Lovin' Dead

Um passado. Um acidente. Uma garota, uma sobrevivente. Um presente inacreditável. Um garoto. Várias lembranças e apenas... Um futuro.

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2. Um

- Bom dia, Jane. Sente-se. 

A porta se fecha atrás de mim dando início a mais uma sessão desnecessária com a minha psicóloga, a doutora Rowena Hamsley. Fazem exatamente seis meses que estou tendo sessões com ela. Exatamente seis meses desde que comecei a enlouquecer. 

Pelo menos é isso o que Bethany pensa. A conheci dois anos atrás. Quando o desastre aconteceu. Digo, eu nunca a havia notado. Foi quando eu voltei a frequentar o ensino médio e todos aqueles que eu pensava serem pelo menos colegas deram as costas para mim. Eu nunca soube ao certo o porquê. Talvez eles não queriam ser lembrados como "amigo da garota morta-viva". Na época, eu não comia direito, não dormia, praticamente não fazia nada direito; só agia como uma humana que estava viva, mas ao mesmo tempo morta. Fico tão grata por essa época ter passado.

Durante o último ano do ensino médio, Bethany começou a se sentar na mesma mesa isolada em que eu me sentava. Nossa amizade foi algo gradativo. O primeiro dia não foi nada demais. Ela apenas se sentou e comeu seu almoço. Só. Nenhuma palavra. Totalmente diferente do que estávamos fazendo seis dias depois. Ríamos e conversávamos sobre tudo. Quase tudo. Ela sabia que eu não era daquelas que cutucava feridas antigas. Nunca falamos sobre o desastre. Não até seis meses atrás. 

Essa história toda de eu estar enlouquecendo começou na virada do ano. Faziam alguns dias que eu vinha comentando com Beth sobre uns sonhos estranhos que começara a ter. O mesmo sonho estranho. Toda noite. Então quando ela veio até meu apartamento para passarmos a virada do ano juntas, conversamos sobre esse sonho. Sobre o homem das sombras que sempre me salvava de me afogar, exatamente como no desastre. Sem querer, deixei escapar que eu estava começando a ver esse homem. A sombra desse homem. No começo era algo rápido. Era só eu vê-lo e ele desaparecia, como mágica. Com o tempo, não só a frequência que eu o via aumentou. Mas os lugares em que eu o via também. 

Bethany ficou ainda mais preocupada, é claro. Sua amiga estava enlouquecendo de vez. Ela me obrigou a marcar sessões com a Dra. Hamsley no mínimo duas vezes por semana. Devo confessar que os sonhos e as visões da sombra diminuíram. Mas às vezes, raras vezes, elas ainda acontecem. Beth não entende como eu consigo continuar vivendo normalmente tendo esses sonhos, vendo sombras que talvez nem existam. Eu sempre dou de ombros. O fato é que desde que perdi minha família, desde o desastre, eu não tenho medo de quase nada. Acho que eu meio que continuo vivendo como uma morta-viva, mesmo que não na mesma intensidade de antes. Acabei me habituando aos sonhos e às visões. Mas é claro, Bethany não.

- Então, como andam os sonhos?

A psicóloga nem levanta os olhos dos papéis. Acho que ela também tem se habituado às mesmas perguntadas feitas a mim.

- Na mesma intensidade da sessão passada... Um a cada sete dias. 

- Certo.... - ela faz marquinhas de caneta vermelha nos papéis. - E quanto às visões? 

- Não sei dizer. Faz um bom tempo que eu não as tenho.

Ela assente com um leve balançar de cabeça. O tempo que as sessões levavam geralmente me davam uma oportunidade de pensar no próximo passo. No que faria depois que me levantasse e saísse dali. 

À vezes eu me pegava desejando ser como Bethany. A família dela havia se mudado para a cidade vizinha e ela ficara ali para continuar a faculdade. Beth era uma garota bonita. Cabelos loiros perfeitamente lisos, olhos claros, peso certo. Ela podia ter todos os amigos do mundo, era divertida, fiel, amigável, mas preferia sempre estar comigo. O namorado, Will St. James, era um garoto adorável. O tipo que nunca trai as pessoas que ama, que sempre dá suporte quando necessário. 

Depois de alguns minutos de sessão, a Dra. Hamsley finalmente me libera. Ela disse que se eu quiser, podemos reduzir a quantidade de sessões semanais a apenas um. Motivo? Eu estou melhorando. Finalmente estou me livrando dessa maldição. Imaginar uma vida sem traumas, sem sonhos, sem visões, sem sensações de estar sendo perseguida... Imaginar uma vida sem medo faz meu estômago embrulhar. Fico arrepiada só de pensar em viver como uma pessoa normal. Fazem só dois anos que vivo atormentada, mas parece que vivo assim desde que me dou por gente. Talvez no fundo, bem no fundo eu não seja normal. 

