Lovin' Dead

Um passado. Um acidente. Uma garota, uma sobrevivente. Um presente inacreditável. Um garoto. Várias lembranças e apenas... Um futuro.

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1. Prólogo

Eram exatamente nove horas da noite. O silêncio me transmitia a sensação de paz que eu tão aguardava durante o dia. Tudo o que eu queria era fechar os olhos depois de um dia cheio e descansar, no entanto por mais paz que eu sentisse, ela nunca era completa. Talvez nunca mais seria. Isso é bem difícil de se conseguir depois de ter as pessoas que você mais amava tomadas a força.

Por dois anos, toda noite eu chorava ao colocar a cabeça no travesseiro. Minha mente era tomada por lembranças. Desde as mais antigas até as últimas que consigo me lembrar. É como ver um filme resumindo sua vida, exibindo pessoas que se foram. 

As lembranças mais desgastadas são aquelas de quando eu era bem criança. São desde aqueles momentos de risadas em casa até passeios fora da cidade. Então eu fui crescendo. Algumas brigas feias que, eu tenho que admitir, fizeram com que nossos laços se tornassem ainda mais fortes, exatamente como deve ser. Elas basicamente se resumem a um único sentimento. Felicidade. Um sentimento que parece ser tão simples quando se tem de sobra, mas que parece ser algo impossível de se encontrar quando a solidão e os momentos obscuros nos assombram. E então, as lembranças mais recentes são de momentos comuns, iguais aos de qualquer família verdadeira. Só há uma delas que ainda me assombra. A última.

Aqui caímos numa típica história em que a família - pai, mãe, filha e irmão mais novo - estão todos num carro cheio de malas, viajando numa estrada molhada pela tempestade que cai. Pela janela, uma grande extensão de água era visível. Então tudo acontece rápido demais, exatamente como nos filmes. Só que aquilo não era um filme, era real. Os corações se aceleraram ao momento em que a buzina estrondosa de um caminhão irrompeu. O cantar dos pneus do pequeno carro causou pânico. E foi aí que tudo aconteceu. O carro não bateu no caminhão cujo motorista estava alcoolizado. O carro desviou e mergulhou no barranca, caindo em direção às infinitas águas salgadas. Ninguém conseguiu pensar rápido o suficiente para destravar o cinto de segurança e abrir a porta e quando se deram conta, eles afundavam. 

Eis mais uma das coisas que me assombram até hoje. A sensação de que toda a segurança do mundo me manteria a salvo nunca predominava meu corpo. Tudo por causa do que eu vi. Bem ali, prendendo a respiração e já acreditando que morreria afogada, eu vi um homem. Talvez um rapaz ou poderia ter sido até um homem bem velho. Eu não saberia dizer. Minha visão estava turva. Não conseguiria prender a respiração por muito tempo e o desespero fazia com que eu apenas me debatesse, gastando ainda mais a pouca energia que me restava. 

O homem se aproximava, mas quando ele estava quase perto o suficiente para que eu ao menos identificasse seu rosto, não consegui mais prender a respiração e cedi. Logo depois, acordei numa maca, internada num hospital. Sozinha. O ponto branco da história me deixa inconformada. Não saber o que aconteceu quando o homem se aproximou de mim na água me causa arrepios. O pior de tudo é saber que ele sequer tentou salvar minha família. 

Desde que isso aconteceu, desde que passei a me virar sozinha, todo dia 7 de Julho faço a mesma rotina. Acordo mais cedo do que o habitual, compro três buquês de flores e sigo para o cemitério. Procuro dentre as lápides, as três que para mim se tornaram familiares. Ajoelho-me sobre a grama, repouso cada buquê no seu devido lugar e solto um suspiro trêmulo que dá início a um choro fraco. E ali, em frente aos simples blocos de concreto onde minha família fora enterrada, encaro as letras fúnebres que exibem David Carl Dawnson, Catherine Margaret Dawnson e Jeremy Dawnson. Enquanto as lágrimas escorrem pelo meu rosto, todo ano, a raiva e o remorso, a inocência e a culpa percorrem meu corpo. Porque irei carregar o fato de que aquele homem se recusou a salvar minha família, deixando-a lá para morrer, para sempre. E, senão o mais doloroso, o fato de que eu fui salva.

 

    

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