Eu amei uma borderline

A mesma velha história de amor, num certo interior, de um certo Rio Grande do Sul, da vida...

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9. Capitulos 36 a 49

 XXXVI

 

           Chegando em casa, topei com o homem sentado estudando na mesa da cozinha.

           Como de sempre, cumprimentou com a cara fechada. Como sempre, adiantei o serviço:

- Tchê, Tispa, a Cris disse que quer conversar contigo.

   Tispa não levantou o nariz do Código Civil. Ajeitou os óculos:

- E?

- Ela quer que eu durma fora daqui para vocês poderem conversar!

                Ele pigarreou, levou um copo com não sei o quê na boca. Bebeu, e reagiu:

- Ela disse isso literalmente?

- Disse. Eu estava lá com elas, e ela disse. De preferência, essa semana. Acho que tu conseguiu pra esses dias um baita negócio. – Disse, em tom de sarcasmo.

              Tispa levantou-se:

- Tu estás brincando comigo?

- Não mesmo. Ela disse literalmente.

             Saiu da cozinha, e foi para a sala. E vi o homem abatido, perturbado com algo. Não comum de aquela criatura abalar-se, ainda mais por mulher:

-  Tchê, que te passou ? – Perguntei. A cena quedou teatral por demais. Só faltaram  o sotaque mexicano, e a música de fundo.  Entendi que algo houve, restava dar-lhe umas cachaças para que contasse. Os dois tiveram um relacionamento, óbvio. E isso de conversarem como recém conhecidos é possível. Permanecem as feridas cicatrizadas desde que a conversa permaneça impessoal. Sei, pois, com Ráina, conseguia. Ninguém diria do meu abismo por ela nos vendo juntos. Difícil acreditar que os dois tivessem passado em branco para todos.

- O que tu quer saber?- Indagou. Tom agressivo aumentou ainda mais a curiosidade:

- Não sei. Se um mulherão daqueles dissesse que queria dormir na minha cama, te garanto que eu ficar faceiro, e não com essa cara de susto!    

- Não vou te contar a história da minha vida. E dá um jeito de achar onde dormir amanhã!

- O quê? – Berrei, prevendo o prejuízo-Dormir onde?

- Na Ráina. Isso, na Ráina. Dorme lá, e  aproveita e perde a tua virgindade.

- Quê?  Eu e...

- Tu, nada! Será que eu tenho que ensinar tudo? Embaixo da minha cama tem uma meia garrafa de uísque doze anos. Pega, pode levar. Mete uísque na guria, se for o caso. Digo “faz amor”, se tu preferir. O importante é que faça alguma coisa antes que um babaca qualquer faça . Digo, outro babaca...

              E ainda ofendia:

- Babaca por quê ? – Indaguei, já saindo do normal.

- Por que não faz o que tem que fazer. acha que essa Ráina é difícil, que é borderline, que é isso e aquilo.  Bueno, amanhã!- E levantou-se tranqüilamente, rumo ao quarto. Pareceu o bom e velho pai quando queria  terminar um assunto.  

 

XXXVII

            Falemos sobre omissão. Nesse país, todos tendem a se envergonhar de seus atos, nunca de sua falta de agir, como se o dano, o prejuízo  pode-se ser perdoado com maior facilidade pela desculpa de não ter agido. Se isso parece estapafúrdio, lembre-se que o esporte preferido dos filhos de Pedro Alvarez  Cabral consiste em chegar atrasado em um compromisso. A coisa anda tão feia que se propõe o limite de haver um atraso socialmente aceitável. Por exemplo: cinco minutos não só é aceitável, como é chique. Dez minutos são toleráveis. Porém trinta é falta de consideração. Ora, se o assunto foi combinado as cinco, cinco e um já é uma omissão!

          Creiamos que o mito final do atraso a respeito seja o comportamento das noivas, acusadas de eterna demora. Aumenta-se a expectativa, os últimos segundos de liberdade, antes de sair da coleira do pai para coleira do cidadão que escolhera para novo titular do domínio de seu múnus de mulher honesta. Uma noiva que não deixa o tipo noivo aflito, não parece agradável. Poderíamos considerar que o brasileiro se atrasa pelos mesmos motivos da casadoira, em seu desespero vago de manter-se livre por mais alguns instantes, mínimos que sejam. Mas isso é  outra história.

          Falávamos em omissão. E como esse manuscrito gira em torno de meu ego inflado, afirma-se claro tratarmos de uma de parte minha. Meu colega de apartamento acusou-me de omisso. Omisso em relação a  Ráina. Ora, uma omissão decorre de uma obrigação. Que obrigação tinha em comer alguém?

 

XXXVIII

          Fiz o mesmo, e quando voltei para cozinha. Tispa já estava de cara no Código Civil outra vez:

- Que negócio é esse de querendo ou não? Perguntei indignado com as afirmações:

          O colega virou-se:

- Simples, meu guri, tu não gosta daquela outra?

- Gosto.

- Não acha que ela tem direito, uma vez na vida, de fazer sexo com alguém que se importe com ela de verdade? Que não queira dar uma e nunca mais ligar?

O risco não cabia a mim, cabia a ela, exclusivamente, quando ela resolvesse dormir com alguém. Devia ela saber quais  as reais intenções do sujeito.

- Mas isso não é problema meu!     

- Ah, mas é mesmo! Tem uma responsabilidade com essa guria. Ela é do teu bando, do teu clã, da tua comunidade, qualquer coisa. O Pequeno Príncipe: “tu és eternamente responsável por aquilo que cativas”- Calei-me. Conhecia a história para crianças. Podia ter razão, mas ainda não tinha nada a ver com isso: Ora, Pequeno Príncipe

- Ah, sim. Agora eu vou me meter em todas as confusões que ela arrumar a troco de nada?

- Deve, pelo menos . Afinal, é o homem da relação.

Segunda vez em menos de doze horas que ouvia essas bobagens de genética:

-  É tu e a Cristiane com essas histórias. Somos animais culturais, será que é tão difícil entender.  Somo filhos do nosso tempo, momento...

- Sim, eu tinha esquecido. Assim como existem raças superiores umas as outras, uns nascem para mandar, outros para obedecer, somente os mais preparados deviam governar, e um bom ditador é melhor que uma má democracia!- Calei-me. Tispa prosseguiu:

- Cada povo tem o governo que merece, pau que nasce torto nunca se endireita,  tudo pela  Ordem e pelo Progresso. É assim. Tudo bem, quer pensar, pensa. Não muda o fato de que amanhã vais ter que procurar um lugar para dormir, e se disse para uma pessoa que ama ela, e simplesmente, não faz nada em relação a isso, criou uma expectativa em alguém.

 - E tu não vai me dizer qual a tua com a Cris?

- Não. 

- Ah, tá bom, homem honrado... – Irônico.

            Tispa sorriu:

-  Pode ser. E se for, melhor.

- Pois eu não saio! – Puxei uma cadeira, tal uma guria birrenta.

- Não sai então, donzela, menina-moça. De preferência liga pra mamãe  e pede para ela vir te da colinho, Diz que te judiaram, nenê! Não sai... Fica aí ...

- Vem cá, acha que...

- Tchê, não acho nada! Eu tenho certeza que tu amanhã, ou tu dorme num hotel, ou dorme na Ráina.

- Como se trepar com alguém fizesse alguém mais macho.- Asseverei.

- E não faz. Um rato trepa. A questão, vais ter a chance de aceitar o que  sente, assumir, arcar com todas as responsabilidades que isso significa, sem ter como culpar teus trauminhas, o estado, a tecnologia.- E  Tispa largou aquela com uma serenidade de espírito incomum. Balancei, senti o peso pela traquéia. Recuei. Toda a tese tem sua antítese, porém:

- Por que?

  Tispa riu, fechou o Código:

- Porque não tem onde dormir amanhã! 