 

*****

O píer estava deserto. Não era novidade já que ele quase sempre estava vazio. Os dias nublados e sombrios não fazem as pessoas saírem de suas casas e se dirigirem ao píer para ter um dia alegre. Elevo os olhos para o céu analisando o clima. Não vai demorar muito para começar a chover. 

Caminho até o píer e encaro o longo caminho de madeira à frente. Só há um garoto, da minha idade eu diria, sentado na beirada do píer. Nenhum sinal de Bethany. Ela estava atrasada como sempre. Havíamos marcado de nos encontrar ali depois da minha sessão, como sempre fazíamos. Caminho pelo píer e sento a uns dois metros de distância do garoto, praticamente na ponta do píer. Puxo as calças jeans o máximo que consigo e então mergulho os pés na água. 

Era assim que eu vinha vencendo um dos meus traumas. Aos poucos. Não nadava desde o desastre. Passei a meio que ter medo de água. É como se a água fosse tomar conta e me prender se a maior parte do meu corpo estiver em contato com ela. Quando sinto minha respiração se acelerando, fecho os olhos e inspiro fundo. Seguro por uns cinco segundo e finalmente expiro.

Olho ao redor novamente. O garoto continua ali. Com exceção de nós dois, só há uma mulher andando com a filha e um casal de namorados em frente ao bistrô. Nenhum sinal de Bethany. Começo a pensar nas mil coisas que podem ter acontecido. Sabia que Beth era ocupada, mas ela nunca se atrasara assim antes. Relaxo os ombros. Ela vai chegar. Eu só tenho que ter paciência. Fecho os olhos.

Foi então que ouvi uns cochichos. Passos. Cada vez mais altos. Chutaria umas três pessoas andando. Talvez homens. Se fossem mulheres o passo seria menos barulhentos... A não ser que estivessem andando assim de propósito. Arrependo-me de não ter aberto os olhos. Porque se tivesse aberto, eu teria visto quem havia me empurrado.

A água, fria como gelo, toma conta de meu corpo. Eu estava submersa. Primeiro, o susto. Segundo, o pânico. Começou nos meus pés que logo estavam se agitando. E então foi subindo, até que meu corpo todo estava agitado. Eu tentava prender a respiração o máximo que conseguia. Meus pulmões ardiam pedindo por ar. Eu queria gritar, mas não podia. Se eu gritasse, além de ninguém me ouvir, acabaria ainda mais rápido com o pouco ar que me restava. Paro de me debater por um segundo e olho ao redor, desesperada. Um vez, ouvi dizer que quando o medo toma controle de você, seu cérebro começa a criar ilusões. Elas podem ser sons estranhos, cheiros desconhecidos, visões de coisas não reais. Acho que foi isso que me fez ver. O homem. Aquele de dois anos atrás. Aquele de quem eu sinto raiva e, ao mesmo tempo, gratidão. Fecho os olhos com força e os abro novamente. Nada. Ele sumiu. Talvez meu cérebro medroso estivesse apenas criando uma imagem que desse esperança de ser salva. Será que nem prestes a morrer eu estava livre da minha loucura?

Foi quando deixei a primeira leva de água invadir meus pulmões que senti um braço enlaçando meu pescoço por trás. Alguém estava me salvando. Aos poucos, eu e meu salvador - aquele braço forte só poderia ser de um homem - alcançávamos a superfície. 

A primeira respirada não foi suficiente. Respirei tantas vezes que pensei nunca ter ficado tão feliz em respirar ar e não água. Ainda assim, tive de tossir algumas vezes para expulsar a água que havia entrado. Tentei olhar para o homem, mas ele foi mais rápido. Puxou meu braço e foi na frente para que eu não visse seu rosto. A minha visão à frente era apenas a de um homem com capuz preto encharcado. Eu poderia ter puxado o capuz. Mas não puxei. Respeitei sua decisão de anonimidade. Além do mais, eu estava cansada demais, então deixei que ele me guiasse. Obriguei meu corpo a subir no píer. Nenhum palavra ainda. Assim que consegui subir, joguei meu corpo para frente e caí de barriga para baixo. Enquanto terminava de tossir e respirar o máximo que conseguia, esperei que ele subisse. 

Deitei de barriga para cima e senti meus músculos se relaxando. Tudo doía. A adrenalina jorrava pela minha corrente sanguínea. Quando consegui juntar um pouco de ar suficiente para falar, disse como num sussurro:

- Obrigada.

Mas quando abri os olhos, depois do silêncio, ele não estava mais lá.

 

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