Eu amei uma borderline

A mesma velha história de amor, num certo interior, de um certo Rio Grande do Sul, da vida...

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8. Capitulos 21 a 35

  

XXI

 

        Seguimos, os quatro contendores pela rua quase deserta. A destra doía como se estivesse quebrada. Em verdade três, já que Aure não tinha entrado na ação. Tispa estava quieto, parecia aliviado, por mais incrível. Aliás, todos curtindo alguma estranha tranqüilidade interior. A única  agitada, Aurélia.

 - Tchê, acho que quebrei a mão-Disse baixo, para não estragar a suavidade depois do alvoroço.

- Só se foi caindo disparando. – Retalhou Tispa.  Fabiana saiu em minha defesa:

- Não fala assim que ele me defendeu, tá! Tu atracado lá, nem reparou que tinha um me esbofeteando.

- Só tinha quatro em cima de mim. É ... Sim, dava mesmo pra te defender. Eram só quatro contra um.

         Aurélia riu. Riso meio nervoso. Percebi que ela se afetara com a bagunça.

- Ué, mas tu não é macho? Ora quatro, só quatro... Respondeu Fabiana irônica ao desabafo do namorado.O homem brigou com uma gangue inteira, ainda seria acusado de displicente. Mas Fabiana brincando. Conhecia a valentia do namorado.

Tocado pelo pulso do inimigo, peguei a feia pela mão. Ela fitou-me como carinho. Seria presunçoso dizer que esperou por aquilo a noite inteira, com porradas ou sem porradas. Puxei-a e beijei.

        Fabiana morava alguns metros de onde estávamos, no beijo. Cidade média, tudo a uma andada.

       Subimos scada para o apartamento, Fabiana morava sozinha.

       Sem b, ou c, atirei-me em uma das poltronas, catei Aurélia, puxei para meu colo. Nunca tinha visitado a gringa anteriormente. Intertido por demais, Aurélia exigindo atenção, repararia na decoração no dia seguinte. Beijei-lhe os seios por cima da blusa. Ocupei todos os lugares da saia justa. Tal prostituta, ensinou-me certa vez, entre chupada ou um toque mais forte, passava a mão no rosto como quem acaricia um cachorrinho.

   

XXII

             Acordei.

            Sem camisa,  as costas doloridas do sofá, a cara meio doída de algum tabefe. Aurélia havia ido embora. Uma fome de milhares clamava o estômago, por um ovo frito, com pão de casa, uma imensa caneca de leite  para acompanhar.Reparei no apartamento, tudo novo, comprado em loja. Incomum na classe estudantil, acostumada com doações de parentes, do fogão ao aparelho de barbear.

         A dona entrou de súbito na sala.

         Seria por demais cruel não descrevê-la: um único e branco camisetão, acima do joelho. Se ela esticasse o passo,  conseguiria um problemão com meu amigo. Escabelada, com expressão de ressaca, sentou-se numa cadeira no canto, móvel novo, comprado na loja, acolchoada. Atirado no chão, pensei em erguer-me, para não enxergar o que não devia.

- Ah, acordou. Tá com fome?

        Passei a mão nos olhos:

- Não, até que não...

- Mentiroso. Depois de ter brigado, dormido com a Aure, vai dizer que não está com fome?-   Vexei-me. Sentei-me com as costas escoradas num sofá.

- É mais não houve nada. A gente ficou só ...

- Pára com isso! Do jeito que ela gemia, vem me dizer que não houve nada?

        Fabiana ergueu-se, abriu cortina da janela da sala. Cortina caríssima. No nosso cafofo, nem cortina velha.

 - A parte que eu mais gostei foi do: vai... vai... Aperta...Apertaaa!- Imitou Fabiana perfeitamente histeria orgástica, momentos anteriores com, Aurélia. Triplamente vexado, procurei minha camisa com os olhos. Não encontrei. Lembrei-me do outro:

- Tispa está dormindo no quarto?

- Tispa, não. Ele foi embora cedo, com a Aure.

- Que horas são, Fabiana?

- Onze e pouco.- A gringa virou-se de costas e entrou no que deveria ser o banheiro.

       O sol a pino. Os carros passando. Sábado de manhã, quase tarde. Precisava ir embora. Encontrei a camisa atrás de um vaso decorativo, num aparador de canto. O apartamento tinha até aparador de canto, com jeito de ter pertencido a Bento Gonçalves ou um da estirpe! No nosso,  caixa de som velha, pifada, de amparo a porta-incenso, furtado do brique de Porto Alegre, minha pessoa roubou pessoalmente, com todo orgulho.

            A dona da casa retornou do banheiro, escovando os cabelos:

- Tu quer comer o quê?- Resolvi não ser irônico ao duplo sentido daquela interrogativa:

- Pão.

- Pão nada. Eu como pão semana inteira. Pão e polenta. Vamos come alguma comida de gente...

         Nem imaginava. O básico veio à mente:

- Pizza. Eu faço o molho. Pode ser?- Disse eu.

Fabiana aprovou a idéia:

- Isso! Pizza de coração. E calabresa. Mas assim vamos brincar de casinha: vai comprar no mercado na outra quadra os ingredientes, e eu faço o molho, pode ser?- Que fazer. Perguntei onde ficava o lavatório.  Saí, vesti a camisa, catei a carteira. Parti ao encontro de coração de galinha, e calabresa. O estômago embrulhou-se, senti o gosto de Aurélia na boca.

            Deixei o prédio rumo ao mercado mais perto. Quando voltava, compras feitas, dei-me conta: aquilo tudo parecia roteiro de filme pornográfico. Esses contos eróticos ridículos que se encontram. De repente, no meio da pizza, a loira sensual-vagabunda, empurrava a forma de pizza para o lado,  dizia:

- Agora está na hora de comer outra coisa, garanhão.-Começava um tecladinho tocando uma musiquinha ao fundo, e os dois interagindo, exatos, precisos, quinze minutos. Ou nobre leitor, nunca reparou que todas as cenas de filmes pornográficos têm a mesma duração? O cérebro do homem é doente. Na versão conto erótico, seria assim:

“Após ter passado a noite nos assistindo, se masturbando encostada da porta a namorada do meu amigo ficou.... No outro dia esperou que ele saísse... E disse que ficou excitada... Uma loira sensual, fêmea de seios médios e bundinha empinada.... E bla, blá, blá...”.. .

           Obviamente, o título do filme: “As Taras da Ninfeta Loira”. E o conto: “Tesão da namorada do meu amigo” Sexo comercial. Depois mesmo, sexo nem grande coisa. Tinha passado a noite, diz o homem bagaceira, fodendo, e não tinha feito diferença nenhuma na evolução individual. Creio que as cabeças mais fracas devam gastar a maior parte do tempo pensando nisso, criando fantasias. Quem tem um rumo maior, não deve perder tempo com essas futilidades.  

Não encontrei calabresa que prestasse no mercado. Só um quebra–galho de final de freezer.

            Pobre das revistas femininas se a classe média enveredasse por outros lados  Se as jovens “bem sucedidas” deixassem de contar orgasmos. Imagino que, segundo as revistas, o tal orgasmo deva ser comparado a explosões, fogos de artifício, e quedas de caminhões carregados de pontes.Bom, sei que homens não têm esse tipo de sensação de forma alguma, em toda a vida. Sei também que nenhum homem reclama de seus “orgasmos”. Tudo para os pobres machos da espécie reduz-se a sensação de estar expelindo, de arremessar ao longe. E acabou. Segundo elas, há fogos, banda de música, e um avião cargueiro alcançando  a velocidade do som antes de bater no solo.Afirmam também que se o cidadão outro do relacionamento não consegue acender o pavio da dinamite, nem fazê-la explodir, a solução é masturbar-se infinitamente. Creio que se adapta ao momento, afinal, é o “eu” o tempo inteiro. “Eu acho”, “Eu quero”, “Eu compro”. Nada mais preciso ao individualismo que “eu” tenha meus próprios orgasmos, e não os divida, nem precise de ninguém para fazê-los.Enquanto isso, na floresta, a classe macho freqüenta as prateleiras de locadoras de vídeo com títulos de “Virgens disso”,  “As Transas de não sei quem”, e outras, para verem atrizes fingirem até o limite do fingimento aceitável.