 

XXXIX

           No outro dia, repetiu-se o procedimento mecânico de toda semana. Não vou perder tempo citando o quanto remoí para adormecer  a noite antecessora. Virei na cama tal um bacon em uma frigideira, até cansar-me e derrubar de vez a consciência no travesseiro fedido. A leitora quer saber o que sonhei aquela noite? Pensa ser mesmo necessário? Pois vá  lá, heis o que sonhei: nada. Obviamente algum especialista diria que sonhei, só não alcancei o ponto de lembrar-me. E direi, com toda a empáfia, aos senhores estudiosos das artes do deus Hipnos, que serve um sonho se não se lembra dele ? Que existência há, se não sequer pode ser afirmado?

          Então, nada sonhei.

           Pois bem, levantei-me, fui ao banheiro. Saí do banheiro, entrei na cozinha.Deixei a residência um pouco antes do rotineiro.Veio aquela histeria de olhar os pássaros. Não tenho certeza se faria diferença em observá-los logo as primeiras horas da manhã. Sei que o pessoal dos documentários de vida selvagem acorda bem cedo. De qualquer maneira, foram apenas oito minutos antes de previedade.  Desejava ser doutor aquela manhã fresca. Até esqueci dos rabos dos pardais, na sala de aula, observando a bunda de uma coleguinha que conseguiu lugar em frente ao meu. Belo traseiro, em tão jovem forma. Por que deixar as mulheres envelhecer, enquanto cultivamos mitos individualistas, com a única finalidade de sermos desgraçados, tal a liberdade masculina, o sonho de comer todo mundo, se tudo se resume em ter uma mulher jovem ao lado? Ela certamente nem se deu por conta, mas estava no auge da sua beleza, limite. Eis a verdade das verdades: só se vive uma vez. E a vida termina da mesma maneira ao acaso que inicia. O escuro da não-existência para o escuro de estar morto.

             Entrei na instituição.Saí da instituição como se não tivesse entrado. Bom, alguém deveria se preocupar com meu estado acadêmico. Alguém, por que eu, não me preocuparia. Fui ao Restaurante Universitário. A fila do lugarzinho encompridou-se deveras dos dias normais de estudo.  Maldisse o sistema educacional brasileiro, embora não pagasse um centavo por aquele estudo que o estado me dava, além dos impostos de papai e demais cidadãos que não me conheciam, vi meu amor sentado solitária numa ponta de mesa. Havia um ou dois com ela, desconhecidos, Ráina almoçava silenciosa, olhando  o prato.

            Desviando de um, e outro, parasita semelhante, digo, matriculado na universidade pública, deixei a fila, e fui até ela. Toquei-a no ombro para chamar atenção. Ráina virou-se, mas não disse nada. Deduzi que estava depressiva. Olhou-me como se não me reconhecesse.

- Ráina, sou eu.  E a aí?  - Cumprimentei-a.- A guria respondeu de cabeça baixa.

          Digamos que esse adquirira alguma coragem estranha àquela manhã, filha imperfeita de uma noite inteira remoendo a acusação de omisso. As palavras de Tispa, afirmando minha responsabilidade sobre a pessoa dela, passaram como nêutrons para o coração do acadêmico desinteressado na academia. Sentei-me na cadeira que um dos desconhecidos deixara. Não reparei mesmo na fisionomia do tipo. Se fosse papai querido, o mecenas cruel, indireto e direto, de minha educação fornecida pelo estado brasileiro, teria ele ido embora sem causar. Fosse quem fosse, azar.

           Peguei-a na mão. Ráina ergueu a cabeça, franziu a expressão:

- Vou dormir no teu apartamento hoje. Quer que eu leve algo para comer ?

- Pra quê?- Perguntou com um espanto.  Pensei em dizer a verdade:

- Porque o Tispa vai fazer um ritual satânico que não devo assistir!

-  Por que tu vai dormir lá no meu apartamento?

- Vai negar poso para um amigo? – Respondi uma pergunta com outra.

- Não, não vou. Mas tu vai ter que me dar alguma coisa em troca.

Uma coragem imperfeita viveu nas veias minha aquele dia :

- Pede o que tu quereres...

- Um carro. – Respondeu sorridente, e com certa ironia nos lábios.

- Quem sabe a gente não deixa o carro, e o modelo, para escolhermos depois?

Ráina corou-se. Abaixou a cabeça, vencida. Senti-me o rei.

- Me leva Erva-do-Diabo.

- Não.- Ela ergueu o nariz:

- Por que?

- Não te quero fumando essas porcarias. Não na minha frente.

- A vida é minha, faço o que eu quero... Tu não tem nada a ver com isso!- Triste. Ela tinha toda a razão. A vida pertencia a ela. A coragem, todavia:

- Não senhora! Eu tenho tanta responsabilidade contigo, quanto tu tens comigo.

Ráina deu uma gargalhada nojenta.

- Onde está escrito isso? E por que, me diga... Tu não paga minhas contas, não sabe nada da minha vida. Por que?

- Porque tu me cativaste, e te cativei! – Afirmei, heróico. Ráina tirou o sarcasmo do rosto. Fez expressão de lembrança em algo distante:

- Onde eu ouvi isso?-  Pôs a mão no queixo como se fosse ajudar a recordar. Como ela ficava atraente tentando lembrar, olhos procurar recordações.

- O Pequeno Príncipe. – Atalhei, curto e direto.

            Gargalhadas. 

             Pensei que ela fosse cair da cadeira de tanto rir. Foi fiasco, todos nos olharam. Resisti, bravamente, àqueles longos segundos de ataque de ironia. Ela arrumou-se, calou a boca, passou a mão nos cabelos:

- Então tá, amorzinho. Leva álcool que pode dormir lá no apartamento.E disse aquilo com tal complacência, quase me arrependi de ser corajoso.

- Uísque serve?- Ráina sorriu. Fez sim, com a cabeça. Voltou à feição depressiva.

- Agora me deixa almoçar tenho que voltar para a tortura daqui um pouco.- Terminou a conversa, áspera, e Ráina, como de sempre.

 

XL

           Sabe que a rotina às vezes se mantém somente por manter? Quem sabe um dia, a leitora esqueça a hora do almoço, pegue um livro para ler, alugue uma fita de vídeo, procure seu esposo, alguma atitude feita por vontade, não por segurança da repetição. Cheguei em casa, Tispa havia feito arroz, galinha e salada de cebola. Exímio cozinheiro, e sem nada para fazer de manhã além de cuidar de si. Que belo humor! Almocei, olhei televisão. Depois de digerido rango, fui estudar.Em plenas três da tarde, encontrei-me estudando! Desde o vestibular não estudava. Quem estuda sabe o que refiro. Há estudares, e estudares. Estudar, com  legítima vontade de aprender, momentos raros na lida estudantil, acostumada ao ato por simples pressão de bons resultados nos testes. Estudei. Como havia detalhes que ignorava. De certo, aqueles detalhes iriam surgir quando estivesse operando o coração de algum paciente. Para sorte de Tispa, meu advogado, que muito ganharia com meus erros de doutor.

           E para espanto do próprio, quando voltou da lida, as quatro e pouco:

- Não acredito. O especialista em tocar  faculdade com a barriga estudando!- Não injuriei. Até esse próprio estava no espanto.

- Pois é.

- Conseguiu onde dormir? - Indagou.

- Sim.

- Na Ráina ?

- É.- Respondi mordendo a boca para esconder a faceirice.

- Ah, está explicado o por quê do estudo!- Coisa óbvia. Claro que seria por isso. Por que razão mais?

- Tchê, vou precisar do teu uísque!

- Certo. Está embaixo da cama. Leva tudo.

            Tispa virou-se para a sala. Mas antes:

- Posso  te dar um conselho? – Perguntou ele .

