Eu amei uma borderline

A mesma velha história de amor, num certo interior, de um certo Rio Grande do Sul, da vida...

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1. Eu amei uma borderline

Cap I

           

                Foto: Agencia Centrasul, boate do Dce, ano 2011...

 

 

Tudo começo, quer dizer, oficialmente, em uma sexta-feira. Nem poderia ter sido diferente. 

      Estávamos todos lá, bêbados e felizes. Bom, alguns dos presentes haviam passado dos estágios de felicidade alcoólica para o porre simples hora, ou menos, antes. Mas nós, que interessamos à narrativa, eu e meus dignos amigos, quedávamos mal dopados ainda pelo etílico. E felizes.   Ela havia se agarrado aos beijos com outro sujeito de longas melenas fazia alguns minutos apenas. Tudo bem, tudo natural. Beijou o cabeludo, agressiva, como se fossem casados há uma década. Tudo bem, sinal do tempo: todo mundo beija todo mundo. Ali em pé, entretanto, com cerveja na mão, a boate entupida, eu tive a primeira sensação de que algo não era normal.

Estava, digo, estávamos bem. Éramos jovens, e, propriamente,  pensava em beijar alguém também dali a alguns minutos, e mais outros tantos goles de cerveja. Muito embora quisesse bater no cabeludo. Muito embora quisesse um beijo especial. Muito embora o sapato novo começasse a apertar, sem nenhum drama de consciência, os nervos da minha coluna. Tudo bem: éramos jovens. Tudo bem.

Então, do nada, ela empurra o cabeludo, como se tivesse sido ofendida. Se bem recordo, por uns dez minutos tentou extrair o apêndice do rapaz com a língua, e agora, estava ofendida .E isso não foi uma metáfora. Coisa que ela sempre fora especialista: enfiar a língua no aparelho digestivo dos outros. Com exagero e tudo.

E voltou onde estavam as amigas dela, nossas amigas em comum. Voltou e pulava, tal uma macaca bêbada . Melhor dizendo, dançava na forma correta a batida violenta dessas bandas iniciantes. Dessas que lançam uma música apenas no mercado, e nunca mais. E dançava, e balançava os seus encantos. A deusa má por quem caí de quatro.

            Meti o copo de plástico na boca. Restou-me admirá-la. Restou-me balançar os neurônios embriagados, acompanhando aquela cintura perversa e lasciva, toda vestida em preto. Os longos cabelos escuros como as asas do morcego vegetariano. O pé, pesado e vestido, num salto meio bota, meio sapato, ideal, e na moda. A pele alva, como os copos em que bebíamos, e a as luzes piscantes e multicores a refletirem no borrado batom vermelho. Perversa, a única donzela a prender-me tal o favo do drops com vodca e bala de iogurte .

Até cutucarem-me:

- Tchê, chega nela!

- Não. Digamos que não esteja de bom humor comigo.- Respondi.

- Bichinha... Putinho... Tu vai fazer ela emagrecer uns dois quilos secando ela desse jeito. Viadinho...

Todavia, dava razões aquele desaforo gratuito. Queria mesmo admirá-la, louvá-la, até ficar tão alcoolizado que mal conseguisse lembrar seu nome.

Falando em nomes, disse o nome da minha pequena deusa? Não. E interessa nome meu ou dela?  “O que há em nome?” Disse Shakespeare, de certo, legislando em causa própria. Brincadeiras, precisamos de um nome. Que tal Heina? Não, à escrita certa na língua portuguesa: Ráina. Que seja Ráina. Dado o desafio por meu amigo não importante, resolvi aproximar-me de Ráina. Cheguei a uma amiga comum, Patrícia, dei-lhe gole da minha cerveja. Ela agradeceu, delicada:

- Isso tá uma sopa! Que tu tem contra cerveja gelada?

- Nada. Mas a temperatura está alta aqui dentro. Tudo bom?

- Isso aqui tá uma bosta. Não tem lugar nem para respirar. Tem chiclete?

Eu olhava minha deusa. Nem me importava muito com a desdelicadeza de minha amiga: mulheres modernas vão à luta. Tirei uma goma do bolso, ofereci. Ráina tinha notado minha presença, ou a presença do copo, em minha mão.