          Não parece demais a busca incessante pela sensação individual mais perfeita? A suprema satisfação do desejo individual? E tudo a disposição dos cartões de crédito.

         Sexo comercial é esquisito.

         Quando cheguei ao apartamento, meia hora depois, Fabiana ainda estava apenas de camisetão.

 

XXIII

 

- Tu demoraste. Trouxeste a calabresa?

- “Trazi” tudo. Tu não queres deixar eu fazer o molho, Fabiana?

- Não. Te falei que nós vamos brincar de casinha. Faço eu.

           Alcancei-lhe os outros ingredientes. Sentei-me no sofá.  A gringa tinha até um aparelho de som,  e japonês, na sala. Tocava uma sertaneja, de deixar triste o mais alegre. Reparei que a temperatura estava bem mais quente que na rua.

- Está quente aqui. Esse teu forno é bom.- Berrei do sofá para a cozinha.

- Não é o forno. Éo ar condicionado. Como acha que tu e a Aure não se congelaram, dormindo na sala sem cobertor?

        De fato. Dormimos os dois como se fosse primavera. Ela tinha até ar condicionado! Eu, e Tispa, dois ventiladores pifados, daqueles de repartição pública, parecidos com hélices de aviões da Segunda Guerra.

- Quer ajuda aí?- Ofereci mais uma vez minhas habilidades culinárias.

- Senta aí e não purganteia!- Delicada, Fabiana recusou.

       “Purgantear”. Fazia horas sem ouvir essa palavra. Fazer como purgante, incomodar. Restou-me parar de purganteá-la.

- Por que perde teu tempo venerando a tal da Ráina?! – Gritou  Fabiana da cozinha. Pensei ser uma das qualidades inatas da namorada de Tispa deixar as pessoas com vergonha.

- Porque eu gosto dela!- Respondi, curto e grosso.

       Minha vida não passava de uma lista telefônica. Todo mundo lia, folheava, e ria dos nomes estranhos.

- Tu acha que isso é suficiente? – Indagou.

- Não acho nada. Sei que gosto dela. É só.

       A gringa voltou para a sala:

- Assim, sem mais? Pelo que sei de ti, é um tipo metódico, analítico. Demais reduzir tudo a um simples “eu gosto dela”.

- Eu tenho acordo comigo mesmo: não perco tempo divagando sobre minhas emoções. Apenas as sinto. Não penso nisso.-Fabiana sentou-se, cruzou a perna. Não pude deixar de reparar em sua coxa.

- Pode ser. Por que se analisasse, ia ver que essa guria é um baita rabo-de-foguete.

            Rabo-de-foguete?:

- Como assim rabo-de-foguete?- Fabiana pôs o cotovelo na perna, e a mão no rosto:

- Rabo-de-foguete, pura bucha. Tá certo, ela uma gata, bonita mesmo. Mas só. No mais, é fútil, exibida, Maria-vai-com–as-outras. Tudo de belo que ela tem reduz-se à ponta do nariz dela.- Sem ser primeira a referir-se, com tão alusivo jeito, ao comportamento da queridinha da existência, outra se metia em minha vida.  .

- Mas ninguém consegue coordenar as coisas do coração.- Disse, em tom de música de descornado, poema de caminhão.

- No coração, não mesmo. Mas em todo resto, sim. Tu não consegue esquecer dela, tudo bem. Mas deixar de ficar com alguém por causa dela, já é burrice.

           As pessoas se enfiam na vida uma das outras. No fim, parece ser delicado transformar ações de caráter pessoal em com conversa de roda de amigos. De cada um a evento social. Não é assim a cultura? Não é mais interessante saber detalhes de cama de alguém do que tentar aprender algo para se melhorar a comunidade onde se vive?Fofoca. Eis terminologia cinetífica científica para isso:intensiva fofoca.

          Senti algum ressentimento. Ráina devia divertir-se tanto com aquilo, fazer-me tantas e tantas galhofas, pilhérias, que todos que nos conheciam, mantinham certo contato, julgavam-me um absurdo. Fabiana levantou-se e foi ver a pizza. Creio que deva ter sentido meu sentir, visto meu rosto,trocou a expressão de complacência por outra de quem era melhor ter permanecido calada.

          Ráina realmente tratava-me com desprezo para os outros? Não conseguia ter por mim um mínimo suportável de respeito? Que mal fiz se não desejá-la para ser minha namorada, primeira e única? Isso é tão desprezível?

   - A pizza está quase pronta. Só pôr no micro com a calabresa! -E ela tinha até  microondas! O forno do apartamento nosso sequer nos animávamos a ligar, temendo explosão.

   - Fabiana, fiquei curioso.- resolvi perguntar - Todo mundo conta  mesma história. De que o que eu sinto não vale a pena, Ráina não presta. Tudo que fiz foi tentar namorar ela. Isso parece tão insuportável assim?

- Para alguns perturbados mentais, uns filhos de uma égua, declarar amor é pior que ofender.Algumas pessoas têm natureza cruel. A crueldade é uma das virtudes humanas.- Refletiu ela, voltando para sala, sentando no mesmo lugar. Não bastava Tispa dando uma de psicólogo-filósofo, agora a namorada dele.

- O que tu entende por crueldade, Fabiana?

- Causar dor sem necessidade.Causar dor por prazer. Causar dor de forma que desejo interior de causar dor seja o mais importante.

           Restava encantar-se. Nunca havia pensado nisso, ou perto disso. Usa-se as palavras a vida inteira sem jamais tentar entendê-las.  Fabiana prosseguiu:

- Eu não ia falar, mas já que tu tocaste no assunto, Tispa contou-me toda história. E se tu não sabia, um dia, ele conversando com a Cris, soube que Ráina fica sacaneando pelas costas,  rebaixando. Dizendo que tu é o ridículo tentando ficar sempre com ela, coisas assim....

          Doeu o coração.

-...  Que ela já tinha ficado com meio Tradicional Diretório na tua frente, ver se parava de  olhar para ela com cara de cachorro pidão..

Fome perdida. Esquece a pizza, e trás a cachaça.

- Ela fica falando para quem isso?

- Pra todo mundo.

   Um detalhe veio em mente:

- Por que armam uma conspiração para me proteger? Até parece que...

- Até parece nada. – Cortou-me Fabiana. – Querem te proteger por que tu é legal. Cínico, mas legal. só por isso.E não ser esculachado por aquele pedaço mal formado de gente. Com perdão da palavra, que Deus me livre,  que um HIV coma ela inteira!

 

XXIV

 

            Eu tinha dois irmãos mais velhos. Acabara de ganhar mais uma.Comemos a pizza falando de amenidades. Ignorava fato até ali de Fabiana zelar tanto por minha insignificante pessoa. Enquanto conversávamos, a namorada de Tispa  parecia conhecer-me de longos anos. Deviam, ele e ela, falar muito desse narrador e suas inabaláveis teorias sobre tudo. Fabiana guardava também posturas interessantes, e distantes de sua formação acadêmica de administradora de empresas. Perguntei  por que não fez vestibular para outra área menos técnica.  Respondeu ela que precisava administrar o patrimônio da família.

Questionou-me por que Medicina:

- Pelo status e pelo dinheiro! – Respondi.

- E tu acha que tu vai ser um bom médico sem jeito para coisa? – Indagou em tom profético.

