Eu amei uma borderline

A mesma velha história de amor, num certo interior, de um certo Rio Grande do Sul, da vida...

1Likes
0Comentários
236Views
AA

6. Capitulos 8,9 10

VIII

            Então, deve ser essa vida moderna, civilizada, politicamente correta até a última remela do olho. A menina ali, beijando meu melhor amigo. Eu por lá, aparvalhado, mas com a dignidade, virtude secular que nos apresentam como a nobre saída dos derrotados. Deve ser isso o ser moderno, o galho de roseira trancado no esôfago, mas as rosas ali, belas e recatas como uma flor!

          Por que então queria explodir, descer o braço, puxar a espada e sair pondo para assar todo mundo? Não. O estado proibiu-nos de resolver os nossos problemas pela força. Só a ele é dado o uso da espada.  E chegaria para o delegado e mandaria pegar Ráina de volta? Não. Se não é possível solução jurídica, então problema inexiste, ou não é válido o suficiente Assim somos nós acostumados desde que nascemos: tu não podes fazer por que o estado não quer. Asneira. Minha dor de corno bem real, quem, diabos, exigiria uma indenização por isso! Processaria aquela estudante por danos morais, que a natureza especial dela botava em desequilíbrio minha ecologia emocional. Exigiria retratação em dinheiro. Como se dinheiro pudesse resolver o que não consegui cativar daquela mulher... De certo, com prata, ouro e apartamentos de três quartos, iria fazer minhas outras mulheres, mas não aquela!  Ela como condenada a indenizar, odiar-me-ia. Não ódio dos amantes magoados, mas furor seco de quem toma prejuízo.

           A questão para descarregar o peso era bater, agredir. Como beijos e socos são parecidos! Ou bater ou beijar. Nada mais, nem menos, tal fez aquele passarinho debochado no campus para ter aquela pardocazinha gentil, no fio de telefone. Bateu para consegui-la, beijou para não perdê-la. Mas por que tanta masturbação mental com o jurídico? Sou estudante de Medicina, não Direito. Culpa do Tispa. Morar com advogados é sempre um problema.

         De qualquer maneira, meu cotovelo lenhado não atendia a nenhuma previsão legal. Masturbação mental, sim, quando alguém cultiva tanto a si, com pensamento e divagações sobre sua imensa dor, ausência de prazer, de maneira a tirar prazer disso, não é filosofia, é masturbar-se neurologicamente.

  

IX

             Meia hora depois dos beijos daqueles dois, Déborazinha mandou que todos pegassem seus pratos. Àquelas horas outros convidados haviam chegado. Uns amigos a mais, colegas formandas da formanda, e alguns conhecidos. Sentei-me no sofá, perto de Cris. Não por querer ombro amigo, por que ocuparam todos os lugares na mesa.

- E aí, como está o arroz?- Perguntou-me Cristiane.

- Igual a da minha avó.

- Não fala isso pra Débora que ela te toca a panela.- Cris referiu-se a ter chamado a mana de senhora de idade.

          O povo comia, ria, bebia cerveja, falava besteira com a boca cheia. Janta típica, e de uma certa forma, todos faziam parte da mesma família.

          Ráina e Sancho sentaram-se um no ladinho do outro, à mesa.

         Dito que o apartamento mantinha retrógrada decoração hippie. Saudosista, para alguns. Pra mim, lixo cultural ultrapassado. Não sei se falei do contrastante na sala a mesa, vinda de uma das estâncias da família das irmãs. Uma mesa de campanha, imensa, bem típica para o estancieiro, capataz, e toda a peonada. Ia de uma ponta a outra da sala, e disse Débora, não saiu dali por que ninguém teve coragem de retirá-la.

         Romeu e Julieta, Sancho e Ráina, sentados se roçando, enchendo a pança de arroz com carne seca.

 - Esse vai sofrer – Disse Cris, apontando ao Sancho com o garfo. Falou quase no meu ouvido, como uma confissão.

        Não entendi. Mastiguei um pouco, bebi outro tanto da loira fria. Resolvi indagar:

- Por que, Cristiane?

        Cris esticou o garfo outra vez na direção do casal. Com a boca cheia, sem mínimo interesse de esconder isso, meio engasgada, proferiu:

- Essa outra não é boa da cabeça.

 

         Iluminação.   

 

        Se uma pessoa diz que outra não é boa da cabeça, tudo bem. Encerra-se o assunto aí. Minha amiga, uma psicóloga, guardava técnica suficiente para saber do que se tratava. Insisti:

- Como assim Cris?

        Ela virou-se para mim, ainda mastigando. Engoliu, sorriu com certa piedade:

- Quer saber mesmo?

- Quero. – Qualquer consolo, bem sabe o descornado, basta. Depois, mesmo sem conhecer muito bem Freud andava duvidando, há tempos, da sanidade emocional do meu amor.

- Ela é borderline – Abaixou a voz, encostou o queixo no meu ombro para que nenhum nos ouvisse.

- Borderline? Como aquela música da Madona? – E do que recordei: uma canção do tempo que  a artista era pobre. Nem ela mais devia lembrar-se da gravação.

- Não. É um transtorno de personalidade. Sabe o que é um transtorno, não sabe?- Como estudante das artes de Hipócrates, quase me ofendo com a pergunta:

- Sei, claro.

- Pois então. Um dos aspectos classificados é a promiscuidade.

 

             Iluminação e glória.

            Tive que segurar o garfo e prato na mão. Fazia lógica minhas desconfianças de leigo no assunto.

- Quer dizer que a putaria dela é patológica?- Quase gritei. Cris embuchou-se com um naco de carreteiro. E explicou:

- Mais ou menos. Isso varia...- Achei melhor deixá-la engolir, antes de prosseguir o interrogatório.  Na mesa, reparei, minha amada parecia distante aos carinhos de Sancho. Não sei se minhas conclusões deveras fiéis aos fatos. Como uma criança pequena, querendo brincar de imediato com  novo brinquedo, fiquei ao ouvir aquilo. Louco para perceber detalhes do tal transtorno com nome de música.

- Como disse, varia de paciente, como tudo nos seres humanos. Uma das características dos afetados por esse transtorno serem bastante instáveis nos relacionamentos, à crises violentas de depressão e identidade.

            Ouvia atentamente o relatório clínico.

- E como é que tu identificaste o problema?

- Calma, doutorzinho! Isso não é como uma alergia, visível na pele. Bueno, sou profissional, temos a nossa tecnologia- E finalizou com uma garfada generosa boca à dentro.

 

X

   Putaria patológica.

       Perdoem os mestrados, mas essas duas palavras expressam sem nenhum entretanto minha indignação e encantamento com aquela mulher. Ela era puta por que era doente, e doente de tão puta! Um nome completava o outro em mesmíssima eficiência. E traduziam com perfeição o fenômeno: tão puta que chegava a ser doente, e tão doente que chegava a ser puta. O acadêmico e o popular na mesma guria.

      Encantador. Profundamente encantador. Ora, tudo possuía uma cruel explicação cientifica. A mulher era dezoito, na gíria antiga. Insana.

      Deveria ficar triste, pois sim.

      Não fiquei. Melhor louca do que sã, abrindo na minha cara que não me quis por que seria feio, chato, preto, ou pobre, ou albino, estrábico, alto de menos, baixo demais, qualquer outra característica relativa a minha pessoa física, juridicamente passível de ser magoada. A guria não batia bem, mais aceitável, toda vida. Ráina rasgava dinheiro. Por isso, não me aceitava como amor.

     

 

Join MovellasFind out what all the buzz is about. Join now to start sharing your creativity and passion
Loading ...