- Pode. – Respondi, para ver se aproveitava alguma coisa que ele pensasse ser “aconselhável”.

- Não vai com muita calma. Esquece aquelas porcarias de contos eróticos que tu lê, aqueles roteiros prontos de: enfia o dedo aqui, chupa ali. Aquilo é sonho. Sexo é outra história.

Estranhei:

- Tchê, a virgem deve ser ela! E depois, eu não estou pensando em comer ninguém...- Era mentira, mais que óbvio, também. Tispa prosseguiu:

- Assim, deixa te envolver. Pelo menos uma vez na vida, pára com esse negócio de “comer”, e deixa te envolver.Sabe  melhor que eu que dá para foder mil mulheres, mas só duas ou três fazem a diferença.

            Ironizei:

- E não vai pedir pra usar camisinha, também, Ministério da Saúde ?

 Tispa, sem se importar, prosseguiu:

- Exatamente isso que estamos falando: banalização. Se tu pensar dessa maneira, ir com esse reflexo, vai ser mais uma virgindade perdida. O que eu quero dizer é isso mesmo: tu coloca uma camisinha no bicho, outra na cérebro, parece que tudo vai acabar bem, que ela vai ser feliz, que todo o universo está em perfeita ordem...  

Parei com a ironia. Era o lado filosofia do guerreiro.

-... Só uma idéia. O que vai acontecer entre vocês não me diz respeito.   E foi para a sala.

          Guardei os livros, voltei para o quarto. Lembrei-me do uísque.  Peguei-o no quarto de Tispa. Bebida de boa qualidade, provavelmente sobra, furtado de algum baile de formatura.

 

XLI

             No intento de deixar os incertos atos futuros menos racionais, decidi não penar com nisso. Bem sabe a leitora mais medrosa o quanto se sofre por antecipação, sem necessidade. Recorda a  mitologia, deusa Palas Atena, ou Atenas, aos íntimos. Quando nasceu, da cabeça de seu pai, Zeus, veio com uma lança e um escudo. Nunca compreendi essa questão. Imagino até hoje que a moça-deusa devia passar o tempo todo enfiando a ponta da arma nos neurônios do pobre deus dos deuses, como a razão, machucando-nos, coibindo atos, nos tornando seres “inteligentes”. Guardo para os mestres a interpretação mais acertada. Até, pois, esse negócio de deuses gregos passou do ultrapassado.Não escapou a observação sobre as camisinhas. Também pelo fato de não haver uma naquele apartamento. Pensei em comprá-las no caminho. Tispa havia tocado em algo interessante: o quanto à camisinha nos tornou uma coisa estranha, mensurável, comum e massificada. Independente de coibirem a gravidez, o que por isso já uma grande idéia, o preservativo é o ícone de uma sociedade individual.

           Pois, mal ou bem, sexo é naturalmente uma ação reprodutiva. O que por sua vez, uma troca de genes. O que não seria nenhuma grande coisa se não fosse pelo fato de quem não troca genes, morre enquanto indivíduo.  Nossas células estão poucos se importando com nossos amores, nossa música sertaneja, nossos porres e dores de corno. Elas querem mesmo é serem transmitidas, e não interessa se o transmissor nasceu na Tailândia, ou na Noruega. E por que? Porque todo animal que alcança a idade adulta é um vencedor. Sinto, leitora  amada, mas nossas ceulazinhas criminosas acordam, e dormem, pensando e agindo dessa forma. São primitivas, as coitadas,  de época em que não existia plano de saúde, tevê a cabo, armas de fogo, lavouras irrigadas. De uma época em que um fratura em um dedo significava a morte, um espinho bem colocado, uma inflamação, um macaco a menos na savana. Então, enquanto vencedores,  pequenas enlouquecem, pedindo para serem lançadas a frente, garantia da própria vida. E o que fizemos? Aceitamos premissa que somos culturais, desejos, usamos camisinhas. De indivíduos vencedores na escala da evolução, pensam nossos ácidos nucléicos, nos tornamos mais um ser passível de transmissão de doenças sexualmente transmissíveis, que precisa de coisas materiais e imateriais, e que não pode ter dependentes atrapalhando a ordem natural desses eventos.   Fizemos sexo seguro. Como se isso fosse possível, fizemos, no máximo, sexo que não vá prejudicar  nossas belas expressões de seres culturais, futuro profissional, nossos carros importados, nossas teses de mestrado que não irão servir para nada prático além da titulação, o nosso apartamento próprio classe média, unicórnio da felicidade ocidental. Daí dizer que é seguro, outra história. Tu podes se apaixonar, rebentar aquele pedaço de matéria orgânica emborrachada, pode haver acidente, infeliz do preservativo mal colocado escapar, após várias cervejas.. Ou pior: podes sentir mais absoluto desejo de sentir, pelo menos uma vez, o prazer de ter uma mulher sem aquela pele de borracha atrapalhando os milhões de anos de seleção natural. O desejo absurdo, não recomendado pelo Ministério, de não pensar no que está fazendo, por que, a única razão para a razão é, na realidade, coibir nossas possibilidades de ter prazer. Sexo não é seguro. Sexo é sexo. As pessoas se tocam, se envolvem. As mulheres se sentem bem por que foram amadas. Os homens por que puderam fazer.  Mas tudo bem. Viva a camisinha. Previne doenças. Afinal de contas, não passamos de uma meia dúzia de boas intenções.

 

XLII

               Cristiane chegou às nove horas e pouco.

               Sentou-se. Estava maquiada demais para quem não usava maquiagem.Conversamos meia dúzia de bobagens. Nervosa, ainda a Cris de sempre. Perguntei se trouxera preservativo:

- Sou estéril! – Respondeu sem rir. Aquela altura, Tispa tomava um banho. Foi quando resolvi deixá-los à vontade.

             Ráina morava com mais uma, Anabela. Não vem a memória se mencionei. Conhecia a moradora de pouco a nada. Sabia que era gordinha, que fazia cursinho ainda, natural da cidade de origem do meu amor. O apartamento delas quedava longe umas sete quadras do meu, em umas avenidas mais movimentadas da cidade. Demoraria meia hora, ou mais para alcançá-lo, sem chegar suando como um cavalo em cancha reta. Pus o uísque em uma sacola, o preço exigido pelo poso. Atirei-me na geada fria atrás do que importava, e perdoem-me os mestres médicos:  sem camisinha, nem no bolso, nem nas intenções.

             Noite fria. E fria. Contava em dormir agarrado nela como uma hera num muro.

             Andei, e andei. Numa quadra, pensei que seria assaltado. Com tanta testosterona na alma, foi o tempo de pegar a garrafa para os candidatos a agressores mudarem de rumo. Não combati, e melhor, ainda relaxei da situação próxima com meu amor.

            Cheguei. Apertei o interfone. Ráina atendeu com costumeira má vontade. Ótimo, tudo em perfeita normalidade.

            Peguei o elevador. Ela abriu a porta. Um perfeito objeto de desejo. Estava com aquela calça preta que adorava, uma blusa listrada, dessas de decote farto, e em curva , que deixa a vista ombro e pescoço. E pantufas, daquelas que as tias velhas usam. Sexy.

- Oi. Trouxe a bebida? – Perguntou, olhando para a sacola.

- Trouxe. E quase desço nas aspas de uns bagaceiras agora pouco.- Ráina desprezou-me:

- Tá, esse negócio de dar uma de macho está te fazendo mal. Me dá!.-   E pegou sacola. Mandou que sentasse. Havia estado naquele ambiente outras vezes, como amigo. Nada de diferente: uma sala com sofás claros, uma planta ao fundo. Na parede, uma placa de  PARE, furtada de alguma rodovia. Típico de estudante.

             Ráina chamou-me para a cozinha:

-  Tu tá com fome? Tem macarrão com salsicha que Anabela fez. - Fui até a cozinha. Meu amor encantava-se com o uísque.