             Respondi-lhe, em tom mítico:

- Não conhece a lenda do filhinho-de-papai que abandonou um apartamento de luxo, e uma vida confortável para ser pescador?  Na verdade, queria ser surfista. Então, enquanto não estava ralando puxando redes de pesca, para a praia com a prancha de surfee. Diz que sentia uma atração irresistível pela água salgada, uniu útil ao necessário...

- E foi bom pescador ou bom surfista?

- O que ele aprendia surfando, usava para controlar o barco. E pescando, aprendia sobre as correntes, o vento, onde encontrar as melhores ondas. Uma coisa para outra, um bom pescador para um bom surfista. Penso que possa agir da mesma maneira na Medicina...

- E como quer que a gente não te defenda? – Perguntou Fabiana, finalmente. Vexei-me, como de costume. Terminamos a pizza, lavamos a louça. Deixei o apartamento antes que Tispa pudesse voltar, deduzir estar folgando demais com  a namorada, resolver surrar alguém.

 

XXV

 

            Vinha pela rua, coração calado pelo sexo da noite anterior, buchada completa de carboidratos. Muito tranqüilo caminhar sábado de tarde, sem companhia para dar atenção. Bom e mórbido. O homem quando empeça a passeios sem rumo, não tarda muito a morrer. Parece que andando, retarda-se o processo, permiti-se à consciência uma pausa do porvir.

          Vinha, nem contra ao vento, nem com as mãos no bolso.

          Disse que Tispa era meu herói várias vezes. Afirmo outra. Não que tenha um mínimo de tendência homossexual por meu colega de apartamento, nada disso. Sou cem por cento hetero, até a última célula de esse ser infame, e descrente, pensa em mulher vinte três horas por dia em sentido platônico, e uma hora em sentido prático, masturbando-me  Como aquele cara, filho de um mesmo momento histórico, conseguia ser tão seguro em tempos de tanta falta de segurança? Se quisesse comer, comia. Se quisesse brigar, brigava, quisesse explodir com Fabiana, explodia. Tudo tão simples, sem nem um vago vestígio de se proteger de algum arrependimento.   Ai de mim se fosse pegar Ráina pelo braço, jogá-la em uma parede escura, exigir meu desejo mais concreto. O braço acabaria por falhando, a parede sairia do lugar, ela terminaria com minha estupidez com um simples sopro de respiração.Quem sabe era esse tipo de atitude  Cro-Magnon que meu amor quisesse.

          Nada. Havia a porcaria do Borderline para rechaçar. Jamais seria fiel, jamais se manteria estável no lado de alguém, mesmo consciente de quanto amor pudesse despertar. Tal um jacaré, uma lagosta, uma minhoca. Ora, tente despertar alguma emoção mamífera em qualquer um desses, tente conseguir um mínimo de afeto. O resultado vai ser sempre mesmo: ausência completa. E diga-se que é quase impossível ser humano trabalhar com a idéia de ausência total, e plena Pois imagine que entre seres humanos sempre se mantém comunicação, linguagem corporal, tempo inteiro. Pois imagine que quando se pega um ônibus em uma cidade grande, se passa tanta, ou mais informações aos presentes. Nem suposto anonimato da cidade consegue matar, liquidar-nos, tornar apenas números, a ponto de perdermos capacidade inconsciente de trocar informações. De fato, é assim desde o nascimento até a morte. Afirmo na certeza de um acadêmico de Medicina de primeiro semestre. Duvido um pajé ianomâmi não saber disso. Duvido uma benzedeira analfabeta  de vila ignorar tal sutileza.

         Só não duvido de algum tipo ter transposto isso em palavras rebuscadas, metodologicamente corretas, ter feito uma grandessíssima tese sobre, como se fosse a descoberta, para depois entrar com auto-estima de um elefante macho, em uma sala lotada de estudantes fêmeas, como se fosse deus, fazer terrorismo pedagógico para trocar notas por sexo, com as mais avoadas.

        Não duvido.

        Mas tratando isso como verdade, impossível um homem isolado, pois sim. Sempre haverá algo a ser dito sem palavras. Imagine trocar essa linguagem inconsciente humana, própria e indissociável, com uma minhoca, um jacaré, lagosta, uma melancia. Impossível. Quase tão impossível quanto explicar a ausência, o que tentei, linhas atrás com essa analogia precária. A ausência é apenas ausente, com perdão da  linguagem feia. Imagine que se o que Ráina sentia por mim isso: ausência. Porém se sentia, então, quer dizer que havia algo a ser sentido. Mas não havia. Ausência. Simplesmente, nada mais além.

       Ah, e dói cara leitora!

      Se ela fosse infiel, quisesse, sem problemas.Tispa é um grande homem, Fabiana é uma grande mulher, Cris também, tratavam-se de pessoas seguras, certas. Esse narrador, jamais haverá de ser ter grande, nem ter boas intenções. Entrou num maldito de curso de Medicina por status, por dinheiro, ego: ter sido aprovado no vestibular mais concorrido da maioria das instituições! Não entrou para salvar vidas, se não for muito bem pago. Não entrou para trabalhas no SUS: entrou para ter uma clinica de três andares, fazendo fortuna da dor dos outros, dor essa vinda da doença incontrolável. Meus bons amigos jamais aceitariam a infidelidade, são nobres. Mas esse, pobre criatura incapaz de despertar amor em uma mulher, que chance tem de manter um segundo vivo de felicidade se não o  fizer? Mas nem isso. Ausência..

        Seria corno consciente, mas seria feliz. Levaria minha amada para esses bares de trocas de casais, mas seria feliz. Seria o homem mais feliz do mundo, sem dignidade, sem machismos. O guampudo perfeito, sem respeito nenhum.

           Aquela não daria esse prazer. Nem esse.

            Foi quando pisei na merda.

Sábado de tarde, indo pra casa, de ressaca, atolei o pé na merda.

            Fundo do poço. Nem uma graminha ao meu alcance. Restou entrar no apartamento com um pé no ar, pulando feito saci. Passei pela cozinha, à moda Pererê, larguei o tênis podre no tanque. Sorte não ter roupa esperando lavagem. E o cachorro, ou gente, ou que fosse tinha problemas intestinais: a bosta fedia como uma desesperada.  Larguei água por onde deu. O fundo do poço. Vontade de chorar. Não sou homem o bastante para não chorar. Antes de desistir do fiasco, ouvi  voz feminina nas minhas costas:

- Tudo bom? – Perguntou. A voz, conhecida.

           Era Ráina.

 

XXVI

 

          Tirei o tênis. Sem nada mais para dizer:

- Enfiei o pé na merda. Normal.

Ráina sorriu um risinho de meia boca. Pareceu triste ou constrangida:

-Normal. Acontece com todo mundo. Eu queria conversar. Teu colega abriu pra mim.

          Levei-a para sala ainda sem entender. Ela nunca me procurava. Tinha ido uma, ou duas vezes, ao apartamento. Com um pé de meia, o outro, de tênis, sentamo-nos nos dois únicos sofás. Vestia-se toda em preto. Jaqueta preta, blusa com decote generoso. Serena, intocável, perfeita. O cabelo preso com uma borrachinha. Parecia uma secundarista. Meus pensamentos de minutos antes vieram à tona. Algo ela precisava:

- Tu ta precisando de alguma coisa Ráina?- Ela riu.Tão óbvio, chegava a ser patético.

- É que ontem eu te vi brigando e ...

- Tu não vieste aqui por isso.- Cortei assunto, terminei com as voltas. Ráina passou a mão nos cabelos, abaixou os olhos:

- Como se faz um aborto?

Congelei. Na contração muscular, dei com o calcanhar, sem tênis, no chão:

- O quê?

- Aborto. Como se faz? Quer dizer, faz medicina, deve saber. Eu preciso saber.

Respirei:  saudade do cheiro do tênis sujo. Levantei, sem reação.