A batida queimava os tímpanos, as guitarras, o cerebelo. Somente em estado alterado para suportar aquela zoeira, as luzes descendo sobre a cabeça,  roupas, onde mais pudesse. Aproximou-se de mim, Ráina, no empurra que o lugar permitia:

- Essa cerveja tá muito quente?- Falou ao meu ouvido, lábios quase tocando minha alma, seu  cheiro de perfume com suor efeito melhor que a cerveja. Pensei em agarrá-la, não deixar que saísse:

- Está uma sopa, segundo a Pati.- Respondi-lhe. Ela agarrou o copo da minha mão, como se nós fôssemos casados.

- Capaz! Tá tri boa – Disse, bebendo em um gole. Chamei meus outros amigos, os quais não descreveremos, nem nomearemos, que não são importantes. Apenas Sancho, um fiel escudeiro de demasiadas lutas contra moinhos:

- Sancho, tem cerveja aí ainda?- Gritei ao nobre, vendo garrafa cheia em sua mão. Sancho esticou-me o braço, serviu. Patrícia, que saíra sem avisar, voltava com mais cerveja. Ráina furtou garrafa da mão de outra, e empinou.

Eu tive a sensação novamente. Éramos jovens, a música, agressiva,um momento de fúria adolescente. Aquela jovem bebeu no bico, como uma “rockstar”, coisa parecida. Patrícia recuperou a cerveja, de pronto recriminou-a:

- Agora nós vamos beber tua baba, sua puta!

- Ah, tudo é festa! - E seguiu dançando, seguiu bebendo.

Àquelas horas, ela batia seu cabelo no meu rosto. Podia crer, somente, tentava provocar uma reação nesse narrador de alguma maneira. Ela, porém, tinha se atracado na língua com o cabeludo.Quanto a mim, não iria beijá-lo de tabela, como se diz. Fiquei estático, sentindo perfume que dominava cada vez que ela batia com o salto, voleava o corpo de lado para outro num tesão frenético.

Eu bebia.

E bêbado, a sensação estranha aumentou. Como quem olha a carta que precisa num jogo de canastra, vendo o lado virado, tem certeza absoluta do que é. Como absoluta, se nada consegue ver além de um lado cego? Bêbado.

Resolvi aproximar me de vez, pôr fim naquela situação:

- Ráina, quero falar contigo.

Ela parou de se mexer, virou para mim num sorriso devastador:

- Fala.

- Sabe aquela noite... – Perguntei.

- Que tem aquela noite?

- Não, é que a gente...

- Que a gente? Não tem a gente! Eu fiquei contigo. Tu ficou comigo. Acabou ali. Eu não vou casar contigo por causa de uma ficada...- Responde, feroz, meu amor.Engoli em seco. Esperava certa ferocidade da mulher moderna, mas não um rosnado da pré-história.

-... E que mais tu tinha pra me dizer?- Complementou.

Dada tal delicadeza, nada mais havia de ser dito.

- Não... É que eu...

- Olha, guri, tá cheio de gatinhas aqui. Dá uma volta. Aproveita a noite!

- Não. Eu só...

- Vai, vai... Aproveita a noite. Não fica perdendo teu tempo comigo. Vai, vai...- E fez  tradicional gesto balançando a mão, dizendo para que tomasse o rumo.

Sancho esgoelou-se rindo. Disse que meus amigos não valiam a descrição. Esse narrador, expressão de atropelado, servindo de alegria do circo.     

Restou deixá-la e aproveitar a noite.

A sensação estranha, de que ela não seria normal, substituída por outra mais esquisita:  impossibilidade de tê-la. Ora, meu desejo a meio palmo. Não podia tocá-la. Um vazio de meio metro, mais uma vida inteira.

Parei de olhá-la. Fui para à copa da boate, ou não sei, fazer desenho no balcão com o dedo, da água caída das garrafas geladas no ar quente. Até baterem no meu ombro, dizendo que todos estavam indo embora.

Ráina não mais vi. Nem a porta de casa.

            Quando acordei, deitado na cama.

 

 

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