- E Anabela, cadê? – Perguntei.

- Ela está estudando no quarto. Eu disse que um amigo vinha, que ela não saísse de lá. Sabe como é, a guria é mais nova, mal acostumada na lida, pode se assustar com alguma coisa... - Respondeu.

            Amigo era a forma antiga que as donzelas medievais chamavam os seus amados. Perguntei a Ráina:

- Sabe o que é uma canção de amigo, Ráina?

- Não.- Expliquei. Enquanto falava, meu amor servia dois copos de uísque sem gelo. Finalizado o bababá explicativo, ela olhou-me com delicadeza:

- Devia ser legal viver naquele tempo. Ser donzela medieval.

- Tu  viverias só até os trinta anos. Ia perder os dentes antes dos vinte e dois.

- E quem quer viver para sempre? – Perguntou ela.

            Bebi. Eu não queria.

- Vamos para a sala? – Disse. Sentamos nos de frente uma para o outro. Ela começou a contar fatos. Concordava com sorrisos, e com a cabeça, sem dar muita importância ao assunto. 

- Mas por que resolveu vir dormir aqui hoje?- Disse.

- Detetização. E sabe como eu sou ratão. Se ficasse por lá, seria o suicídio!- Ráina soltou aquela gargalhada nojenta. Compôs-se. Quedou séria por alguns instantes.

- Quer ver meu quarto?- Disse meio infantil.  De fato, recordei a infância, quando a mãe visitava alguém, era obrigado a ir junto e o habitante menor da casa me levava para brincar por obrigação e a mando da outra mãe. Segui-a. De todas as vezes que fomos ao apartamento, não lembro de algum que tivesse ido até o quarto dela.

           Ela abriu a fechadura. Acendeu a luz.

           Aquela altura imaginava ver algum quadro que ela tivesse pintado, poema que tivesse escrito. Para minha surpresa, o quarto totalmente decorado, em estilo oriental: uma esteira ao chão, papel de parede imitando as paredes das casas tradicionais japonesas; um quadro imenso de uma gueixa na parede. Vários leques, outro quadro com um bonsai delicadamente pintado, uma faixa com símbolos.Tudo em perfeita harmonia, como se uma senhora de Tóquio tivesse vindo, e feito com as próprias mãos. No criado mudo de metal escuro e vidro, um ikebana, um incensório de bambu. Escorado nele ainda, o que pareceu ser uma espada na bainha. A própria luz havia sido escolhida. Não uma luz branca, mas amarelada, um tanto astigmática, aumentava  a sensação de equilíbrio.

               Tentei não demonstrar espanto. Ráina descendia de alemães, nada a ver com asiáticos. Abaixei para pegar a espada. Quando pensei em desembainhá-la, recordei que quando a lâmina samurai deixa seu local de repouso, ela deve ser usada.

- Pequena para um homem adulto, não é? – Perguntei, ainda admirado com a decoração.

               Ráina segurou a espada, tirou da bainha:

- Ela não é pequena. É uma  wakizashi, espada menor que o samurai leva junto com a maior.-   Estranhei o conhecimento do meu amor:

- Não sabia que tinha colônia japonesa na tua cidade.

- Não tem. Essa veio de São Paulo, presente do pai. Bonita, não é?- Respondi afirmativamente. A primeira reação de quem pega uma espada é sempre brincar com ela, balançar o metal no ar como se estivesse cortando alguém. Creio que deva ser resquício do tempo em que uma peça daquelas significava a vida. Ou influência dos filmes.

-  Por que teu pai te deu uma espada? Quer dizer, os quadros, e tudo, ainda vai. Mas, uma espada samurai ?

                Ráina sentou-se na esteira. Colocou a espada no colo, fez sinal para que me sentasse. Deduzi que fosse algum ritual. Obedeci, quase encostando minhas pernas nas pantufas.

- Sabe o que é um harakiri ?- Perguntou.

- Sei. – Respondi. E sabia. Nos filmes vez que outra alguém abre a buchada por ter perdido a honra, ou algo clichê do gênero. Ela continuou:

- Essa espada aqui é a que o samurai usa para abrir a barriga quando perde a honra.

- Ráina, tu não é um samurai. – Disse, com tom irônico. Ráina corou-se, abaixou os olhos, prosseguiu:

- Quando eu tinha quinze anos, passei um caco de vidro nos pulsos. Foi um corte feio. Foi um fiasco, mas eu escapei. O pai foi resolver uns assuntos dele em São Paulo e me trouxe de presente.- Arrepiei todos os pêlos do corpo ao ouvir aquilo:

- Ele deu a espada do suicídio para uma suicida?

- Sim. E disse que se eu tivesse que me matar, que fosse por alguma coisa que eu realmente acreditasse, não por uma boa bobagem, um motivo fútil, uma dor de cabeça. E se tirasse a minha vida, que valesse a pena.

Estranhei a atitude do velho. E dela:

- Mas por que Ráina?  Por que o suicídio?

- Tu não me acusaste de ser borderline? Não sabia que as borderlines são suicidas?

- E teus pais sabiam, nessa época, que tinha a doença?

               Ráina riu :

- Meu pai é psiquiatra! E não é uma doença.- Tive o reflexo de tirar a arma do colo dela. Pensei que não precisava saber nada daquilo. Pensei que estivesse inventando.

- Como eu nunca vi a cicatriz?

            Ráina frouxou o relógio, tirou, mostrou-me o pulso esquerdo. Realmente, sempre via aquela peça de contagem de tempo em  seu pulso, mesmo nos finais de semana, quando não seria necessários controlar o horário, e tempo, nunca pensei  apetecer  muito aquela  mulher. Estava ali um talho fino, fora a fora,  no pulso.

- Viu? – E abaixou o braço.  Aquela altura,  esse tentava entender o não entendido:

- Mas Ráina desculpa. Eu não sabia que...

- Claro que sabia! Tu sabia o tempo todo!

            Eu me considerava inocente:

- Olha, tchê, eu...

            Ráina pegou a bainha, guardou a lâmina. Respirei aliviado vendo-a manter a espada presa outra vez.

- O que tu chama de borderline é o nome que se dá para um tipo de transtorno de personalidade. Não é uma “doença”. Também pode ser chamada de personalidade limítrofe.

            Ela parecia consciente. Eu, a mais idiota das criaturas. Prosseguiu:

- Isso não é brincadeira. Não pensa que qualquer depressãozinha por ter brigado feio  com  a namorada, ou crise de raiva com alguém quer dizer alguém tenha a personalidade.

             Atordoei-me. Ráina falava em gírias a maior parte do tempo.E nunca pareceu brilhante, chegando à estupidez com facilidade em suas colocações. Por vezes, perdia a paciência comigo por amar uma mulher tão idiota, consumista, cérebro-de-alface, QI de mandioca frita, como se referia Cristiane. Naquele instante, mudava tom de voz. Falava serena, menos aguda. Parecia que espírito tinha possuído.

- Quer mesmo continuar falando sobre isso?- Perguntou.

- Sim.

            Ela prosseguiu:

- Uma vez eu tentei me abrir com uma amiga... Foi terrível! Difícil para falar com as pessoas, mesmo com outra mulher. Foi quando descobri, que na verdade, as pessoas se importam somente com elas. Eles só te ouvem para esperar a vez falar. Quer dizer, não te ouvem. É como falar na frente de um espelho!- As idéias começavam a se organizar dentro dos neurônios:

- Então, tu criaste esse quarto para poder fugir das pessoas?

- Sim. Aqui, sou só eu. Não preciso ser a vagabunda da Engenharia, nem amiga que presta atenção nos problemas dos outros, a bêbada, e etc. Aqui, não há ninguém além de mim.