            Ráina seguiu:

- Assim, digo, seguro. Que eu não tenha problemas maiores. Eu pensei em  alguma droga. Mas eu não sei o nome. Tu sabe ?- Foi minha vez de passar a mão pelo cabelo:

- Olha, guria...

- Ninguém quer ter filho agora no primeiro ano de faculdade. Me ajuda?- Ri. Juro que maldisse o Criador, e ri. Ri como nunca ri em toda existência. Olhei pra aquela com desprezo, com raiva, com amor.

- Te ajudar como?

- Diz o nome das drogas abortivas...- Ela me pediu como que pede uma bala de banana num bolicho. Menos mal, eu não existia enquanto criatura sensível, namorado, esposo: existia enquanto caixa de ferramentas. A moça deve ter lido o pensamento. Olhou-me sem piedade:

- É que como eu sei que sente alguma coisa por mim, eu pensei...

Ela pensou. Ela finalmente pensou.

- Eu ia te dizer como se faz um aborto? Quer dizer, como ele gosta de mim ele vai me ajudar com um aborto!- Respondi.

            Digamos, desejava derrubar e chutar aquela infiel:

- Ah, mas não é pra mim! É para uma outra!

   

XXVII

 

            Respirei aliviado. Quem disse que soltar a respiração ajuda a relaxar? Atordoado, deixei Ráina falar, sem prestar atenção em vírgula menor. Quando terminou com um solene:

- Então?

            Finalizei:

- Desculpa Ráina, mas sou católico. Isso é crime perante Deus e os homens, Minha religião não permite.

          Ráina entrelinhou-se:

- Tu? Católico? Como que andava fazendo apologia ao Diabo àquela noite e...

- Pois. O Diabo é mito católico. Aborto é real. – Conclui, para cortar o assunto.- Ela retornou ao estado normal de pouco se importar com minha pessoa:

- Bueno, se for assim, nada mais tenho que fazer aqui.- E levantou-se, esperando que eu abrisse a porta.

- Espera. Fica. Duvido que tenha algo tão importante para fazer em casa que não possa tomar um chá comigo.   Minha amada olhou-me de estranha. Corou-se, em ouvir..

- Chá? Mas eu nem estou mal do estômago ...- Disse Ráina, sorridente.

- Deixa calçar outro tênis. Espera um pouquinho. Liga esse som. Já volto.

 

XXVIII

           Retornei do quarto. Fomos à cozinha. Quis dar chá de camomila. Pediu-me chá de carqueja, amargo chá de carqueja. Sentenciou apreciar coisas amargas. Não duvidei. Sentamos os dois, como em uma dessas cenas de filme, um frente ao outro. Uma musica de FM passava, sutil pela porta, tal o mesmo vento gelado de inverno. Pois até inverno resolveu parecer naquela semana.  Tempo nublado, por capricho de um, chuvisco ensaiava despencar do céu.

- E o Tispa? Perguntou ela.

- Foi estudar para ser Ministro da Justiça, creio eu.

          Ráina sorriu.

- Tu duvida ?

- Não. Somente pensou ser pouco provável A água esquentou. Eu vou...- Ela interferiu:

- Deixa que faço. – Levantou-se para desligar a chaleira, trazê-la a mesa. Como havia uma única xícara no apartamento, dei-a para minha convidada. Nós, moradores, usávamos canecas de times de futebol. Ráina trouxe a chaleira, pôs em cima da mesa sem toalha, pois, que toalha, em apartamento de macho? Pegou saquinho, pôs na minha caneca. Outro, colocou em sua xícara. Despejou água em nossos saquinhos, candidatos a chá, sentou-se.

         Não resisti:

- Tu caiu e bateu a cabeça?

- Por que?

-  Sei lá. Tão... Delicada.

        Ráina corou-se:

- Sei que não sou uma moça delicada. Depois, futura engenheira, né? Meu negócio é cálculo e concreto armado. Mas dá para tentar, vez em quando...

       Rimos juntos. Pessoas ficam íntimas quando riem juntos.

- Tu já ouviste falar na cerimônia do chá?  Indagou-me.

- Claro. Do Japão. Até não é o chá em si, mas a cerimônia. - Respondi

- E não sente falta disso às vezes? Assim, delicadeza, cerimônias ?

       Estranhei a pergunta:

- Olha, nunca pensei nisso...

        Ráina prosseguiu:

- Tenho vinte anos. Minha avó casou-se com quinze. Eu beijei meu primeiro namorado com doze. Nesses oito anos, é o primeiro cara que conheço que convidou para tomar chá. Sempre o mesmo: “vamos tomar uma cerveja”. “Vamos dar uma volta”, e tal.- Pus o chá na boca. Ela prosseguiu:

- Assim: tudo que me aparece é ficar ou não ficar. Eles olham: “ó lá a galinha da Engenharia”, e chegam...

        Cortei-a:

- E tá lá a galinha da Engenharia.- Ráina envermelhou-se.  Meteu os olhos na xícara, tomou um gole, prosseguiu:

- É, pois é. É que é difícil ficar sozinha. Mas não sei, sinto falta de coisas pequenas.

- Por exemplo ?

- Cerimônia do chá, por exemplo. Delicadeza, por exemplo. Vai ser sempre a Ráina abraçada, ou numa garrafa de cerveja quente ou em algum idiota que nem sabe beijar.- Aquelas informações desceram serenas, em contraste ao chá quase quente. Encantei-me com a possibilidade de Ráina ter uma reação humana com relação a mim. Ela bebia, creio que buscando a tal delicadeza, goles pequenos, diferente dos que fazia com a cerveja. Lembrei-me do almoço, que Fabiana contara. Interpelei-a:

-  Por que tu anda falando mal de mim, Ráina. Dizendo que sou chato, que não te largo, não paro de te encher?

- Para ver se fazia alguma coisa, ora. Diz pra todo mundo que me ama, mas quando eu fico perto de ti, fica me olhando como se eu fosse uma besta mitológica. Pior, cuidando caras que estão perto de mim, pra ver com quem vou ficar!  Olha como se tivesse obrigação de satisfazer teu amor, ainda por cima me trata como se eu fosse ninguém! - Caiu a casa. Quis pular para dentro da chaleira de tanto remorso. Mas segui no ataque:

- Ráina, me despachou aquela noite, lembra? O que tu queria que fizesse?

- Tu nunca viu documentário? Tu já viste a leoa aceitando o leão de primeira? - Taquei a caneca na boca.  Pensei. Não éramos leões, quanto muito, macacos sem pêlo. E chimpanzés são promíscuas:

- Nós não somos leões, amorzinho. Depois, facilita pra todo mundo, tinha que complicar pra mim por quê? Tu queria que eu...

- Acha que beijar alguém é tão grande coisa? Não precisa nem sabão pra tirar gosto de estômago com cerveja que fica depois de cada “beijo”.- Respondeu incisiva, e pondo xícara sobre a mesa.   Ela enervou-se. Muito bom, estava voltando ao estado normal de Ráina. Irritei-me também:

- Beijo na boca, no pescoço, nos peitos. Mão nas coxas e em outros lugares que nem vale a pena mencionar. E se isso não significa nada, não sei mais o que significa. 

           Ráina parou. Bebeu outro gole. Bela cerimônia do chá, a nossa.

- Tu pensa que isso é, mesmo, uma grande coisa? Quantas bundas já apertou? Cadê elas, onde estão? Tem algum registro na tua mão que diga quantas bundas passou a mão? Acho que não!   A mulher contraía o rosto, irritada. Não digo carente, afetada. Apenas com raiva.

-  Que me lembre, não!

-  Não te sobrou nada. Por isso. Nunca sobra nada. Sempre um nada atrás de outro nada, Um vazio que não termina nunca... E daí que diferença faz?  Fez alguma para ti?- A palavra borderline voltou à memória. Olhei-a, parecia gato bravo, preso pelo rabo, nalgum lugar. Recordei Sancho.

