoberta. Vazia, sem ideologia ou sequer inteligência a forma de luz foi tratada como animal e domesticada.

Agora adaptadas ao nosso mundo, as criaturas foram absorvendo cada vez mais o nosso modo de viver, e acabaram assumindo as formas de animais do nosso convívio, como uma maneira de se encaixar as nossa vidas.

Místicas ou não, ainda eram parte de nossa existência, reflexos de nossos atos e personalidades. E egoísta como o ser humano é, chegamos a logica de que se eram partes de nós deveriam ser cegamente adoradas como criaturas incrivelmente superiores. Foram criados rituais, seitas, religiões, conselhos, cargos, estudos. Tudo que pudesse ser explorado.

Cidades inteiras que seguiam a mesma religião adoravam a mesma figura, e consequentemente, adotavam criaturas com a mesma aparência, assim como cidades militares preferiam criaturas fortes.

Ecram, a cidade onde nasci e cresci, escolheu acreditar no poder religioso e místico das criaturas. Incrivelmente conservadora e fechada, a cidades passa a imagem de que somos os possuidores de extrema sabedoria, e por isso adotaram o pássaro como aparência das nossas criaturas, para demonstrar o quão alto vai a nossas mentes, embora na prática o pensamento não tenha tanta liberdade quanto um pássaro teoria.

Minhas criticas ao modo de pensar da população irritam Mãa, que além de ser alto sacerdote da cidade, é meu pai. Era de se esperar, como um clichê, que o filho do sacerdote fosse ateu. Não consigo aceitar que algo claramente explicado pela ciência ainda ilude alguns. Tal comportamento, essa minha procura por respostas que nem Mãa consegue responder, renderam a mim surras na cabeça, tanto que meus sentidos foram severamente prejudicados. Não sou surdo, mudo ou cego, ao menos não completamente, mas os castigos de meu pai me ensinaram a agir como se eu fosse, e acabei adotando um tipo de laconismo como modo de vida, o que agrada Mãa.

Como um reflexo da minha atitude, Temes, a minha criatura, também nunca pia, nem sequer canta e não me obedece. Mas sabe temer a autoridade Mãa tanto quanto eu sei. Por ser uma criatura alada, Temes voa e foge de casa com a frequência que eu gostaria de ter, e só volta quando Dara, a criatura de meu pai, a caça. Não é como se eu não pudesse deixar a cidade. Estou em condições legais e mentais de partir a hora que eu quiser, mas é bem provável que Mãa mande me matar antes que eu alcance a saída da cidade.

Se não fossem por esses fatores, já teria partido em buscas de respostas que Mãa não soube me dar. Ouvi dizer que além dos portões da cidade, em Yvon, existe uma universidade que aceita alunos que querem estudar o lado cientifico das criaturas, assim como eu. Mas antes de pensar na faculdade, eu deveria pensar em como fugir do meu quarto, trancado pelo lado de fora.

Mãa esta em uma reunião com o conselho, e me trancou no quarto para evitar que eu causasse algum problema. Temes fugiu de novo, e já faz três dias que não a vejo. Pela brecha da porta, consigo ouvir Mãa e seus funcionários discutindo na biblioteca, talvez uma leve embriaguez. Dara esta pousada no corrimão da escada, com a chave do quarto amarrada em suas garras. Faço um determinado esforço, procurando um modo de chama-la, mas depois de vários engasgos tudo o que consigo dizer é:

– Dara.

Minha voz sai distorcida e baixa, já devem ter feito duas semanas desde que falei alguma palavra. Tento novamente, mas parece que minha garganta já cooperou o bastante. A ponto de desistir, vejo Temes na janela do corredor, tentando abrir a tranca. Depois de uns momentos bicando, Temes me olha por alguns segundos antes de entender a situação. Ela não precisa dar um pio para que eu entenda que acha divertido o fato de eu estar preso, mas logo consegue abrir a janela e entra no corredor, procurando as chaves.

Ao avistar Dara, Temes parece mudar de ideia levemente, considerando o tamanho da ave ao dela. Desisto da minha liberdade, mas no momento em que me desencosto da porta, ouço o barulho de aves brigando no corredor. Logo depois a porta se abre. Vejo Temes com as penas todas bagunçadas pousada no parapeito da janela, e Dara com uma asa ferida, tentando se levantar. Afago a cabeça de Temes e ela arranca um pequeno pedaço de carne do meu dedo, para deixar claro que ela continua não gostando de mim.

Dou de ombros e desço as escadas, onde os funcionários de meu pai estão me encarando assustados.

– Tano o que diabos se passa por aqui? – Mãa surge da porta da biblioteca, tentando controlar a raiva. Mantenho o meu silencio, só a minha presença já mostrava o que tinha acontecido. Mãa respira fundo e da um sorriso falso.

– Filho meu, finalmente acordaste! Oque houve com Temes?

Silencio

– Talvez tenha ficado trancada do lado de fora do teu quarto novamente não?

Atravesso o corredor e passo pelos membros do conselho confusos, Mãa se põe entre eu e a porta da frente.

– Aonde vais?

– Embora.

Atrás de mim ouço os membros do conselho cochicharem nervosos. Imagino que saibam o quão raro é quando falo.

– E partes pra onde filho meu?

Silencio.

Passo por Mãa e abro a porta. Algumas pessoas me olham, comentam entre si, mas eu não ligo. Temes pousa no meu ombro e sumimos cidades adentro.

Join MovellasFind out what all the buzz is about. Join now to start sharing your creativity and passion
Loading ...