                Um detalhe apareceu:

- Ráina, eu vim aqui por acaso. Se eu tivesse vindo aqui mais vezes, se a gente tivesse mais intimidade, contaria isso que está me contando?- Ela esticou o braço, pondo a espada onde ficava guardada. Passou a mão no cabelo:

- Não há intimidade entre a gente, por que eu não fico íntima de ninguém. Cada vez que te vejo, pra mim, sempre primeira vez.  Eu começo sempre do zero, do nada, do vazio. E não pensa que amanhã vai ser diferente, por que  não será. E não é só contigo. É sempre uma Ráina diferente, para cada pessoa diferente.- Consegui entender aquilo. Não sei a razão, mas entendi o que ela quer dizer. Tentei interpelá-la:

- Ráina, com todo mundo é assim. As pessoas criam máscaras e...

- Viu ? – Cortou ela – Não foi o que eu acabei de dizer?  “Com todo mundo é assim”, foi o que mais ouvi  mais na vida. Pois tenho uma novidade pra ti: há pessoas que são diferentes.

Calei-me. Ela sabia muito bem o terreno onde andava. Tentei dar um exemplo para provocá-la:

- Quer dizer que se a nós transássemos aqui, amanhã tu me olharia como se nada tivesse acontecido?-Ráina deu um sorriso sem vergonha:

- Provavelmente.

-  Bueno. Mas estou tentando entender. Eu já fiquei com pessoas que faziam isso, quer dizer, me olhavam como se nada tivesse acontecido e...

- E tu quer saber onde está a diferença?- Atalhou.

- Isso aí. – Afirmei.

- Deixa eu te explicar. Uma guria pode ficar com alguém pelas mais variadas razões, desde estar apaixonada, até por estar só com desejo mesmo. Pode estar carente, pode estar com vazio, pode estar irritada, qualquer motivo. As coisas para as mulheres são muito encadeadas, mas não numa linha reta. A guria pode ter visto o beijo num filme num dia, ter sentido desejo, ter visto um cachorro ser atropelado, ter sonhado com alguém, e ir para a cama com um cara dali a uma semana por todos esse motivos juntos...

            Tonteei com a relação. Ela continuou:

-... Mas pode também ter  problemas de auto-estima, e acreditar que a única forma de afeto que ela tem direito é com sexo. Ou pode apenas, estar precisando de um macho. Estar no cio, como vocês dizem. A relação que ela vai ter com a pessoa depois depende desses fatores, e outros. O que ela estava sentindo quando ela resolveu ir para a cama. Ou pode não fazer sexo nunca, só ficar, também. Às vezes  pode ser uma forma da guria saber o que realmente o cara quer, fazer teatrinho mesmo.

- E onde entra nisso tudo?  – Perguntei, meio tonto com tanta informação.

- Ainda não entendeu? Eu não entro em nada disso. Nada do que possa ser relevante para as outras importa para mim e...

            Beijei.

Não deixei que prosseguisse: finalizei o assunto, prendendo a boca dela  com um beijo. Como conhecia aqueles lábios, percebi quanta falta fizeram eitei sobre ela. Ráina encaixou seu quadril no meu, como se esperasse há muito por aquilo.

 

XLIII

            Fizemos sexo.

            Transamos, acasalamos, deixamos nosso desejo ser preponderante. Ou o nome que dêem para esses momentos de estranheza desejada, e realidade satisfeita. Ela nunca tinha estado com outro homem antes, como diria minha tia delicada, leitora de romances românticos. Foi interessante, porém. Nada daquilo que dizem a respeito em revistinhas e filmes do gênero. Foi normal, apenas. Digamos que sexo não será nunca uma grande ação humana. Digamos que será sempre uma ação  normal, ato cotidiano.Confesso que esse pensamento mataria de angústia qualquer individualista sonhador. Imaginem se a melhor sensação de prazer de toda a existência outro fazer diário, escovar os cabelos, abrir porta do carro, sentar-se para ver as horas passando.

             Pois se suicidem os individualistas sonhadores. Sexo é cotidiano, e acabado. O desejo pode ser satisfeito masturbando-se, por mais vazio que seja.  E creio, sinceramente que não tirei a virgindade de Ráina àquela noite. Aliás, não tirei coisa nenhuma de ninguém. Quanto ao sangue do hímen rompido, nem tomei conhecimento, nem o bendito virou escorpiões, ou rosas, ou fadas quando atingiu o lençol. Ora, apenas outro ferimento.E qual ferimento não sangra?

             Ráina gemeu como uma  prostituta. Pode parecer rude, e de certa maneira, a descortesia em estado puro. São os fatos, todavia. Gostaria de encher essa passagem com metáforas, eufemismos, e outras figuras de linguagem. Não o farei. Meu amor, ao fim, apenas uma mulher, reativa a estímulos, sensível. Uma fêmea adulta da espécie, cuja máxima relação que poderá ter comigo será responder aos meus acessos. Se teve os legendários orgasmos, suponho,  pois pré-disposta em tê-los, eu, em fazê-la ter. Ráina, apenas outra mulher.

                Quando acordei, de manhã, observei-a dormindo. Peguei a wakizashi, fiquei brincando em silencio para meu amor não acordar. Lembrei da conversa de suicídio, tudo recomeçaria do nada entre nós, sempre. Decidi ir embora. Tive de desejo de fazer mais uma vez com ela, vendo suas costas nuas, e o tanto de pernas descobertas pelo edredom. Imagino que se tivesse solicitado-a outra vez, teria correspondido.

               Não fiz.

               Deixei a cama, e o apartamento, antes que acordasse.

               Quanto ao sono, juntos, foi péssimo. Ráina debateu-se a noite toda. Por sermos ambos mal acostumados a dividir a cama com outra pessoa, disputamos a madrugada inteira, um querendo roubar o espaço do outro, embaixo das cobertas.

 

 

XLIV

                Cheguei ao meu apartamento pelas dez e pouco. Para surpresa, encontrei Cristiane mateando paciente no sofá menor. Mal arrumada, escabelada, mateando e fumando um cigarro. Indaguei-lhe, imaginando que Tispa deixara sozinha:

- Cris, ainda por aqui?- Cristiane respondeu com um sorriso. Soltou cigarro no cinzeiro.

- Como foi a noite com Raininha ? Tudo certo?- Não esperava discrição dela. Nem fazia questão de ser discreto:

- Menos um cabaço no mundo. – Disse ela, rude, disfarçando sentimento, e sentando no outro sofá.- Mas o problema não é esse...

- Eu pensei que não seria.- afirmou Cris, soberana- Mas vou te cantar a pedra: não procura ela por uma semana ou mais. Esquece o que aconteceu.

Mal ou bem, coincidia com meu projeto inicial o conselho de nossa psicóloga preferida.

- Eu vinha pensando nisso mesmo. A gente teve uma conversa ontem, e mais ou menos ela disse como funciona a cabeça dela...

               Cris soltou aquela risada irônica de sempre. Pegou o cigarro, tragou.

- Ela falou como funciona a cabeça dela? Muito bom.

- Por que muito bom ?

- Por nada. – E pôs a cuia na boca, como se escondesse um segredo profissional. De fato, escondia. Indaguei-a:

- Cris, ela sabe dessa tal de borderline. Alías, conhece os sintomas melhor do que tu, acho. Como  não consegue, sei lá, reagir, se curar ou qualquer coisa assim?

Cristiane olhou-me com complacência:

-  “A consciência não nos basta”, como diria São Francisco. - Respondida a pergunta, aumentada a dúvida.  Levantei-me, para dormir mais um pouco, descansar a cabeça no meu lençol fedido.

 

XLV

            À tarde.

            Tispa acordou-me, aos berros, gritando que haviam acabado de invadir o apartamento da vizinha da frente do corredor. Invasão lembrou-me alguma horda bárbara, entrando com seus cavalos no campo adversário. De fato, assalto convencional, desses em que arrombador usa pé-de-cabra. Sem ter nada com isso, fui à cozinha tratar de fazer macarrão de pacotinho.