- E Sancho? Lembra do Sancho?

- Sancho é um perfeito idiota. Pensa por que gosta de mim...

- Assim como eu?

        Ráina calou-se.

 

XXIX

 

- Idiota perfeito como eu? É, Ráina?

- Contigo é diferente.

- Por que?

- Contigo eu me importo.- Calei-me. Olhei a mesa sem toalha. As nossas veias ali expostas,  calor no rosto de minha querida. Ela pôs mais um pouco de água. Resolvi continuar provocando:

- Se importa como?

- Cala a boca!- Aceitei a sugestão. Ela voltou a beber o chá em pequenos goles. Estiquei a mão para tocá-la. Ráina fitou-me.

        Não pense a leitora que, apesar do clima de redenção, tudo acabará em beijo. Após tanto tempo beijando, e beijando, ação que menos precisávamos era essa. Peguei em sua mão. Tinha visto a força do gesto com outra. Com a mulher que amava seria melhor que mil trepadas de final de festa.

        Ráina não se inclinou para o beijo, nem apertou meus dedos com sua mão gentil. Apenas deixou ser tocada, sem me olhar de frente, sem exigir meu rosto no dela.

Disse que sou um canalha, infeliz e sem honra. Não resisti manter a paz do momento:

- Borderline maluca... – Disse, olhando-a querendo ver sua reação. Se ela perguntasse o por quê daquilo, daria uma explicação. Ou não. Faria um charmezinho para provocá-la. Heis que se não quando:

- Só eu? Bem vindo à turma...- Espantei-me. Ela mirava minha expressão com  cara de guria que tinha descoberto um segredo, vitoriosa. Escuto uma barulheira na porta. Era outro morador do apartamento. Por que raios o infeliz tinha de aparecer àquela hora? Entrou como se fosse a polícia catando traficantes. Bateu a maldita porta, entrou na cozinha como um tufão de vento.Vendo Ráina, estranhou.

- E aí, crianças? Cumprimentou meio vexado por ter atrapalhado. Virou às costas e se sumiu no resto do apartamento.  Ráina soltou o cabelo. Deixou solto por alguns instantes, voltou a prendê-los com um rabo-de-cavalo, como diziam minhas primas mais velhas.

- Chega de chá. Está tarde, preciso ir embora...

- Ainda é cedo. Depois...

- Depois  não, agora. Dá tchau pro Tispa por mim.- Levantou-se da cadeira, silenciosa.  Vi que não haveria escolhas. Levei até a porta. Ráina tentou, por reflexo social,  beijar meu rosto. Hesitou no meio do caminho, encarou-me e deixou tudo por um sorriso de companhia:

- Acho que falei demais. Bom, mas agora sabe o que fazer, não sabe?- Passei-lhe a mão nos cabelos. Creio que ela deva ter pensado que a pegaria pela nuca e a beijaria, pois forçou o corpo para trás. Mas ainda sim sorriu, virou-se, e desceu as escadas.

           Fechei a porta, entrei no apartamento, e agradeci, aos berros, com toda a educação do mundo, ao meu co-morador:

- Tispa, filho da puta!!!

  

XXX

 

             Foi surpreendentemente fascinante ter Ráina conversando comigo naquela não mais que meia hora. Jamais havia pensado essa possibilidade. Creio que jamais havia dado chance de ela poder dizer frase que não fosse, de certa maneira, dirigida por alguma expectativa. Creio que deva ser isso parte também do amor, querer hegemonia mental sobre o ser amado. Ou pelo menos tentar.Ráina afirmou que às vezes em que estávamos juntos olhava-a como quem vê uma besta mitológica. A mais exata das verdades. Quando a tinha em frente, não era mais Ráina, a pessoa humana, que refletia na retina. Era o amor Ráina, a amada Ráina, que não respirava, nem ia ao banheiro para minha própria satisfação de possuí-la. Tal uma criatura que só existe para termos medo, ou admiração, sem nunca preocuparmos quão cruel possamos ser.

          Ainda: se gostasse tanto assim dela, por que a tratava como se ninguém fosse? Não poderia responder, nem dar fiança. Posso dizer que não sou Tispa. Não sou um homem de coragem, generosidade, ou um mínimo de hombridade, embora  nem saiba bem o que signifique a palavra. Tratava mal, sim. Fingia que ela não passava de mais colega de ônibus, ou alguém que se passa pelo centro da cidade.Pois até chuva houve, durante nosso chá. Para a perfeição devia ter sido um temporal, raios, alagamentos, batidas de carro, barracos desabando nas vilas. Não houve.

         Força aos contrários, a dor sempre atrai a beleza, como a própria beleza atrai a dor. Tente explicar isso a um brasileiro, aposto que ele afirmará que a leitora não entrará no céu, e etc. Mas que esperar do povo que fez sua cultura sob afirmações ora falsas, ora verdadeira, mas tão revestidas de arrogância e egocentrismo, que acabaram se tornando verdades universais?

        Tudo para nosso chazinho descompromissado.

       Interessante quanta força fez meu amor para não nos beijarmos. E simples: por muito ter beijado, perdeu vontade de beijar. O beijo não significava mais que deveria ser. Seria um reflexo sexual, muscular, social, qualquer, menos o afetivo a ser compartilhado. Compartilhar: eis palavra que minha egoísta amiga pareceu tentar explicar.

      Ficar não quer dizer compartilhar. Ficar seria mais bem traduzido por “masturbação mental” de primeira ordem, fecham-se olhos, ignora-se realidade da solidão por instantes. Como se dissesse “tu satisfazes meu desejo; satisfaço o teu, nenhum de nós tem nada a ver com isso”. Pode parecer estranho o hábito dos dias, prazeroso, tão cantado.

     E desesperador! A certeza que a pessoa certa não vai vir, a falta de paciência em esperá-la, o próprio desespero em ser deixado para depois, sem beijo de língua para consolo.

 

XXXI

- Como eu ia saber que tu resolveste trazer a outra para cá logo hoje?- Berrou o Tispa do banheiro, a porta aberta. Não perguntem as razões da porta estar aberta.

- Que merda, tchê! Logo hoje...

- Mas, e aí? Comeu?- Fiz de surdo ao tom irônico.

- Se não comeu, pelo menos agarrou? Ou ficou só no cafezinho mesmo?

- Era chá. E ficou só no chá.

           Tispa deu uma gargalhada:

- Então é melhor que se imaginava.- E apareceu na sala. Liguei a televisão, sentei-me, preparando a paciência para o interrogatório que se seguiria. Curiosamente, Tispa não tocou mais no assunto. Sentou-se também. E quando tentou o diálogo:

- Que fodão com a Aurélia, hein ô cabeçudo! Até eu fiquei com vergonha.

- Pensei que a porta estivesse fechada, a do quarto de vocês.- Proferi.

- Sim. O problema é que as portas daquele apartamento são de papel. Eu e a gringa ficamos conversando e ouvindo vocês. Espetáculo bizarro, diga-se. Estranhei o enfoque. Aqueles contos eróticos ridículos voltaram a mente:

- Pensei que, com a barulheira, a tua namorada tinha se excitado.

          Tispa deu outra gargalhada:

- Meu guri... É bom parar de ver filme pornô. Ela riu foi muito dos: “Vai... vai... vai...”. Foi hilário. De fato, precisava parar com a pornografia. E por razões óbvias: distância com a realidade.

- Amigo Tispa, um de nós tem a sexualidade com desvios. – Afirmei.

- Tu que tem que parar de desviar sozinho pra casa. – E riu até uma tosse de cachorro engasgado tirar-lhe o gracejo.     

         Em parte, imperava certa razão, dificilmente sextas-feiras como aquelas. No costumeiro, ir para casa cambaleando de cerveja e falta de expectativa. Vida de estudante.

- Aurélia... Aurélia... Aurélia Camargo.  “Há anos raiou nos céus fluminenses uma nova estrela”. Ou qualquer coisa assim.- Recitou.  Pensei que Tispa estava variando:

- Um neurônio está dando curto aí, tchê!

- Não, ignorância literária. Do livro Senhora. Aurélia Camargo e Fernando Seixas. Tu não estudou isso? Cai no vestibular...

       De literatura, só lia os resumos dos cursinhos. Recordei de Aure ter dito algo a respeito dentro do Diretório.

- Lembrei. - De fato, página com o resumo voltara a cabeça – Na última parte a tal Aurélia tem um ataque de frescura num sarau, faz um fiasco, depois pede desculpa ajoelhada para o marido. Esculacha com o cara o livro inteiro, depois se amansa e chama ele de “senhor de minha alma”. Ridículo!

- Tu confundiste os resumos, ignorância. Não é Aurélia, do Senhora, que faz fiasco, ela só se ajoelha. É no livro Diva, do mesmo autor, que a mina desmaia  Depois isso, é arte, literatura. Ridículos, somos nós.- Respondeu ele.

 

XXXII

            Que poderia dizer sobre o domingo que se seguiu ao sábado? Que poderia eu dizer sobre paredes brancas, folhas brancas de papel, aquários vazios? Pois bem. Dormi. Acordei. Olhei televisão, fiz palavras cruzadas. Dormi outra vez. Comi um pão com geléia. Pão da colônia presente da sogra de Tispa. O próprio, almoçar com a filha da velha, lasanha e vinho, para celebrar o inverno.

           Olhei televisão. A pasta, cheia de material de estudo, atirada no mesmo lugar desde sexta-feira, criando poeira. Pelas cinco da tarde, fiz um mate. Tomei, olhando pela janela do apartamento as crianças da vizinhança que brincavam, corriam, faziam como crianças.  Não sou pedófilo. Penso ser a atitude mais digna para esse tipo de tarado é tiro na cabeça. Mas não pude deixar de reparar em uma guriazinha de uns dez ou onze, bonitinha. Dali alguns anos um problema para os seus pretendentes. Lembrei-me de minhas colegas de quarta-série. Por onde andariam? Eram tão bonitinhas, também.

          Perderam a inocência, certamente. Parece que crescer se resume em perder. Perde-se a espontaneidade, inocência, a simplicidade, e acima de tudo, a liberdade. Mas se ganha coragem, até se descobrir que para algumas situações, ser corajoso é o que menos importa. De qualquer forma, resta acreditar que, em breves instantes, deitado entre o dormir e ficar acordado, ainda se revele um estado de espírito comum, tanto na infância quanto na vida adulta.

        Anoiteceu. Olhei televisão. Comi outro pão com geléia. Fui dormir.

 

XXXIII

 

           Amanheceu.

            Despertei com relógio de pulso xingando e acusando de preguiçoso. Se Santos Dumont soubesse, o que fariam com seu invento, não inventaria. A generosa manhã de segunda-feira.

            Até que, quando se está cercado de pessoas interessantes não tão dolorido. Imagino que o trabalhador de siderúrgica deva sofrer bem mais, rodeado de barulheira de máquinas, machos por todos os lados. E mesmo, ainda tinha seus motivos para dar suas risadas. Nem o monstro verde chamado trabalho consegue tirar prazer de umas boas risadas.

           Digo, cercado por pessoas interessantes por estar aos olhos de minhas coleguinhas de sala. Belíssimas  representantes da fêmea moderna, com seus perfumes de importação, cabelos nos melhores xampus, aqueles rostinhos de quem nunca precisou lutar por nada. Não que esse tivesse, só via as circunstâncias de forma menos pétrea, menos garantida que a classe média adora afirmar. Pensei em fazer umas flexões antes de me arrumar. Mudei de opinião ao reparar a ausência de sol, e um pingo anunciador suicidando-se contra o vidro da janela.. Segunda-feira, e com  chuva.

           Levantei-me, fui ao banheiro. Saí do banheiro, entrei na cozinha. Uma música ranchera bateu nos neurônios. Ranchera, se leitora desconhece, a versão mexicana do sertanejo. Nem a leitora constrangida em não sabê-lo, pois bem se sabe brasileiros se consideram coisa à parte da América Latina. Tratam o resto  da vizinhança como os europeus, distante e exótica. Pois que seja: fiquei ouvindo mentalmente gemido de um mexicano descornado, enquanto fazia um café, atorava uma fatia de pão da colônia, procurava pote de geléia. E o amor subiu do estômago.  Todos sabem que há pequena lembrança, o amor sobe das entranhas até a boca. Uns sentem vontade de beijar, outros de ser correndo. De fato, quis apertar alguém especial.

        Poderia ter escrito esse parágrafo de forma mais poética. Verdade, poesia somos nós que damos, e creio que um monte de metáforas cansativas faltaria para descrever com a devida realidade essa sensação de ver-se invadido pelo desejo. Esquentei água, fiz e bebi o tal café da manhã. Vesti roupa de assistir aula. Peguei o guarda chuva. Desci, sem nenhuma vontade de ser médico, à parada de ônibus.

        No coletivo, não dei meu lugar para uma senhora com uma bengala. Foi  em pé até o campus e o Hospital Universitário, onde descia também. Por que? Não sei. Porque cheguei primeiro. Porque o lugar era meu. Porque, enquanto estudante de medicina, era melhor que ela. Porque nada tinha a ver com isso. Desci. Chovia. Procurei os pardais nos fios. Tiraram a manhã para dormir até o almoço os felizes. Invejei-os.

        Cheguei ao prédio. Subi até a sala.

        Tive de agüentar uma manhã inteira de gozações. Obviamente, todos sabiam da nossa briga de seta, no Tradicional Diretório, espanto de uns e descrença de outros. Um tipo metódico evita atividades pouco previsíveis, como uma sessão de pancadas desnecessárias. Riram de minha cara, contaram vantagens.

       Às onze horas, com a mesma indisposição para tornar-me doutor do início da manhã, fui almoçar a comida temperada do Restaurante Universitário. Bandejão nosso que estais no céu, quantas ressacas amenizara no passado, de quantos porres nos salvará no futuro. Degustei-o com devido merecimento.  

       Voltei para casa, para fazer nada absolutamente o resto do dia inteiro.

       Perdão, faria algo, sim. Olharia televisão, iria ao banheiro, e ficaria deitado. Quem sabe, ouvisse um pouco de rádio, mas não alto, para não estragar os tímpanos.

       Ninguém visitaria. Ninguém iria vir me ver. Ninguém ligaria. E ninguém haveria para ser lembrado em uma ligação. Os livros, tralha indispensável a um estudante honesto, aguardariam, incomunicáveis, dentro de seu cárcer inviolável:  a pasta. E seria bom que não ousassem sair dali.

      Saudade dos dias de cursinho.Pelo menos restava uma estúpida razão para preocupar-se. E sempre uma vestibulanda histérica para se distrair. Conforme, explicado em capítulo anterior,  melhor época para se “comer alguém”. Elas, sem o bando para as protegerem, aparecem extremamente acessíveis. E ainda o vestibular, monstro sem presas, que assusta, deixa carente, e bem mais fáceis de levá-las aos lençóis. Saudade.

        Quando a noite veio, e após ter desperdiçado outro dia de juventude em cima de um colchão, decidi enganar o tédio e ir ver Cris.  

 

XXXIV

 

         Cheguei ao apartamento pelas sete.

- Oi, tchê! E aí, por que a honra?

- Nada além de um mate!- Respondi a minha psicologista preferida.

  Entrei. Cristiane já tinha a cuia pronta. Serviu-me como se esperasse companhia.

- E a Débora? – Perguntei, observando Cris servir o mate.

- Saiu com o Luciano.- Luciano, o namorado que podia ser meu pai.