            Penso, sem crises humanistas de consciência, que arrombadores e semelhantes deveriam ser castrados, e depois, enforcados. Ora, o cidadão trabalha todo dia, sua, se estressa, paga seus impostos visíveis e invisíveis, para depois, chegar um indivíduo qualquer, cheio de explicações sociais que já não convencem, leva todo o fruto de seu trabalho? Digam-se, explicações sociais que favorecem grandiosamente a sua pessoa e a natureza egoísta de seus atos individuais. Fiz o macarrão, enquanto Tispa distraía-se com o furto, e a função com os vizinhos.

               Sem ter a intenção de estudar aquela tarde, alimentei-me e fui à televisão.

                Curioso notar quanto não há ordem nos acontecimentos. E mesmo assim, os acontecimentos parecem seguir um após o outro, como se determinados por alguma força coordenadora. Talvez nunca tivesse conhecido Ráina, se porventura tivesse decidido fazer um curso superior que gostasse. Será que haveria outra para estar no lugar dela?  Talvez tivesse ido estudar em Porto Alegre, ou Pelotas, haveria outro Tispa, outra Cristiane? Acredito que sim. Apaixonar-me-ia, violentamente, por outra criatura, afinal, mandam meus genes que assim aconteça, pelo bem da espécie. E o que seria de Ráina? Bom, como ela não existiria. Faria mesma diferença que a existência, e fim, de alguma Sho Fujikawa, em alguma vila rural na ilha japonesa de Hokaido. Sei eu quem possa ser Sho Fujikawa! Por mim, que morra!

              Imagino que  esse pensamento deva ser culpa das professoras de História. Ora, nos falam das vítimas de genocídio ao longo da humanidade com os olhos de uma tabela de Economia. Não são nem seis milhões de “fulanos” mortos. São apenas seis milhões. Mas havia seis milhões de vidas, de pessoas que riam e choravam. Que brincavam,  odiavam, faziam planos. Não condenemos a forma de ver as mortes, entretanto. Cada vez que um vivo tem contato com um morto, lembra que não terá escolha. Melhor serem apenas milhões e milhões, estatísticas de um  ser vivo consciente de sua própria natureza. “Fortuna, Imperatrix Mundi”, disseram os antigos monges bávaros. Fortuna, Senhora do Mundo. A mesma que poderia ter lançado meu destino para Porto Alegre, permitiu que conhecesse meu amor. Que não morresse no caminho do apartamento, e tivesse a chance de tê-la nos meus braços, na cintura. A mesma fortuna do apartamento da vizinha recém roubado, Cris querendo  passar a noite com outro, Fortuna mãe cruel de todas as guerras. Pobre vizinha. Perdera o fruto sagrado de seu trabalho; sorte minha por ter passado a noite onde passei. Se não fosse apenas outra maneira terráquea de explicar suas fraqueza para com o Caos, prometo que curvaria ante vossa força, Imperatriz do Mundo. Mas aí seria necessário que esse tivesse fé em algo. E isso, pedir demais.

                 Afinal, tinha a mulher,  futura esposa, da vida ou não? O pensamento surgiu enquanto lia o jornal do dia anterior, quase no horário da janta. De acordo com recomendações da psicóloga, deveria procurá-la dali a dois dias. E assim fiz.

     

XLVI

              Chega o veneno a corrente sanguínea, aperta o cerebelo, morde a glia, acaba com a alma.

                Encontrei-a três dias depois de tê-la, na parada de ônibus, esperando o coletivo amigo de nossas vidas universitárias. Sinceramente, sentindo mais falta de sua voz do que qualquer outra parte do corpo. De acordo com as instruções, aproximei-me austero, como se nada tivesse ocorrido. Ráina cumprimentou com delicadeza. E envenenado, observando a falta de assunto entre nós, imaginei ser o silêncio dos namorados.

- Quase usei a espada ontem. Por que não me procurou mais? – Disse, impaciente e querendo uma resposta.- Foi uma questão definitiva. O homem tem a péssima mania de ser sincero às vezes:

- Porque quis te dar um tempo. 

- Dar tempo? Tempo pra quê?

- Te dar um tempo.... Pensei que queria um tempo.

                   Ráina corou-se de irritada:

- Dar um tempo para a louca surtar, não é?- Dei um passo atrás. Ela não deixava de ter a razão. E prosseguiu:

- Pois teu amigo Sancho esteve lá. E foi bem melhor que tu...

                O veneno que deixara o sangue doce, predisposto ao afeto, ferveu ao ouvir aquilo. Ráina franziu a boca, vitoriosa frente minha cara parva.

Aquele dia em diante passei a odiar ônibus urbano. No instante, pára o maldito, de onde eu não sei. Ráina virou as costas e fez menção de subir.

               Talvez a leitora que ainda não está enojada dessa narrativa agora se enoje, mas foi o que fiz: tal um neandertal, australopitecus, adiantei-me, pegando-a pelos cabelos. E não foi puxadinha carinhosa de namorados: trouxe a mulher da escada de acesso do veículo, quase caindo, e ensaiando um gemido de raiva e dor.

              Havia outras pessoas ali. Quais expressões fizeram frente à agressão não vi. Tão logo se firmou no chão, ela virou furiosa:

- Pára! Ficou louco?!

                Envenenado, e a beira do crime passional, que mais posso dizer.

- Tu não vai subir nesse ônibus sem me explicar essa história!- Gritei.

- Eu não vou te explicar nada! Eu não tenho nada contigo, e eu faço o que eu quero!

O ser nervoso tende a baixaria e ofensa:

- Tu deu pro Sancho, sua cadela?!!- Ofendi.Ráina olhou-me vitoriosa outra vez. Estava no terreno dela, o país invadido, o exército derrubado:

- Dei. E ele é muito gostoso. Está satisfeito agora?

                Bati.

               Mirei embaixo do olho dela e soltei o braço. Quis ver aquela cara debochada roxa. Ráina recebeu o impacto, soltou a cabeça para trás. Caiu, de joelhos, para frente, soltando a pasta nos meus pés. Ela abaixou a cabeça, os cabelos escondendo o rosto machucado, creio que pela tontura do golpe, sem entender direito o que aconteceu. Bati como se bate num homem.

                 Senti um aperto no estômago, vendo-a daquela maneira por minha causa. Quis esconder a mão. Virei-me e saí andando, fugindo, antes que ela se erguesse e me olhasse com aquele olho ferido.Saí tão covarde quando fora o ato.

                Não olhei para trás, acelerei.

                Queria me esconder, voltar para a Biblioteca, desaparecer. Foi o que fiz, sentando e pedindo um livro.

                 Nosso encontro foi de manhã, pouco antes do almoço. Aquele dia, retornei ao apartamento somente as seis da tarde. O dia inteiro havia passado fingindo que estudava, apertando a vontade de chorar esôfago abaixo.

                  Devia protegê-la, não agredi-la. Devia cuidar dela, e permitir que cuidasse de mim. Preferível esse levar todos os socos do mundo, mas que nada tocasse aquele rosto.Às vezes, vontade de chorar era substituída pela lembrança da textura da pele, quando a mão acertara o seu rosto. E encerrava um ciclo de arrependimento para começar outro ainda maior.

                Quando abri a porta de casa dei com Tispa e Déborazinha sentados na sala, os dois admirando minha entrada com a expressão de um capincho atolado.

                 Tispa foi o primeiro a erguer a pedra. Quando vi Débora, deduzi que aguardava ali por nenhuma outra razão além de cobrar minha ofensa.

- E aí herói, machão ? Descobriu a graça de bater em mulher? – Disse, em tom ameaçador. Silenciei-me. Déborazinha seguiu:

- Qual o teu problema, tchê? Tu não tem vergonha nessa cara? Como que tu foi bater na guria?