- Mas não dá folga nem na segunda? –  Disse, enquanto Cris alcançou-me o mate.

- Ah, pois é. Mas sabe que o infeliz está com problemas com a ex-mulher. Aluga a mana que é um terror.

     Quem manda namorar velho:

-  Mas também, Cristiane.  Aposto que o indivíduo deva ser pouco chato...

- Pouco chato é eufemismo! O indivíduo é chato que nem criança com dor de dente. Purganteia o tempo inteiro, implica com as roupas. E ainda quer que a mana faça massagens nele. Eu digo que isso é reumatismo, ela não acredita...

No mínimo, esperado.

- E tu te entende com ele?

- Olha, tchê, ele chega aqui, eu faço sala, e tal. Mas não dou muita conversa. A mana que veio com essa de sair  de casal, eu e um amigo dele. Dispenso.

- Por que?

- Eu não vou servir de troféu pra velho nenhum, tipo um couro esticado na parede. E o outro ainda era capaz de querer me comer. Aí já viu!

      Adorava aquela mulher. A definição perfeita  para o caso adequado.

- Onde ela conheceu esse cara?

- Ele era amigo do pai. A história começou num churrasco lá em casa...

- E teu pai junto?

- Não. Digamos que ficou encarando, e coisa. Depois, deu um jeito de dar uma carona pra ela, e deu nessa merda que tu estás vendo.

Passei-lhe a cuia sem água.

- Que idade tem esse índio, Cris?

- Sei lá. Uns quarenta e um, creio eu. Mas é uma velhinha de sessenta de tão enjoado. A verdade é que esse negócio de trocar força por sabedoria é besteira, invenção de escritor velho. Na hora do h a mulherada prefere um leão novo mesmo. Não tem dessa de “know-how” por juventude. A falta de testosterona é fatal para o homem...

        Cristiane serviu-se do mate.

        Um pensamento com mais de dois mil anos de atraso.

- Mas eu acho que não é bem assim, Cris. Tu andas muito pré-histórica!- Apedrejei, enquanto ela mexia na bomba para acertar o mate.  

- Bueno, eu sou fêmea, sei do que estou falando. O homem quanto mais velho, mais vai se aproximando de ser uma mulher. Já reparaste como o teu avô tem manias? E como a tua vó é divertida? O teu gênero não foi feito para viver muito, meu amigo. O momento de vós está em sua capacidade de derrubar boi a tapa.- Mesmo adorando Cristiane, cortei-a:

- Peraí, mulher! O homem tem suas realizações, tem suas...

-... Como vocês diz – Prosseguiu ela – Minhas realizações minha benga! Teus planos e conquistas são todos no único e pouco nobre intuito de atrair mulheres!: Pois é.preciso aceitar a tua natureza.

- Como vocês não tivessem uma também!

- Sim, mas a nossa é governar a de vocês. Ficarmos paradinhas, sexyzinhas, esperando os machos dessa espécie derrubarem o boi, trazerem a carne, protegerem do urso.Mulher nenhuma quer um homem sentado atrás de uma mesa de desenho, engordando, mais perfumados que a gente, e reclamando do pão, da falta de amor, da não existência comprovada de Deus!

          Calei-me, contemplativo. Inaceitável, mas lógico. Devo dizer, a irmã de Déborazinha estava inspirada aquela noite.

-  Então, nós temos que ser chimpanzés sem psique?

- Claro!- Convaleci-me:

- Não acredito que ouvi isso de uma estudante de psicologia!

- Ah, um chimpanzé macho pode  ter uma psique. Um macho humano, não! Nós não pedimos em casamento chimpanzés, ainda... E para que diabos serve uma psique no homem, se vocês vivem tão poucos, se vocês são só vivos enquanto têm força?  De que serve, diga? Para ficarem horas lambendo o próprio superego, até morrerem de tanta masturbação?  O homem moderno parece que perdeu esse resquício  de sua memória genética de tanto olhar televisão, ir ao cinema, e ter problemas existenciais.  Por isso nós dominamos o mundo agora, de direito e de fato. Nossa memória genética intacta, meu amigo.  Vocês têm “alma”, nós agimos.-  E ainda alcançou o mate. Engoli em seco. Tinha de responder aquela imbecilidade:

- Mas, Cristiane, somos nós seres culturais, históricos...

- É. Pode ser. Mas e daí, grande África? Como se o teu conceito de felicidade dependesse do teu passado histórico, cultural. Estamos falando de individualidades. Agora, reflitamos: em baixo do tempo quente, na sexta, no Diretório, todo mundo batendo em todo mundo, que sentiste?

Aroma de processo maiêutico no ar. Porém, que fazer:

- Não senti nada. Os caras atacaram, nós revidamos. Fiz o que tinha que fazer.

- E depois, não veio um vazio desconcertante? Seguido de uma vontade absurda de fazer sexo?

- Eu fiz sexo.

- Sozinho?

- Não  Sexo mesmo. Havia uma guria. Nós fomos para o apartamento da Fabiana, e foi. Sexo de verdade.

- E quando tu acordaste no outro dia não havia passado tudo: ansiedade, raiva, vazio? O universo não pareceu perfeito?

Ela venceu. Outra vez, de novo, novamente:

- Sim.

- Então, meu lindinho. O teu processo histórico, a tua cultura disse somente se vocês iriam brigar de soco, ou se usariam alguma arma. E se usassem arma, que arma usariam. Se deveriam fugir quando a Brigada aparecesse, que reação deveriam ter se aparecesse a Brigada. O prazer, o que te levou a sair no dente, ao invés de fugir, nas tuas células. Satisfeita a natureza, todo o resto bobagem!

Restava um último foco de resistência nesse ser derrotado:

- E  as guerras? E a Segunda Guerra? Vai dizer que...

- Ah, pára! A guerra é feita por homens. Os grandes homens que a cultura pop acusa de se esconderem atrás da mesa tem os mesmos genes que o soldadinho que morre com a boca aberta atrás da trincheira. Quando a vitória vem, vem para os dois. O general sai bem, e o soldado que sobreviver volta como herói. E que mulher não quer um macho vencedor? Que homem consegue ficar parado em casa, vendo todos indo para a sua possibilidade ser homem? Hitler, Stalin, Churchil, prisioneiros de sua própria natureza.

          Aquilo fora demais:

- Hitler, pelo amor de Deus! Aí tu te passaste.

   Entreguei-lhe cuia. E estava irritado. Apologia a criminosos fora demais:

- Não leva para esse lado, tu entendeu muito bem o que eu quis dizer... Não vem dando uma de inocente pra mim. Estamos falando de natureza humana. Depois, não pensa não que a  vida começou depois por que não começou. Para tu estares aqui agora, os pais dos pais de teus pais devem ter sobrevivido a guerras genocidas das mais diversas formas, Aliás, tua grandiosa cultura fruto de morte milhares de seres humanos. E diga que essas pessoas não tinhas expectativas. Ou aquela adolescente presa num navio negreiro não tinha sonhos, não queira casar, ter filhos, uma casa, ou o que fosse de valor para ela? E aquela indiazinha atravessada pela bala de um arcabuz não tinha um  amor  de sua vida, não sonhava em poder ver seus filhos sorrindo?

Compreendi. Cris prosseguiu:

- Morto não deixa descendência. Mas voltando a relação homem-mulher, Sinceramente, não precisamos que vocês tenham psique, mesmo.

Cristiane tinha dado tantas voltas, ido por tantos assuntos simultaneamente, sem  parar para sublinhar os tópicos, que perdi o foco. Ela parecia escarrar, vomitar em tudo.  Sei lá se defendeu os nazistas, se apoiou a morte de garotos inocentes por interesses econômicos. Era complicado.  Restava sempre a sensação de que sobrou uma certeza em algum lugar. O problema seria onde.

- Cris, tu não é uma mulher!- Afirmei, ainda tonto com a verborragia.

         Cristiane fez uma expressão demoníaca. Apertou os olhos, franziu o nariz como um cachorro rosnando, passou a mão na cabeleira aloirada, e por pouco não imaginei asas de morcego em suas costas.

        Ouvimos um barulho na porta. Débora e seu namorado, Luciano.m Entraram, Déborazinha correu para o beijo de amigos. O velho nem quis esticar a mão. Deu cumprimento de cabeça.

         Sentamos os quatro a matear como velhos parentes. O namorado, vez que outra, espiava de soslaio com aquela expressão de “onde saiu esse”. Como se diz, esse estava pouco me importando se ele ficaria ou iria embora. De fato, dois ou três mates depois, levantou-se e partiu, com Débora acompanhando-o até o carro. 

         Cris evitou polemizar quando o sujeito estava presente. Como de costume, se fazia de boba quando havia alguém que não a conhecesse muito bem. Dava risada de tudo, de vez quando largava uma asneira ou pergunta idiota. Não sei se fazia aquilo para parecer agradável, ou por que as pessoas costumam interpretar de formas distintas mulheres com idéias. No caso dela, tão incisivas, ainda que não fossem originais. Sei que ótima camuflagem: fazer-se de estúpido.

        Mudamos de assunto. Falamos de futebol. Cris adorava futebol, e felizmente, torcíamos pelo mesmo time. Quando Débora retornou da rua, elogiávamos os frangos de certo goleiro do time adversário.

        Ao contrário de Ráina, a mana mais nova de Cris fazia questão de tocar os amigos, daquelas pessoas que estão sempre abraçando e beijando fraternalmente, e de certa maneira, pueris. Qual homem não gosta de ser tocado por uma bela mulher? Deve haver. “Hay gente de todo tipo”, como disse o escritor.

         Conversamos banalidades, os três. Resolvi ir. Beijei Débora. Quando fui cumprimentar Cristiane, ergueu-se:

- Vou contigo até a porta.

  Para minha estranheza.  Quando chegamos ao corredor, longe dos ouvidos da irmã mais nova:

- Tchê, tu não tem como posar fora de casa uma hora?

Achei engraçada a frase. Ela prosseguiu.

- Por que eu quero conversar com teu colega de apartamento uma noite dessas...

Conversar  uma noite inteira? Aja assunto:

- Não sei. Até posso. Mas...- Respondi

- Mas nada! Quando tu puderes, me avisa. De preferência essa semana, tá?- Vendo minha expressão de curiosidade:

- Ah, pergunta pra ele!- Entrou, e fechou a porta.

 

XXXV

 

           Quando me mudei para estudar, saindo da asa confortável da mãe, e caindo nas garras econômicas da professora de cursinho, há dois anos e algo, morei os primeiros dias deslumbrados de novo futuro universitário em uma república.

         Divertido.

         Encher a cara em bando, não ter responsabilidades dispendiosas de tempo, e ainda, sentir o prazer de estar participando de alguma coisa em conjunto. Morávamos entre quatro, em dois quartos. O melhor era ver meu colega de dormitório acordar as três da manhã para enfiar maconha nos pulmões. Foi o primeiro contato real com drogas ilícitas, já que álcool conhecia desde o primeiro ano de ensino médio, amor, desde a sexta-série. Bastava virar-se de lado na cama, e ver o feliz no processo de fechar o cigarro, acender, e tragar. Maconha, droga de pobre. É barata, cheira mal, é fiasquenta. Ninguém consegue drogar-se sem ser percebido, sem avisar para todo mundo. Reclamei duas ou três vezes do cheiro de mato queimado até que o colega, respeitosamente, muniu-se um pacote de incensos mais fedidos que a erva má. Pelo menos, o quarto parecia templo indiano, não uma boca de esquina. Fazia um ritual interessante: fechava o bagulho, pegava um fone de ouvido, conectava. Dizia ele que fone de ouvido sempre conectado no aparelho estraga  com maior facilidade, o que concordo até hoje. Então, postava fita de reggae no compartimento do aparelho, fumava, cantarolava baixo e dormia.

       Uma feita, ele levou uma guria para dormir conosco. Tipa estranha, dessas de cabelo mal tingido, tatuagem, maquiagem vagabunda, cara de quem teoria para tudo e para si. Exatamente o gênero de moça  qual  meu antigo colega jamais seria visto andando de mãos dadas, pois ele filho de renomado médico na cidade natal, fazendo gênero bom moço, cabelos aparados e roupinhas na moda. Sei que a esquisita deu a primeira tragada, e deitou-se na cama. Obviamente, minha presença  faria a menor diferença para o casal. Fizeram pouco vergonha ali, drogados e livres, tal hippie imundo e fedido em Woodstock qualquer.Assisti a tudo. Deve ter sido a primeira trepada que assisti em minha carreira. Tudo bem.

          Depois de nove meses de república, meus patrocinadores decidiram montar um apartamento. Feita a parafernália legal, comunicaram que um outro rapaz, esse já nos primeiros anos de universidade, filho de migo de não sei quem, moraria comigo. Para quem estava acostumado a dormir com maconheiro, o resto era ficha. Então que conheci o Tispa.

Devia ser o sujeito mais inflexível que andava por esse planeta. Um tipo calado, cara de índio, não afeito a conversas e a perdas de tempo. Logo no primeiro dia, chegou, apresentou-se:

- “... mas pode me chamar de Tispa”.-  Com mesma natural expressão  fechada que permaneceu todo o tempo que moramos no mesmo lugar. Pensei: “esse cara não deve comer ninguém com essa cara de bunda”.

           Pois um dia volto para casa, depois de três períodos de aula, encontro o apartamento com cinco mulheres completamente estranhas. Tispa sai da cozinha, e berra para mulherada:

- “Esse é o fulano! Futuro cliente, futuro fazedor de erros médicos!”.

             As moças eram todas colegas de curso do desgraçado, menos uma, irmã mais nova, que ainda estava no colégio, segundo grau. Pensei: “Estou feito na vida! Achei o cara certo! Esse apartamento vai viver cheio de mulher!”

           E assim foi aquele final de ano. Problema residia em que todas cursavam curso superior, e esse, cursinho. Estava numa escala inferior, evolutivamente falando. O que poderiam elas querer comigo além de rir, às vezes, um ombro para chorar mazelas emocionais?  Até entrar na Medicina, minha vida assemelhava-se a vida de um cão olhando os frangos girarem na porta da padaria, tradicionais televisões de cachorro. Consegui até dar uns amassos na irmã mais nova daquela colega, porém, a garota engravidou do namorado, logo depois. Foi nessa época que passou pela primeira vez a teoria da moça direita, mas isso é uma outra história.

         Dois anos de babar pelas universitárias alheias.

          Uma noite, aqueles dias, indaguei ao colega se chegaria numa droga ilícita. Não que usasse esse, mas como tudo estava bastante novo, para estudar as possibilidades. Eis o que ouvi:

- Tchê, vou te dizer uma vez só: essas merdas são história para frouxo, pra viadinho que não consegue encarar a vida de frente. Se tu fores chegado, te fode, meu amigo.  Mas vai sozinho, que só quem tem paciência pra chorão é mamãezinha dele.

          Foi uma resposta definitiva.

Naqueles dias conheci Ráina. Diferente, gordinha, mais simples e menos adulterada dos dias que se sucedem às ações dessa narrativa. Conheci Sancho depois, na faculdade. E essa conversa toda para dizer que esses dias também conheci Cristiane. E nunca ouvi falar dela e Tispa tendo relacionamento maior que cervejas juntos. De fato, conheciam-se e conversam sempre que podiam. Assuntos banais, contudo. Desses de parada de ônibus, fila de banco, espera de banheiro em boate. Nada além. E veio ela com essa de “conversar”. Te falo de assunto para uma noite inteira!

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