                  Nada respondi.

                 O que aconteceu no momento de minha fuga atordoada foi o seguinte: por sorte, ou azar, Déborazinha vinha em direção à parada de ônibus no momento da discussão. Ela viu o ato, ergueu Ráina caída, seguiu com ela na direção dos banheiros, mais para tirá-la da humilhação do que para tratar do ferimento.   

- Como ela está?- Perguntei. Déborazinha bufou indignada:

- Com um olho roxo desse tamanho. Precisava ter dado um soco? Que desse um tapa de dar china, então. Pelo menos, não ia machucar tão fundo. Do que jeito que  a pele dela é delicada, vai demorar uma semana para voltar ao normal. Covarde! 

                Tapa de dar em china , caso a leitora não conheça, é o nome de um golpe que se dá com o lado de fora na mão no rosto da “china”, herança dos idos bárbaros da história pampeana. Basicamente, uma técnica machista desde o conceito, cujo fim resume-se mais um humilhar do que propriamente machucar a dita merecedora.

                Prossegui a pergunta:

- Sei, mas como ela está?

- Passou cantando de faceira aí na frente agora, tu não viu?-Atalhou Tispa, mostrando, com severa ironia, a inutilidade da frase.

                 Quis perguntar o que devia fazer. Faltou força. Peguei o rumo do quarto, tentar dormir um pouco. Quando fiz a curva do corredor:

-  Vou fazer ela dar queixa de ti!- gritou Débora.

               Parei. Juro que respondi com  um sorriso:

- Por mim...

            De fato não importava. No mínimo, ia ajudar a diminuir a culpa, pagando com o corpo. O espírito, porém, nem com oração.

 

XLVII

                    Perdi todos os amigos.

                    Não procurei Ráina,  ninguém fez questão nenhuma de procurar esse.  Tispa ficou  um mês respondendo minhas tentativas de diálogo com grunhidos, isso mesmo sobre assuntos relacionados à ordem do apartamento. Evitou permanecer no mesmo espaço, mesmo a sala e a cozinha. Por fim, desisti de dirigir-lhe a palavra.

                     Cris deixou de cumprimentar-me. Quando passava por mim, fingia que não via. Igual fez Débora, e Patrícia. O pouco contato que mantinha com Fabiana, a namorada do colega de apartamento, desapareceu.

                      Sancho se fez de desentendido de início. Éramos da mesma sala, porém. Passou a evitar-me. Por fim, mal dizia bom-dia. E assim fizeram os colegas e conhecidos.

                      Percebi duas coisas: apesar da individualidade excessiva, ainda vivíamos em comunidade. Quando foi necessário, deu caras boa e velha comunidade tribal. Em outra: o quanto pode ser eficiente o castigo do silêncio. Por mais contraditório, ainda vivíamos numa aldeia. E eu, fora banido. Não estava mais no barco, nosso destino comum fora interrompido.Sem meu clã, tornei-me ainda mais introspectivo. Meus atos resumiam-se a ir a biblioteca, e ir para casa. Parei de almoçar no restaurante, sabia que encontraria alguém que não ficaria envergonhado em afirmar minha não existência.

                     Abandonei os bares comuns, deixei o Tradicional Diretório. Na tentativa de superação, comecei a fazer exercícios físicos em uma academia da cidade.

E fugi de qualquer contato com qualquer mulher que fosse.

                      Na noite, logo depois do ocorrido, Tispa foi passar o final de semana em companhia da família da namorada, comprei uma garrafa de cachaça, e chorei. Chorei livre e abertamente, sem querer esconder, pois tudo se escondia no trago. 

                       Mas chorei, enfim.

                       Ráina via algumas vezes, sempre de uma forma que não fosse visto, ora esperando ônibus, de passada entre os prédios do campus. Se pensasse que seria encontrado por ela, dava um jeito de trocar de caminho.Ela recuperou-se bem mais rápido que esperava. Uma semana depois, encontrei-a rindo com as gurias. Quando percebi Patrícia me localizar, baixei a cabeça e acelerei o passo.

                      E assim passaram-se três meses. Três meses sem comunicação com ninguém, sem fazer festa maior que encher a cara sozinho, que fiz sobremaneira. Três meses tendo a sensação de estar em um país distante, sem saber o idioma.

 

XLVIII

 

            Talvez devesse esse divagar um pouco sobre as relações familiares nesse capítulo.

            Bom poderíamos começar dizendo, afirmando, que o pai e a mãe não são grandes coisas. Tudo bem, graças a eles, restou para a leitora sublime, e única, possibilidade de existência física. Porém a amiga deve concordar que a capacidade de escolha dos dois finalizou com a hora do acasalamento. O resto, fecundação, regido por leis naturais, frutos da seleção, que de certa instância, tendem ao acaso. O que torna o mérito do “te botei no mundo” algo plenamente discutível, vez que nenhuma ato relativo ao desejo de “A” ou  “B” esteve presente na decisão de qual óvulo ou qual espermatozóide. O melhor adequado para a máxima seria  “eu te criei”. O que não dá mérito para ninguém de maneira nenhuma  Pense a leitora que os pais vivem em comunidade regidas por leis sociais, escritas, inconscientes, e morais até. De forma alguma um dos dois teria a chance de abandonar as crias, tais como certos animais, sem sofrer sanções severas desse ato. Como diz o adágio: “quem pare, embala”.

                    Creio que deva ser mais ou menos por aí o sentido da crítica: os pais e mães como agentes opressores iniciais. E por que não seriam? Afinal, um ciclo interminável de coação acontece desde os primeiros papais e mamães. Acontece, os pais e mães são indivíduos completamente distintos um do outro, cada um com seu padrão de frustração diferente. E virtudes diferentes também, embora, à infância, serem um só. O que não é nenhuma descoberta, pois fato. E nem relevante. O que importa para a opressão total é que os desgraçados estão sempre dois passos à frente. Tu nasces na casa deles, comes a comida eles, vestes o que eles te derem. Ora , por que razão eles não se achariam os reis , já que tem tanto poder de decisão sobre a vida de um outro indivíduo distinto, no caso, tua pessoa  ?  Reis, sim, e cruéis, vez que ninguém pode intervir em seu reinado de humilhações: “estou pagando”. “Na minha casa, tem que fazer o que eu quero se quiser ficar”. A leitora já pensou em quão cruel essa afirmativa passa, sem nem citar o fato de, infelizmente, homens condenados a se apegarem uns aos outros, especialmente em estados de desenvolvimento?  Além de ser tratado como uma criatura incapaz da própria sobrevivência, ainda restringe todo o conjunto emocional a um estágio de dominado/dominante. Mas, e vem cá: as pessoas que se gostam não se defendem, unindo-se? Imagino que os mais sensíveis ouvindo isso devam estar lembrando do presente diário das crianças de rua: realidade de cada um ter, tirando as bobagens que se escuta na televisão,  de contar consigo apenas, e para sempre, sem direito à pizza. Mas somos humanos, filhos das savanas, senhores de todas as outras espécies, e, sobretudo, predadores canibais de nossa própria prole.

                     Digamos que ninguém gosta de ninguém. Digamos que em nossa carga biológica, todos esse comportamentos de opressão tendam a expulsão do indivíduo do bando, e com essa, a variação genética através da reprodução com indivíduos distantes, e, por conseguinte, a perpetuação da raça. Mas isso é outra história, e confesse a leitora se esse tipo de  hipótese  chega ofensiva a sua educação, afinal, no jornal disseram que legal e bonito a solidariedade,  voluntariado.   Não tenha raiva de outras visões do problema, leitora amiga. Pois, sobretudo, somos seres culturais, como me contaram em uma palestra. Uma sociedade fraterna sempre será mais interessante se supostamente, ou factualmente, moldada sobre esses ideais. E que tem  papai e mamãe a ver com isso? Pois bem, a família não é a origem da sociedade? A sociedade não é a família das famílias?

                    Isso é outra história. Papai e mamãe sempre serão opressores mais que qualquer outra coisa. No Oriente, até podem servir para passar valores espirituais, superiores, digamos. No Ocidente, todavia, os únicos valores que restaram para serem transmitidos serão econômicos. E bem conhece o sábio, atribuindo valor em dinheiro para algo, esse perde qualquer outro valor que não seja o monetário. O que torna pai e mãe opressores econômicos por conceito, que desconhecem, e não se importam com dado além do preço dos objetos de consumo.

Daí nossa frase preferida: “na minha casa, quem manda sou eu” .

            a leitora não se compadeça de sua pobre mãezinha, pois o oprimido há de se tornar o opressor, e se a senhorita, se já não é, um dia há de ser mãe.

 

XLIX

            O bababá do capítulo anterior teve por finalidade deixar contemplativo, amostra sóbria dos meses que passei sendo o escroque do bando. Se ficares assim, ao menos, por alguns segundos, multiplique por oito, e saberás como fiquei após bater no rosto da criatura que mais amei na vida, até então.  De certa maneira, um modo de compartilhar os sofreres. Longe de ser brincadeira, mera citação literária, a personalidade limítrofe possui um característico: a capacidade de trazer sofrimento aos que estão a sua volta.

                 Já que a conversa tendeu para o lado clínico, esse narrador fala diretamente com a leitora mais uma vez: o transtorno aqui mencionado  pode ter conseqüências gravíssimas, muitas vezes fatais. Um crise de carência, uma ansiedade passageira, podem ser, somente, crise de carência ou ansiedade passageira. A personalidade  limítrofe, no entanto, costuma se manifestar cedo,  permanece com o individuo até a hora do adeus. Não há nada de “fase” ou “crise existencial” envolvidos. Por isso, antes da leitora mais fraca de espírito começar a identificar-se de maneira egoísta ou irresponsável, recordo que estamos falando de um transtorno de comportamento, e sendo redundante, com conseqüências.

                 Feito o mea culpa, e antes que nos processem por uso indevido de profissão, sigamos os eventos da narrativa.

                Sei que, num dia, perto das férias de verão, Tispa aproximou-se.

                Estava esse deitado com uma revista de mulheres nuas em mãos, fotos boas de jovem atriz que despontava em uma das novelas. Sempre quis saber no que ajuda à profissão de atriz sair pelada, direto da intenção teatral às paredes das borracharias.

- Vamos acampar semana que vem. Tu vem ?- Convidou-me o amigo sem muito empenho.

O banido pára. Observa o convite, meio escaldado:

- Tu e quem ?

- Não te faz. – Disse.- Depois, o  teu acidente ocorreu em julho, estamos em novembro. As gurias já devem ter esquecido.

- Como se isso de tempo mudasse alguma coisa!- Tispa atalhou com conversa de bacharel :

- Crimes piores prescrevem em vinte anos. Depois, fugiste muito bem esse tempo. Tá na hora de encarar, malandro!- Sentei-me, larguei ao canto a atriz sem roupa.Sem muitas escolhas:

- E quando é o convescote ?

- Semana que vem, dia dos mortos. Acampamento do Dia dos Finados.

- Vocês têm mortos para visitar?- Perguntei, pensando em alguns parentes idos, sempre apareciam na memória nessa data.

- Não sei. Acho que não deva fazer muita diferença para eles, no fim das contas. Sei que a velha minha vó vai ficar sem minhas caras de má vontade esse ano. Depois, nem gostava dela mesmo enquanto era viva. E tu? Vai me dizer que não ia pra tua cidade só para fazer festa, de qualquer maneira?

Triste porém verdadeiro. Era visitar meia hora um que outro túmulo e o resto das horas a encher a cara de álcool com os bons camaradas da infância.

- Onde ?

- Em Agudo.

- E vai pôr Cris, Débora e companhia junto com a gringa ? Quer dizer, pelo que eu saiba...

- Não dá nada. Depois , estão se dando tri bem agora. Bom, desde o teu desaparecimento as gurias começaram a andar mais comigo e tal. Ah, e tem uns magrões novos no território também. Imagino que um ou outro vá ir....-Previsível. Em área de estudantes, a circulação de pessoas entre os clãs imensa, e irreversível.

- Quem tá pegando quem?

- A Déborazinha continua com o  Luciano. A Pá, arrumou um carinha enjoado. Bom, os outros são amigos dele. Ráina, não sei. Continua a mesma ficadeira de sempre, acho eu.

               Irritei-me :

- Quer dizer que invadiram o território e pegaram as fêmeas ?- Na verdade, não importava. Tinha que dizer algo.

- Podemos dizer que sim. Mas tu não vai me deixar mal, né, ô? Vai ser complicado ter que agüentar os caras.

               Ele ainda tinha a namorada para consolar.  Curioso Tispa referir-se às gurias. Sempre foram mais minhas amigas do que dele. Imagino que deva ter havido muita negociação lateral entre meu colega de apartamento e o resto da facção feminina do bando, enquanto minha ausência. De qualquer maneira, fazia horas que não abandonava a cidade em prol dos mosquitos e mutucas. Da cachaça na beira do fogo, o gosto de cinza na goela.

- Não, eu vou nesse negócio. Semana que vem, não é ?

- Sim, no dia dois. -Deixamos assim o assunto. Voltei a ler a revista.

               Quanto à questão da natureza feminina, pois bem, é infiel mesmo e não adianta s feministas afirmarem que não, ou tentarem culpar a sociedade opressora patriarcal. Menos de um semestre fora, e elas já estavam de amigos novos. Amigos, no sentido medieval da palavra:namorados, amantes, e por aí. Dentro do contexto, até que aquelas seriam bem diferentes da massa. Eu não tinha carro, Tispa tinha na cidade dele. E mesmo assim, as mesmas ainda gastaram um tempo aturando nossa presença. A presença de dois simples pedestres, quanto muito, caronas. E diga que estou mentindo quem nunca conviveu comas filhas da classe média, interesseiras de status até o último lingote de células. Não recrimino, aceito, todavia, essa  expectativa econômica das coisas.

               Para citar exemplo, vale um diálogo que tive com uma colega futura médica que afirmava, categoricamente que não pensava no carro do sujeito:

- No dia que tu andar de mão com um cara, ao meio-dia, ele dono de um fusca 63,  trabalhando de chapeador, na frente de tuas amigas, eu acredito.

- Aí também não, né ? – Respondeu a colega, imaginando a cena. Desculpa particular aos chapeadores, indispensável profissão em um trânsito como o nosso. Não são merecedores de forma alguma de ofensa, e afianço, que o árido de seu trabalho imensamente mais útil que essa narrativa frustrante. Entretanto, convenhamos que nada teme mais uma filha de classe média nesse mundo que baixar o estilo de vida que teve na casa de seus pais. Aposto:  esse deva ser o pesadelo mór das tais, sobremaneira. Contudo não as condeno.

                  O que a maioria dos que acusam o gênio feminino esquece que as mulheres partem do geral para o particular. Traduzindo: quando uma mulher pensa em alguém, é alguém com todas as considerações satisfatórias para suas necessidades, físicas, morais, emocionais, afetivas. A problemática veicular encaixa-se mais ou menos por aí. Alguém interessante ao seu ver, é, sempre, alto, abdome seco, simpático, sensível, protetor, e tem carro. A aplicar aquela  conversa fiada, lugar comum, do macho vencedor na natureza, bom para as crias futuras e et coetera. Poderia, mas não iremos, por que, se toda a vitória do homem na vida for ter motor e quatro rodas, prefiro voltar para a selva, casando com a primeira chimpanzé que errar a árvore.

 

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